segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Navio que naufragou no século 19 no Rio Itajaí-Açu tinha menos de dois anos de uso e era um dos mais modernos da sua época

            Imagem Ilustrativa/Naufrágio paquete inglês Slavonia na Ilha das Flores (Açores) em 1909      

       O objeto submerso encontrado nas obras da Bacia de Evolução do Rio Itajaí-Açu trouxe a tona uma parte da história do Brasil que andava esquecida. O objeto pode ser do paquete (navio) frigorifico Pallas, naufragado depois de bater em uma pedra, em novembro de 1893. O navio foi utilizado pela Marinha durante a Revolta da Armada.
Pouco se sabe do paquete Pallas, que pertencia a Companhia Frigorifica e Pastoril Brasileira. As poucas informações a respeito da sua história foram publicadas nos jornais da época.
            O paquete foi construído entre 1891 e 1892 com a finalidade de transportar cargas e também passageiros. O navio era o menor das seis embarcações da Companhia Frigorifica e tinha capacidade para transportar até 500 toneladas de carga. No dia 21 de dezembro de 1892, o Jornal Gazeta de Notícias (RJ) noticiou algumas dessas informações
“O paquete Pallas, um dos seis que a companhia possui, é o menor em tamanho, de elegante e sólida construção. Com capacidade para transportar número superior a mil rezes mortas, bois, carneiros, porcos, aves e frutas; além de outro gênero de carga e passageiro”. 
O mesmo jornal destacava a sua construção, que poderia navegar até por rios de baixo calado.  
“A sua construção e tal, que seu calado presta-se a entrada na barra do Rio Grande e navegação nos rios e lagoas do mesmo Estado até Porto Alegre”.
Na mesma matéria, o periódico carioca traz detalhes da câmara frigorifica do paquete e também que a embarcação possuía luz elétrica, um avanço para época.
“Examinamos sua câmara frigorifica e verificamos ser a temperatura na ocasião de oito graus abaixo de zero. Essa temperatura pode ser mais baixa ou elevada, conforme as exigências de ocasião ou de gênero que o paquete transporta. Os mecanismos para produção do frio, do vapor necessário para a marcha do paquete e para produção de luz elétrica são os mais aperfeiçoados e seguros”.
Almoço para mais de 100 convidados
Menos de um ano antes de ir parar no fundo Rio Itajaí-Açu, o Pallas recebeu convidados ilustres para um almoço. O evento serviu para apresentar a nova embarcação da Companhia Frigorifica e Pastoril Brasileira. Entre os convidados estavam oficiais da Marinha, cônsules da Argentina, Uruguai e jornalistas. Entre os jornais que visitara o Pallas, estava à equipe do Jornal do Brasil. A edição do dia 21 de dezembro de 1892 trouxe uma matéria sobre o evento.
Matéria publicada no Jornal do Brasil de 21 de dezembro de 1892

“Convidados pela diretoria da Companhia Frigorifica e Pastoril Brasileira assistimos ontem a bela festa que se realizou a bordo do paquete Pallas, festa que se prolongou-se até às 16h30. Às 10 horas da manhã, partiu do cais Pharoux a barca especial da companhia Ferry, levando os convidados a bordo do Pallas, ancorado perto da Ilha das Enxadas (Baía de Guanabara). Muito mais de 100 pessoas estiveram presentes”.
O almoço tinha no cardápio carnes congeladas no paquete, vinho e champanhe. O que chama atenção mesmo no almoço é a presença do ministro da marinha, Custódio de Melo, que foi um dos líderes da Revolta da Armada (movimento encabeçado pela Marinha contra o governo do presidente Floriano Peixoto). Custódio de Melo vistoriou no dia o paquete, que seria usado pelos revoltosos na tomada de Desterro (Florianópolis).
O naufrágio
Se a festa no paquete Pallas teve destaque em muitos jornais da época, o mesmo não pode dizer da notícia do seu naufrágio.  Apenas o jornal “O Paiz” publicou no dia 23 de novembro uma nota, que outro jornal, o diário argentino “La Nacion  publicou no dia 11 de novembro.  Tudo indica que o naufrágio foi acidental.
Nota de "O Paiz" informou o naufrágio do Pallas em 1893

“Está plenamente confirmada à notícia do naufrágio do paquete frigorifico Pallas. O importante diário buonarense, La Nacion, na sua edição do 11 de novembro, publica a esse respeito o seguinte despacho telegráfico: “O paquete Pallas, da esquadra sublevada, intentando, há poucos dias, entrar à noite na barra do porto de Itajahy, bateu de encontro a uma pedra e naufragou”.
No naufrágio, a tripulação do Pallas conseguiu se salvar. O local onde o navio afundou, no bairro São Pedro, em Navegantes, é conhecido como palas até hoje. Agora resta saber, se os objetos localizados na obra de dragagem na área da nova bacia de evolução dos portos de Itajaí e Navegantes são do Pallas.
Revolta da Armada
Revolta da Armada na Baia da Guanabara em 1893
         Depois que o Marechal Deodoro da Fonseca renunciou a presidência da República, coube ao seu vice Floriano Peixoto, assumir o comando do país. Floriano, que viria a ser conhecido como “Marechal de Ferro” e o consolidador da República, dissolveu o Congresso Nacional e decretou estado de sítio. Oficias da Marinha não concordaram com a medida e pediram que Floriano obedecesse à constituição de 1891 e convocasse eleições diretas.
A Revolta da Armada começou no dia 6 de setembro de 1893, na baia de Guanabara, liderada por oficiais superiores da armada Saldanha da Gama e Custódio de Melo, que ambicionava substituir Floriano Peixoto.
Ainda em setembro de 1893, os revoltosos apoderaram-se de 18 navios mercantes e rebocadores, entre eles o Pallas, que foi utilizado como navio transporte.
Soldados no Morro da Armação, Rio de Janeiro, em 1894
O objetivo dos revoltosos era tomar o Porto de Santos, mas à resistência dos santistas fez que o alvo fosse a Ilha de Santa Catarina. Os rebeldes desembarcam em Desterro no dia 2 de outubro de 1893, onde tentaram se aliar com os revoltosos gaúchos partidários do federalismo, porém sem sucesso.
Custódio de Mello, comandando quatro navios mercantes e dois mil homens, tentou, sem sucesso, desembarcar na cidade do Rio Grande. Foi derrotado pelas tropas do governo de Julio de Castilhos. Os revolucionários da Armada estavam vencidos. Custódio refugiou-se na Argentina, onde entregou os navios (fonte: http://brasilianafotografica.bn.br).

Custódio de Melo foi um dos líderes da Revolta da Armada
Já Saldanha da Gama morreu em combate no 25 de junho de 1895, em Campo Osório (RS).

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

História contada na Ericeira pode ter sido inspirada na vida de senador catarinense

Livro aborda história de ericeirense que virou senador no Brasil

No livro “Tia Maria Ásquinha e outras histórias da Ericeira”, o jornalista e escritor Jaime d’Oliveira Lobo e Silva, conhecido como mestre Jaime, conta a história da tia Carapêta e de seus dois filhos. Um deles, segundo Mestre Jaime, viajou para o Brasil, entrou para a Marinha e foi eleito senador do Império.

“O mais velho, pouco depois da morte do pai, embarcou para o Brasil, assentou praça na Armada Brasileira, foi subindo postos, chegou ao de Capitão-de-Mar-e-Guerra, e até foi mais tarde Senador do Império (p. 39)”.

A história que mestre Jaime retrata no livro foi tirada das ruas, contada pelos ericeirenses entre o fim do século XIX e começo do XX. No conto, até mesmo o nome do ericeirense que virou senador no Brasil não é conhecido.

“Não se sabe o nome deste homem, mas diziam muitos marítimos ericeirenses que o conheceram no Brasil, e alguns oficiais da marinha mercante que por vezes o visitavam na sua luxuosa chácara que possuía numa das ilhas de Guanabara, que levava vida de grande senhor, servido por numerosos escravos e onde recebia principescamente os patrícios (p.39)”.

Apesar da história contada na Ericeira, ela pode ter acontecido de fato, não exatamente relatado no livro. A história do senador natural da Ericeira se confunde com a vida do senador catarinense José da Silva Mafra, que conhecia a vila portuguesa.

José da Silva Mafra foi senador do Império do Brasil de 1844 a 1871

José da Silva Mafra nasceu na Vila de Desterro (hoje Florianópolis) no dia 14 de janeiro de 1788. O pai do catarinense, homônimo do senador, nasceu em Mafra por volta de 1740.

Quando veio para o Sul do Brasil, o pai do senador mudou de sobrenome. Em Portugal, os Silva Mafra se chamavam Delgado. No entanto, nenhuma família Delgado foi encontrada nos registros paroquiais de Mafra na época e sim na Ericeira.

Então a possibilidade do pai do senador catarinense ter nascido na Ericeira é grande. Além disso, um registro na Paróquia da Ericeira chama atenção. É de um nascimento de um José, filho de Antônio da Silva Mafra. O nascimento dele é quase na mesma época do senador no Brasil e coloca em dúvida se José da Silva Mafra nasceu mesmo no Brasil.

Outros registros da família do senador sumiram da Paróquia de Desterro depois da invasão espanhola na Ilha de Santa Catarina em 1777. Uma das hipóteses levantadas é que um padre levou todos os registros da igreja de Santo Antônio de Lisboa, local do suposto nascimento do senador catarinense.

José da Silva Mafra seguiu a carreira militar do pai, que era capitão e comandava a 4ª Companhia do Terço de Infantaria Auxiliar da Capitania da Ilha de Santa Catarina.

Começou como soldado na Companhia de Granadeiros do Terceiro Regimento de Linha. Participou das campanhas de 1798 no Rio Grande do Sul, de onde seguiu para o Pará, ainda no mesmo ano. Foi granadeiro e cabo de esquadra.

Silva Mafra tomou parte na conquista da Guiana Francesa, regressando em 1811 como tenente. Foi ainda sargento-mor e comandante da fortaleza de Santa Cruz (SC).

Tenente-coronel em 1823, foi reformado no posto, em 1830. O catarinense foi secretário, vice-presidente da Província de Santa Catarina, além de deputado. Em 1844, foi escolhido senador vitalício do Império do Brasil.

O senador se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império e ficou lá até a sua morte em 3 de julho de 1871. Mafra, igual ao filho da Tia Carapêta, tinha propriedades no Rio de Janeiro e possuía muitos escravos.

É provável que tenha recebido muitos ericeirenses em sua propriedade. Os jornais publicados no tempo que foi senador noticiaram a entrada de muitos marinheiros da Ericeira no Porto do Rio de Janeiro.

Entre os oficiais da marinha mercante que pode ter visitado o senador está Francisco da Silva Ericeira, filho de Justino José da Silva, uma dos fundadores da Nova Ericeira.

Mestre Jaime contribuiu para preservação da história da Ericeira

Jaime d’Oliveira Lobo e Silva nasceu na Ericeira a 9 de novembro de 1875 a faleceu a 11 de setembro de 1943. Entre 1909 e 1914, Mestre Jaime escreveu vários artigos para o “Arqueólogo Português” e foi correspondente do jornal “A Mala da Europa”, onde publicou crônicas dos usos e costumes da vida dessa época na Ericeira.

Lobo e Silva foi responsável por organizar o Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira e graças a ele muitas histórias permanecem vivas até hoje. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Nova Ericeira 200 anos


 
A exibição de um documentário e palestras com pesquisadores e historiadores catarinenses marcam as comemorações dos 200 anos de criação da Colônia Nova Ericeira.

O primeiro evento será realizado no dia 15 de setembro, na Fundação Cultural de Navegantes.

Uma semana depois será a vez de Bombinhas receber o evento alusivo aos 200 anos da Nova Ericeira.

Além de Bombinhas e Navegantes, a data será lembrada em outras cidades do litoral catarinense até março de 2018.

A Nova Ericeira foi criada oficialmente no dia 18 de março de 1818, em Porto Belo, mas a chegada dos primeiros pescadores da Ericeira (Portugal) ao Sul do Brasil aconteceu um ano antes.

O legado da Nova Ericeira é encontrado hoje na pesca. Os pescadores ericeirenses trouxeram técnicas pesqueiras, que foram repassadas de geração a geração e contribuiu para que o litoral catarinense se transformasse no maior polo pesqueiro do Brasil.

domingo, 7 de maio de 2017

A Nova Ericeira: Família Simões


 
José Simões não nasceu na Ericeira, mas estava entre os colonos que vieram para Nova Ericeira no século XIX. Filho de Manuel Lopes e Rosa Maria, José era natural da cidade de Peniche. Ele casou no dia 24 de julho de 1790, com a ericeirense Mariana Franca, a Rosinha. Antes de partir para o Brasil, o casal morava na Rua do Carmo, na época conhecida como Casal Don Ana, uma quinta localizada junto ao atual largo de São Sebastião.

Na casa da Rua do Carmo, nasceram sete filhos: Ana (1791), Tereza (1793), Pedro (1798), Félix (1800), Valeriano (1803), Manuel (1806) e Francisco (1808). Apenas Pedro não chegou à vida adulta e morreu no mesmo ano de nascimento.

A família Simões chegou à Nova Ericeira em 1817, junto com a primeira leva de imigrantes portugueses. Eles se estabeleceram em Porto Belo e nas cidades de Bombinhas e Itapema, que faziam parte do município de Porto Belo até a metade do século XX.

Com o fim da colônia nos primeiros anos da década de 1820, alguns ericeirenses resolveram voltar para Portugal. No entanto, a ideia de voltar para a Ericeira não foi bem aceita entre todos.

No caso da família Simões, o patriarca José e os filhos Ana e Félix decidiram ficar. Félix inclusive casou e teve filhos no Brasil. Hoje, seus descendentes povoam Porto Belo e outras cidades que nasceram da Nova Ericeira.

terça-feira, 21 de março de 2017

Os ericeirenses que vieram para o Sul do Brasil: António Lopes da Costa Pacheco


 
Entre as famílias portuguesas que vieram para o Sul do Brasil no século XIX, está a do tesoureiro da antiga Câmara Municipal da Ericeira, António Lopes da Costa Pacheco. Antes de partir para o Brasil, a família Lopes da  morava  na Rua de São Pedro.

Filho de Manuel Lopes e Sebastiana Franca, António nasceu na Ericeira em março de 1768. O ex-funcionário da Câmara da Ericeira casou com Maria Inácia Perpétua de Morais no dia 14 de julho de 1793.

Da união nasceram: Possidónio (31/05/1794), Maria Inácia (06/12/1795), Manuel António (17/12/1797), Manuel (11/03/1798), Josefa (29/06/1802) e Sebastiana Rosa (17/03/1810).

António ficou viúvo antes da viagem para o Sul Brasil No dia 8 de maio de 1815, a esposa Maria Inácia Perpétua de Morais faleceu.

O ex-tesoureiro da Câmara da Ericeira chegou na Enseada das Garoupas, Sul do Brasil, em março de 1819, um ano depois da criação oficial da colônia por Dom João VI. Ele trouxe os filhos Manuel, Possidónio, Maria Inácia, Manuel António, Josefa e Sebastiana Rosa. 

Além dos filhos, António veio para Enseada das Garoupas com parentes de Maria Inácia Perpétua de Morais, no total de doze pessoas, mas isso é assunto para uma próxima postagem.

Lopes da Costa Pacheco e os filhos se estabeleceram na sede da Colônia Nova Ericeira, hoje região central de Porto Belo.

Na colônia, António conheceu outros ericeirenses que vieram para o Sul do Brasil ainda no século XVIII e se estabeleceram em Santo Antônio de Lisboa, freguesia que ficava ao Norte da Ilha de Santa Catarina, hoje a cidade de Florianópolis e capital do Estado de Santa Catarina.

A ideia da colônia surgiu desses ericeirenses mais antigos. Eles conheciam bem a região da Enseada das Garoupas por ter um porto tranquilo.

Existem poucas informações sobre a sua passagem pela Colônia Nova Ericeira, mas ele e o filho Manuel foram os únicos da família que permaneceram no Brasil. Os outros filhos retornaram para Ericeira em 1821.

Não existem dados oficiais da colônia na Ericeira e nem da viagem de seus moradores ao Brasil. Um dos documentos que faz menção é do padre Manuel Maria Ferreira (1857-1889), que organizou um cadastro das famílias naturais e moradoras da Ericeira de 1750 a 1889.  

No cadastro aparece apenas que António Lopes da Costa Pacheco e o filho faleceram na Ilha Garoupas, Brasil. Na verdade, o padre Manuel Ferreira se referia a Enseada das Garoupas.

Segundo o escritor e jornalista português, Jaime de Oliveira Lobo e Silva (1875-1943), conhecido na Ericeira como mestre Jaime, o padre Manuel Ferreira foi responsável pela reorganização dos registros paroquiais da Ericeira na segunda metade do século XIX.

“Possuía apreciáveis qualidades de arquivista e paleógrafo, pelo que reorganizou o cartório e arquivo da igreja e paróquia a seu cargo.Com a sua letra muito certinha, igual e bem legível, copiou todos os velhos documentos da igreja de São Pedro da Ericeira, tais como: testamentos, cartas de sentença, títulos de aforamento, cartas de arrematação, etc., etc., salvando do olvido e da destruição muitos documentos antigos e curiosos, pelo que nunca serão demais os louvores que se lhe tributem”, escreveu mestre Jaime.  

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Capítulo 11 – Viagem rumo ao Brasil


Se soubesse um dia que a Colônia Nova Ericeira iria abrigar pessoas tão ruins como Rogel, que se aproveitou da morte da mãe para ganhar dinheiro, Francisco Antônio Aguiar jamais teria aceitado a proposta de ir para o Brasil. Agora, se Francisco tivesse conhecimento das histórias de Arlindo, Valéria, Narciso, Franco e tantos outros descendentes ericeirenses, certamente se orgulharia. Entretanto, a vida dele e da família, na Ericeira, não era digna de satisfação.

Em 1818, a freguesia portuguesa, a exemplo de outras, incluindo a capital Lisboa, passava por uma crise econômica que assolava a Europa. Apesar de Napoleão ter sido derrotado e preso numa ilha na costa da África, parte do continente ainda se recuperava da guerra.  Portugal vivia uma situação diferente e mais grave, já que a sede coroa estava estabelecida no Brasil.

            Esquecidos por Dom João VI, os moradores da Ericeira sobrevivam como podiam. A vida deles só não era pior porque tiravam o sustento do mar. Grande parte do pescado tinha dois destinos: Lisboa e cidade do Porto. Com 25 anos e ainda solteiro, Francisco morava com o pai e mais três irmãos. O sobrado em que residia a sua família fora erguido na metade do século XVIII – três meses depois do grande terremoto que atingiu Lisboa, em 1755. 

A casa de vidraças lavadas, com paredes pintadas de branco, era uma das dezenas que ficavam no bairro Norte da Ericeira.  A que morava o pescador ficava no pé de um morro, próximo à capela de Santo Antônio.  O bairro Norte abrigava na sua maioria famílias de pescadores, bem diferente do bairro Sul, local do comércio e residência da burguesia da cidade.

                                                                                                                                                                  Pescadores da Ericeira

Por muitos anos perdurou uma rixa entre moradores dos dois bairros, que não podiam entrar no território do outro. Essa rivalidade foi suspensa durante a invasão das tropas de Napoleão e com o tempo perdeu força. No dia 11 de fevereiro de 1818, Francisco se encontrava na Praia dos Pescadores. Remendava redes sentado na proa do pequeno barco da família, quando Pedro Rodrigues, um colega de infância do pescador apareceu com a notícia que mudaria a sua vida.

            – Ó Francisco, hoje temos finalmente uma novidade.

            – Que novidades? – perguntou sem dar muita atenção à conversa do amigo.

            – Um oficial de Lisboa esteve a conversar com alguns pescadores na Praia de Sebastião. Ele disse que está a contratar mão-de-obra para trabalhar nas terras do Brasil?

            – O que tem no Brasil?

            – O Nosso el-rei quer montar uma colónia pesqueira no Sul do Brasil. Ele doará terras, ferramentas e provisões para quem desejar ir. Contratam famílias e solteiros.

            – O que disseram os outros pescadores?

            – Que vão levar suas famílias. Que futuro vamos ter aqui no meio a essa pobreza? Vamos deixar nossos filhos a morrer de fome? Não, estou a pensar em ir para o Brasil.

            – E se existisse um modo de ficar em Ericeira? – resmungou Francisco.

            – Não há outro! Não há outro! – exclamava Pedro eufórico.

            Antes de se despedir, o amigo de Francisco disse que o oficial convocara todos os pescadores do bairro Norte interessados em partir para o Brasil. O local da reunião ficou marcado para o dia seguinte, na frente da igreja de São Pedro. Haveria uma seleção para levar 100 pessoas, entre solteiros e casados. Além de pescadores, seriam escolhidos um sapateiro, dois barbeiros, dois alfaiates, um carpinteiro e um calafate.

Ter habilidade nas suas respectivas profissões e saúde. Esses eram os dois principais critérios para a seleção. Em outra situação, os moradores da Ericeira não teriam abandonado a cidade por hipótese alguma. No entanto, a fome e a própria presença de Dom João VI no Brasil incentivaram a imigração em massa. Aliado a isso, na época corria pelas ruas da Ericeira, bem como em todo Portugal, o boato de que o monarca português não teria a mínima vontade de voltar a Europa tão cedo.

            A ideia de fundar a primeira colônia pesqueira do Brasil, surgiu dois anos antes da sua criação. Em 1816, a Capitania de Santa Catarina emitiu um alerta ao governo português, da existência de um ponto vulnerável para invasão espanhola no Sul do país. Esse ponto chamava-se Enseada das Garoupas, uma Freguesia, considerada ponto estratégico para a defesa da capitania – naquele tempo praticamente desabitada.

Como o projeto não havia sensibilizado a Coroa Portuguesa, a Capitania sugeriu, já em 1817, a criação de um centro de pesca, como havia no litoral do Reino de Algarve, em Portugal. Nesse mesmo ano, Dom João VI aprovou a proposta e uma ordem foi dada para a demarcação das terras, que seriam doadas as famílias ericeirenses. Além disso, o material necessário para a formação do povoado deveria ser fornecido pelo então governador da capitania, João Vieira Tovar de Albuquerque.

                                                                                                                            Ericeirenses dominavam as técnicas pesqueiras
 
         Escolhido o local e demarcada as terras, o próximo passo foi escolher os novos moradores. Em Portugal, havia diversas comunidades pesqueiras, a do Algarve era a mais importante. Uma carta de Dom João VI enviada para Lisboa  no  final de 1817 pedia a escolha de cerca de 100 pessoas, de ambos os sexos, para a instalação de uma colônia pesqueira no Brasil. A embarcação Conde de Peniche faria o transporte dos pescadores. Tudo estava pronto para receber os colonos, mas quem seriam eles? 

A fama dos pescadores da Ericeira já existia em Lisboa no começo do século XIX e isso contribui bastante para a escolha da cidade. No dia 12 de janeiro, em pleno inverno europeu, aconteceu a reunião com a comissão do governo que iria escolher os imigrantes. No mês seguinte a notícia foi divulgada  na Ericeira e para surpresa de todos, apareceram pessoas até do bairro Sul. O número de moradores que se encontrava na frente da igreja de São Pedro passava fácil de 200. Entre a multidão o oficial respondeu a pergunta de um morador a respeito das vantagens de ir para o Brasil.

            – A doação dos terrenos será feita pelo governador da Capitania, o senhor João Vieira Tovar de Albuquerque, que entregará para cada colono o seu título da terra. Os terrenos que sobrarem serão posteriormente entregues e distribuídos àqueles que precisarem de área maior.

            – E há selvagens nessa tal Freguesia de Santa Catarina? – perguntou uma mulher.

            O oficial em pé num palanque improvisado até tentou ver quem era pessoa que fez pergunta, mas como havia no local muita gente desistiu e continuou.

            – É Capitania de Santa Catarina, a freguesia vai se chamar Nova Ericeira, em homenagem a cidade de vocês. Não há perigo e nem índios bravios por perto do novo povoado. O nosso bom rei garantiu a segurança dos colonos e isso é o bastante. A colónia contará com um cirurgião, boticário e pároco. 

            A Colônia Nova Ericeira foi apresentada para os pescadores do bairro Norte que aprovaram a nome da companhia pesqueira. Da casa da família Aguiar, apenas os irmãos Francisco e Manoel foram até a igreja de São Pedro. O pai Antônio, a irmã caçula – com 18 anos, chamada Ana – e o irmão mais velho de nome José, não demonstraram interesse com o novo empreendimento. O velho Antônio não aceitava a possibilidade de deixar a Ericeira.

            – Ainda que eu tivesse que roer ossos, não iria para o Brasil. Que o diabo leve essa colónia – dizia ele batendo com o punho na mesa.

            O velho Antônio ficou aborrecido porque os filhos Manoel e Francisco fizeram questão de colocar seus nomes na lista de imigrantes. Até os exames médicos a serem realizados em Lisboa foram marcados. O resultado, com os nomes dos aprovados seria conhecido no fim daquele fevereiro de 1818. Já a viagem para o Novo Mundo ficou marcada para o mês começo de março.

Embora sem aprovação do pai, os dois estavam decididos a partir e confiantes de que seriam escolhidos. Solteiro, Francisco sabia tudo sobre pesca e tinha noções de carpintaria naval. Já Manoel era um exímio carpinteiro naval e poderia ser considerado um bom pescador. No dia 27 fevereiro, uma lista com 101 pessoas foi pregada na porta da igreja. É claro que para o desgosto do pai, os nomes dos filhos Francisco e Manoel estavam na lista.

            A família Aguiar representava um pouco as outras tantas famílias de pescadores da Ericeira. O pai, pescador e carpinteiro naval, fora quem passara as duas profissões aos filhos. As mulheres não seguiam nenhum ofício e eram preparadas para as tarefas domésticas.  Isso era mínimo do que uma família poderia fazer, já que as moças das famílias de pescadores não tinham dotes para oferecer aos futuros maridos.

A família de um pescador era majoritariamente masculina. Em 1818, dos cerca de mil e quinhentos habitantes da vila, 60% eram homens. Outro fator característico na Ericeira dizia respeito ao número de integrantes em cada família: em média cinco pessoas. Isso não significava que as mulheres tivessem poucos filhos, ao contrário, a tacha de natalidade era alta, dez filhos por casal.

A mortalidade infantil diminua a quantidade de pessoas numa residência e de cada dez crianças, quatro morriam antes de completar sete anos. No caso dos Aguiar, a morte havia levado três filhos. A esposa fora um caso isolado, morreu de tísica, em 1814. As crianças que nasceram nos primeiros anos do século XIX tiveram mais sorte, todavia não escaparam da epidemia de cólera que assolou Portugal em 1833. Nessa tragédia morreram o irmão José, o pai Antônio e três filhos de Ana. Francisco e Manoel já estavam no Brasil nesse período e casados. Os irmãos Aguiar também tiveram suas pequenas tragédias na família, mas isso é outra história.

            Chegou o dia do embarque, famílias seguiram em bando ao Porto da Ericeira. A Nau Conde de Peniche, que fazia o transporte de passageiros de Portugal ao Brasil estava ancorada no cais a espera dos passageiros. Antônio se despediu friamente dos filhos em casa, já que não estava com vontade de ir prestigiar a besteira coletiva, como dizia ele. Francisco viajava solteiro e Manoel levaria a esposa Geraldina. O casal não tinha filhos e esperavam formar uma nova família no Brasil.

A bagagem com as roupas e objetos pessoas foram despachadas para a embarcação junto com uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. A imagem da santa pertencia à família há mais de cem anos e iria proteger a trajetória rumo ao Brasil. No cais, os irmãos se despediram. Eles não sabiam, mas aquele era o último dia em que a família estaria reunida. 

            – Eu quero que prometam que irão escrever ao chegarem ao Brasil – disse Ana com olhos umedecidos.

            – Pode deixar! O Francisco escreve! Ele é bom nisso – completou o irmão José.

            – E tu Geraldina? Sei que é uma rapariga ajuizada. Peço que cuides deles, como cuidas uma mãe dos seus filhos.  

            – Eles estarão bem protegidos, eu garanto.

            Houve um período de silêncio. Francisco e Manoel não escondiam a ansiedade e olhavam com frequência para o navio que acabara de apitar. Aquele era o sinal de que a nau partiria em breve. Na embarcação já se encontravam boa parte dos passageiros. Ana abraçou Geraldina. As duas choraram. Além de cunhadas, eram amigas de infância.

            – Vamos, acabem logo com isso, se não termino a chorar também – interrompeu José.

            Ana enxugou as lágrimas e respirou fundo.  Mesmo sendo a filha caçula, ela cuidava dos irmãos como filhos, isso explicava a emoção. Do bolso do seu vestido tirou dois pequenos pacotes. Dele saíram lenços brancos e bordados com o nome dela, do pai e do irmão José. Ana passou uma semana inteira na confecção daqueles lenços.

            – Isso é para vocês. É para que não esqueçam de nós. Não se metam em confusão, se papai souber de alguma coisa terá um desgosto.

            – Não precisava se preocupar conosco – disse Francisco.

            – Estaremos bem e ao lado de conhecidos. Se eu não gostar eu volto para Ericeira – tranquilizou Manoel, ao mesmo tempo em que observava o delicado presente. 

            O navio partiu e deixou centenas de braços e lenços bailando no ar. Crianças se despediam dos pais e pais que se despediam dos filhos. Não havia quem não chorasse na despedida. Até mesmo José, que tinha a fama igual aos outros pescadores de não chorar, teve de esconder às pressas uma lágrima que escorreu no canto esquerdo do seu rosto.            

*    *    *          

 
A viagem pelo Oceano Atlântico levou quase dois meses. Os dois irmãos e a maioria dos passageiros não estranharam o movimento da embarcação. O mesmo não podia se dizer das mulheres, crianças e pessoas de outras profissões. Para essas pessoas a primeira semana embarcada foi um teste de sobrevivência. Nada ficava no estômago e doenças gastrintestinais atacaram os passageiros poucos acostumados com o mar. Uma rara exceção entre as mulheres foi Geraldina. A loira  e franzina de olhos verdes ascendia de uma família de pescadores. Quando criança por muitas vezes, esteve a passeio pelo alto mar.

Fora esses pequenos contratempos, o itinerário Ericeira/Rio de Janeiro fora tranquilo. Nada de tempestade e os calafates não precisaram tampar buraco algum no navio. Ainda considerada nova, a nau transportava passageiros de Lisboa ao Rio de Janeiro quatro vezes por ano. No caso dos ericeirenses, a viagem seguiria até Porto Belo. Por oito anos a Charrua Transporte Conde de Peniche, como era oficialmente conhecida, transportou pescadores, agricultores, operários, condes, princesas, escritores, ladrões, jornalistas, atores, médicos, entre tantas outras profissões e ocupações.

A linha entre Portugal e Brasil terminou assim que a embarcação foi anexada a Marinha do Brasil por causa de uma dívida de Portugal com o Governo Brasileiro. A Nau Conde de Peniche foi capturada no dia 5 de julho de 1823 no litoral da Bahia por uma Esquadra inglesa, liderada pelo Almirante Lorde Thomas Cochrane.

            Na popa do navio, Francisco, Manoel e a esposa Geraldina conversavam. A embarcação navegava pelo litoral de Pernambuco.

            – Ó Manoel! Ainda estamos na África? – perguntou espantada Geraldina.

            – Não, segundo o comandante, aqui já é a costa do Brasil.

            – Será que para onde vamos é tão bonito assim?

            – Cuidado Geraldina. Tu podes cair rapariga – alertava o cunhado Francisco.

            A moça de 18 anos se aproximava cada vez mais do parapeito da proa. Era um final de tarde acinzentado de outono. Uma brisa leve e fresca soprava do Atlântico.

            – Esse mar é tão brioso que dá vontade de pular e ficar nele para sempre – disse ela rindo.

            – Deixe de dizer tolices e fique perto de mim – retrucou o marido.

            Manoel puxou Geraldina pela cintura a beijou. Abraçados, o casal permaneceu assim por uma quarto de hora, enquanto apreciava o entardecer. Francisco já com sinais de cansaço e saudades de Ericeira perguntou sobre a aventura no Brasil.

            – Será que fizemos bem em abandonar o pai, José e a nossa querida Ana?

            – Tu querias ficar naquela miséria? Não somos covardes. O que estamos a fazer hoje é algo que nossos filhos irão agradecer no futuro.

            – Você não pensa em desistir? – perguntou desconfiada Geraldina.

            – Não, é claro que não – respondeu Francisco com o olhar no Atlântico e o pensamento na Ericeira.

A Nau Conde de Peniche aportou no Rio de Janeiro, na noite do dia 11 de maio de 1818. Trazia a bordo fora a tripulação e outros passageiros de Lisboa, 101 pessoas que iriam fazer parte da primeira companhia pesqueira do Brasil. A estadia na cidade carioca durou um pouco mais de um dia.

Os ericeirenses foram cadastrados pelo setor de imigração do governo português. O documento com as assinaturas de Francisco, Manoel, Eugênia e tantos colonos podem ser encontrados hoje no Arquivo do Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. No dia 28 de maio, a nau portuguesa chegou à Enseada das Garoupas.

            Ainda na embarcação, os passageiros ficaram assustados com o isolamento do lugar. Rodeada por morros, a pequena baía era formada por uma planície escarpada por diversos lados. As praias de areias muito alvas abrigavam árvores com mais de dez metros de altura. Em 1818, apenas cinco famílias moravam na região, todos portugueses. Um desses moradores tinha uma casa no morro de Zimbros, o mais alto da Enseada das Garoupas.

De lá, em dias claros, era possível  ver as ilhas da Graça, Paz e Tamboretes e o morro do João Dias, na Barra de São Francisco do Sul. Ao Sudeste deste morro se observava a Baía na Barra de Tijucas e o Porto de Ganchos. Ao voltar os olhos ao Sul, a praia de Canasvieiras – em Florianópolis – e os rochedos da Ilha do Arvoredo eram vistos sem muita dificuldade. Já ao Norte, o expectador conseguia ver as praias do Canto Grande, Mariscal e da Enseada das Garoupas. Foi nesse ponto do morro que o morador viu os ericeirenses desembarcarem assustados.

            Os colonos seguiram a pé em direção a uma fazenda, que ficava bem na frente da praia. Um alojamento foi construído provisoriamente para abrigar os novos moradores. Os ericeirenses foram recepcionados pelo Intendente da Marinha de Santa Catarina, o comandante Miguel de Mello e Alvim, e o governador da Capitania João Vieira Tovar de Albuquerque.

O intendente da Marinha ficou responsável pela  medição dos terrenos, que seriam doados como sesmarias. Seus proprietários não podiam vender os mesmos antes completar de dez anos de posse. A medição não prejudicou os poucos moradores do lugar. Na tarde daquele 28 de maio, Tovar de Albuquerque fez as doações dos terrenos. Foi o próprio governador quem entregou os títulos, legalizando as terras recebidas. Além de um padre, o governador anunciou também a contratação de um cirurgião.

            Nos primeiros meses na Enseada das Garoupas, os ericeirenses se ocuparam na construção de suas casas e nas embarcações. Francisco e Manoel receberam um lote de cerca de 40 hectares, onde hoje é a praia de Mariscal, em Bombinhas. O tamanho das terras surpreendeu os irmãos. Depois de fundada, em 1818, a colônia recebeu mais famílias vindas da Ericeira. Diferente da primeira, onde os colonos se estabeleceram em Porto Belo e Bombinhas, na segunda a área de terra distribuída foi maior.

As terras chegavam até a Itajaí. Os últimos colonos da Ericeira chegaram em 1824, depois disso não há mais registro oficial. Outra aquisição feita pela Corte e que beneficiou aos pescadores foi a aquisição de uma lancha pesqueira da Armação da Piedade, núcleo baleeiro mais próximo da povoação. Com a lancha, os ericeirenses iniciaram a pesca em alto-mar na Colônia de Nova Ericeira, que segue até hoje.

            Com o tempo a freguesia da Nova Ericeira progrediu lentamente. A povoação ganhou um juiz, um escrivão e uma escola.  A administração da freguesia cabia à Intendência da Marinha de Santa Catarina e ao Governo da Capitania. Os recursos para a construção das casas, edifícios públicos e barcos de pesca vinham da Fazenda Real, controlada pelo Intendente da Marinha de Santa Catarina, Mello e Alvim.

Com a Independência do Brasil em 1822, tudo que era relacionado a Portugal começou a ser apagado. A Colônia Nova Ericeira conseguiu sobrevier por mais dois anos. No dia 18 de dezembro de 1824, por determinação da Capitania de Santa Catarina, a Nova Ericeira passou a ser chamar Porto Belo.  

            Naquele fim de tarde ensolarado e frio de 28 de maio de 1818, na Enseada das Garoupas, Francisco, Manoel e Geraldina resolveram passear pela praia. Eles foram alertados para não ir muito longe. Havia o perigo dos índios e piratas espanhóis. No fim da praia encontraram os rochedos que seguiam em direção ao mar. Eles sentaram numa pedra para descansar e de lá observaram o mar revolto. Ficaram assim como hipnotizados por cerca de dez minutos. Manoel foi o primeiro a sair do transe.

            – Soube pelo senhor Governador que Napoleão continua preso na Ilha de Santa Helena, na costa da África. Você acredita que a Marinha de Inglaterra interceptou uma galera repleta de piratas franceses? Ela iria resgatar aquele pulha.

            – Napoleão é um homem muito inteligente. Cedo ou mais tarde escapará dessa ilha – disse Geraldina.

            – O melhor seria mandar esse mandrião para a guilhotina – completou Manoel com raiva e cuspindo no chão.

            – O que me deixa com raiva é saber que Napoleão sempre será lembrado, mesmo que tenha destruído a vida de milhares de famílias. Os feitos desse celerado estarão nos livros de história e estátuas serão levantadas em sua honra.

            – Deixa estar Francisco! – exclamou Geraldina, tentando acalmar o cunhado.

            – O que será escrito sobre nós? Dos nossos filhos, netos, bisnetos? Nada, um parágrafo sequer. Valemos mais que Napoleão, mas ninguém registrará nada a esse respeito.

            No momento de raiva, Francisco se levantou e lançou algumas pedras em direção ao mar. O irmão e a cunhada se levantaram e se aproximaram dele. Manoel passou o braço esquerdo pelo ombro do irmão e tentou reconfortá-lo.

            – Eu estou certo de que um dia alguém há de contar. Ouviu Francisco? Um dia alguém há de contar.

            Os três ficaram em pé observando o mar. O crepúsculo começava a estender seu manto negro pela areia. Na fazenda, os lampiões a base de óleo de baleia já eram acesos. O mar, cada vez mais revolto, quebrava incessantemente nas pedras, lavando os rochedos desolados que choram eternamente lágrimas de espumas.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Capítulo 10 – Uma história lamentável

                                                                                                Navio brasileiro "Tutóya" sendo torpedeado em 1943
 
            Na véspera do Natal de 1904, os moradores da única casa da praia de Fora, hoje conhecida por Quatro Ilhas, receberam o último hóspede. O parto foi demorado, começou por volta das 9 horas da manhã e terminou perto do meio-dia.  A criança insistia em não querer nascer e brigava com a pobre da parteira. Foi preciso da ajuda dos vizinhos para que o serviço fosse concluído. Como o mais próximo ficava a 800 metros de distância, o pai, muito a contra gosto, teve que correr para chamar alguém. Ele não podia ajudar, quer dizer, homem algum podia participar de um parto.

A casa estava movimentada. Os filhos choravam sem saber o que acontecia com a mãe. Félix, o pai, chegou com mais duas mulheres, que sem perda de tempo entraram no quarto. Após muito esforço, a parteira conseguiu retirar criança. Exausta, Justiniana, a mãe, descansava na cama, enquanto as duas mulheres lavavam recém-nascido. A parteira saiu do quarto e deu a notícia ao pai, que por sua vez não esboçou emoção alguma. Sentado numa cadeira, fumava tranquilamente um cigarro de corda. Deu uma baforada assim que a mulher disse: “É um menino”.

            – Muito bem! - disse ele ao se levantar.

            Félix pegou o chapéu e ainda com o cigarro na boca chamou pelos filhos adolescentes. Os garotos o ajudavam na pescaria.  Uma canoa na areia da praia esperava pelo trio. A mesma embarcação a remos usada há 88 anos pela família foi  construída pelos primeiros colonos vindos da Ericeira. A canoa passara por reformas com o tempo, mas conservava a mesma forma de quando o avô ericeirense chamado Ignácio, a usava na pescaria. Ignácio antes de deixar Portugal já trabalhava na pesca e chegou a fazer viagens de barco até a costa da Espanha. No Brasil, a profissão foi repassada para os filhos e dos filhos para os netos até chegar a Félix. O destino do recém-nascido Rogel também seria a pesca.

            Apesar de ser véspera de Natal, o trabalho foi o mesmo de um dia qualquer da semana. Ninguém cogitava a hipótese tirar o 24 de dezembro todo para descansar, pois se assim o fizessem faltaria comida na mesa. Na casa de Félix, bem como em outras residências de Bombinhas no início do século XX, os filhos  começavam a trabalhar cedo. Mal completavam dez anos, eles já realizavam alguma tarefa. Os meninos na pesca e as meninas em casa. A vida que em 1904 já era difícil para os mais velhos, tornava-se sacrificante para crianças, que precisavam ficar adultas antes do tempo. Isso se elas conseguissem passar pela infância. Se morria por muito pouco, até uma verminose mal curada podia ser um obstáculo para chegar a vida adulta.           

            Os anos passaram e o caçula da família Moutinho cresceu cheio de saúde. Com uma personalidade forte, Rogel não levava desaforo para casa e sempre se metia numa briga. A mesma personalidade fora herdada do pai. Félix era um homem severo e criava os filhos com bastante rigidez. Aplicava castigos corporais e deles ninguém escapava, muitos menos as meninas. Quem desobedecia apanhava e para os padrões atuais a surra se assemelhava ao espancamento. A mulher também não conseguia fugir da fúria do marido. Justiniana, por anos lembrou amargamente daquele fim de tarde do verão de 1906. Félix voltava de uma pescaria fraca. Justiniana se aproximou para cobrar o conserto do berço do caçula. Numa ocasião normal ele teria apenas dado uma bronca na mulher, mas como estava aborrecido, a bronca se transformou em sova.

            – Ó Antônio, a cama do menino ainda tá quebrada. Hoje ele quase caiu.

            Félix agachado limpava o peixe na areia da praia. Ao seu lado havia mais pescado para limpar e salgar.

            – Que cama? – perguntou ele olhando atravessado para a mulher.

            – Ora do nosso Rogel – respondeu a mulher dando um passo para trás.

            Naquele momento, ao notar aqueles olhos furiosos, Justiniana percebeu que cometido um erro em cobrar do marido o conserto do berço do filho. O medo da esposa não foi suficiente para diminuir a fúria de Félix. Ele pegou um peixe na mão, um bagre, e com um único golpe acertou a em cheio no rosto. Justiniana caiu e ficou desacordada por alguns minutos. Assim que recobrou os sentidos, ela pegou Rogel no colo e foi direto para casa. O menino havia presenciado tudo e isso não incomodava nada Félix. Muito menos ter deixado a face da esposa inchada pro mais de três meses. Félix voltou a limpar os peixes como se nada tivesse acontecido. No começo do século XX, a esposa era quase uma propriedade do marido e este estava livre para fazer o que quisesse com ela. Até mesmo matar, caso ele provasse uma suposta traição conjugal.

Félix se aproveitava dessa condição e transformava a vida familiar um tormento constante. Ninguém passava fome na casa dos Moutinhos, mas se vivia para o trabalho. Momentos de alegrias não existiam, muito menos nas horas das refeições. Os integrantes da família permaneciam sempre calados e sombrios. Félix não gostava nem de ver os filhos rindo. Certa vez, a filha entrou em casa a gargalhadas e a atitude fora o suficiente para resultar em um tapa. “Isso é para você aprender a se comportar melhor”, dizia sempre depois que batia nos filhos.

            Rogel apanhava quase todo santo dia, não por desobediência a Félix, mas sim porque aprontava fora de casa. Na escola batia nos colegas e não sentia medo nem dos mais velhos. Apesar das surras, o menino gostava do pai e o via como exemplo. Ele tinha apenas dez anos quando Félix morreu. Sentado na cama, o pai chamou filho por filho para se despedir. A morte se encontrava muito próxima e Félix sabia disso e o médico que deu a sentença mais ainda. Em abril de 1915, ele soube pelo doutor que não terminaria o mês vivo. A conversa individual começou pela esposa, que saiu do quarto chorando, seguiu entre os filhos até chegar em Rogel.

            – Entra logo – disse o pai ainda mais rabugento pela doença.

            Apesar do tempo ensolarado e frio, a janela do quarto permanecia fechada.  Velas que se encontravam acesas em frente à imagem de uma santa iluminava o ambiente. Assim que entrou, um cão da raça labrador levantou o focinho, latiu e  seguiu em direção a Rogel. “Camponês”, o cão favorito de Félix retornou para seu canto. O cão se recusava a sair do quarto e estava lá há três dias. O menino sentou no pé da cama e esperou o pai dizer alguma coisa. Félix encostado com as costas na parede fitou o filho caçula com seus belos olhos azuis. No leito, Rogel viu homem já com seus 60 anos. O peso da idade aparecia nos fios brancos da sua cabeleira castanha e nas rugas do seu rosto pálido. Numa semana, havia envelhecido muitos anos. Falava com dificuldade e às vezes era vencido pela  tosse.

            – Se aproxime mais. A doença do teu pai não é contagiosa.

            O garoto chegou mais próximo e para não encarar o pai olhou para as velas e a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. A santa observava a cena e talvez esperasse que o doente fizesse um último pedido. Pelo aspecto de Félix, poderia se dizer que ele faria isso a qualquer momento. Quem havia colocado o ícone no quarto foi a esposa e ela esperava que Félix se arrependesse de todos os seus pecados. Para se arrepender é preciso primeiro ter consciência dos próprios atos. Na  concepção de Félix, o que ele havia feito não contrariava a lei dos homens e a de Deus.

                                                                                                                                                                                   Camponês
 
            – Não posso falar muito. Acho que não tenho...

            O homem foi interrompido pela tosse. Quando isso acontecia sentia muitas dores no peito e nas costas. Pediu para o filho pegar uma bacia debaixo da cama. Nela, Rogel ficou enojado com que encontrou: catarro e uma espuma vermelha. Ao  terminar de cuspir, Félix limpou do canto da boca o resto de sangue. 

            – Vou ser rápido. Cuide da sua mãe e seja obediente aos teus irmãos mais velhos. Agora vá. Vá! - gritou.

            A despedida de pai e filho não teve abraço e muito menos lágrimas. Antes sair, Félix pediu mais uma vez a bacia. Durante toda a noite e a madrugada, o pescador agonizou. Sentia dores terríveis e Camponês latia e andava de um lado a outro do quarto, sem poder fazer nada para salvar o dono. Apesar da rigidez e dos castigos corporais que infligia aos filhos e a mulher, o pescador não poderia ser considerado um homem mal. No seu tempo de criança o pai havia feito o mesmo com ele, o avô também havia feito com pai e assim até chegar no primeiro Moutinho que veio da Ericeira. A pesca não fora a única herança deixada para os descendentes. A forma de criar os filhos foi uma delas. Até hoje é fácil encontrar esse indício severo nos ascendentes da Ericeira no Brasil.

            A morte de Félix chegou ao amanhecer. No quarto, os irmãos José – que viera de Porto Belo –, uma irmã solteirona chamada Maria e a esposa esperavam. Camponês sob a cama latia bem baixinho. Antes de morrer, no delírio da febre, o homem fez seu último pedido. Não para a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem e sim para esposa.  Ele pediu que fechasse as janelas, pois sentia muito frio. Não fora preciso já que a janela permaneceu fechada durante os três dias que esteve no quarto. Justiniana pegou mais um cobertor e o cobriu o marido. Félix olhou para a esposa e disse:

            – Muito bem!

            Pela primeira vez na vida, Justiniana viu um brilho no olhar do marido que parecia uma lágrima, porém ela nunca teve certeza. Ao se virar de lado na cama, o corpo de Félix ainda se retorceu antes de expirar. O enterro foi realizado no cemitério de Porto Belo no fim da tarde do mesmo dia. No cortejo, Justiniana e Rogel foram os únicos que choraram. A dor de mãe e filho não chegava nem perto do que sentia Camponês. O cachorro latia o tempo e não deixava de vigiar o caixão. Foi com muito custo que o afastaram para baixar o corpo a sepultura. As pessoas retornaram para Bombinhas e cachorro ficou no cemitério. Deixaram o pobre cão próximo ao túmulo e também se quisessem, talvez não conseguissem persuadi-lo a ir embora. Durante aquele fim de tarde, à noite e na madrugada do dia seguinte, Camponês permaneceu deitado no túmulo do seu dono. Recusou água e comida oferecida pelo coveiro. O cão ficou nessa posição pelos dois dias seguintes, até ser encontrado morto pelo coveiro Um buraco foi feito ao lado do túmulo de Félix. Camponês enfim conseguiu descansar.

*    *    *
 
                                                                                                                  Mercado Público de Florianópolis na década de 1920

            Passados sete anos da morte do pai e encontramos Rogel em Florianópolis. O jovem com então 18 anos, havia se alistado e fora convocado para servir o exército na capital. O tempo fez o jovem ganhar responsabilidade, força e experiência, porém sua personalidade não sofreu mudança alguma. Dos filhos de Félix, Rogel era o que seguia mais fielmente o seu comportamento severo. Quando chegou ao Batalhão, não estranhou a disciplina rígida do exército. Para quem apanhava quase todo dia, a vida no quartel poderia ser considerada até leve. Obedecia aos seus superiores e respeitava os colegas de farda.  Faltavam dois meses para concluir o serviço militar e o jovem não sabia ainda qual profissão seguir. Pescador desde criança e acostumado com o quintal de casa, a praia de Fora, Rogel sentia falta de sair para pescar. No quartel, chegou acompanhar a pescaria de um sargento e um capitão, que ficaram espantados com o conhecimento que o soldado tinha sobre a o mar.

Ele sabia todos os truques de como armar a isca no anzol e a hora de jogá-la na água. Se a pesca desse dinheiro, o jovem teria um futuro promissor, mas ele sabia que não dava e isso o deixava indeciso. Numa noite, antes de dormir, Rogel conversou com um amigo de infância chamado Manoel, que também servia no mesmo Batalhão.  Os dois conversavam justamente sobre o que fariam depois de sair do exército. Manoel ficava no beliche de cima e Rogel no de baixo. No quarto, alguns soldados liam a Bíblia, outros as cartas de namoradas e alguns apenas pensavam na vida.

            – Esse negócio de pesca já tá ultrapassado – disse Manoel, um jovem moreno e com cabelos negros e lisos,  que gostava de o alisar com frequência. Fazia isso, enquanto conversava com o colega de farda.

            – Eu não sei fazer mais nada na vida, se no for na pesca – comentou Rogel desanimado. 

            – Fica aqui. O exército é melhor do que catar peixe por aí.

            – Para mim não é. Eu não sei o que vou fazer na vida, mas no exército não fico. Estou bem certo disso. 

            – Eu também, mas como não sei pescar vou fazer outra coisa.

            – Que coisa?

            – Minha família tem um barquinho a motor. Descobri que posso ganhar muito dinheiro se começar a comprar e a vender mercadorias. Hoje, quem não precisa de  açúcar e querosene.

            – E como vai ganhar dinheiro vendendo essas porcarias?

            – Porcarias para ti. Para os outros isso vale muito. Não vou vender só isso.

            – Eu ainda não entendi esse negócio.

            – Então preste atenção. Por exemplo, eu compro dez libras de farinha aqui em Florianópolis por um preço. Eu posso vender por outro e bem maior em Porto Belo. Se você quiser pode trabalhar comigo. Garanto que vai ganhar mais dinheiro do que na pesca.

            – Não sei. Amanhã eu dou a resposta. Agora só quero dormir – disse Rogel virando de lado.

            No outro dia, quando os soldados eram transportados para um treinamento  na cidade de Laguna, no Sul de Santa Catarina, o jovem deu a reposta para Manoel. Antes disso, uma cena chamou atenção da tropa. Na calçada duas mulheres se engalfinhavam no chão, uma puxando o cabelo da outra. Um soldado não conseguiu se aguentar e gritou:

            – Não solta, não solta.

            Ao som das gargalhadas dos soldados, o caminhão seguiu o caminho à Laguna. Ao dobrar a esquina o motorista ainda conseguiu ver as duas mulheres no chão. Uma multidão começava a se aglomerar. Rogel aproveitou o clima de desconcentração para dar a resposta ao colega.

            – Pode marcar o meu nome na tua lista.

            – Ele já está escrito e com letra de ouro. Você não vai se arrepender.

            – Espero que sim. Quando podemos começar.

            – Assim que nos livrarmos disso – disse Manoel olhando para os outros soldados espalhado pela carroceria do caminhão.

            Quando Rogel e Manoel deram à baixa no exército, a primeira coisa que fizeram foi visitar o Mercado Público de Florianópolis. O prédio localizado em frente à Alfândega tinha a mesma aparência que tem hoje, com as duas alas, torres e uma escada que dava acesso ao vão. O Mercado Público aberto desde 1896 atraia centenas de pessoas de todo o Estado, que vinham em busca de mercadorias diversificadas e mais em conta. Produtos tão diferentes que chamaram a atenção de Rogel. Ele e Manoel foram até o local anotar os preços das mercadorias que poderiam vender em armazéns e casas de secos molhados entre Porto Belo e São Francisco do Sul.

            – Qual é o nome dessa coisa? – questionou Rogel apontando para um objeto oval e de cor amarela.

            – Essa coisa é uma fruta – respondeu o funcionário da barraca sem prestar muita atenção no cliente. 

            – Fruta?

            O pescador pegou a fruta na mão, cheirou e recolocou no lugar. Manoel pro sua vez anotava tudo que via pela frente.

            – Sim, é cacau. Você nunca comeu chocolate?

            – Já comi, mas não sabia que era feito com isso.

            – Não sei como é que o pessoal faz o chocolate. Parece que eles misturam cacau, leite e açúcar e um corante.

            Por uma manhã inteira eles ficaram no Mercado Público e anotaram tudo que encontraram pelo caminho. À tarde eles pegaram o paquete Carl Hoepcke. A embarcação fazia o transporte de passageiros de Florianópolis até Santos, mas também atracava nos pontos de desembarque em Porto Belo. De lá, os dois seguiram a pé até Bombinhas. Rogel chegou à praia de Fora perto da meia-noite. Com a mochila nas costas, o jovem olhou com  saudade para o mar, respirou fundo e correu para o lar. A mesma casa em que há 22 anos havia nascido se encontrava às escuras.

*    *    *

Submarino alemão Unterwasser-Schiff 513 chegou torpedear navios no litoral brasileiro
 
            Na medida em que o tempo passava Rogel ficava mais parecido com pai. Não pela aparência e sim pelo comportamento violento. Ao sair do exército ele bem que tentou trabalhar com o Manoel, porém divergências com a divisão dos lucros levaram a sociedade a ruir. O desejo de voltar para a pesca contou muito para que mudasse de plano. Rogel nasceu pescador, seus antepassados foram  trabalhadores do mar e para o futuro não restava outro caminho senão a pesca. Dormia cedo, acordava cedo, trabalhava o dia todo e no sábado se divertia no baile na praia do Canto Grande. Continuava a não levar desaforo para casa, retornava dos bailes machucado. Foi nessa rotina que o tempo passou para Rogel. Em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial, a experiência que teve no Batalhão do Exército lhe rendeu a convocação para vigiar possíveis navios ou submarinos alemães na costa de Santa Catarina. A mesma pedra em que os pescadores vigiam hoje a pesca da tainha, serviu por dois anos para avistar navios da Tríplice Aliança.

            Com 39 anos, casado e pais de quatro filhos, Rogel não tinha a mesma disciplina do quartel de Florianópolis. Ele odiava a guerra, não pelo mesmo motivo de uma pessoa que gosta da paz e sim porque a guerra atrapalhava seu trabalho. O pescador estava pouco preocupado se Hitler dominava metade da Europa ou se lia escondido os gibis de Wall Disney no bunker da chancelaria alemã, em Berlim. Além disso, a importância que dava a Hitler era a mesma que dedicava ao seu dedo minguinho, ou seja, nenhuma.

No entanto, o Brasil levava em consideração o führer e o medo fez o governo brasileiro proibir que embarcações navegassem a noite. Como a canoa de Rogel se incluía na lista, ele teve um motivo a mais para odiar a guerra e de não ser tão disciplinado na hora da vigia dos navios inimigos. Rogel dormia no trabalho e as vezes faltava.  Se alguma embarcação alemã navegou pelo litoral de Santa Catarina foi, certamente, no dia em que ele fez a vigília.

            Muito se falou até agora do comportamento agressivo de Rogel e a sua ligação com o pai. No entanto, existe um lado do caráter do pescador pouco conhecido entre os moradores de Bombinhas. Desde jovem ele sonhou em ganhar dinheiro e muito dinheiro. No ano em que serviu ao exército pensava a todo instante numa maneira de ficar rico. A proposta do amigo Manoel foi apenas uma das inúmeras tentativas que não deram certo. Embora gostasse de pescar, Rogel sabia que não conseguiria ganhar dinheiro nela. O máximo que poderia fazer era colocar comida na mesa. Na década de 1940, nem mesmo os primeiros empresários da indústria pesqueira de Santa Catarina conseguiam lucrar com a venda de peixes. Por muitos anos, Rogel tentou descobrir uma maneira de fazer fortuna. Até mesmo procurar tesouros escondidos ele fez. Em Bombinhas, ainda sobrevive uma lenda de que antes dos imigrantes da Ericeira chegarem, piratas franceses e espanhóis aproveitaram as praias da região para esconder ouro. Em 1946, moradores de Bombinhas procuravam riquezas debaixo da terra, entre eles se encontravam  Rogel.

            No começo de 1947, Justiniana adoeceu. O médico diagnosticou uma doença no pulmão. A matriarca da família sempre foi uma pessoa doente e as crises de bronquite pioravam a cada ano. Com 79 anos de idade, a mulher morava na antiga casa de madeira da praia de Fora, com o filho caçula e sua nova família: a esposa Maria e seis filhos. A doença ficou mais grave nos primeiros dias de abril daquele ano. Justiniana não saía de casa e permanecia quase o tempo todo deitada. Como a ligação de Rogel com a mãe não era tão forte, ele resolveu se aproveitar da situação para ganhar dinheiro. Ainda movido pela ganância, elaborou um plano onde seria beneficiado junto com a irmã Olga.

                                                                                                                                                     Bombinhas na década de 1940 
 
No dia 25 de abril, o estado de saúde de Justiniana piorou. O médico foi chamado e avisou que era inútil levá-la ao hospital. Rogel não insistiu e o assunto não foi mais discutido. No meio da tarde, Justiniana teve uma pequena melhora, mas isso durou pouco. Pediu para sair do quarto, pois segundo ela, não queria morrer na mesma cama em que o marido. Foi transferida para o pequeno sofá da sala e ali permaneceu até morrer. A morte chegou da madrugada do dia 26 de abril de 1946. A primeira a perceber foi Maria, que logo chamou o marido. Rogel foi até o sofá e fechou os olhos da mãe.

            – Aonde você vai? – berrou Rogel.

            – Vou avisar seus irmãos – respondeu a mulher.

            – Avisar o quê?

            – Que a mãe deles morreu.

            – Não vai avisar nada.

            Rogel pegou a mulher pelos cabelos e a arrastou até o sofá. Lá, ele jogou a esposa em cima de Justiniana.

            – Você vai ficar aqui cuidando da minha mãe.

            – A tua mãe tá morta – disse a mulher chorando.

            – Escuta seu demônio? – disse dando tapas seguidos no rosto de Maria.

            – Sem chorar – gritou.

            Com os punhos fechados e preparado para socar a cara da esposa, Rogel repetiu a ordem. Com medo de fazer companhia a sogra, Maria se acalmou. O marido então continuou a conversa.

            – Vou dizer mais uma vez. Você vai ficar aqui cuidando da minha mãe. Não quero que avise ninguém. Ouviu? Se alguém perguntar diz que ela está dormindo.

            – E se aparecer um dos teus irmãos, o que eu falo?  – questionou a mulher.

            – Diz que o médico pediu para ninguém aborrecer a mãe. Eu vou sair agora, mas retorno logo.

            – E pra onde você vai?

            – Não é da tua conta.

            Rogel seguiu de barco até Porto Belo e lá procurou o cartório.  Um funcionário chamado Leopoldo acompanhou o pescador de volta a Bombinhas. Trazia consigo  uma pasta e outros papéis. Rogel apesar de ter perdido a mãe naquela manhã não demonstrava sentimento algum. Seu rosto era igual ao de todos os dias, sem sentimento algum.  A canoa com os dois homens chegou em Bombinhas perto do meio dia. Assim que entrou em casa, a mulher disse que ninguém havia o procurado ou mãe.  Rogel acompanhou o funcionário do cartório até a sala. Ele sentou no sofá, bem próximo da cabeça da mãe. Justiniana jazia encostada sobre duas grandes almofadas.

            – Se aproxime senhor Leopoldo. A doença da minha mãezinha não é contagiosa. Ela não morreu ainda, mas pediu para chamá-lo.

            – O que ela quer de mim?

            – Como eu disse lá em Porto Belo, apenas dividir os bens da família com os seus dois filhos.

            – Uma casa de madeira e as terras da praia de Fora? – perguntou o funcionário do cartório.

            Rogel acenou afirmativamente com a cabeça.

            – Correto e os papéis do terreno estão com o senhor?

            – Das terras da praia de Fora estão comigo sim. Então vou perguntar de novo para minha mãe o que eu disse para o senhor lá em Porto Belo.

              Como ela vai responder, se dorme. 

            – Ela não tá dormindo. Comece a escrever!

            Rogel se aproximou mais da Mãe e começou a acariciar o rosto dela. Ele até tentou chorar, mas vendo que seu esforço apenas distorcia seus rosto, desistiu. O funcionário esperava a resposta da mulher.

            – Mãe, não é verdade que a senhora passou esse terreno para mim e para  Olga? – perguntou o filho para a defunta.

            Como seria muito difícil Justiniana falar alguma coisa, o filho encontrou um meio para que ela desse a resposta sem que abrisse a boca.  Com movimento bem sutil no travesseiro, ele conseguiu com que a mãe fizesse um sinal afirmativo com a cabeça. Leopoldo refez a pergunta e o filho continuou com a artimanha. O dedo polegar da defunta no papel selou definitivamente a transferência dos bens da família para Rogel e a irmã. Os outros irmãos é claro que protestaram, mas ninguém conseguiu provar que a mãe havia morrido antes de assinar aos documentos. Foi assim que Rogel conseguiu ficar com metade da praia de Fora ou Quatro Ilhas. No entanto, as terras em Bombinhas na década de 1940 valiam pouca coisa e o sonho de Rogel ficar rico não foi realizado. Durante o casamento, Justiniana apanhara várias vezes do marido, porém nenhuma dessas situações chegou perto dos atos de traição e perfídia praticados pelo filho caçula.
 

*    *    *

            Na varanda ninguém sabia por onde começar. Paulo Aguiar olhava para mim e para o casal ao mesmo tempo. Como ninguém havia tomado coragem para dizer algo, o meu xará resolveu ser o primeiro.

            – O seu Miguel é sobrinho do Rogel e sabe muito bem que tipo de pessoa ele foi.

            – Rogel foi o mais bravo da família, até mais que o pai dele – disse o homem num tom de voz bem baixinho, sendo que na idade dele, 88 anos, não se poderia esperar outra coisa.

            – Eu não entendo como uma pessoa possa ser tão mal a esse ponto. Foi como se ele tivesse matado a própria mãe – comentei indignado.

            – Ele foi um homem muito malvado, morreu de câncer, em 1974. Deus o castigou – disse a mulher do seu Miguel.

            Seu Miguel nos convidou para pernoitar em sua casa. Como precisava voltar para casa, recusei. Diferente de Paulo Aguiar que ficou em Bombinhas. Depois do jantar, nos reunimos com o casal de idosos, que fizeram questão de ouvir o fim da história. O meu xará fez um breve resumo do que havia relatado até então para que eles não ficassem perdidos.  Agradeci mais uma vez o gesto do seu pai e por ter contato tudo sobre os seus antepassados. Foi por meio deles que conheci a fundo a vida do doador. Paulo Aguiar retomou a narração, a última daquele dia. Miguel e Carolina ouviam em silêncio. Na frente deles, a Enseada das Garoupas permanência mergulhada no crepúsculo.