quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Livro "O Aeroporto de Itajaí" será lançado em Festival Literário nesta quinta-feira

Aeroporto de Itajaí na década de 1950/Foto Arquivo Público de Itajaí 

O 1º Festival Literário de Itajaí começa nesta quarta-feira (22), no Centreventos, com apresentações teatrais, oficinas, artesanato, contação de histórias e lançamento de livros. Entre eles “O Aeroporto de Itajaí”, da historiadora Maria de Fátima Maçaneiro Schneider. O livro será lançado nesta quinta-feira (23), às 19h, no espaço da Setorial de Produção Cultural e Literatura. A entrada é grátis.

O livro conta a história do aeroporto itajaiense antes mesmo da sua fundação, em 1950, com o pouso do hidroavião Atlântico, em janeiro de 1927, no rio Itajaí-Açu. O voo que trazia a bordo o itajaiense Victor Konder, ministro da aviação do governo de Washington Luís, é considerado o primeiro da aviação comercial no Brasil.

Aeronave da antiga companhia aérea Vasp/Arquivo Público de Itajaí 

O terminal começou com uma pista de pouso próximo da rua Uruguai na década de 1930, onde hoje estão as casas populares. Além da pista feita de macadame, o rio Itajaí-Açu também foi usado para os pousos dos hidroaviões, o mais famoso deles o Atlântico.

Em 1949, o aeroporto foi transferido para rua Blumenau, onde funciona hoje o escritório da Celesc. Foi na rua Blumenau, que o aeroporto ganhou um terminal de passageiros e o nome Salgado Filho, homenagem ao ministro da aviação de Getúlio Vargas.

Com problemas de infraestrutura, o terminal mudou novamente. Em janeiro de 1970, o aeroporto já com o nome de Ministro Victor Konder, foi transferido para Navegantes.

Hidroavião Atlântico na década de 1930/Foto Arquivo Público de Itajaí

A obra aborda também os acidentes que marcaram a história do aeroporto, passageiros famosos e muitas curiosidades. A pista do aeroporto chegou a ser utilizada para prática da farra do boi na década de 1960.

O livro foi contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Itajaí e conta com o patrocínio da Brasfrigo.

O 1º Festival Literário de Itajaí segue até domingo (26) e é aberto ao público das 9h às 12h e das 13h30 às 21h.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Penha recebe evento dos 200 anos da Nova Ericeira no dia 30 de novembro

Capela histórica São João Batista em Penha/Foto Turismo Penha

Penha também fez parte da Colônia Nova Ericeira. Para lembrar os 200 anos de criação do primeiro empreendimento pesqueiro do Brasil, o município realiza no dia 30 de novembro, às 19h30, no Porto Penha Food Park, um evento alusivo à data. A iniciativa conta com o apoio da Fundação Cultural de Penha. A entrada é grátis.

O evento comemorativo terá a exibição do documentário “Navegantes” e de uma roda de conversa com jornalistas e escritores de Penha e região. Entre eles, Magru Floriano, Rogério Pinheiro, Eduardo (Bajara) Souza, Dieter Hans Kohl, Isaque de Borba Correa e Cláudio Bersi.

O documentário “Navegantes” aborda a colonização portuguesa no litoral catarinense pelo olhar de seus moradores.  Contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Navegantes e com o apoio cultural da Portonave, o filme mostra que os descendentes de portugueses têm origem em diversas regiões de Portugal e não só do Arquipélago dos Açores.

O Porto Penha Food Park fica na avenida Alfredo Brunetti, nº 481, bairro Armação, próximo ao Parque Beto Carrero World. 

Penha é terceira cidade a receber o evento dos 200 anos da Nova Ericeira em 2017. Os municípios de Bombinhas e Navegantes já lembraram a data este ano. A programação de aniversário segue até março de 2018, em outras sete cidades do litoral catarinense.

Nova Ericeira

Em fevereiro de 1818, Dom João VI foi coroado rei de Portugal, Brasil e Algarves. Uma das primeiras medidas como monarca foi á criação de uma colônia pesqueira no Sul do Brasil. O Aviso Régio de 25 de março de 1818 tornou oficial a ideia sugerida no dia 18 de outubro de 1817, por Justino José da Silva, comerciante e ex-presidente da Câmara Municipal da Ericeira, em Portugal.

A Ericeira é uma vila turística muto conhecida em Portugal/Foto Rogério Pinheiro

Coube ao então Intendente da Marinha de Santa Catarina, o comandante Miguel de Souza Mello e Alvim, a fundação do povoado no litoral catarinense. O local indicado foi a Enseada das Garoupas, hoje cidade de Porto Belo.

Além de Porto Belo, fizeram parte da Nova Ericeira as cidades de Balneário Camboriú, Bombinhas, Camboriú, Governador Celso Ramos (Ganchos), Itajaí, Itapema, Navegantes, Penha e Tijucas.

Os pescadores ericeirenses trouxeram técnicas pesqueiras, que foram repassadas de geração a geração e contribuiu para o desenvolvimento pesqueiro catarinense.

Ericeira
Local de passagem e instalação dos fenícios há 1000 antes de Cristo, a Ericeira é uma vila turística situada a 35 km a noroeste de Lisboa. Ericeira significa "terra de ouriços", devido aos numerosos ouriços do mar que podiam se encontrados nas suas praias.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Evento lembra os 200 anos da Nova Ericeira em Navegantes

     
       Depois de Bombinhas, foi a vez de Navegantes lembrar os 200 anos da Colônia Nova Ericeira. O evento aconteceu na noite de segunda-feira (23), no Centro Integrado de Cultura (CIC). A iniciativa contou com o apoio da Fundação Cultural de Navegantes.

       O evento teve a exibição do documentário “Ericeira: Um mar de história” e uma roda de conversa com a presença dos jornalistas Magru Floriano, Rogério Pinheiro, da escritora Didymea Lazzaris e dos pesquisadores Isaque de Borba Corrêa, Vilma Mafra e Solon Damásio da Costa, o Bilo.

        O documentário “Ericeira: um mar de história”aborda a instalação da Colônia Nova Ericeira em 1817. Editado pela TV Univali, o curta-metragem foi gravado no litoral catarinense e na vila da Ericeira, em Portugal.
 
        Durante a roda de conversa, a escritora e pesquisadora, Didymea Lazzaris, disse não concordar com a presença dos colonos ericeirenses em Navegantes.

- Foram 101 colonos ericeiros. Antes teve a colonização açoriana. Nas palavras de Oswaldo Cabral foram mais de seis mil açorianos. Para mim, Navegantes e Itajaí têm mais a presença açoriana do que da Ericeira – explica.

         Lazzaris admite que faltam mais pesquisas na área.

 - Faltam pesquisas e quanto mais a gente pesquisar, outros erros vamos encontrar e muito mais vamos acrescentar aquilo que queremos conhecer – ressalta a pesquisadora.

          Já Magru Floriano defende que a povoação de Navegantes e região teve inicio com a Colônia Nova Ericeira.

- O nosso fluxo de povoação vem mais do Sul do que do Norte e por isso falamos tão pouco de São Francisco do Sul. No grosso das coisas o pessoal de São Francisco do Sul subiu a Serra. O pessoal de Penha, o fluxo migratório veio da invasão espanhola à Ilha de Santa Catarina e de Navegantes vem da Colônia Nova Ericeira.
 
 
           Floriano criticou a busca pela origem e defende a pesquisa como base a colonização feita como política de Estado.

- Eu busco algum pronto de reflexão na participação do Estado como projeto político, que eu chamo de colonização. Esse negócio de origem é muito complicado, fazer uma análise tendo como uma base fundamental essa questão de ser (português) açoriano ou ser continental. Isso leva a uma armadilha, como criar manifestações culturais – destaca o jornalista.

          Além de Navegantes, as comemorações dos 200 anos da Nova Ericeira serão realizadas até março de 2018, em mais oito cidades catarinenses. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Navegantes recebe evento dos 200 anos da Nova Ericeira

Pescadores da Ericeira/Crédito Rogério Pinheiro

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epois de Bombinhas, agora é a vez de Navegantes lembrar os 200 anos da Colônia Nova Ericeira. O evento acontece na próxima segunda-feira (23), às 19h30, no Centro Integrado de Cultura (CIC), após a reunião do Conselho Municipal de Cultura. A iniciativa conta com o apoio da Fundação Cultural de Navegantes. A entrada é grátis.

O evento terá a exibição do documentário Ericeira: Um mar de história e uma roda de conversa com a presença dos jornalistas Magru Floriano, Rogério Pinheiro, do historiador Telmo Tomio, do escritor Cláudio Bersi, da escritora Didymea Lazzaris e dos pesquisadores Isaque de Borba Corrêa, Mauri Spezia, Vilma Mafra e Solon Damásio da Costa, o Bilo.

O documentário Ericeira: um mar de históriaaborda a instalação da Colônia Nova Ericeira em 1817. Editado pela TV Univali, o curta-metragem foi gravado no litoral catarinense e na vila da Ericeira, em Portugal.

            O CIC fica na rua Leonor Maria da Cunha, nº 432, Centro, ao lado do Ginásio de Esportes Domingos Angelino Régis.

Além de Navegantes, as comemorações dos 200 anos da Nova Ericeira serão realizadas até março de 2018, em mais oito cidades catarinenses.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Roda de conversa marca primeiro encontro dos 200 anos da Nova Ericeira em Bombinhas


Roda de conversa teve a presença de jornalistas e pesquisadores/Foto Isaque de Borba Corrêa

      A cidade de Bombinhas abriu na noite de sexta-feira (22), as comemorações dos 200 anos da Colônia Nova Ericeira. O evento aconteceu durante o “Pirão Cultural”, no Restaurante Rancho da Ana, bairro José Amândio. O destaque ficou por conta de uma roda de conversa, que foi composta por jornalistas e pesquisadores da região de Itajaí. A iniciativa teve o apoio da Fundação Cultural de Bombinhas.
       
      Além da roda de conversa, o documentário “Navegantes”, que aborda a colonização portuguesa no litoral catarinense, foi exibido para um público estimado em 50 pessoas.

      O filme mostra que os descendentes de portugueses têm origem em diversas regiões de Portugal e não só do Arquipélago dos Açores, como é comum ser divulgado hoje.

Documentário "Navegantes" foi exibido durante evento/Foto Fundação Cultural de Bombinhas 
 
      A vila da Ericeira é um exemplo da diversidade lusa em Santa Catarina. No começo do século 19, pescadores da Ericeira fundaram o primeiro empreendimento pesqueiro do Brasil, a Colônia Nova Ericeira.

      O destaque da noite ficou com a roda de conversa, que foi composta pelos jornalistas Magru Floriano, Rogério Pinheiro, Marcinha Ferreira, Alcides Mafra, Thiago Furtado e os pesquisadores Marquinho Pinheiro e Isaque de Borba Corrêa.

             Isaque (à direita) questiona presença açoriana em Santa Catarina/Foto Fundação Cultural de Bombinhas

      Um dos pontos mais polêmicos discutidos na noite foi à presença açoriana em Santa Catarina. Isaque de Borba Corrêa cita o Primeiro Congresso de História Catarinense, que estabeleceu uma identidade açoriana aos catarinenses em 1948.

- Isso foi artificialmente criado pelos intelectuais da Universidade Federal de Santa Catarina para combater a força do gauchismo que começava a entrar em Florianópolis. Dizem que a história é contada por aqueles quem vencem. A Revolução Farroupilha foi uma guerra que eles (gaúchos) perderam. E nós temos que tomar esse exemplo. Eu prego contra o mito açoriano desde os anos 80 – diz.

      Corrêa defende que os catarinenses tenham uma identidade que não seja açoriana.

- Estamos vendendo a nossa cultura por uma identidade que não é a nossa. Os Açores não é um país e estamos trocando a nossa identidade por isso. A maior cidade açoriana do país é Porto Alegre. Não vejo nenhum morador de Porto Alegre dizer que é açoriano – destaca o pesquisador.

Grupo de estudos deve ser formado para discutir presença açoriana/Foto Fundação Cultural de Bombinhas

      Um grupo de estudos deve ser criado para debater a presença portuguesa em Santa Catarina. Além de Bombinhas, outras cidades catarinenses devem ter eventos sobre os 200 anos da Nova Ericeira. O próximo encontro acontece em Navegantes, no dia 30 de outubro. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Bombinhas abre comemorações dos 200 anos da Nova Ericeira

Pescadores da Ericeira trouxeram técnicas pesqueiras para o Sul do Brasil/Crédito ICEA
   
     O aniversário de 200 anos da Colônia Nova Ericeira só acontece em março de 2018, mas a data começa a ser lembrada nesta sexta-feira (22), às 19h, durante o “Pirão Cultural”, no Restaurante Rancho da Ana, localizado na rua Leopardo, 571, bairro José Amândio. A entrada é gratuita. 

     O evento terá a exibição do documentário “Navegantes” e uma roda de conversa com os jornalistas Magru Floriano, Marcinha Ferreira, Alcides Mafra, Rogério Pinheiro e os pesquisadores Thiago Furtado, Isadora Manerich e Marquinho Pinheiro. 

     O documentário “Navegantes” aborda a colonização portuguesa no litoral catarinense pelo olhar de seus moradores. O filme mostra que os descendentes de portugueses têm origem em diversas regiões de Portugal e não só do Arquipélago dos Açores, como é comum ser divulgado hoje. O curta-metragem foi gravado em nove cidades de Santa Catarina e foi contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Navegantes. 

Nova Ericeira
     A Nova Ericeira foi criada oficialmente no dia 18 de março de 1818, em Porto Belo, mas a chegada dos primeiros pescadores da Ericeira (Portugal) ao Sul do Brasil aconteceu um ano antes.

Pescadores em Itajaí (SC) na década de 1970/Crédito Arquivo Público de Itajaí
   
    Fizeram parte da Nova Ericeira as cidades de Balneário Camboriú, Bombinhas, Camboriú, Governador Celso Ramos (Ganchos), Itajaí, Itapema, Navegantes, Penha, Porto Belo e Tijucas. 

     Os pescadores ericeirenses trouxeram técnicas pesqueiras, que foram repassadas de geração a geração e contribuiu para o desenvolvimento pesqueiro catarinense. 

Ericeira 
De vila de pescadores, a Ericeira é hoje um dos balneários mais visitados de Portugal/Crédito Rogério Pinheiro
   
     Local de passagem e instalação dos fenícios há 1000 antes de Cristo, a Ericeira é uma vila turística situada a 35 km a noroeste do centro de Lisboa. Ericeira significa "terra de ouriços", devido aos numerosos ouriços do mar que podiam se encontrados nas suas praias. 

Pirão Cultural 
     O Pirão Cultural é realizado pela Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas, as inscrições são gratuitas e devem ser realizadas pelo link: goo.gl/4nkQpq ou pelo telefone (47) 3264-7478. O evento é finalizado com uma degustação à base de pirão e peixe, oferecida pelo restaurante Rancho da Ana. 

     Além de Bombinhas, as comemorações dos 200 anos da Nova Ericeira serão realizadas até março de 2018 em outras nove cidades catarinenses. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Navio do século 19 que naufragou no Rio Itajaí-Açu transportava carga frigorificada entre Buenos Aires e Rio de Janeiro

 Imagem Ilustrativa/Naufrágio paquete inglês Slavonia na Ilha das Flores (Açores) em 1909      

         O objeto submerso encontrado nas obras da Bacia de Evolução do Rio Itajaí-Açu trouxe a tona uma parte da história do Brasil que andava esquecida. O objeto pode ser do paquete (navio) frigorifico Pallas, naufragado depois de bater em uma pedra no Rio Itajaí-Açu, em novembro de 1893. O navio foi utilizado pela Marinha durante a Revolta da Armada.
 
Pouco se sabe do paquete Pallas, que pertencia a Companhia Frigorifica e Pastoril Brasileira. As poucas informações a respeito da sua história foram publicadas nos jornais da época.
            O paquete foi construído entre 1891 e 1892 com a finalidade de transportar cargas e também passageiros entre Buenos Aires e Rio de Janeiro. O navio era o menor das seis embarcações da Companhia Frigorifica e considerado o mais moderno da frota. Tinha capacidade para transportar até 500 toneladas de carga frigorificada. No dia 21 de dezembro de 1892, o Jornal Gazeta de Notícias (RJ) publicou uma matéria sobre o navio.
“O paquete Pallas, um dos seis que a companhia possui, é o menor em tamanho, de elegante e sólida construção. Com capacidade para transportar número superior a mil rezes mortas, bois, carneiros, porcos, aves e frutas; além de outro gênero de carga e passageiro”. 
O mesmo jornal destacava a sua construção, que poderia navegar até por rios de baixo calado.  
“A sua construção e tal, que seu calado presta-se a entrada na barra do Rio Grande e navegação nos rios e lagoas do mesmo Estado até Porto Alegre”.
Na mesma matéria, o periódico carioca traz detalhes da câmara frigorifica do paquete e também que a embarcação possuía luz elétrica, um avanço para época.
“Examinamos sua câmara frigorifica e verificamos ser a temperatura na ocasião de oito graus abaixo de zero. Essa temperatura pode ser mais baixa ou elevada, conforme as exigências de ocasião ou de gênero que o paquete transporta. Os mecanismos para produção do frio, do vapor necessário para a marcha do paquete e para produção de luz elétrica são os mais aperfeiçoados e seguros”.
Almoço para mais de 100 convidados
Menos de um ano antes de ir parar no fundo Rio Itajaí-Açu, o Pallas recebeu convidados ilustres para um almoço. O evento serviu para apresentar a nova embarcação da Companhia Frigorifica e Pastoril Brasileira. Entre os convidados estavam oficiais da Marinha, cônsules da Argentina, Uruguai e jornalistas. Entre os jornais que visitara o Pallas, estava à equipe do Jornal do Brasil. A edição do dia 21 de dezembro de 1892 trouxe uma matéria sobre o evento.
Matéria publicada no Jornal do Brasil de 21 de dezembro de 1892

“Convidados pela diretoria da Companhia Frigorifica e Pastoril Brasileira assistimos ontem a bela festa que se realizou a bordo do paquete Pallas, festa que se prolongou-se até às 16h30. Às 10 horas da manhã, partiu do cais Pharoux a barca especial da companhia Ferry, levando os convidados a bordo do Pallas, ancorado perto da Ilha das Enxadas (Baía de Guanabara). Muito mais de 100 pessoas estiveram presentes”.
O almoço tinha no cardápio carnes congeladas no paquete, vinho e champanhe. O que chama atenção mesmo no almoço é a presença do ministro da marinha, Custódio de Melo, que foi um dos líderes da Revolta da Armada (movimento encabeçado pela Marinha contra o governo do presidente Floriano Peixoto). Custódio de Melo vistoriou no dia o paquete, que seria usado pelos revoltosos na tomada de Desterro (Florianópolis).
O naufrágio
Se a festa no paquete Pallas teve destaque em muitos jornais da época, o mesmo não pode dizer da notícia do seu naufrágio.  Apenas o jornal “O Paiz” publicou no dia 23 de novembro uma nota, que outro jornal, o diário argentino “La Nacion  publicou no dia 11 de novembro.  Tudo indica que o naufrágio foi acidental.
Nota de "O Paiz" informou o naufrágio do Pallas em 1893

“Está plenamente confirmada à notícia do naufrágio do paquete frigorifico Pallas. O importante diário buonarense, La Nacion, na sua edição do 11 de novembro, publica a esse respeito o seguinte despacho telegráfico: “O paquete Pallas, da esquadra sublevada, intentando, há poucos dias, entrar à noite na barra do porto de Itajahy, bateu de encontro a uma pedra e naufragou”.
No naufrágio, a tripulação do Pallas conseguiu se salvar. O local onde o navio afundou, no bairro São Pedro, em Navegantes, é conhecido como palas até hoje. Agora resta saber, se os objetos localizados na obra de dragagem na área da nova bacia de evolução dos portos de Itajaí e Navegantes são do Pallas.
Revolta da Armada
Revolta da Armada na Baia da Guanabara em 1893
         Depois que o Marechal Deodoro da Fonseca renunciou a presidência da República, coube ao seu vice Floriano Peixoto, assumir o comando do país. Floriano, que viria a ser conhecido como “Marechal de Ferro” e o consolidador da República, fechou o Congresso Nacional e decretou estado de sítio. Oficias da Marinha não concordaram com a medida e pediram que Floriano obedecesse à constituição de 1891 e convocasse eleições diretas.
A Revolta da Armada começou no dia 6 de setembro de 1893, na baia de Guanabara, liderada por oficiais superiores da armada Saldanha da Gama e Custódio de Melo, que ambicionava substituir Floriano Peixoto.
Ainda em setembro de 1893, os revoltosos apoderaram-se de 18 navios mercantes e rebocadores, entre eles o Pallas.
Soldados no Morro da Armação, Rio de Janeiro, em 1894
O objetivo dos revoltosos era tomar o Porto de Santos, mas à resistência dos santistas fez que o alvo fosse a Ilha de Santa Catarina. Os rebeldes desembarcam em Desterro no dia 2 de outubro de 1893, onde tentaram se aliar com os revoltosos gaúchos partidários do federalismo, porém sem sucesso.
Custódio de Mello, comandando quatro navios mercantes e dois mil homens, tentou, sem sucesso, desembarcar na cidade do Rio Grande. Foi derrotado pelas tropas do governo de Julio de Castilhos. Os revolucionários da Armada estavam vencidos. Custódio refugiou-se na Argentina, onde entregou os navios (fonte: http://brasilianafotografica.bn.br).

Custódio de Melo foi um dos líderes da Revolta da Armada e chegou a visitar o paquete Pallas
Já Saldanha da Gama morreu em combate no 25 de junho de 1895, em Campo Osório (RS).

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

História contada na Ericeira pode ter sido inspirada na vida de senador catarinense

Livro aborda história de ericeirense que virou senador no Brasil

No livro “Tia Maria Ásquinha e outras histórias da Ericeira”, o jornalista e escritor Jaime d’Oliveira Lobo e Silva, conhecido como mestre Jaime, conta a história da tia Carapêta e de seus dois filhos. Um deles, segundo Mestre Jaime, viajou para o Brasil, entrou para a Marinha e foi eleito senador do Império.

“O mais velho, pouco depois da morte do pai, embarcou para o Brasil, assentou praça na Armada Brasileira, foi subindo postos, chegou ao de Capitão-de-Mar-e-Guerra, e até foi mais tarde Senador do Império (p. 39)”.

A história que mestre Jaime retrata no livro foi tirada das ruas, contada pelos ericeirenses entre o fim do século XIX e começo do XX. No conto, até mesmo o nome do ericeirense que virou senador no Brasil não é conhecido.

“Não se sabe o nome deste homem, mas diziam muitos marítimos ericeirenses que o conheceram no Brasil, e alguns oficiais da marinha mercante que por vezes o visitavam na sua luxuosa chácara que possuía numa das ilhas de Guanabara, que levava vida de grande senhor, servido por numerosos escravos e onde recebia principescamente os patrícios (p.39)”.

Apesar da história contada na Ericeira, ela pode ter acontecido de fato, não exatamente relatado no livro. A história do senador natural da Ericeira se confunde com a vida do senador catarinense José da Silva Mafra, que conhecia a vila portuguesa.

José da Silva Mafra foi senador do Império do Brasil de 1844 a 1871

José da Silva Mafra nasceu na Vila de Desterro (hoje Florianópolis) no dia 14 de janeiro de 1788. O pai do catarinense, homônimo do senador, nasceu em Mafra por volta de 1740.

Quando veio para o Sul do Brasil, o pai do senador mudou de sobrenome. Em Portugal, os Silva Mafra se chamavam Delgado. No entanto, nenhuma família Delgado foi encontrada nos registros paroquiais de Mafra na época e sim na Ericeira.

Então a possibilidade do pai do senador catarinense ter nascido na Ericeira é grande. Além disso, um registro na Paróquia da Ericeira chama atenção. É de um nascimento de um José, filho de Antônio da Silva Mafra. O nascimento dele é quase na mesma época do senador no Brasil e coloca em dúvida se José da Silva Mafra nasceu mesmo no Brasil.

Outros registros da família do senador sumiram da Paróquia de Desterro depois da invasão espanhola na Ilha de Santa Catarina em 1777. Uma das hipóteses levantadas é que um padre levou todos os registros da igreja de Santo Antônio de Lisboa, local do suposto nascimento do senador catarinense.

José da Silva Mafra seguiu a carreira militar do pai, que era capitão e comandava a 4ª Companhia do Terço de Infantaria Auxiliar da Capitania da Ilha de Santa Catarina.

Começou como soldado na Companhia de Granadeiros do Terceiro Regimento de Linha. Participou das campanhas de 1798 no Rio Grande do Sul, de onde seguiu para o Pará, ainda no mesmo ano. Foi granadeiro e cabo de esquadra.

Silva Mafra tomou parte na conquista da Guiana Francesa, regressando em 1811 como tenente. Foi ainda sargento-mor e comandante da fortaleza de Santa Cruz (SC).

Tenente-coronel em 1823, foi reformado no posto, em 1830. O catarinense foi secretário, vice-presidente da Província de Santa Catarina, além de deputado. Em 1844, foi escolhido senador vitalício do Império do Brasil.

O senador se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império e ficou lá até a sua morte em 3 de julho de 1871. Mafra, igual ao filho da Tia Carapêta, tinha propriedades no Rio de Janeiro e possuía muitos escravos.

É provável que tenha recebido muitos ericeirenses em sua propriedade. Os jornais publicados no tempo que foi senador noticiaram a entrada de muitos marinheiros da Ericeira no Porto do Rio de Janeiro.

Entre os oficiais da marinha mercante que pode ter visitado o senador está Francisco da Silva Ericeira, filho de Justino José da Silva, uma dos fundadores da Nova Ericeira.

Mestre Jaime contribuiu para preservação da história da Ericeira

Jaime d’Oliveira Lobo e Silva nasceu na Ericeira a 9 de novembro de 1875 a faleceu a 11 de setembro de 1943. Entre 1909 e 1914, Mestre Jaime escreveu vários artigos para o “Arqueólogo Português” e foi correspondente do jornal “A Mala da Europa”, onde publicou crônicas dos usos e costumes da vida dessa época na Ericeira.

Lobo e Silva foi responsável por organizar o Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira e graças a ele muitas histórias permanecem vivas até hoje. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Nova Ericeira 200 anos


 
A exibição de um documentário e palestras com pesquisadores e historiadores catarinenses marcam as comemorações dos 200 anos de criação da Colônia Nova Ericeira.

O primeiro evento será realizado no dia 22 de setembro, em Bombinhas.
 

Além de Bombinhas, a data será lembrada em outras cidades do litoral catarinense até março de 2018.

A Nova Ericeira foi criada oficialmente no dia 18 de março de 1818, em Porto Belo, mas a chegada dos primeiros pescadores da Ericeira (Portugal) ao Sul do Brasil aconteceu um ano antes.

O legado da Nova Ericeira é encontrado hoje na pesca. Os pescadores ericeirenses trouxeram técnicas pesqueiras, que foram repassadas de geração a geração e contribuiu para que o litoral catarinense se transformasse no maior polo pesqueiro do Brasil.

domingo, 7 de maio de 2017

A Nova Ericeira: Família Simões


 
José Simões não nasceu na Ericeira, mas estava entre os colonos que vieram para Nova Ericeira no século XIX. Filho de Manuel Lopes e Rosa Maria, José era natural da cidade de Peniche. Ele casou no dia 24 de julho de 1790, com a ericeirense Mariana Franca, a Rosinha. Antes de partir para o Brasil, o casal morava na Rua do Carmo, na época conhecida como Casal Don Ana, uma quinta localizada junto ao atual largo de São Sebastião.

Na casa da Rua do Carmo, nasceram sete filhos: Ana (1791), Tereza (1793), Pedro (1798), Félix (1800), Valeriano (1803), Manuel (1806) e Francisco (1808). Apenas Pedro não chegou à vida adulta e morreu no mesmo ano de nascimento.

A família Simões chegou à Nova Ericeira em 1817, junto com a primeira leva de imigrantes portugueses. Eles se estabeleceram em Porto Belo e nas cidades de Bombinhas e Itapema, que faziam parte do município de Porto Belo até a metade do século XX.

Com o fim da colônia nos primeiros anos da década de 1820, alguns ericeirenses resolveram voltar para Portugal. No entanto, a ideia de voltar para a Ericeira não foi bem aceita entre todos.

No caso da família Simões, o patriarca José e os filhos Ana e Félix decidiram ficar. Félix inclusive casou e teve filhos no Brasil. Hoje, seus descendentes povoam Porto Belo e outras cidades que nasceram da Nova Ericeira.

terça-feira, 21 de março de 2017

Os ericeirenses que vieram para o Sul do Brasil: António Lopes da Costa Pacheco


 
Entre as famílias portuguesas que vieram para o Sul do Brasil no século XIX, está a do tesoureiro da antiga Câmara Municipal da Ericeira, António Lopes da Costa Pacheco. Antes de partir para o Brasil, a família Lopes da  morava  na Rua de São Pedro.

Filho de Manuel Lopes e Sebastiana Franca, António nasceu na Ericeira em março de 1768. O ex-funcionário da Câmara da Ericeira casou com Maria Inácia Perpétua de Morais no dia 14 de julho de 1793.

Da união nasceram: Possidónio (31/05/1794), Maria Inácia (06/12/1795), Manuel António (17/12/1797), Manuel (11/03/1798), Josefa (29/06/1802) e Sebastiana Rosa (17/03/1810).

António ficou viúvo antes da viagem para o Sul Brasil No dia 8 de maio de 1815, a esposa Maria Inácia Perpétua de Morais faleceu.

O ex-tesoureiro da Câmara da Ericeira chegou na Enseada das Garoupas, Sul do Brasil, em março de 1819, um ano depois da criação oficial da colônia por Dom João VI. Ele trouxe os filhos Manuel, Possidónio, Maria Inácia, Manuel António, Josefa e Sebastiana Rosa. 

Além dos filhos, António veio para Enseada das Garoupas com parentes de Maria Inácia Perpétua de Morais, no total de doze pessoas, mas isso é assunto para uma próxima postagem.

Lopes da Costa Pacheco e os filhos se estabeleceram na sede da Colônia Nova Ericeira, hoje região central de Porto Belo.

Na colônia, António conheceu outros ericeirenses que vieram para o Sul do Brasil ainda no século XVIII e se estabeleceram em Santo Antônio de Lisboa, freguesia que ficava ao Norte da Ilha de Santa Catarina, hoje a cidade de Florianópolis e capital do Estado de Santa Catarina.

A ideia da colônia surgiu desses ericeirenses mais antigos. Eles conheciam bem a região da Enseada das Garoupas por ter um porto tranquilo.

Existem poucas informações sobre a sua passagem pela Colônia Nova Ericeira, mas ele e o filho Manuel foram os únicos da família que permaneceram no Brasil. Os outros filhos retornaram para Ericeira em 1821.

Não existem dados oficiais da colônia na Ericeira e nem da viagem de seus moradores ao Brasil. Um dos documentos que faz menção é do padre Manuel Maria Ferreira (1857-1889), que organizou um cadastro das famílias naturais e moradoras da Ericeira de 1750 a 1889.  

No cadastro aparece apenas que António Lopes da Costa Pacheco e o filho faleceram na Ilha Garoupas, Brasil. Na verdade, o padre Manuel Ferreira se referia a Enseada das Garoupas.

Segundo o escritor e jornalista português, Jaime de Oliveira Lobo e Silva (1875-1943), conhecido na Ericeira como mestre Jaime, o padre Manuel Ferreira foi responsável pela reorganização dos registros paroquiais da Ericeira na segunda metade do século XIX.

“Possuía apreciáveis qualidades de arquivista e paleógrafo, pelo que reorganizou o cartório e arquivo da igreja e paróquia a seu cargo.Com a sua letra muito certinha, igual e bem legível, copiou todos os velhos documentos da igreja de São Pedro da Ericeira, tais como: testamentos, cartas de sentença, títulos de aforamento, cartas de arrematação, etc., etc., salvando do olvido e da destruição muitos documentos antigos e curiosos, pelo que nunca serão demais os louvores que se lhe tributem”, escreveu mestre Jaime.  

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Capítulo 11 – Viagem rumo ao Brasil


Se soubesse um dia que a Colônia Nova Ericeira iria abrigar pessoas tão ruins como Rogel, que se aproveitou da morte da mãe para ganhar dinheiro, Francisco Antônio Aguiar jamais teria aceitado a proposta de ir para o Brasil. Agora, se Francisco tivesse conhecimento das histórias de Arlindo, Valéria, Narciso, Franco e tantos outros descendentes ericeirenses, certamente se orgulharia. Entretanto, a vida dele e da família, na Ericeira, não era digna de satisfação.

Em 1818, a freguesia portuguesa, a exemplo de outras, incluindo a capital Lisboa, passava por uma crise econômica que assolava a Europa. Apesar de Napoleão ter sido derrotado e preso numa ilha na costa da África, parte do continente ainda se recuperava da guerra.  Portugal vivia uma situação diferente e mais grave, já que a sede coroa estava estabelecida no Brasil.

            Esquecidos por Dom João VI, os moradores da Ericeira sobrevivam como podiam. A vida deles só não era pior porque tiravam o sustento do mar. Grande parte do pescado tinha dois destinos: Lisboa e cidade do Porto. Com 25 anos e ainda solteiro, Francisco morava com o pai e mais três irmãos. O sobrado em que residia a sua família fora erguido na metade do século XVIII – três meses depois do grande terremoto que atingiu Lisboa, em 1755. 

A casa de vidraças lavadas, com paredes pintadas de branco, era uma das dezenas que ficavam no bairro Norte da Ericeira.  A que morava o pescador ficava no pé de um morro, próximo à capela de Santo Antônio.  O bairro Norte abrigava na sua maioria famílias de pescadores, bem diferente do bairro Sul, local do comércio e residência da burguesia da cidade.

                                                                                                                                                                  Pescadores da Ericeira

Por muitos anos perdurou uma rixa entre moradores dos dois bairros, que não podiam entrar no território do outro. Essa rivalidade foi suspensa durante a invasão das tropas de Napoleão e com o tempo perdeu força. No dia 11 de fevereiro de 1818, Francisco se encontrava na Praia dos Pescadores. Remendava redes sentado na proa do pequeno barco da família, quando Pedro Rodrigues, um colega de infância do pescador apareceu com a notícia que mudaria a sua vida.

            – Ó Francisco, hoje temos finalmente uma novidade.

            – Que novidades? – perguntou sem dar muita atenção à conversa do amigo.

            – Um oficial de Lisboa esteve a conversar com alguns pescadores na Praia de Sebastião. Ele disse que está a contratar mão-de-obra para trabalhar nas terras do Brasil?

            – O que tem no Brasil?

            – O Nosso el-rei quer montar uma colónia pesqueira no Sul do Brasil. Ele doará terras, ferramentas e provisões para quem desejar ir. Contratam famílias e solteiros.

            – O que disseram os outros pescadores?

            – Que vão levar suas famílias. Que futuro vamos ter aqui no meio a essa pobreza? Vamos deixar nossos filhos a morrer de fome? Não, estou a pensar em ir para o Brasil.

            – E se existisse um modo de ficar em Ericeira? – resmungou Francisco.

            – Não há outro! Não há outro! – exclamava Pedro eufórico.

            Antes de se despedir, o amigo de Francisco disse que o oficial convocara todos os pescadores do bairro Norte interessados em partir para o Brasil. O local da reunião ficou marcado para o dia seguinte, na frente da igreja de São Pedro. Haveria uma seleção para levar 100 pessoas, entre solteiros e casados. Além de pescadores, seriam escolhidos um sapateiro, dois barbeiros, dois alfaiates, um carpinteiro e um calafate.

Ter habilidade nas suas respectivas profissões e saúde. Esses eram os dois principais critérios para a seleção. Em outra situação, os moradores da Ericeira não teriam abandonado a cidade por hipótese alguma. No entanto, a fome e a própria presença de Dom João VI no Brasil incentivaram a imigração em massa. Aliado a isso, na época corria pelas ruas da Ericeira, bem como em todo Portugal, o boato de que o monarca português não teria a mínima vontade de voltar a Europa tão cedo.

            A ideia de fundar a primeira colônia pesqueira do Brasil, surgiu dois anos antes da sua criação. Em 1816, a Capitania de Santa Catarina emitiu um alerta ao governo português, da existência de um ponto vulnerável para invasão espanhola no Sul do país. Esse ponto chamava-se Enseada das Garoupas, uma Freguesia, considerada ponto estratégico para a defesa da capitania – naquele tempo praticamente desabitada.

Como o projeto não havia sensibilizado a Coroa Portuguesa, a Capitania sugeriu, já em 1817, a criação de um centro de pesca, como havia no litoral do Reino de Algarve, em Portugal. Nesse mesmo ano, Dom João VI aprovou a proposta e uma ordem foi dada para a demarcação das terras, que seriam doadas as famílias ericeirenses. Além disso, o material necessário para a formação do povoado deveria ser fornecido pelo então governador da capitania, João Vieira Tovar de Albuquerque.

                                                                                                                            Ericeirenses dominavam as técnicas pesqueiras
 
         Escolhido o local e demarcada as terras, o próximo passo foi escolher os novos moradores. Em Portugal, havia diversas comunidades pesqueiras, a do Algarve era a mais importante. Uma carta de Dom João VI enviada para Lisboa  no  final de 1817 pedia a escolha de cerca de 100 pessoas, de ambos os sexos, para a instalação de uma colônia pesqueira no Brasil. A embarcação Conde de Peniche faria o transporte dos pescadores. Tudo estava pronto para receber os colonos, mas quem seriam eles? 

A fama dos pescadores da Ericeira já existia em Lisboa no começo do século XIX e isso contribui bastante para a escolha da cidade. No dia 12 de janeiro, em pleno inverno europeu, aconteceu a reunião com a comissão do governo que iria escolher os imigrantes. No mês seguinte a notícia foi divulgada  na Ericeira e para surpresa de todos, apareceram pessoas até do bairro Sul. O número de moradores que se encontrava na frente da igreja de São Pedro passava fácil de 200. Entre a multidão o oficial respondeu a pergunta de um morador a respeito das vantagens de ir para o Brasil.

            – A doação dos terrenos será feita pelo governador da Capitania, o senhor João Vieira Tovar de Albuquerque, que entregará para cada colono o seu título da terra. Os terrenos que sobrarem serão posteriormente entregues e distribuídos àqueles que precisarem de área maior.

            – E há selvagens nessa tal Freguesia de Santa Catarina? – perguntou uma mulher.

            O oficial em pé num palanque improvisado até tentou ver quem era pessoa que fez pergunta, mas como havia no local muita gente desistiu e continuou.

            – É Capitania de Santa Catarina, a freguesia vai se chamar Nova Ericeira, em homenagem a cidade de vocês. Não há perigo e nem índios bravios por perto do novo povoado. O nosso bom rei garantiu a segurança dos colonos e isso é o bastante. A colónia contará com um cirurgião, boticário e pároco. 

            A Colônia Nova Ericeira foi apresentada para os pescadores do bairro Norte que aprovaram a nome da companhia pesqueira. Da casa da família Aguiar, apenas os irmãos Francisco e Manoel foram até a igreja de São Pedro. O pai Antônio, a irmã caçula – com 18 anos, chamada Ana – e o irmão mais velho de nome José, não demonstraram interesse com o novo empreendimento. O velho Antônio não aceitava a possibilidade de deixar a Ericeira.

            – Ainda que eu tivesse que roer ossos, não iria para o Brasil. Que o diabo leve essa colónia – dizia ele batendo com o punho na mesa.

            O velho Antônio ficou aborrecido porque os filhos Manoel e Francisco fizeram questão de colocar seus nomes na lista de imigrantes. Até os exames médicos a serem realizados em Lisboa foram marcados. O resultado, com os nomes dos aprovados seria conhecido no fim daquele fevereiro de 1818. Já a viagem para o Novo Mundo ficou marcada para o mês começo de março.

Embora sem aprovação do pai, os dois estavam decididos a partir e confiantes de que seriam escolhidos. Solteiro, Francisco sabia tudo sobre pesca e tinha noções de carpintaria naval. Já Manoel era um exímio carpinteiro naval e poderia ser considerado um bom pescador. No dia 27 fevereiro, uma lista com 101 pessoas foi pregada na porta da igreja. É claro que para o desgosto do pai, os nomes dos filhos Francisco e Manoel estavam na lista.

            A família Aguiar representava um pouco as outras tantas famílias de pescadores da Ericeira. O pai, pescador e carpinteiro naval, fora quem passara as duas profissões aos filhos. As mulheres não seguiam nenhum ofício e eram preparadas para as tarefas domésticas.  Isso era mínimo do que uma família poderia fazer, já que as moças das famílias de pescadores não tinham dotes para oferecer aos futuros maridos.

A família de um pescador era majoritariamente masculina. Em 1818, dos cerca de mil e quinhentos habitantes da vila, 60% eram homens. Outro fator característico na Ericeira dizia respeito ao número de integrantes em cada família: em média cinco pessoas. Isso não significava que as mulheres tivessem poucos filhos, ao contrário, a tacha de natalidade era alta, dez filhos por casal.

A mortalidade infantil diminua a quantidade de pessoas numa residência e de cada dez crianças, quatro morriam antes de completar sete anos. No caso dos Aguiar, a morte havia levado três filhos. A esposa fora um caso isolado, morreu de tísica, em 1814. As crianças que nasceram nos primeiros anos do século XIX tiveram mais sorte, todavia não escaparam da epidemia de cólera que assolou Portugal em 1833. Nessa tragédia morreram o irmão José, o pai Antônio e três filhos de Ana. Francisco e Manoel já estavam no Brasil nesse período e casados. Os irmãos Aguiar também tiveram suas pequenas tragédias na família, mas isso é outra história.

            Chegou o dia do embarque, famílias seguiram em bando ao Porto da Ericeira. A Nau Conde de Peniche, que fazia o transporte de passageiros de Portugal ao Brasil estava ancorada no cais a espera dos passageiros. Antônio se despediu friamente dos filhos em casa, já que não estava com vontade de ir prestigiar a besteira coletiva, como dizia ele. Francisco viajava solteiro e Manoel levaria a esposa Geraldina. O casal não tinha filhos e esperavam formar uma nova família no Brasil.

A bagagem com as roupas e objetos pessoas foram despachadas para a embarcação junto com uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. A imagem da santa pertencia à família há mais de cem anos e iria proteger a trajetória rumo ao Brasil. No cais, os irmãos se despediram. Eles não sabiam, mas aquele era o último dia em que a família estaria reunida. 

            – Eu quero que prometam que irão escrever ao chegarem ao Brasil – disse Ana com olhos umedecidos.

            – Pode deixar! O Francisco escreve! Ele é bom nisso – completou o irmão José.

            – E tu Geraldina? Sei que é uma rapariga ajuizada. Peço que cuides deles, como cuidas uma mãe dos seus filhos.  

            – Eles estarão bem protegidos, eu garanto.

            Houve um período de silêncio. Francisco e Manoel não escondiam a ansiedade e olhavam com frequência para o navio que acabara de apitar. Aquele era o sinal de que a nau partiria em breve. Na embarcação já se encontravam boa parte dos passageiros. Ana abraçou Geraldina. As duas choraram. Além de cunhadas, eram amigas de infância.

            – Vamos, acabem logo com isso, se não termino a chorar também – interrompeu José.

            Ana enxugou as lágrimas e respirou fundo.  Mesmo sendo a filha caçula, ela cuidava dos irmãos como filhos, isso explicava a emoção. Do bolso do seu vestido tirou dois pequenos pacotes. Dele saíram lenços brancos e bordados com o nome dela, do pai e do irmão José. Ana passou uma semana inteira na confecção daqueles lenços.

            – Isso é para vocês. É para que não esqueçam de nós. Não se metam em confusão, se papai souber de alguma coisa terá um desgosto.

            – Não precisava se preocupar conosco – disse Francisco.

            – Estaremos bem e ao lado de conhecidos. Se eu não gostar eu volto para Ericeira – tranquilizou Manoel, ao mesmo tempo em que observava o delicado presente. 

            O navio partiu e deixou centenas de braços e lenços bailando no ar. Crianças se despediam dos pais e pais que se despediam dos filhos. Não havia quem não chorasse na despedida. Até mesmo José, que tinha a fama igual aos outros pescadores de não chorar, teve de esconder às pressas uma lágrima que escorreu no canto esquerdo do seu rosto.            

*    *    *          

 
A viagem pelo Oceano Atlântico levou quase dois meses. Os dois irmãos e a maioria dos passageiros não estranharam o movimento da embarcação. O mesmo não podia se dizer das mulheres, crianças e pessoas de outras profissões. Para essas pessoas a primeira semana embarcada foi um teste de sobrevivência. Nada ficava no estômago e doenças gastrintestinais atacaram os passageiros poucos acostumados com o mar. Uma rara exceção entre as mulheres foi Geraldina. A loira  e franzina de olhos verdes ascendia de uma família de pescadores. Quando criança por muitas vezes, esteve a passeio pelo alto mar.

Fora esses pequenos contratempos, o itinerário Ericeira/Rio de Janeiro fora tranquilo. Nada de tempestade e os calafates não precisaram tampar buraco algum no navio. Ainda considerada nova, a nau transportava passageiros de Lisboa ao Rio de Janeiro quatro vezes por ano. No caso dos ericeirenses, a viagem seguiria até Porto Belo. Por oito anos a Charrua Transporte Conde de Peniche, como era oficialmente conhecida, transportou pescadores, agricultores, operários, condes, princesas, escritores, ladrões, jornalistas, atores, médicos, entre tantas outras profissões e ocupações.

A linha entre Portugal e Brasil terminou assim que a embarcação foi anexada a Marinha do Brasil por causa de uma dívida de Portugal com o Governo Brasileiro. A Nau Conde de Peniche foi capturada no dia 5 de julho de 1823 no litoral da Bahia por uma Esquadra inglesa, liderada pelo Almirante Lorde Thomas Cochrane.

            Na popa do navio, Francisco, Manoel e a esposa Geraldina conversavam. A embarcação navegava pelo litoral de Pernambuco.

            – Ó Manoel! Ainda estamos na África? – perguntou espantada Geraldina.

            – Não, segundo o comandante, aqui já é a costa do Brasil.

            – Será que para onde vamos é tão bonito assim?

            – Cuidado Geraldina. Tu podes cair rapariga – alertava o cunhado Francisco.

            A moça de 18 anos se aproximava cada vez mais do parapeito da proa. Era um final de tarde acinzentado de outono. Uma brisa leve e fresca soprava do Atlântico.

            – Esse mar é tão brioso que dá vontade de pular e ficar nele para sempre – disse ela rindo.

            – Deixe de dizer tolices e fique perto de mim – retrucou o marido.

            Manoel puxou Geraldina pela cintura a beijou. Abraçados, o casal permaneceu assim por uma quarto de hora, enquanto apreciava o entardecer. Francisco já com sinais de cansaço e saudades de Ericeira perguntou sobre a aventura no Brasil.

            – Será que fizemos bem em abandonar o pai, José e a nossa querida Ana?

            – Tu querias ficar naquela miséria? Não somos covardes. O que estamos a fazer hoje é algo que nossos filhos irão agradecer no futuro.

            – Você não pensa em desistir? – perguntou desconfiada Geraldina.

            – Não, é claro que não – respondeu Francisco com o olhar no Atlântico e o pensamento na Ericeira.

A Nau Conde de Peniche aportou no Rio de Janeiro, na noite do dia 11 de maio de 1818. Trazia a bordo fora a tripulação e outros passageiros de Lisboa, 101 pessoas que iriam fazer parte da primeira companhia pesqueira do Brasil. A estadia na cidade carioca durou um pouco mais de um dia.

Os ericeirenses foram cadastrados pelo setor de imigração do governo português. O documento com as assinaturas de Francisco, Manoel, Eugênia e tantos colonos podem ser encontrados hoje no Arquivo do Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. No dia 28 de maio, a nau portuguesa chegou à Enseada das Garoupas.

            Ainda na embarcação, os passageiros ficaram assustados com o isolamento do lugar. Rodeada por morros, a pequena baía era formada por uma planície escarpada por diversos lados. As praias de areias muito alvas abrigavam árvores com mais de dez metros de altura. Em 1818, apenas cinco famílias moravam na região, todos portugueses. Um desses moradores tinha uma casa no morro de Zimbros, o mais alto da Enseada das Garoupas.

De lá, em dias claros, era possível  ver as ilhas da Graça, Paz e Tamboretes e o morro do João Dias, na Barra de São Francisco do Sul. Ao Sudeste deste morro se observava a Baía na Barra de Tijucas e o Porto de Ganchos. Ao voltar os olhos ao Sul, a praia de Canasvieiras – em Florianópolis – e os rochedos da Ilha do Arvoredo eram vistos sem muita dificuldade. Já ao Norte, o expectador conseguia ver as praias do Canto Grande, Mariscal e da Enseada das Garoupas. Foi nesse ponto do morro que o morador viu os ericeirenses desembarcarem assustados.

            Os colonos seguiram a pé em direção a uma fazenda, que ficava bem na frente da praia. Um alojamento foi construído provisoriamente para abrigar os novos moradores. Os ericeirenses foram recepcionados pelo Intendente da Marinha de Santa Catarina, o comandante Miguel de Mello e Alvim, e o governador da Capitania João Vieira Tovar de Albuquerque.

O intendente da Marinha ficou responsável pela  medição dos terrenos, que seriam doados como sesmarias. Seus proprietários não podiam vender os mesmos antes completar de dez anos de posse. A medição não prejudicou os poucos moradores do lugar. Na tarde daquele 28 de maio, Tovar de Albuquerque fez as doações dos terrenos. Foi o próprio governador quem entregou os títulos, legalizando as terras recebidas. Além de um padre, o governador anunciou também a contratação de um cirurgião.

            Nos primeiros meses na Enseada das Garoupas, os ericeirenses se ocuparam na construção de suas casas e nas embarcações. Francisco e Manoel receberam um lote de cerca de 40 hectares, onde hoje é a praia de Mariscal, em Bombinhas. O tamanho das terras surpreendeu os irmãos. Depois de fundada, em 1818, a colônia recebeu mais famílias vindas da Ericeira. Diferente da primeira, onde os colonos se estabeleceram em Porto Belo e Bombinhas, na segunda a área de terra distribuída foi maior.

As terras chegavam até a Itajaí. Os últimos colonos da Ericeira chegaram em 1824, depois disso não há mais registro oficial. Outra aquisição feita pela Corte e que beneficiou aos pescadores foi a aquisição de uma lancha pesqueira da Armação da Piedade, núcleo baleeiro mais próximo da povoação. Com a lancha, os ericeirenses iniciaram a pesca em alto-mar na Colônia de Nova Ericeira, que segue até hoje.

            Com o tempo a freguesia da Nova Ericeira progrediu lentamente. A povoação ganhou um juiz, um escrivão e uma escola.  A administração da freguesia cabia à Intendência da Marinha de Santa Catarina e ao Governo da Capitania. Os recursos para a construção das casas, edifícios públicos e barcos de pesca vinham da Fazenda Real, controlada pelo Intendente da Marinha de Santa Catarina, Mello e Alvim.

Com a Independência do Brasil em 1822, tudo que era relacionado a Portugal começou a ser apagado. A Colônia Nova Ericeira conseguiu sobrevier por mais dois anos. No dia 18 de dezembro de 1824, por determinação da Capitania de Santa Catarina, a Nova Ericeira passou a ser chamar Porto Belo.  

            Naquele fim de tarde ensolarado e frio de 28 de maio de 1818, na Enseada das Garoupas, Francisco, Manoel e Geraldina resolveram passear pela praia. Eles foram alertados para não ir muito longe. Havia o perigo dos índios e piratas espanhóis. No fim da praia encontraram os rochedos que seguiam em direção ao mar. Eles sentaram numa pedra para descansar e de lá observaram o mar revolto. Ficaram assim como hipnotizados por cerca de dez minutos. Manoel foi o primeiro a sair do transe.

            – Soube pelo senhor Governador que Napoleão continua preso na Ilha de Santa Helena, na costa da África. Você acredita que a Marinha de Inglaterra interceptou uma galera repleta de piratas franceses? Ela iria resgatar aquele pulha.

            – Napoleão é um homem muito inteligente. Cedo ou mais tarde escapará dessa ilha – disse Geraldina.

            – O melhor seria mandar esse mandrião para a guilhotina – completou Manoel com raiva e cuspindo no chão.

            – O que me deixa com raiva é saber que Napoleão sempre será lembrado, mesmo que tenha destruído a vida de milhares de famílias. Os feitos desse celerado estarão nos livros de história e estátuas serão levantadas em sua honra.

            – Deixa estar Francisco! – exclamou Geraldina, tentando acalmar o cunhado.

            – O que será escrito sobre nós? Dos nossos filhos, netos, bisnetos? Nada, um parágrafo sequer. Valemos mais que Napoleão, mas ninguém registrará nada a esse respeito.

            No momento de raiva, Francisco se levantou e lançou algumas pedras em direção ao mar. O irmão e a cunhada se levantaram e se aproximaram dele. Manoel passou o braço esquerdo pelo ombro do irmão e tentou reconfortá-lo.

            – Eu estou certo de que um dia alguém há de contar. Ouviu Francisco? Um dia alguém há de contar.

            Os três ficaram em pé observando o mar. O crepúsculo começava a estender seu manto negro pela areia. Na fazenda, os lampiões a base de óleo de baleia já eram acesos. O mar, cada vez mais revolto, quebrava incessantemente nas pedras, lavando os rochedos desolados que choram eternamente lágrimas de espumas.