domingo, 25 de dezembro de 2016

Capítulo III - Quatro Ilhas


          De cima de um costão, na Praia de Quatro Ilhas, em Bombinhas, um homem observa o mar. Seu olhar se perde no horizonte e seu pensamento segue um caminho mais longe ainda. Na faixa de areia púrpura e rodeada por morros não há ninguém. O mar está calmo e o dia amanhece nublado e frio. O vento Sul sopra mais forte, o que faz ele puxar a gola do seu espesso casaco de linho preto. Aparenta ter mais de 40 anos, rugas no seu rosto queimado pelo sol confirmam isso. Por entre a touca do pescador, observam-se os primeiros fios de cabelos grisalhos. Estava na mesma posição há mais de oito horas. Quem o visse sentado nas pedras, poderia supor que fosse um homem solitário. Entretanto, naquele dia era apenas um pescador, um vigia da pesca da tainha. Pequenos barcos voltavam do mar, enquanto outros seguiam na direção contrária. Apesar de estar ali, seus pensamentos flutuavam além do horizonte. Talvez pensasse na família, na pesca que naquele ano estava fraca, no time de futebol, numa antiga namorada, nas contas para pagar, na comida que teria que colocar em casa ou tudo isso de uma só vez. Deixemos por enquanto – sozinho – com seus pensamentos.
            Perto dali, numa casinha de madeira de cinco cômodos, uma mulher prepara o café. Em cima da mesa simples, um pacote de pão, um pote de margarina e algumas bananas estão estrategicamente posicionados. A mulher caminha várias vezes até a janela da cozinha. De lá, ela ver toda a extensão da rua. Espera pelo homem que se encontra na praia vigiando o mar. De repente, o relógio de um dos quartos desperta e tira a mulher daquele curto devaneio. A preocupação dela tinha um motivo: a demora do marido. Para uma esposa de pescador isso era até normal, já que os perigos para quem desafia o mar são inúmeros. A inquietação se justificava, pois, durante os anos, ela já acompanhara diversas histórias de pescadores que morreram nessa profissão. O relógio ainda soava estridente, quando entrou no quarto. Duas crianças – dois meninos para ser preciso – dormiam tranquilamente sem se incomodar com o despertador. Com apenas um empurrão, a porta foi escancarada. A mesma mão que abriu passagem desligou o despertador para alívio dos meninos, mas a tempestade apenas começava a se formar. 


            – Acordem seus malandros. Já passa das sete horas. Vamos, tá na hora – trovejou a mulher.
            O máximo que conseguiu de reação foi um gemido de descontentamento. A circunstância pedia uma medida mais rígida e assim fez. A mesma mão que havia escancarado à porta e desligado o despertador, arrancou os cobertores das camas e aplicou alguns tapas nos garotos. Como fazia um dia muito frio, a tática dera certo. Os meninos ainda de pijamas tentaram se encolher do frio, mas não houve jeito. A mão da mulher foi mais rápida e em pouco tempo a dupla já se encontrava desperta.
            – Vamos, em pé! Rápido. Vocês vão se atrasar pra escola.
            – Tá bom, não precisar bater – reclamou um dos meninos.
            – Tenho que bater sim. Vocês dois só entendem as coisas na base dos tapas.
            – Eu não gosto da escola, prefiro ir pescar – respondeu o garoto chamado Pedro.
            – Não diga tolices. Se teu pai ouvir isso, não sei o que ele faria contigo.
            – O Pedrinho tá certo, na escola é muito chato – retrucou o irmão Augusto.
            – Vamos! Andem logo! O café vai esfriar!
            – O pai já chegou?
            – Ainda não.
            O “ainda não” tinha tanta agonia, que provocou até um comentário de Augusto, assim que a mãe saiu do quarto.
            – Pedro, a mãe tá preocupada com o pai. Será que aconteceu alguma coisa com ele?
            – Não sei, mas não ligue para isso! As mulheres se preocupam à toa mesmo.
            O homem que ainda permanecia na praia se chamava Norberto e a mulher que o aguardava Ofélia. Ele e a esposa também ascendiam dos portugueses da Ericeira. Norberto olhava com atenção para o mar, sempre à procura de alguma coisa diferente. Era o mês de maio de 2007, apesar disso nada de aparecer os primeiros cardumes de tainha. Até aquela data, nenhum lanço havia sido dado. Embora a pesca da tainha não fosse a principal fonte de renda das famílias de pescadores de Bombinhas, ela servia para manutenção das redes, canoas e como uma renda extra para quem estava empregado. Esse era o caso de Norberto. O morador de Bombinhas fazia parte dos cerca de 200 mil pescadores profissionais no Brasil, 50 mil somente em Santa Catarina. Na espera que o barco onde trabalhava ficasse pronto, Norberto fazia um serviço extra como vigia da pesca da tainha. Assim que o cardume aparecesse, ele, por meio de um telefone celular, faria o contato com o patrão e mais seis funcionários que permaneciam em um rancho, na outra ponta da praia de Quatro Ilhas. Depois de avisados, os homens colocariam as canoas na água e, em questão de minutos, fariam o cerco ao cardume. Às vezes eles traziam para a areia milhares de tainhas. No entanto, naquele ano nenhum peixinho havia aparecido para contar história.
            Josevaldo, o pescador que faria a vigília da tainha durante o dia, se aproximou de Norberto. Estava atrasado, já passava das oito horas. O combinado era que chegasse às sete. Sem dizer uma palavra, os dois homens se despediram.  Norberto se encontrava tão cansado que não tinha forças para discutir com o colega de trabalho. Saiu do costão e entrou por um caminho na mata. A mesma trilha que os primeiros ericeirenses abriram assim chegaram ao litoral Sul do Brasil servia agora de atalho. Caminhou na direção de casa que ficava a um quilômetro de distância. Ao parecer no portão, a mulher já o esperava. Com alívio, ela o beijou e os dois entraram abraçados.
            – O que aconteceu? – perguntou Ofélia bem próxima do marido.
            – Aquele dorminhoco do Josevaldo chegou atrasado de novo. Não perguntei nada para aquele sujeito à-toa.  Se eu fizesse, ele certamente contaria mais uma desculpa esfarrapada e para não meter a mão na cara dele resolvi não puxar conversa. O mar ajudou a colocar a cabeça do lugar. Onde estão os meninos?
            – Na escola. Você precisa conversar com os dois. Eles estão cada dia mais desobedientes – dizia Ofélia, ao mesmo tempo em que o enchia de carícias.
– Eu vou falar com eles. O que há com você? – perguntou o marido friamente.
– Nada, uma mulher não pode ser carinhosa com seu homem?  Vamos para o quarto, preciso falar mais uma coisa.
            Norberto se desvencilhou das garras apaixonadas de Ofélia e saiu da mesa, depois de tomar dois goles de café.
            – Hoje eu não posso, preciso ir para os Ganchos.
            Embora tivesse com muita vontade de ficar em casa, Norberto precisava aparecer na empresa de pesca, onde trabalhava. Ela ficava em Governador Celso Ramos, município vizinho a Bombinhas, conhecido também como Ganchos. Existem apenas duas maneiras para chegar até Governador Celso Ramos: uma por terra e outra por mar. Norberto escolheu a primeira. No ônibus de uma empresa de transporte coletivo de Balneário Camboriú, o pescador faria a viagem pelas rodovias BR-101 e SC-410. O trajeto, em média, levava meia hora para ser percorrido de ônibus. Ainda que a informação não conste nos livros de história, é certo que a região de Ganchos – pela proximidade geográfica – recebeu muitos colonos da Ericeira. A cidade tem na pesca e no turismo as duas principais fontes de renda. Norberto ficaria até o meio dia arrumando as redes e outros equipamentos do barco. Como naquele dia de outono ele estava atrasado, chegou em casa depois das 14 horas.
 
                                                             *    *    *
            No rancho de pesca da praia de Quatro Ilhas o movimento foi grande. A notícia de que em Florianópolis havia sido dado um lanço de dez mil tainhas deixou os pescadores em alerta. Josevaldo – o vigia de plantão – também foi avisado e a recomendação era para dobrar a atenção, no caso dele redobrar. Tudo indicava que ainda naquela quarta-feira, o primeiro cardume chegaria. A média da produção da tainha na costa Sul-Sudeste do Brasil chega a atingir 20 mil toneladas por ano. O pescado faz a desova na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, a partir do mês de abril. De lá a tainha se espalha pelo litoral brasileiro, uruguaio e argentino. Mas, é no litoral de Santa Catarina que ela é mais abundante. Grande parte do cardume nada em direção ao Norte, foge das águas mais frias da bacia do Prata. Como o litoral catarinense é rota de grande parte das tainhas, muitos peixes ficam aqui. O Estado é líder nacional na captura do pescado. Das redes lançadas ao mar, saem o correspondente a 70% da produção nacional. A pesca da tainha termina em julho e dá lugar à pesca da anchova. Enquanto julho não chegava, os pescadores do rancho da praia de Quatro Ilhas tinham o pensamento voltado apenas para a tainha.
            – Tão falando que o pessoal da Lagoa da Conceição pegou vinte mil tainhas – dizia um pescador.
            – Isso é uma besteira. Ainda tá muito cedo para aparecer tanto peixe assim – respondeu o patrão.
            – Acho que não – opinava outro.
            – Avisasse o Josevaldo? – perguntou o chefe preocupado.
            – Sim, eu precisei acordar o infeliz, estava cochilando.
            – Aquele malandro! Eu não o deixo fazer a vigia de noite porque sei que vai dormir no trabalho. O que faz a noite então? Será que o animal não dorme?
            – Parece que a mulher gorda dele não o deixa uma noite livre. Não é à toa que ele está com uma penca de filhos. 
            Todos começam a rir e a fazer comentários sobre a vida de alcova de Josevaldo. Depois, com clima mais sério, o patrão continuou a conversa.
            – É por causa dos filhos que não tenho coragem de colocá-lo na rua. O Landinho olhasse as redes, na última vez peguei uma cheia de...
            A conversa foi interrompida pelo anúncio de um radialista. No rancho, entre as montanhas de redes de pesca, caixas para colocar peixes e outros objetos, havia um aparelho de rádio sintonizado numa emissora de Florianópolis. O radialista trazia a notícia de uma pescaria da tainha na Ilha – Ilha de Santa Catarina, onde está localizada a capital catarinense.  Os seis homens que estavam no rancho se aproximaram do rádio, um deles fez questão de aumentar o volume do aparelho.
“Pescadores do Sul da ilha acabaram de pescar mais de 15 mil tainhas. O lanço, como é conhecido à pescaria, começou por volta das 6 horas desta quarta-feira, dia 23 de maio de 2007. Populares ajudam neste momento no arrastão do peixe. Segundo as primeiras informações, o lanço é um dos maiores dos últimos cinco anos, em Santa Catarina. Além de Florianópolis, cardumes de tainhas foram vistos em Tijucas e Governador Celso Ramos. Mais notícias sobre a pesca da tainha no jornal do meio-dia”.
            A tainha encontrava-se próxima e os pescadores esperavam o primeiro cardume para o fim da manhã. A pesca não trazia apenas um salário extra para suas famílias e sim um acontecimento fantástico na cidade. Mulheres, idosos e crianças saíam de casa e seguiam para a praia mais próxima, onde era realizado o lanço. As pessoas se aglomeravam para o arrastão. Mãos de todos os tipos e de todas as idades puxavam a rede. No final da pescaria cada um podia levar a sua tainha gorda e suculenta para a casa.
            – Manoel! Corra lá no costão e ajude aquele preguiçoso do Josevaldo a vigiar o mar. Se der tudo certo vamos ter tainha no almoço – ordenou o patrão.
            Manoel, um garoto franzino que mal saíra da puberdade, não teve tempo de colocar o casaco. Do jeito que se encontrava, com uma camiseta branca e calça de moletom, saiu correndo em direção ao costão direito da praia de Quatro Ilhas. Pela areia fofa e branca, o garoto desafiava o frio e o vento daquela manhã de outono.
                                                                  *    *    *
            Quando Norberto desceu do ônibus, em Bombinhas, faltavam dez minutos para as duas horas da tarde.  O bar estava aberto e lá foi a sua primeira parada. Ele não era de beber, mas mantinha o costume de tomar um copinho de aguardente para abrir o apetite e também colocar a conversa em dia com os colegas de pesca. Soube da pescaria da tainha em Florianópolis. Contrariando a previsão do seu chefe, o cardume ainda não havia aparecido até àquela hora. Ficou pouco tempo no bar e logo se colocou a caminho de casa. Almoçou e foi conversar com os filhos Pedro e Augusto. Encontrou os meninos no quarto assistindo televisão. Antes que Norberto fale com os filhos, contarei um pouco da vida dos garotos.
            Pedro era mais o velho e tinha 11 anos. Estudava numa escola municipal de Bombinhas. Cursava a quarta série do ensino fundamental, na mesma sala do irmão caçula Augusto, um ano mais novo. Estudavam de manhã e à tarde acompanhavam a pescaria na praia de Quatro Ilhas.  Os meninos tinham uma infância normal. Estudavam, brincavam, sonhavam, afinal eram crianças. No entanto, Pedro e Augusto seguiam o caminho do pai, mesmo que ele não desejasse para os filhos aquele destino. O pai, o avô e bisavô de Norberto sempre foram pescadores e ele não queria o mesmo futuro para os filhos. Se fosse estudar a genealogia dele, seu tataravô que veio da Ericeira já era pescador. A vida do homem do mar não é fácil. Pela lei trabalhista brasileira, o profissional da pesca tem que trabalhar igual ao homem da terra, ou seja, 35 anos. Como no setor pesqueiro existem os defesos – períodos em que a captura de uma determinada espécie é suspensa para proteger a reprodução – os pescadores profissionais se aposentam com mais de 40 anos de atividade. Além de ganhar pouco, muitos trabalhadores nem chegam a se aposentar. No máximo, recebem uma pensão por invalidez. Isso quando não perdem a vida no mar. Por lei, o pescador que trabalha embarcado tem o direito de receber um salário mínimo, caso o barco em que ele trabalhe não capture nada. As partes – como é chamada a divisão do pescado capturado – variam de acordo com a produção. Pescador profissional, Norberto trabalhava para uma empresa do ramo. Tinha mês que ele ganhava mil reais e períodos no qual sustentava a família com menos de R$ 400,00. O pescador não queria este futuro para os filhos e por isso resolveu conversar com eles naquele dia. 
            – Desliguem a televisão – ordenou ao entrar no quarto.
            Os garotos correram na direção de um homem magro, de cabelos grisalhos e com uma tatuagem de tubarão desenhada no braço direito.
            – Já estou pronto. O Augusto também.
            – Pra quê? – perguntou o pai espantado.
            – Ora, pra cercar a tainha. O pessoal da escola não falou outra coisa na manhã toda. O pai do Gustavo comprou uma rede e do Oscar um...
            – Não quero saber do pai do Gustavo – gritou Norberto.
            Cabisbaixos os meninos ouviram decepcionados o pai continuar o sermão.
            – Eu não vim convidar pra ir até a praia. A mãe de vocês disse que os dois estão muitos desobedientes e não querem ir pra escola.
            Os dois meninos sabiam que o pai não gostava que eles faltassem às aulas. Sentados à beira de uma das camas, os garotos permaneceram calados, pois não queriam repetir a opinião deles sobre a chatice da escola na presença do pai.
            – Então, perderam a língua? Pedro, você é mais velho, deveria dar o exemplo para o teu irmão? O que você faz? O incentiva a faltar às aulas! Eu já conversei com os dois mais de cem vezes sobre os estudos.
            – Mas pai, a escola é...
            – Não pedi a tua opinião Augusto. Vocês precisam estudar, querem ser igual ao seu pai? Ter que se matar de trabalhar para colocar dinheiro em casa. Não vêem como a mãe de vocês fica preocupada quando eu vou pro mar? Querem que ela fique preocupada com os filhos também?
            – Hoje fomos pra escola.
            – Eu sei que vocês foram, mas quero que não faltem e estudem bastante. Eu não posso ajudar na lição de casa, não sou inteligente, mas quando precisar peçam ajuda dos professores.
            – Eu sempre peço ajuda, a professora Margarete...
            – Espere, eu não terminei Augusto. Quero que prometam uma coisa. Não importa o que aconteça comigo, os dois vão continuar os estudos até o final.
            – O que vai acontecer contigo pai? – perguntou Pedro arregalando os grandes olhos castanhos claros.
            – Nada, mas o mar é traiçoeiro e pode acontecer de tudo.
            – O mesmo que aconteceu com o tio do Rafael?  – perguntou Augusto.
            Em junho faria dois anos que um barco de uma empresa pesqueira de Itajaí naufragou no litoral do Rio Grande do Sul. O tio do colega de escola dos garotos  chamado Fernando e mais um tripulante da região de Ganchos morreram. Embora a Marinha tenha realizado as buscas de praxe, o corpo de Fernando jamais fora encontrado.
            – O mesmo que aconteceu com o Fernando. Vocês se lembram que a mãe dele pedia para não embarcar? Eu quero que vocês prometam que vão estudar bastante pra ser alguém na vida e dar mais conforto à mãe de vocês.
            – Prometemos – disseram os garotos ao mesmo tempo.
            – Então tá combinado. Abracem bem forte no seu velho pai.
            A mãe entrou no quarto para dar um recado e encontrou o marido já preparado para sair.
            – O Manoel tá aí na frente, quer falar contigo.
            – Certamente é para me avisar sobre a vigia de hoje.
            Ainda com camiseta e calça moletom, o franzino Manoel deu a notícia tão esperada para os moradores de Bombinhas. O primeiro cardume fora avistado e o pessoal se preparava para fazer o cerco.
            – Pedro! Augusto! – gritou Norberto.
            – O que foi? – perguntou Pedro.
            – Vocês não disseram que estão prontos, vamos?
            – Eu também vou – disse Ofélia, tirando o avental e jogando-o bem longe.
            Pela rua de terra batida a família de Norberto não foi à única que caminhou em direção a Quatro Ilhas. Com 800 metros de extensão, a praia possui o mar mais calmo no costão esquerdo e mais agitado no direito. É nesse último costão que se faz a vigia da tainha. Próximo a areia da praia há o monumento Cruz de Quatro Ilhas, onde todos os anos, no dia 3 de maio, flores são ofertadas para agradecer a pesca. Naquele dia ninguém foi à praia para agradecer, mas sim para garantir o peixe do jantar. A faixa de areia estava lotada, muitos se espremiam para ver o cerco, que era feito por três canoas. Uma mancha avermelhada no mar era vista na areia. As tainhas saltavam fora da água como se quisessem agradecer pela recepção dos moradores de Bombinhas. Elas bailavam no ar e algumas pulavam nas canoas. Com as redes cheias de peixes, foi à vez de quem se encontrava na praia ajudar. Sem se importar com a água gelada e o vento Sul, as pessoas entravam no mar. Puxavam, puxavam e nas redes apareciam mais e mais tainhas. Enquanto faziam esse serviço, elas tagarelavam.
            – E o Zé disse que hoje não chegaria nenhuma tainha – dizia um morador de Bombinhas.
            – Talvez ele pense que isso seja galinha – respondia uma senhora idosa com uma sonora gargalhada.
            – Tomara que tenha mais de cinco mil. Eu apostei com pessoal do bar que hoje o lanço seria mais de cinco mil – falava um rapaz ruivo com boné alaranjado.
            – E o que você apostou? - perguntou um turista.
            – Uma caixa de cerveja – respondeu o jovem olhando o forasteiro com o canto do olho.
            A conversa seguiu até o fim da tarde. As pessoas estavam felizes. À noite, cada um que ajudou na pesca e até mesmo quem foi até a praia somente para olhar, levou sua tainha para a casa. O rapaz além de ter acertado na aposta não acreditou assim que totalizaram a contagem dos peixes. Haviam sido pescadas 16.500 tainhas, número superior ao que foi capturado durante a manhã, em Florianópolis: 15.415.
                                                               *    *    *
            Uma onda com quase um metro de altura bateu no costão direito da praia de Quatro Ilhas.
            – Então, onde estamos é um ponto de vigia da tainha? – perguntei já me protegendo de uma segunda onda ainda maior.
            – Sim, foi nesse mesmo ponto, onde você está sentado, que ficou Norberto, Josevaldo e o garoto Manoel, durante a vigia da pesca da tainha. Este ano, Norberto não vai ser vigia.
            – Por quê?
            – Ele foi trabalhar em Santos.
            – O que aconteceu com os garotos?
            – Passaram de ano e para orgulho do pai disseram que pretendem ser engenheiros navais.
            – Você disse que essa praia se chama Quatro Ilhas. Até agora ainda não descobri nada que explicasse o tal nome. Bombinhas não é uma ilha e daqui só consegui ver uma ilha apenas. Existem outras?
            – Os mais antigos ainda a conhecem por praia de Fora. O nome atual é por causa de quatro ilhas que podem ser observadas daqui em dias claros: Arvoredo, Deserta, Calhau de São Pedro e Galés. É nessa última ilha que a nossa história continua, precisamente no dia 11 de outubro de 1980.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Capítulo II - A culpa foi de Napoleão

                                                                              
           
              
              No ano de 1793, quando Napoleão Bonaparte recebeu a patente de general do exército francês, com apenas 24 anos, nascia na freguesia da Ericeira, em Portugal, Francisco Antônio Aguiar. O que o luso não sabia, era que o destino dele e de centenas de famílias da Ericeira estariam ligados, mesmo que indiretamente, com o desejo expansionista do general corso. A família do português passou o fim do século XVIII e o início do XIX, sempre com a ameaça de seu país ser invadido pelas tropas francesas. Em 1801, a ameaça deixou de ser apenas especulação para tornar-se oficial. A Espanha aliou-se à França e atacou Portugal, que se recusava fechar os portos à Inglaterra. Em Portugal, o príncipe regente Dom João, que a partir de 1818 viria a ser conhecido como Dom João VI, até tentou enganar Bonaparte com a promessa de que não tinha mais nenhum negócio com os ingleses. Promessa essa que o príncipe regente jamais conseguiu cumprir, uma vez que a economia portuguesa estava ligada estreitamente à Inglaterra.

            Dom João fez de tudo para não abandonar Portugal. Chegou a oferecer o casamento de seu filho, Dom Pedro, de apenas nove anos, a uma sobrinha de Napoleão. Por seis anos ele ganhou tempo até que, em agosto de 1807, Bonaparte perdeu a paciência e lhe enviou o último recado: “Ou fecha imediatamente os portos à Inglaterra ou o exército francês invade Portugal”. Intimidada, não houve outro jeito a corte portuguesa se não partir. No entanto, uma pergunta havia ficado no ar: para onde? No dia 22 do de outubro do mesmo ano, um encontro entre representantes dos reinos de Portugal e Grã-Bretanha instaurou, mesmo que secretamente, um acordo e a resposta para questão. Nele encontrava-se a transferência da monarquia portuguesa para o Brasil.

            – Como será feito o transporte da corte? – perguntou o representante inglês.

            – Tem que ser de uma maneira que não provoque aborrecimentos para família real – sugeriu um oficial português durante a convenção secreta.

            – A frota de Sir Sidney Smith fará a segurança da família real. O prazo é de menos de um mês para fazer a retirada para o Novo Mundo – continuou o inglês com dificuldade para pronunciar cada palavra.

            – E para que tanta pressa? – questionou um alto funcionário da corte portuguesa.

            – Temos informações que o general Junot entrou em Espanha. Bonaparte já o autorizou a invadir Portugal. O 1º Corpo de Observação da Gironda encontra-se agora a caminho de Salamanca.

            De Salamanca, o general francês Jean-Andoche Junot, comandante das tropas de Napoleão, chegou a Valência e de lá ultrapassou a fronteira entre Espanha e Portugal no dia 17 de novembro de 1807. Cinco dias depois, o lorde Strangford, embaixador britânico em Portugal, entregou um exemplar do jornal Le Moniteur de Paris ao príncipe regente.

      – Como a Casa de Bragança deixou de reinar em Portugal? Quem declarou essa blasfêmia?

            O tom das perguntas de Dom João retratava o grau de revolta que provocou na família real portuguesa aquelas poucas, todavia significativas linhas do jornal parisiense. 

      – Bonaparte – respondeu secamente Strangford.

      – Aquele maldito! Celerado! O que ele quer de nós? – gritou o príncipe regente  jogando ao mesmo tempo o jornal longe.

      – Vossas cabeças.

      – Isso são modos de falar com um monarca sir Strangford – continuou Dom João ainda muito nervoso e se ajeitando no trono.

      – Pelo que sei, alteza, vossa mãe ainda é rainha de Portugal, como ela não está em condições de tomar uma decisão razoável.

      Na sala de audiência do palácio reinou por dois minutos um silêncio de morte.  Dom João pensava na audácia do general corso que a cada dia perdia todo o limite. Como o príncipe regente ainda pensava, sir Strangford decidiu falar.

      – Peço-lhe que embarque imediatamente ao Brasil.

      – E o senhor considera essa sua proposta uma decisão razoável. Minha mãe dentro da sua demência tomaria uma mais digna.

      – A corte precisa partir sem demora. A vanguarda do exército francês já se encontra em Portugal. No máximo em uma semana ela entrará em Lisboa com ordem de capturar toda a família real. Não espere complacência de Bonaparte porque não a terá – alertou sir Strangford num tom ríspido.

      – Quem está à frente do exército?

      – Junot.

      – Aquele traidor! Eu já desconfiava. Era muito simpático e cortês demais. Os bem educados são os mais perigosos. Quando poderemos partir então sir Strangford?

            O ultimato de lorde Strangford dera resultado e o destino do jovem ericeirense Francisco começava a ser traçado pelas aquelas poucas, mas proféticas linhas do Le Moniteur de Paris. No dia 29 de novembro de 1807, com medo de ser aprisionado, o príncipe regente Dom João decidiu transferir à corte para o Brasil. Levou consigo metade de Lisboa. A outra metade observou sem reação, a vanguarda do exército francês acompanhada por Junot entrar na capital. A partir de 30 de novembro, todas as instituições da administração central passaram para o domínio francês. Quem era esse tal de Junot, no qual Bonaparte havia confiado Portugal?

            A história do general francês tem dois períodos bem distintos. Ele foi considerado herói e vilão num curto espaço de tempo. Como soldado, Junot sempre se distinguiu pela bravura. As campanhas na Itália e Egito ajudaram-no a conquistar a patente de general e o reconhecimento de Napoleão. Em 1804, foi escolhido representante diplomático em Lisboa, onde permaneceu durante um ano. Dois anos depois, em 1807, retornou à Península Ibérica para expulsar os ingleses de terras lusas. Nomeado governador geral de Portugal, Junot não conseguiu cumprir a missão que fora dada por Bonaparte. Para não ser massacrado pelas tropas inglesas e, principalmente, pela população portuguesa, o general francês foi obrigado a assinar uma trégua para que ele e seus soldados abandonassem Portugal. Trégua essa que Bonaparte não autorizou.    

            A partir daí, a história de Junot começou a mudar e a Campanha da Rússia apenas comprovou que o mocinho era, na verdade, um bandido. Uma dessas mostras do verdadeiro caráter do francês aconteceu na batalha de Smolensk, aldeia localizada a 80 quilômetros de Moscou, no dia 17 de agosto de 1812. Ele fora acusado de facilitar a retirada do exército russo, por meio de suborno. A mesma acusação fora feita também em Portugal. Sem provas para afastá-lo, Napoleão lhe deu mais uma chance. Essa oportunidade se chamava Borondino. A batalha na pequena aldeia Russa foi a mais sangrenta das guerras napoleônicas. Ela aconteceu no dia 7 de setembro de 1812.  Comandando o 8ª Batalhão do Exército Francês, Junot não demonstrou competência para vencer a disputa com os russos. Precisou de um pouco de sorte e de Bonaparte. De Borondino, com seus quase cem mil mortos – 36 mil franceses e 58 mil soldados russos – o exército de Napoleão seguiu para Moscou. Encontrou a cidade em chamas e desabitada. Bonaparte sem alternativa retornou à França. No auge do inverno russo – onde naquele ano as temperaturas chegaram a 45 graus negativos – o exército francês, sem suprimentos, foi massacrado. Primeiro pelo frio, em seguida pelos soldados do Czar Nicolau II, que vieram com tudo na retaguarda. Napoleão tirou duas lições na Campanha da Rússia. A primeira delas era para nunca subestimar seu inimigo. A segunda dizia respeito à escolha dos seus generais.

            O que os russos sofreram por causa de Napoleão, os portugueses sentiram na pele cinco anos antes. A diferença entre um caso e outro é que em Portugal as tropas francesas não encontraram resistência, ao menos no começo da ocupação. O príncipe regente assim que abandonou o país, deixou instruções para que não se oferecesse oposição aos franceses. “Seria mais nociva que proveitosa, servindo apenas para derramar sangue", dizia o documento assinado por Dom João.

            No começo de 1808, o jovem Francisco, então com 15 anos, viu as tropas francesas, comandadas pelo general Luison, o Maneta, entrar tranquilamente pelas ruas estreitas da pequena Ericeira. A invasão também aconteceu pelo mar. Navios franceses tomaram o porto da [1]cidade, um dos principais de Portugal naquela época. O mesmo garoto viu também os soldados saquearem as casas. Nem mesmo a igreja foi poupada. Quase tudo foi entregue por ocasião do imposto de 1808, que Napoleão estabeleceu ao reino. 

            Antes de invadir Portugal, Junot recebeu três ordens de Napoleão: aprisionar o príncipe regente, dissolver o exército e eliminar as milícias portuguesas. Até dezembro de 1807, haviam 816 organizações militares que recrutavam todos os homens entre 18 e 60 anos. Somente uma das determinações de Bonaparte foi cumprida: a de dissolver o exército. Em terras lusas, a primeira medida do general francês foi enviar um aviso a todos os portugueses. A ordem de 12 de Maio de 1808, documento escrito em português e francês dizia o seguinte:

"Continuem a viver tranquilos e a ter confiança no general em chefe Napoleão, porque os dias da sua organização definitiva e da sua felicidade estão próximos”.

            Entretanto, as palavras de Junot eram incoerentes quando comparadas com seus atos. Napoleão precisava de muito dinheiro para custear a guerra e para conseguir esses recursos não restava outra opção se não impor altas cargas fiscais ao povo. Aliado a isso, o confisco do ouro e da prata que se encontravam nas igrejas, capelas e confrarias do país foi muito usado pelos franceses. O resultado da ousadia do general corso foi à declaração oficial de guerra, assinada por Dom João, no Brasil. Assim que souberam da novidade, os portugueses partiram para o ataque. A primeira revolta eclodiu na cidade do Porto, no dia 9 de maio de 1808. Com a ajuda do general espanhol Bellesta, o príncipe regente de Portugal foi imediatamente reposto ao trono e a bandeira nacional hasteada em praça pública. Mesmo com a retomada do controle por parte do exército francês, a notícia se espalhou e o movimento de revolta contra o domínio estrangeiro atingiu todo o país.

            Na Ericeira, a população armada se posicionou estrategicamente e expulsou os soldados franceses. A mesma luta se repetiu em dezenas de vilas. No dia 18 de julho, o general francês ao perceber que não conseguiria acabar com as revoltas populares convocou todo o exército para se dirigir a Lisboa. Com as tropas inglesas já em solo luso, não restou outra opção para Junot, se não assinar uma trégua com o exército e as milícias para deixar Portugal. Dois meses depois, exatamente no dia 2 de setembro, as tropas de Junot e Luison foram expulsas para a alegria da família do jovem Francisco e da população portuguesa.  Depois de 1808, os franceses retornaram mais duas vezes para Portugal e por mais duas vezes foram expulsos, sempre com a ajuda inglesa.

            Bem longe dali e de todas as agitações das invasões francesas, Dom João e a corte aportavam em Salvador. Era 22 de Janeiro de 1808. Seis dias depois, o príncipe regente decretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas. É claro que a Inglaterra foi a maior beneficiada com a medida. Em março, Dom João transferiu toda à corte para o Rio de Janeiro, transformando a cidade em sede da Monarquia. Ali formou o seu ministério, liberou a criação de indústrias, atacou e ocupou a Guiana Francesa, com a ajuda de um filho de um ericeirense, o então alferes do exército José da Silva Mafra. Entre seus feitos, Dom João fundou escolas, bibliotecas e bancos.

            Os anos passaram, na Europa o exército francês, cada vez mais fraco, perdia diversos combates. O maior deles foi o de 1812, na Rússia.  A queda de Napoleão não demorou muito; aconteceu em 16 de dezembro de 1815 na celebre batalha de Waterloo, hoje território Belga. No ano seguinte, no Brasil, morreu Dona Maria I, mãe de Dom João, conhecida também como Maria, a louca. Primeira mulher a governar Portugal, Dona Maria, ficou pouco tempo no poder. O seu reinado durou apenas 15 anos, de 1777 a 1792. Com a morte do primogênito Dom José, aos 26 anos, a rainha que já apresentava sinais de demência, piorou de vez. Sem capacidade para dirigir os assuntos de Estado, o filho e herdeiro Dom João assumiu o controle do reino. Nesta situação ela permaneceu durante 24 anos.  A coroação de Dom João ocorreu em fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro, dois anos após a morte da mãe. O novo soberano foi coroado como Dom João VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

            A vinda da corte portuguesa transformou o Brasil e seus hábitos. Os portos foram abertos às nações amigas, o novo país viu o nascimento da imprensa – embora sem muita liberdade –, o crescimento da indústria, o início das atividades nas faculdades e a instalação do Banco do Brasil. No entanto, uma medida em especial influenciou diretamente o destino do jovem Francisco e de centenas de moradores da Ericeira. A freguesia portuguesa com tradição pesqueira milenar foi escolhida por Dom João para inaugurar a primeira companhia pesqueira do Brasil, denominada Colônia Nova Ericeira. Se ainda existisse, o antigo empreendimento luso abrangeria atualmente os territórios de nove cidades do Estado de Santa Catarina.

            Além de explorar o grande potencial pesqueiro, que era o mar do Brasil em 1818, o rei queria afastar o perigo de uma possível invasão espanhola. A pedido do soberano, uma expedição percorreu todo o litoral da Região Sul para a escolha do local da futura povoação. O plano era fundar uma colônia de pescadores nos mesmos modelos das vilas pesqueiras existentes em Portugal. O local indicado para sediar o empreendimento foi a Enseada das Garoupas, hoje cidade de Porto Belo. A expedição designada por Dom João VI não escolheu a Enseada das Garoupas por acaso. O local indicado era considerado de fácil ancoradouro para embarcações.


*   *    *

            Na Ericeira, seus moradores se encontravam em alvoroço com a notícia do embarque para o Brasil. O jovem Francisco com 24 anos recebeu a novidade quando arrumava a embarcação da família chamada Galés. A Praia dos Pescadores se encontrava deserta no começo do inverno de 1817. Pedro Rodrigues, amigo de Francisco, foi o primeiro dar a boa nova.

            – Ó Francisco, hoje temos finalmente uma novidade.

            – Que novidade? – perguntou sem dar muita atenção à conversa do amigo.

            – Um oficial de Lisboa esteve a conversar com alguns pescadores na Praia de Sebastião. Ele disse que está a contratar mão-de-obra para trabalhar nas terras do Brasil.

            – O que tem no Brasil?


*    *    *

            Antes que Pedro responda ao amigo o que tem no Brasil, preciso resumir o que foi o novo empreendimento para o litoral de Santa Catarina. Sobre esse diálogo retornarei mais tarde. Em maio de 1818, depois de três meses de viagem, a Nau Conde de Peniche aportou na cidade do Rio de Janeiro. Trazia 101 pessoas da Ericeira. Eram homens e mulheres que fugiam da guerra e da fome na Europa. No mesmo mês, os lusos chegaram à Enseada das Garoupas. Além de pescadores, haviam também barbeiros, alfaiates, sapateiros, um médico, um boticário e um  padre. Distribuídos os terrenos, os ericeirenses começaram a construir casas e embarcações. 

             A igrejinha foi construída e recebeu o nome de Capela de Bom Jesus dos Aflitos. A responsabilidade pela administração da nova povoação ficou com o  Intendente da Marinha, Miguel Souza Mello e Alvim. Já o governador da Província de Santa Catarina, João Vieira Tovar de Albuquerque, ficou responsável por oferecer equipamentos, sementes e um soldo inicial para os recém-chegados. Como os novos colonos estavam mais inclinados à pesca, logo ele providenciou a construção de embarcações e os ericeirenses iniciaram à atividade pesqueira.            

Apesar de todas as dificuldades, os ericeirenses conseguiram dar continuidade a colônia. Quatro anos após a chegada da primeira leva de imigrantes, outras duas aportaram no litoral de Santa Catarina.  Com a Independência do Brasil, em 1822, a Colônia Nova Ericeira ficou conhecida por Porto Belo. Os anos passaram e Porto Belo deixou de ser grande. A cada ano seu território diminuía. Ainda no século XIX, a cidade sede da Colônia Nova Ericeira ficou subordinada a cidade de Tijucas. No entanto, a mudança definitiva aconteceria no século seguinte. As emancipações traçaram novas linhas no mapa da cidade. Do antigo empreendimento pesqueiro surgiram nove municípios: Porto Belo, Tijucas, Camboriú, Balneário Camboriú, Itapema, Bombinhas, Navegantes, Itajaí e Governador Celso Ramos (Ganchos). Oficialmente a Colônia Nova Ericeira deixou de existir, em 1824, mas passados mais de 180 anos, ela continua viva na tradição pesqueira e nos seus descendentes.
 

*    *    *

            Um bando de gaivotas atravessou o cemitério em direção à praia. Tentei seguir os pássaros com os olhos, mas logo o meu xará se levantou. Fiquei a observá-lo para ver se a história havia terminado. Uma frase dele no começo da conversa havia me intrigado. Resolvi então perguntar.

            – Você falou no começo que a culpa era toda de Napoleão, por quê?

            – Se não fosse por ele, nada disso teria acontecido. Dom João não teria ido para o Brasil, não existiria Colônia Nova Ericeira e muito menos teríamos essa conversa hoje. Então entendo que “a culpa” foi de Napoleão, que direta e indiretamente modificou o destino de milhares de pessoas no mundo inteiro. 

            Como a nossa posição no cemitério não era muito cômoda, resolvemos sair dali. Conheci então o restante da família de Paulo Aguiar. Esposa, filhas e sobrinhos do doador me receberam como um filho que regressa para casa depois de anos afastado. Confesso que achei estranha a recepção, mas no fundo gostei. De Navegantes, a convite do jovem, fui conhecer a antiga Colônia Nova Ericeira, não Porto Belo e sim a cidade vizinha Bombinhas. Na praia de Quatro Ilhas, o rapaz continuou a narrativa dos descendentes dos colonos que vieram da Ericeira. E ela estava apenas no começo.


[1]          Por questões políticas, Ericeira deixou de ser município e passou a ser freguesia (bairro) a partir de 1855. Hoje está subordinada a cidade de Mafra.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Conheça a caneja de infundice


A caneja (cação) de infundice é um prato típico da Ericeira e patrimônio gastronômico da vila portuguesa 

Diz a lenda, que um pescador depois de lavar a caneja (espécie de cação) com água do mar e embrulhá-la com jornal, foi para casa esquecendo o pacote dentro do pequeno barco. Depois de 15 dias, o pescador encontrou o embrulho com o peixe. Ele retirou o papel e a primeira reação foi tapar o nariz devido ao forte cheiro de amoníaco.

Apesar do cheiro de urina, o peixe não estava estragado e conservava ainda uma ótima aparência. O pescador resolveu não jogar o peixe fora. Ele o cozinhou e para sua surpresa o sabor da caneja era saboroso, embora muito forte. Acompanhado de um vinho tinto e azeite de oliva, o peixe foi consumido todo pelo pescador, que espalhou a novidade pelos quatro cantos.

Nascia assim a caneja de infundice, o prato típico da vila da Ericeira, em Portugal. Durante muitos anos, principalmente nos meses de inverno, quando o tempo ruim impedia os pescadores irem ao mar, era a caneja de infundice a única carne que se na mesa.
 

Ambiente para fazer a caneja de infundice deve estar muito limpo 

A caneja não é consumida fresca, mas apenas depois de ser submetida a uma cura que dura uma semana, ou duas, fazendo-a adquirir um aroma muito intenso e característico, a que os locais chamam “infundice”. Hoje o prato é feito da seguinte maneira:

Depois de apanhada, a caneja é salgada e embrulhada num saco de pano. Ao fim de três dias, tempera-se com um pouco de sal e volta-se a embrulhar durante mais quatro ou cinco dias, ao fim dos quais se junta mais um pouco de sal.

Para preparar o peixe é preciso limpar, salgar e embrulhá-lo 

Completado uma semana de cura, que deve ser feito em local escuro ou mesmo enterrada, a caneja liberta o tal cheiro insuportável, a infundice. Na Ericeira, os restaurantes não vendem por três motivos, o tempo que leva para ser feito, o preço alto e principalmente o cheiro de urina que o prato exala. Além da Ericeira, uma iguaria parecida é feita também na Noruega, mas com outro tipo de peixe.

Depois de 15 dias num ambiente escuro ele está pronto para ser consumido 

Segundo o ericeirense, Fernando Melo, apesar do cheiro forte, o prato é um dos mais limpos que existe.

- Para preparar a caneja de infundice o ambiente teve estar muito limpo. Se por acaso uma mosca pousar no peixe antes de ser embrulhado ele já não presta mais – disse o jagoz (ericeirense).

A Nova Ericeira - Capítulo I




            A partir de hoje, 11 de dezembro de 2016, começo a publicar, por capítulos, o livro “A Nova Ericeira". A ideia de escrever o livro surgiu no dia 19 de setembro de 2005. Antes de enterrar meu pai pensei na vida que ele teve e também nos seus antepassados. Considerei injusto que uma vida pudesse ser esquecida assim que o caixão baixasse à sepultura. Tão fria e solitária quanto uma cova é a vala comum do esquecimento, onde algumas pessoas são jogadas. Maurice Maeterlinck, dramaturgo Belga, na sua otimista peça teatral “O Pássaro Azul”, escreveu que as pessoas mortas vivem de novo quando pensamos nelas. Além de pensar, minha intenção foi fazer algo mais: escrever. A pesca surgiu como um ponto de partida. Por meio de entrevistas e pesquisas históricas descobri que ascendia de imigrantes portugueses. Eles vieram da freguesia da Ericeira, em 1818, fundar a 1ª primeira companhia pesqueira do Brasil.


            Um mês após a morte do meu pai soube por meio de uma carta do Banco de Olhos de Joinville (SC), que ele tinha doado a córnea direita para uma pessoa. Passaram então dois anos e quatro meses e comecei a escrever o livro. Entrei em contato com o receptor da córnea direita, que por coincidência também tinha o meu mesmo nome. A partir daí o trabalho ganhou força e o livro um formato bem definido. Minha intenção não foi escrever um livro histórico sobre a vida dos descendentes da Ericeira, mas sim oferecer uma visão humana. Não tinha a pretensão de produzir um livro didático. O objetivo foi contar a trajetória desses descendentes, pescadores na sua maioria, levando em conta seus sentimentos, maneira de ver o mundo, ideais, sonhos e frustrações. Os números, os dados estatísticos estão representados nas pessoas que de uma certa maneira contribuíram para o desenvolvimento da pesca no país.


Durante as minhas pesquisas descobri que a influência da Colônia Nova Ericeira foi muito grande na indústria pesqueira e também na construção naval. Os pescadores que conversei tanto formal como informalmente tinham uma ligação com os imigrantes portugueses. Dois indícios foram levantados: o sobrenome igual das pessoas que vieram da Ericeira em 1818 e a origem dessas pessoas, Porto Belo. Recolhi material não para escrever um livro e sim para mais três. O campo de pesquisa sobre a história da Colônia Nova Ericeira é amplo e ainda inexplorado. A vida de seus descendentes merece ser registrada e uma pequena mostra está disponível nesse livro.

 
A Nova Ericeira será publicada no blog por capítulos. Todos os domingos serão publicados um dos 11 capítulos. Esse é o primeiro. Boa leitura.
 
Capítulo I  - A casa dos mortos
 
           
           Demorei muito tempo para compreender o significado da doação de órgãos. Já faz quase três anos que recebi a córnea direita e somente agora começo a perceber o significado desse ato. Desde que passei pela operação, isso aconteceu no dia 23 de setembro de 2005, muita coisa mudou na minha vida, e graças a Deus, para melhor. Pode parecer estranho, mas a minha falta de compreensão surgiu do gesto doador e também da família que concordou com tudo. Sempre demonstrei interesse em conhecer a vida da pessoa que possibilitou tal mudança, mas o tempo passou e, dia após dia, adiei a possibilidade de um encontro com a família do doador. Não sei por que evitei tanto tempo? Às vezes me perguntava e para minha frustração não conseguia uma resposta razoável. Confesso que no começo, fora a curiosidade, não havia nenhum interesse. Depois de dois anos, por fim tomei coragem. 
            Liguei para o Banco de Olhos de Joinville, a maior cidade do Estado de Santa Catarina, e expliquei o que queria. Do outro lado da linha, a moça que atendeu ficou surpresa pelo meu repentino interesse, já que havia passado quase três anos. Não me justifiquei, mas essa demora, segundo a responsável pelo Banco de Olhos, seria decisiva para que a família do doador não aprovasse o encontro. Poderia naquele momento desistir e confesso para minha vergonha, que cheguei a pensar nisso. Seria muito fácil deixar o assunto por ali e tocar a minha nova vida, mas alguma coisa – não sei como explicar – me atirava para a família do doador. Talvez a ânsia de agradecer pessoalmente a atitude que mudou minha vida fosse à explicação mais lógica. Insisti e liguei mais duas vezes. Justamente na terceira vez, a moça ficou sensibilizada com a minha situação e disse apenas: “Vou tentar”. Estava satisfeito com a resposta, pelo menos era uma oportunidade.
            Os dias que antecederam a resposta foram cercados por uma expectativa angustiante. Para uma pessoa que no começo não tinha tanto entusiasmo com o encontro, estava bem interessado. Enfim veio a resposta e para minha surpresa foi positiva. O filho do doador queria falar comigo e isso já era um bom começo. A segunda surpresa foi ele ter me ligado, esperava o contrário. Esses dois fatos não foram os únicos que me causaram admiração. Primeiro foi o lugar em que o rapaz queria conversar comigo. Sinceramente esperava que ele me convidasse para conhecer a família num ambiente apropriado, por exemplo, uma residência. O lugar proposto era de fato uma residência, como ele disse mais tarde: “A Casa dos Mortos”. Um cemitério, isso mesmo, exatamente um cemitério foi o lugar marcado para o nosso encontro. Ele queria que eu conhecesse onde o seu pai fora sepultado.  Apesar de achar muito estranho não relutei e o dia escolhido para a nossa conversa foi 18 de abril de 2008.
            Antes de tudo, preciso contar um pouco da minha história. Meu nome é Paulo Bachmann. Tenho 43 anos, sou casado, não tenho filhos. Aos 17 anos, assim que entrei para a Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Santa Catarina descobri que a minha visão não era perfeita. Essa imperfeição se chamava Ceratocone, uma deformidade que alonga a córnea, deixando-a no formato de um cone. A doença é uma das principais causas de indicação de transplante, em geral não ocorre rejeição.
           No início da década de 1980, época em que foi diagnosticada a doença, um transplante de córneas estava fora de cogitação. Por recomendação médica comecei a usar lentes nos dois olhos. Foi assim que terminei a faculdade e durante mais de 20 anos enxerguei o mundo, por meio de grossas lentes de contato. Durante esse tempo sempre visitei o oftalmologista e foi ele quem recomendou o transplante, já que existia o risco de ficar completamente cego. Isso poderia acontecer, se a córnea alongasse demais. Caso ela de fato se rompesse não haveria como reverter, mesmo com o transplante. “O teu olho direito é que mais me preocupa”, dizia o oftalmologista.
            Em 2005, fazia parte da lista dos 89 nomes que aguardavam um transplante de córneas em Santa Catarina. Há quatro anos esperava uma oportunidade e ela apareceu no final do mês de setembro daquele ano. Estava no grupo das 64 pessoas que conseguiram fazer a operação. Ela aconteceu no dia 23 de setembro e desde então tenho uma vida quase normal. Do meu olho direito enxergo bem, contudo ainda preciso usar lentes no esquerdo, pois tenho apenas 5% da visão nesse olho. Minha vida antes do transplante foi muito difícil. Às vezes me sentia revoltado e por isso fiquei um bom tempo sem entender o gesto da família do doador. Enfim, tudo passou, sou hoje uma pessoa diferente e muito agradecida àqueles que me ajudaram. 
            De Balneário Camboriú, onde moro, segui para Navegantes – cidade distante 20 quilômetros – no dia combinado. Era um dia de sol e fazia um pouco de calor. Esperava cinzento e frio. O local não tinha nada de diferente dos outros cemitérios que havia visitado. A maioria das sepulturas era simples, não se via muitos mausoléus. Antes mesmo de entrar no cemitério eu já podia sentir o forte cheiro de vela derretida, de rosas e cravos. O odor foi bem acentuado pelo clima. Além do calor, o ar era muito úmido, o que provocava uma sensação desagradável de abafamento. Encontrei o rapaz em frente à “Casa dos Mortos”, impaciente. Consultava as horas no celular. Assim deduzi, já que me encontrava 20 minutos atrasado.
           Por telefone havíamos combinado nosso encontro às 7 horas. Cumprimentamo-nos friamente. Cheguei a pensar mais de uma vez sobre aquele momento, mas nunca imaginei que seria tão impassível. Ele parecia angustiado. Era um rapaz magro, moreno e toda a família era assim também, como descobri mais tarde. Sem perda de tempo entramos no cemitério. Por entre as sepulturas e o forte cheiro de velas derretidas e flores murchas tão características do local, chegamos onde descansava seu velho pai, a pessoa responsável pela visão do meu olho direito.
             Ficamos parados em frente ao túmulo por mais ou menos cinco minutos. Na lápide acinzentada e fria, uma vela pela metade travava uma batalha com o vento para permanecer acesa. Não questionei quem havia colocado a vela na sepultura. O rapaz olhava fixamente o nome e as datas que assim estavam escritos: Alexandre Aguiar, nascimento 08/03/1947 e morte 21/09/2005. Ele olhou para o alto. Não notei emoção alguma no seu rosto.   
            – Você deve estar pensando que sou um louco em escolher um cemitério para conversar – disse ele sem tirar os olhos do epitáfio.
            Quem visita um cemitério sente que o tempo parou. Essa foi à sensação que tive quando estava lá. Sem saber o que dizer aguardei o garoto continuar.
            – Eu te trouxe aqui para provar que a morte não é o fim e pode ser o começo de muitas coisas – acrescentou.
            “Meu olho direito é uma prova material”, pensei. Resolvi não interrompê-lo e ele continuou num tom de voz bastante sombrio, pelo menos isso combinava com a “Casa dos Mortos”.
            – Há mais de dois anos – continuou o rapaz – me encontrava na capela mortuária velando o corpo do meu pai. Quando caminhávamos para este lugar, tive a ideia de fazer algo que pudesse homenagear o esforço dele. Comecei então uma pesquisa e descobri quem eram seus antepassados. Pescadores, todos trabalhadores do mar.
            – Se dissesse que não estou surpreso com o lugar estaria mentindo, mas por nenhum momento pensei que você é louco, até pensei em outra coisa bem diferente – respondi já a espera da pergunta: “Que outra coisa?”
            A coisa diferente que pensei dizia respeito se ele era supersticioso ou não. Entretanto, como não houve curiosidade, ele sentou numa lápide ao lado e continuamos a conversa. Não tive coragem de fazer o mesmo e escutei tudo em pé. No começo disse que o nosso primeiro contato foi cheio de surpresas e posso dizer que isso continuou durante a nossa conversa. Primeiro pelo nome dele. Também se chamava Paulo.
            – Por meio da pesquisa descobri que os meus ascendentes vieram da freguesia da Ericeira, em Portugal. Meu pai era trineto de um imigrante luso e...
            Sentado na lápide de um casal, o meu xará começou a narrativa sobre seu tataravô e uma tal Colônia Nova Ericeira. Antes que eu me esqueça, essa história é contada por ele.