domingo, 29 de janeiro de 2017

Capítulo 8 – A fuga


Festa Nossa Senhora dos Navegantes na década de 1940/Foto Arquivo Público de Itajaí
 
Sem futuro algum. Era assim que muitas pessoas viviam em Porto Belo, depois da Segunda Guerra Mundial. A falta de esperança rondava os seus moradores desde 1930 e ninguém conseguia ver uma solução para o problema. No período pós-guerra, Bombinhas então pertencente a Porto Belo, estava dividido em cinco bairros: Bombas, Zimbros, Canto Grande, Encantado e Sertão. Isolados entre montanhas, os moradores sobreviviam com o que tiravam do mar. A agricultura era escassa e o pouco que vinha da colheita, apenas ajudava no complemento da alimentação. Seja do mar ou da terra, sempre havia algo para comer, mas a luta diária para se conseguir as coisas desiludiam a todos. Isso para quem possuía algum pedaço de terra para plantar. Por incrível que pareça nessa região viviam famílias que não tinham onde morar e dependiam exclusivamente da pesca ou da caridade dos outros.

Sem um posto de saúde, abastecimento de água, ou até mesmo luz elétrica, Bombinhas em 1947 mantinha o mesmo estilo de vida dos primeiros imigrantes da Ericeira. Ali existia somente uma escola, que ensinava o básico: ler e escrever. Não passava disso e para quem eles iam reclamar? O comércio se encontrava restrito a algumas vendinhas de esquina e o médico mais próximo atendia em Porto Belo. Enquanto sua economia definhava, outras cidades do litoral catarinense se desenvolviam. Bombinhas, a exemplo do que ocorria em Porto Belo, havia parado no tempo. Vivia uma época perdida no século XIX.

           No final dos anos de 1940, a família do pescador Eusébio Mendes era uma das que passava por dificuldades. Sem casa própria, a esposa Joana e mais três filhos pequenos perambulavam feitos ciganos. A cada mês e a cada ano, o lugar e a habitação pioravam. Por necessidade, eles se enfiavam no primeiro buraco que encontravam pelo caminho, isso quando encontrava algum. Nesse ponto a compaixão humana falava mais alto e os buracos apareciam. Por mais absurda que essa situação possa parecer, vale frisar que o trisavô de Eusébio - no tempo em que veio de Ericeira para o Brasil – foi um dos colonos que recebeu uma faixa de terra na região da Enseada das Garoupas.  O seu título dava direito a uma área de aproximadamente 400 mil metros quadrados. Como e porque ele ficou sem nada ninguém sabia.

        Voltemos ao drama da família Mendes. Desde que casou, em 1935, o pescador e a família já havia morado em um rancho de pesca, num engenho de farinha, numa casa de barro no meio do mato e até em um barracão que havia servido de senzala para os escravos no final do século XIX. Só faltou mesmo ter que dividir espaço com os morcegos numa caverna. Para não ter que chegar a esse extremo, Eusébio resolveu fugir. Mas uma pergunta o afligia: para onde?

Em 1947, surgiu a oportunidade de ir embora. Seu colega de infância, Narciso, o convidou para trabalhar em Itajaí. Além de todos os problemas relacionados ao sustento dos seus filhos, Eusébio parecia doente. Assim ele não hesitou quando recebeu o convite. No dia 27 de março de 1947, a família arrumou tudo para a viagem. Do ponto de vista de quem tem alguma coisa, o tudo de Eusébio era considerado uma ninharia. Mas para quem não tinha nada, o tudo de Eusébio já valia alguma coisa.  Entre essas coisas estavam panelas de barro, talheres feitos de latão, algumas peças de roupas de cama e as vestes da família.

            Na manhã do dia seguinte, bem antes do sol nascer, o barco que fazia compras pelo litoral catarinense transportou a família Mendes para Itajaí. A viagem pelo Atlântico Sul foi tranquila, no mar calmo uma leve brisa soprava na direção Sul. Isso era o suficiente para refrescar a madrugada. Eusébio – com dores nas costas   – permanecia deitado no minúsculo dormitório da embarcação. Na cama fria e dura, o pescador pensava na escolha que tinha feito. Se ele tivesse um lugar para ficar em Bombinhas, um emprego e conseguisse colocar comida em casa, certamente não teria abandonado o lugar em que nascera. Mas, a sina que começou com os seus antepassados da Ericeira, teimava em perseguir seus descendentes e os mesmos continuavam errantes.

Navegantes na década de 1950/Avenida João Sacavem/Foto Arquivo Público de Itajaí
          
           A viagem pelo oceano levava seis horas. O barco atracou na margem esquerda do rio Itajaí-Açu, por volta das 10 horas da manhã, do dia 28 de março de 1947. O lugar era a cidade de Navegantes, na época apenas um bairro de Itajaí. Tudo havia sido pensado para receber a família de Eusébio. Até um lugar para morar fora escolhido. A casa de madeira feita pelo colega Narciso apenas aguardava seus novos moradores. Para erguê-la, ele utilizou tábuas, ripas e caibros do estaleiro Fluvial. O terreno da construção foi emprestado por um homem chamado Juca, colega do carpinteiro naval. Juca era fotógrafo e por muitos anos teve uma loja na Rua Hercílio Luz, em Itajaí. A casa era formada por quatro cômodos: dois quartos, sala e cozinha. O banheiro se encontrava nos fundos do terreno e era conhecido pela população por patente. 

            Do cais, onde o barco atracou, levava cinco minutos de caminhada até a casa, que ficava também perto do rio. Os objetos da família foram carregados por Joana e os filhos pequenos. O dia ensolarado e fresco facilitou o transporte das coisas. A moradia já tinha alguns móveis: fogão a lenha e camas, que eram cobertas por colchões forrados por capim seco. Navegantes, em 1947, estava quase no mesmo patamar econômico de Bombinhas. A única diferença é que Navegantes ficava ao lado de Itajaí. Embora tivesse abastecimento de água e luz elétrica desde 1928, grande parte da população vivia da água de poço e iluminados por lamparinas a base de querosene. No caso da família de Eusébio, uma lata e um pedaço de corda faziam o papel de um lampião improvisado.

Durante todo aquele dia, o pescador não saiu da nova casa. As dores nas costas eram fortes e o faziam torcer o corpo na cama. A viagem de Bombinhas a Navegantes só piorou o estado de saúde dele. À noite, Eusébio contou para a companheira o inusitado acidente que lhe provocara as tais dores. Uma semana antes de transferir-se para Itajaí o pescador chegou em casa bêbado e todo machucado. Na ocasião ele não quis falar nada. Nem para a mulher e nem para os conhecidos que lhe questionaram a respeito.

            – Mulher, eu acho que vou morrer. Não aguento mais de dor.

            – Não fala bobagem. Ninguém morre de dor nas costas.

            – Mas agora tá doendo até minhas pernas. Que diabos de dor.

            – Não fale isso. Deus pode castigar.

            – Eu acho que ele já me castigou. Olha, preciso dizer por que fiquei assim.

            Recostado na cama de madeira e sob a luz do lampião improvisado,  Eusébio contou uma história mirabolante envolvendo dois bodes. Joana que já estava acostumada com as desculpas do marido não acreditou na versão apresentada.

            – Você lembra daqueles dois bodes que ficavam no meio do caminho toda a vez que eu ia pra casa? Foram eles que fizeram isso comigo.

            Em 1947, como existiam apenas duas ruas em Bombinhas, grande parte do caminho tinha que ser realizado por trilhas na mata e nos morros.  Eusébio usava um desses caminhos alternativos para ir de casa para a praia de Quatro Ilhas. A trilha era íngreme, sinuosa e cansativa. No meio do percurso havia um riacho. Era justamente nesse ponto que o pescador dizia ter visto os bodes. Não fora apenas uma vez, mas sim uma dezena delas. Em todas as ocasiões, os animais se colocavam em posição de ataque.  Eusébio recuava um pouco, abaixava a cabeça e passava por eles. O que fazia a esposa não acreditar no marido, era o fato de que ninguém criava bodes por perto. O caminho fora percorrido por muitas pessoas e nunca alguém relatara a existência dos animais. Eusébio prosseguiu com a explicação. Joana arregalou os olhos e acenou a cabeça surpreendendo-se com a fala do marido.

            – Eu descia a trilha, quando encontrei os dois diabos. Como estava cansado de ver aqueles demônios me desafiando todo santo dia, resolvi enfrentá-los. Olhei pra eles e comecei a tacar pedras. Gritei que não tinha medo e que ia mandar os dois pro inferno a pedradas. Nisso um bode olhou pro outro e veio pra cima de mim. Eles pularam e berraram tanto que cheguei a desmaiar. Quando acordei já era quase noitinha. Por isso que me atrasei naquele dia. Quer saber, foi bom ir embora de lá, do contrário acho que eles já teriam me matado. Ai que dor! Dói até quando falo. Malditos bodes. Mulher traga uma caneca d' água.

             Depois de alguns minutos, Joana retornou ao quarto.

            – Aqui tá a água. Vamos dormir, amanhã temos que ir ao médico, um tal de doutor Liberato. Um garoto chamado Bruno veio avisar que ele marcou uma consulta amanhã pela manhã. Esse garoto é funcionário do seu colega Narciso. O consultório é na cidade, lá em Itajaí. Parece que tem de atravessar o rio pela lanchinha.

            Enquanto a família dorme a primeira noite em Navegantes, contarei um pouco da história do pescador de Bombinhas. Eusébio nasceu em 1913, fruto de um estupro. A mãe dele, de 38 anos, havia sido molestada pelo próprio genro. Durante nove meses, Mariana, escondeu a gravidez indesejada da família. Assim que teve as primeiras contrações, ela seguiu uma trilha em direção de um morro. Em uma clareira na floresta, sozinha, entrou em trabalho de parto. Tudo havia sido planejado, o local escolhido era isolado. Nasceu um menino loiro, de grandes olhos azuis. Mariana prestou pouca atenção na criança. Seus pensamentos estavam bem longe dali, em casa.

Perturbada, ela olhou para aos lados, como se alguém tivesse no seu encalço.  Arrumou a criança em um pedaço de pano e a deixou sob uma árvore. Com um objeto de ferro a mulher começou a cavar a terra e depois de uns dez minutos, um buraco de meio metro se formou entre a vegetação. Ela caminhou para onde estava o menino, que permanecia quieto. Pegou o bebê no colo, olhou o rosto e o posicionou na cavidade. Com as mãos, tentou fechar a cova. Nesse momento, a criança – como quisesse fazer uma tentativa para viver – começou a chorar tão forte que paralisou a mãe. No entanto, o desespero de Mariana  era maior e ela voltou ao trabalho. Se o destino existe, o de Eusébio não iria terminar naquele buraco. Quem mudou a sorte da criança foi um homem que passou por uma trilha próxima, bem na hora em que a mãe jogava o filho na cova improvisada. O choro do recém-nascido chamou a atenção do peregrino.

            – Não faça isso – gritou o homem para a mulher.

            Mariana  tentou correr, mas percebeu que era inútil. O homem tirou a criança do buraco e não teve coragem de entregar à mulher. Como despertada de um transe, Mariana começou a chorar mais do que o filho. Tranquilizada pelo desconhecido, ela contou a história do estupro e a decisão de se livrar da criança.

            – A senhora é casada? – perguntou o estranho.

            – Não, viúva. Vai fazer três anos que meu marido morreu.

            Com piedade o homem entregou o filho à mãe e por garantia a acompanhou até em casa. Mariana não revelou nada para a família e mais uma vez poupou o genro. Ela contou que havia engravidado de um pescador, que morava em Ganchos. Como de vez quando surgiam uns desconhecidos na cidade, ninguém desconfiou e a história do estupro ficou por muito tempo esquecida. O fato só foi descoberto em 1998, quando o genro dela faleceu. Dois dias antes de morrer, ele revelou o crime para o filho mais velho. Pediu que o crime fosse anunciado para o restante da família, assim que o caixão descesse ao túmulo. 

Eusébio cresceu sem saber quem fora o pai. O bastardo da família, como era conhecido, cresceu com ódio das pessoas que o cercavam. A indignação só perdeu um pouco de força no momento em que se tornou adulto e casou. Joana se encantou com o homem loiro e de olhos azuis, que sempre a fitavam de longe. O namoro durou apenas dois meses, o suficiente para ter uma filha, a pequena Leonor. O pescador não era um exemplo de marido. Em Bombinhas, quando saía para ver as redes de pesca, ele sumia do mapa por três dias consecutivos e não se dava ao trabalho de avisar a mulher. Joana se virava para criar os filhos.  Eusébio bebia muito e tinha fama de boêmio. Com o violão debaixo dos braços, o pescador se esquecia que tinha uma esposa e  filhos para sustentar. Quando surgiu a oportunidade de ir embora para Itajaí, Joana comemorou. Naquele primeiro dia em Navegantes, ela rezou e pediu que o novo lugar mudasse os hábitos desregrados do marido.

*    *    *
 
            Três anos se passaram e a vida da família Mendes começava a melhorar em Navegantes. Eusébio trocara a profissão de pescador pela construção naval, contudo seis meses depois, ainda em 1947, retornou à pesca. O salário em Itajaí dava para sustentar a família e sobrava. Joana se admirava com cada eletrodoméstico que entrava em casa. Com o primeiro, um ferro de passar roupa, ela não conseguiu esconder as lágrimas. As novidades mexiam com as emoções da dona de casa. Um dos momentos mais marcantes foi o dia em que Eusébio comprou uma máquina de costura usada. Com o aparelho Joana começou a confeccionar a roupa da família. A transformação só não foi completa por causa do comportamento de Eusébio. O pescador era pontual, responsável e competente no trabalho. No entanto, fora dele o trabalhador dava lugar ao seu lado boêmio. Com o violão, ele se metia no primeiro bar que encontrava pelo caminho e sempre chegava em casa embriagado. Quando isso acontecia, botava a família inteira “para correr”. Ele bebia para fugir de um de um fato do passado que envenenava seus pensamentos. Em toda a vida, jamais falou ou permitiu que alguém tocasse no assunto referente ao seu pai.

Ninguém sabia o que ele pensava, mas um dos motivos certos que o levavam a beber era o estigma de bastardo. Sobre o estupro que a mãe dele sofreu não se sabe se ele tinha ou não conhecimento a respeito do fato. Mariana morreu aos 53 anos, quando Eusébio tinha 15 e não passava de um adolescente. O garoto ajudava a remendar as redes de pesca na praia de Mariscal, em Bombinhas.  A mãe sempre levava comida para ele. Mariana faleceu perto do meio dia, quando fazia uma dessas entregas para o filho. Morreu do coração em uma trilha bem próxima à outra, em que há quinze anos havia tentado matar o filho. Eusébio nunca agrediu a mulher ou os filhos, mas perturbava a todos. Apesar disso, Joana parecia satisfeita em Navegantes. O pescador às vezes pensava em voltar para Bombinhas. Marido e mulher discutiam sobre o assunto. Foi na tarde de um domingo de verão, nos fundos da casa de madeira que isso aconteceu pela primeira vez. Sentados num banco improvisado, com a vista para o rio Itajaí-Açú e suas águas transparentes, os dois conversavam.

            – Mulher, eu tenho que contar uma coisa para ti.

            – Fala então.

            – Às vezes dá vontade de largar tudo e voltar para Bombinhas.

            – Por quê? As coisas vão bem aqui. Moramos perto de tudo: médico, boticário e mercado.

            – Tem tudo, mas eu quero voltar para Bombinhas. Se eu tivesse lá no domingo eu iria caçar.

            – E por que você não faz isso aqui? Em Navegantes, o que não falta é mato pra caçar.

            – Não é mesma coisa. Tenho vontade de voltar.

            – Vai voltar sozinho, eu não volto mais pra Bombinhas. Quem anda pra trás é caranguejo.

          Eusébio se levantou e foi para o quarto tirar a cesta da tarde. Joana ainda ficou por um tempo no banco. Olhava a correnteza do rio, que levava a água doce para o Atlântico. Como estava muito quente, ela se aproximou do rio e molhou o rosto. A imagem refletida na água mostrava uma mulher branca, de cabelos negros e cacheados. Os olhos verdes chamavam atenção no belo rosto. Do outro lado do rio, Itajaí parecia uma cidade fantasma. Naquele último domingo de janeiro, como em tantos outros do ano, a família não recebeu visitas. No entanto, o mês seguinte prometia ser diferente e uma festa prometia trazer muita gente para Navegantes. A casa da família recebia visitantes de Porto Belo e outras cidades. A festa em questão era para Nossa Senhora dos Navegantes e ocorria desde 1897.      

Durante a semana, o então bairro de Itajaí se preparava para o acontecimento.  Eusébio ia para o trabalho – agora na praticagem do Porto de Itajaí. Foi nesse serviço que ele se aposentou no ano de 1968. O salário não é a fortuna que se ganha hoje – em 2008 estava na casa dos 100 mil reais ao mês –, mas poderia ser considerado bem melhor do que a pesca.  Quem pensa que ele abandonou a paixão pelo mar está enganado.  Eusébio sempre pescava quando podia. Além disso, seus antepassados vinham da Ericeira e mesmo não sabendo ele  trazia o gosto pela pesca no seu sangue. Depois da aposentadoria, conforme planejara, retornou para Bombinhas. Morreu sozinho em um rancho de pesca na praia de Quatro Ilhas, em 1984.

*    *    *

            Em 1950, as pessoas conheciam Navegantes como um bairro de Itajaí. A designação nascera dois anos antes com a construção de um jardim público na frente da capela. A população não passava de dois mil habitantes e grande parte dela morava na área central do bairro, as margens do rio Itajaí-Açu. A dependência de Navegantes a Itajaí era completa. Para conseguir atendimento médico, por exemplo, o morador tinha que atravessar o rio por uma pequena lancha, conduzida por um homem que usava tranças iguais a de uma mulher.

O condutor da embarcação era chamado de “Velho”, e devia-se ao fato dele viver reclamando da vida. A travessia durava em média cinco minutos. A embarcação não parava e levava trabalhadores, donas de casa, presos para a cadeia pública de Itajaí, pacientes para o hospital Santa Beatriz e tantas outras pessoas que por um motivo ou outro precisavam fazer a travessia. Joana se encontrava entre essas pessoas, mas durante aquela semana não precisou ir para Itajaí. Ela comprou o que precisava na vendinha perto de casa. O armazém ficava bem no início da principal Avenida de Navegantes, a João Sacavem. 

            A avenida de casas de madeira e postes feitos com o mesmo material, abrigava mais duas vendas e uma farmácia. Todo o comércio do bairro localizava-se na Avenida João Sacavem, que tinha areia ao invés de asfalto. Isso era uma realidade em todas as ruas. Navegantes ganharia uma via pavimentada somente em 1971, oito anos após a emancipação de Itajaí. Joana chegou à venda por volta das 8 horas. No balcão encontrou Bento, um senhor calvo e com grandes bigodes negros. Na venda estava mais uma pessoa de nome Oscar. O eletricista foi que instalara a energia na casa da família Mendes, uma novidade tão grande que chegou a ser motivo até de festa.

            – Bom dia dona Joana – disse o dono da venda à cliente que chegava.

            – Bom dia seu Bento.

            – O quê o senhora vai querer hoje?

            – Duas libras de açúcar e três de trigo. Pode me ver também um pedaço daquela carne seca ali – apontou indicando a carne pendurada atrás do balcão.

            Apesar da medida de peso ter mudado desde 1930, ainda era comum as pessoas comprarem usando a medida inglesa. Uma libra equivalia a 493 gramas. Como não se falava em outro assunto, além da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, o trio que se achava na venda não fugiu à regra.

            – A procissão já tem 30 barcos inscritos. Eu vou no “Lindalva”, um barco de pesca de um colega - comentou o eletricista depois de cumprimentar a conhecida.

            Dois de fevereiro é comemorado o dia da santa. Naquele ano a data caiu em uma sexta-feira, feriado municipal. A festa começava sempre um dia antes. Na ocasião, comerciantes de Itajaí montavam barracas em frente à capela, onde eram vendidos doces e bolos. Havia missas e cortejos pelas ruas. No dia de Nossa Senhora de Navegantes, acontecia primeiramente uma cerimônia religiosa e depois a imagem era levada por uma embarcação, seguida em cortejo pelas outras. A procissão fluvial levava quase uma hora e percorria dois quilômetros de rio.

            – Será que esse número é correto? - questionou Bento.

            – Tão correto como amanhã é quinta-feira. Ontem a tarde eu fui na cidade Itajaí – comprar  fios na Casa Malburg – adivinhem quem estava lá?

            – Não faço a mínima idéia.

            – O Capitão dos Portos seu Bento, o Capitão dos Portos. Dona Maria, a senhora deveria ter visto o nosso capitão. Ele estava vestido com uniforme branco e cheio de condecorações. O seu Malburg perguntou quantos barcos teria na procissão e ele respondeu: “Até agora já são trinta”. É um homem de poucas palavras. Comprou uma lâmpada e foi embora. Essa gente do Rio de Janeiro é assim mesmo.

            – Eu vou embora, na sexta-feira vou receber visitas de Bombinhas – disse Joana.

            – E quem não recebe, não é mesmo dona Joana? Todos querem ver Nossa Senhora dos Navegantes. Sabe da última, parece que tá para chegar um circo aqui. Um tal de circo Petrov. Meu primo que mora em Chapecó escreveu uma carta me avisando. Parece que...

Joana deixou os dois falando sozinhos e foi para casa. Os filhos Tereza, Bernardo e Leonor estavam na escola. À tarde Leonor cuidava de uma senhora na Avenida João Sacavem. O dinheiro que ganhava, além de ajudar nas despesas, servia também para a menina comprar roupas. Os outros irmãos ajudavam nos afazeres domésticos. As crianças quase não se divertiam e isso não espantava ninguém na época. Além disso, elas não tinham brinquedos de verdade. Uma banana verde, uma abobrinha, um pedaço de pau transformavam-se em brinquedos na imaginação dos pequenos. Naquela quarta-feira e também no dia seguinte, a mulher de Eusébio se preparou para receber as visitas.
 
Procissão pelo Rio Itajaí-Açu na década de 1930/Foto Arquivo Público de Itajaí
 
            A sexta-feira chegou e, como de costume, a manhã surgiu nublada. No dia de Nossa Senhora dos Navegantes era comum chover e isso acontecia desde a primeira edição da festa, em 1897. A homenagem começou quando terminou a construção da capela, erguida dois anos antes. A imagem da santa veio de Portugal. Assim que chegou a Navegantes, um cortejo a levou até a capela dando início aos festejos, que até 1950 eram celebrados também nos meses de setembro e dezembro. Na Ericeira, a padroeira da cidade é Nossa Senhora da Conceição, mas os pescadores ainda são devotos de Nossa Senhora dos Navegantes, conhecida também como Nossa Senhora da Boa Viagem.

Em Portugal, a santa é associada ao mar e a proteção dos marinheiros desde o século XV. Em terras lusas, a festa de Nossa Senhora dos Navegantes acontece em agosto, todavia é semelhante a que acontece no Brasil, com missas, novenas, cortejos por terra e no final a procissão marítima. Semelhante a Nossa Senhora da Conceição, a santa dos Navegantes é apenas um dos inúmeros nomes dados a Maria, mãe de Jesus. Formada por uma comunidade de pescadores, Navegantes escolheu a virgem como padroeira e dela recebeu o nome que batizou o futuro município.

            Em 1950, completavam-se dez anos de um dos milagres dedicados à santa. No dia 2 de janeiro de 1940, quatro veleiros saíram de Itajaí em direção à cidade do Rio de Janeiro. A previsão dos marinheiros era retornar no final do mês, bem perto do dia 2 de fevereiro. A viagem de ida foi tranquila e a de volta também, no entanto, isso ocorreu apenas para três das embarcações. A quarta, de nome “Almirante”, não chegara a Itajaí. No dia 1° de fevereiro, o jornal “O Povo”, estampava na capa a manchete: “Veleiro Almirante está desaparecido”. O assunto do dia –  tanto em Itajaí como em Navegantes – foi o barco que se encontrava perdido em alto mar. As pessoas olhavam para a barra e não encontravam nenhum sinal da embarcação. Rebocadores da Capitania dos Portos e outras embarcações fizeram buscas pelo litoral, entre São Francisco do Sul e Porto Belo, mas não encontraram nenhum sinal do veleiro.

No dia da festa – entre as pessoas que se encontravam na procissão pelo rio Itajaí-Açú – um sentimento de tristeza era visível com a má sorte da tripulação do “Almirante”. Poucos acreditavam que alguém pudesse aparecer vivo. O milagre aconteceu, no momento em que uma lancha entrou pelo rio e anunciou aos outros barcos que um veleiro estava parado no oceano. O rebocador Laguna, embarcação em que trabalhou Eusébio até 1968 foi até o local onde avistou o tal veleiro. Sob fogos de artifício e para a alegria dos fiéis, o barco desaparecido entrou pela foz do rio Itajaí-Açú.        

            Em terra firme, os oito tripulantes contaram o que havia acontecido. O relato dos marinheiros causou admiração nas pessoas que ouviram. O mestre do Almirante relatou que depois de se afastar dos outros três veleiros, o barco tomou a direção do alto mar. Apesar do esforço da tripulação, nada pode ser feito para mudar a rota. Depois que o vento parou de soprar foi que se descobriu que o leme sofrera uma avaria. Durante 36 horas seguidas, os marinheiros lutaram para consertar o leme e retornar para casa. Em meio ao desespero, a tripulação rezou e pediu auxílio a Nossa Senhora dos Navegantes e foi atendida. A embarcação seguiu em direção a Itajaí e chegou justamente na hora da procissão. Com forma de agradecer, os marinheiros levaram a vela nos ombros até a capela.  

          No dia em que a história do milagre completava dez anos, um barco levou os oito tripulantes na procissão. Não era o “Almirante”, mas não fazia a menor diferença – os marinheiros queriam agradecer. A gratidão durou o resto de suas vidas e sempre aparecia com mais força no dia 2 de fevereiro.  Hoje não existe mais ninguém vivo daquela tripulação, mas a história daqueles oito pescadores continua viva e alguém vai se lembrar novamente com a proximidade de uma nova festa.

No rebocador Laguna, Eusébio e família participaram da edição da festa de 1950. Naquela tarde, veleiros, rebocadores, barcos de pesca e lanchas, todos enfeitados por bandeirinhas, seguiam a procissão pelo rio Itajaí-Açu. O barco de pesca Netuno, o maior da época, levava a imagem da santa. De um lado e outro do rio, fiéis e curiosos se aglomeravam para ver o cortejo com mais de 30 barcos. Nem mesmo uma garoa fina que caiu quase todo dia espantou o público.  Ao som de fogos e aplausos de centenas pessoas, Nossa Senhora dos Navegantes retornou à capela, onde somente sairia no mês de fevereiro do ano seguinte.

            Eusébio, a esposa e os filhos acompanharam a missa, que era lida toda em latim. Depois da cerimônia religiosa, a família retornou para casa junto com as visitas que tinham vindo de Bombinhas na parte da manhã. Um pequeno barco de pesca trouxe no total seis pessoas. Irmãos, sobrinhos de Joana e alguns colegas de Eusébio, que não estranhou a ausência de familiares seus. E isso não fez a menor diferença no seu humor. Prova disso é que assim que entrou em casa, ele pegou o violão e começou a tocar. Na sala, Eusébio, Joana e seus convidados conversavam sobre a festa. Na rua, as crianças aproveitaram que a garoa havia cessado para brincar. Aquele era um dos poucos dias alegres que aquela família desfrutava durante o ano.

            – Quantos barcos a procissão teve esse ano? Parece que tinha uns 20, isso é o que consegui contar – comentou um dos convidados, colega de profissão de Eusébio.

            – Tinha mais de trinta com certeza – retrucou outro convidado.

            – Pena foi essa chuva fraca que caiu. Se não fosse isso, a procissão teria bem mais barcos – comentou Rogel, um dos conhecidos da família Mendes que morava em Bombinhas.

            Rogel era um homem ruivo, já com os seus 38 anos de idade. Vamos falar ainda muito de Rogel, mas não agora. Na sala, rodeados por cadeiras, os convidados conversavam sobre a festa, o tempo e a pesca. Em cima da mesa, um garrafão de vinho foi servido junto com um bolo de milho feito por Joana um dia antes. Eusébio já um pouco embriagado tocava violão e por sinal muito bem. 

– Eusébio canta alguma coisa – pediu um dos convidados.

            – O que você quer ouvir?

            – “A Deusa da minha Rua” – sugeriu Rogel. Mesmo em 1950, a música de Nelson Rodrigues de 1947 continuava entre as mais pedidas nas rádios.

            – “Atire a primeira pedra” – quem pediu a música de Ataúlfo Alves foi um dos convidados, amigo de Eusébio.

            – Para mim pode ser qualquer coisa – completou Maria.

            – Eu já sei o que vou cantar – a música escolhida era a de Francisco Alves, conhecido também como o rei da voz, e se chamava “Adeus” – cinco letras que choram –, escrita em 1947 por Silvino Neto.

“Adeus, adeus, adeus. Cinco letras que choram num soluço de dor

Adeus, adeus, adeus é como o fim de uma estrada, cortando a encruzilhada....”

*    *    *

            A praia da Sepultura mergulhou na escuridão. O único som que se ouvia vinha das ondas quebrando nas pedras.  Se não fosse a lua cheia, que naquela noite brilhava no céu estrelado de Bombinhas, não daria para enxergar um palmo à frente. A temperatura que permaneceu agradável durante o dia começava a cair. Do mar, o vento soprava para o Sudeste, e fazia a sensação de frio ser maior. Embora o outono aqui não seja tão rigoroso como ele é na Serra, o frio úmido do litoral às vezes é bastante desagradável.

            – Vamos embora – disse.

            – Que horas são? – perguntou Paulo Aguiar.

            – Seis e meia. Para onde vamos agora?

            – Aqui perto mora um antigo morador de Bombinhas. Ele tem 88 anos e também é ascendente direto do povo da Ericeira. Quando o visito, ele sempre pede para ficar.  No almoço liguei para ele e disse que iria apresentar uma pessoa.

            Por uma estrada estreita, feita de lajotas chegamos ao nosso destino. A caminhada não durou cinco minutos. A residência em questão tinha um pavimento e não era guardada por muros. Ela está localizada bem em frente ao mar e dela se tem uma visão por completo de Bombinhas. No caminho, o meu xará contou o que  havia acontecido com a família de Eusébio. Joana faleceu no Natal de 1970 e ele, como já foi dito, em 1984. Os filhos cresceram e tiveram suas próprias famílias.  Na varanda da casa, tendo como vista a Enseada das Garoupas, continuei a ouvir a história dos descendentes da Ericeira. Agora com mais dois expectadores: o morador antigo de Bombinhas, Miguel Moutinho, e sua esposa Carolina, um ano mais nova.

sábado, 28 de janeiro de 2017

As rascas da Ericeira nos mares do Sul do Brasil

 
       
        Quando chegaram à Enseada das Garoupas em 1817, os pescadores pediram a construção das rascas, embarcações a vela e que mediam até 20 metros de comprimento. Os barcos eram necessários para a pesca em alto mar. Com as malhas de redes trazidas da Ericeira, faltavam apenas as rascas para começar a pesca.


No entanto, o pedido levou três anos para ser atendido. A demora na construção das rascas gerou insatisfação entre os ericeirenses, como consta na carta do Intendente da Marinha na Província de Santa Catarina, Miguel de Sousa Melo e Alvim, considerado um dos fundadores da Colônia Nova Ericeira.


  A carta é de 14 de março de 1820 e foi encaminhada ao Ministro de Dom João VI, Tomás António de Vilanova Portugal. Melo e Alvim diz ao ministro que voltava da Enseada das Garoupas, onde deixara os colonos descontentes e pede urgência na compra das embarcações.


            “Logo que Manoel Dias de Lima empreste uma lancha da armação, que na conformidade das recomendações de vossa excelência lhe pedi e me prometeu, a farei preparar de coberta à moda das rascas da Ericeira para começarem com as suas pescarias de alto mar, ou com uma boa rede que trouxeram. Também estou preparando uma embarcação mais maneira para as pescarias perto de terra...”.



Cinco dias depois de Melo e Alvim, foi à vez de Antônio Meneses Vasconcelos Drumond, fundador de uma colônia próxima a Enseada das Garoupas, enviar uma carta ao ministro de Dom João VI com o mesmo pedido.

“Pedi a Manoel Dias de Lima uma lancha para os ericeiros principiarem a pesca; respondeu-me que tinha todas as lanchas em concerto; o que concluído daria uma ou duas, conforme lhe restasse da sua pesca; e com tanta vontade que as mandaria cobrir por seus oficiais à moda dos ericeiros, visto que elas têm suas parecenças com as que eles lá usam em Portugal e que lhes daria também velas a seu modo; para cuja obra pediria um ericeiro mais experto para as presidir”.

O pedido foi aceito e as rascas começaram a ser erguidas entre 1820 e 1821. Com a Independência do Brasil em 1822 e o fim da Colônia Nova Ericeira em 1824, as rascas não foram mais construídas.

Não se sabe quantas embarcações foram erguidas no período, mas há registro no litoral de Santa Catarina de barcos com as mesmas características das rascas da Ericeira.

Na cidade de Governador Celso Ramos, conhecida como Ganchos, barcos semelhantes eram usados pelos pescadores na segunda metade do século XIX. Ganchos também fazia parte da Colônia Nova Ericeira.
A rasca
 


A rasca era uma embarcação a velas e que media 20 metros de comprimento. O barco começou a ser usado para o comércio ainda no século XVII e transportava uma tripulação de até 20 homens.

As rascas tinham três mastros, quatro velas e segundo conta a tradição, uma delas chegou até o Brasil. Resistentes a tempestades, as embarcações deixaram de ser usadas em 1866.

Das antigas rascas sobraram apenas memórias, que são guardadas hoje nas páginas de jornais antigos e nos livros, como “O Estado Actual das Pescas em Portugal, publicado em 1891, por Baldaque da Silva.

“A Rasca era uma embarcação de borda alta, poupa redonda e proa arrufada; com convés corrido de vante a ré; cingida em volta do costado por um espesso cinto, com pregos de cabeça prismática, saliente; casco maior do que o dos modernos Caíques, e aparelhada com quatro velas latinas triangulares: traquete, vela grande, vela de proa e catita, exigindo uma tripulação para a manobra destas velas”

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Quem eram os ericeirenses que viajaram rumo ao Brasil em 1817?


Pescadores da Ericeira no começo do século XX/Acervo Pessoal
 
Em comemoração aos 200 anos da criação da Colônia Nova Ericeira, o blog começa a contar a história dos ericeirenses que vieram para o Brasil no século XIX em busca de uma vida melhor.

Depois de enfrentar quase três meses de viagem pelo Atlântico, os primeiros colonos chegaram à cidade do Rio de Janeiro, em setembro de 1817, na galera Conde de Peniche. Depois de passar pela imigração, eles seguiram para Colônia Nova Ericeira, no Sul do Brasil.

Entre a leva dos primeiros 100 colonos que vieram da Ericeira, estava António Lopes da Costa Pacheco. Tesoureiro da Câmara Municipal da Ericeira por muitos anos, António morava com a família na antiga rua de São Pedro, hoje rua Paroquial. Da mesma rua, outras famílias também resolveram tentar a vida no Brasil.

Filho de Manuel Lopes e Sebastiana Franca, António nasceu na Ericeira em março de 1768. O ex-funcionário da Câmara da Ericeira casou com Maria Inácia Perpétua de Morais no dia 14 de julho de 1793.
 
Da união nasceram: Possidónio (31/05/1794), Maria Inácia (06/12/1795), Manuel António (17/12/1797), Manuel (11/03/1798), Josefa (29/06/1802) e Sebastiana Rosa (17/03/1810).

António ficou viúvo antes da viagem. No dia 8 de maio de 1815, a esposa Maria Inácia Perpétua de Morais faleceu.

O ex-tesoureiro da Câmara da Ericeira chegou na Enseada das Garoupas, Sul do Brasil, em março de 1818. Ele trouxe os filhos Manuel, Possidónio, Maria Inácia, Manuel António, Josefa e Sebastiana Rosa. 

Além dos filhos, António veio para Enseada das Garoupas com parentes de Maria Inácia Perpétua de Morais, no total de doze pessoas, mas isso é assunto para uma próxima postagem.

António morava próximo a Igreja de São Pedro/Foto Rogério Pinheiro

António e os filhos se estabeleceram na sede da Colônia Nova Ericeira, hoje região central de Porto Belo. Na colônia, António conheceu outros ericeirenses que vieram para o Sul do Brasil ainda no século XVIII e se estabeleceram em Santo Antônio de Lisboa, freguesia que ficava ao Norte da Ilha de Santa Catarina, hoje a cidade de Florianópolis.

A ideia da colônia surgiu desses ericeirenses mais antigos. Eles conheciam bem a região da Enseada das Garoupas e sabia que a região tinha potencial para um empreendimento pesqueiro.

Existem poucas informações sobre a sua passagem pela Colônia Nova Ericeira, mas ele e o filho Manuel foram os únicos da família que permaneceram no Brasil. Os outros retornaram para Ericeira.

Colônia Nova Ericeira
 
Vista da Enseada das Garoupas em Porto Belo/Divulgação

Em fevereiro de 1818, Dom João VI foi coroado rei de Portugal, Brasil e Algarves. Uma das primeiras medidas já como monarca foi à criação de uma colônia pesqueira no Sul do Brasil. O Aviso Régio de 25 de março de 1818 tornou oficial a idéia sugerida um ano antes por Justino José da Silva, ex-funcionário da Câmara Municipal da Ericeira, extinta em 1855, por ocasião de uma reforma administrativa realizada pelo Reino de Portugal.

Coube ao então Intendente da Marinha de Santa Catarina, o comandante Miguel de Souza Mello e Alvim, a fundação do povoado no litoral catarinense. O local indicado foi a Enseada das Garoupas, hoje cidade de Porto Belo.

A Nova Ericeira foi uma colônia estatal provida com recursos da Coroa Portuguesa. Estima-se que cerca de 300 famílias vieram da Ericeira para o Sul do Brasil entre 1818 a 1821.

A demora para distribuição das terras, a falta de atenção para os novos colonos por parte do governo da Província de Santa Catarina e principalmente a Independência do Brasil, em 1822, contribuíram para o fim da Nova Ericeira, em 1824.

A Nova Ericeira foi extinta, mas seus habitantes não. Com o nome de Porto Belo, as famílias da Ericeira continuaram a desenvolver a pesca pelos anos que seguiram. 

Da antiga colônia surgiram nove cidades e todas com um algo em comum: a ligação com o mar. As cidades que nasceram da Nova Ericeira são: Balneário Camboriú, Bombinhas, Camboriú, Governador Celso Ramos, Itajaí, Itapema, Navegantes, Porto Belo e Tijucas.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Capítulo 7 – A felicidade não se compra

Itajaí década de 1940/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
Das cidades que faziam parte da antiga Colônia Nova Ericeira, Itajaí foi a que mais se desenvolveu. Ela foi a primeira a ter iluminação elétrica, uma indústria, serviço telefônico, agência dos Correios, abastecimento de água, banco, universidade e hospital. Enfim, tudo que um município moderno pode oferecer para seus moradores. Esse desenvolvimento somente foi conquistado graças às atividades ligadas ao mar. O terminal portuário construído no final do século XIX foi o grande responsável por todo esse crescimento. Para ter uma ideia, o porto representou quase 100% da economia até a década de 70, quando a indústria pesqueira conquistou espaço. Desde metade do século XIX muitas famílias vieram para a Itajaí em busca de uma vida melhor. Os primeiros chegaram de Porto Belo, São Francisco do Sul, Florianópolis e Paranaguá. Entre essas famílias, estava a de Narciso Barreto. Depois de sair de Bombinhas, até então um bairro de Porto Belo, o carpinteiro naval perambulou por Florianópolis e Blumenau, no Vale do Itajaí.

            No dia 8 de novembro de 1946, o vapor Blumenau atracou no trapiche de embarque e desembarque do Porto de Itajaí. Entre os passageiros que vinham de Blumenau pelo rio Itajaí-Açu, chegaram os integrantes da família Barreto, que era constituída por seis pessoas: quatro filhos, a esposa e o próprio Narciso. O carpinteiro naval desembarcava em Itajaí depois de passar toda a Segunda Guerra Mundial em Blumenau. Foram oito anos trabalhando na construção da estrada de ferro que ligava as duas cidades. Nesse período, a família ficou hospedada em uma casa onde os proprietários, imigrantes alemães, eram privados de falar a língua materna. Como ascendia de portugueses, Narciso teve uma estada mais tranquila em Blumenau, bem diferente das pessoas com sobrenomes alemães. Para essas  pessoas o Estado exerceu uma vigilância total. Mas, isso não fez muita diferença para vida dele, já que era um homem quieto e não tinha o hábito de falar sobre negócios de Estado.

Porto em 1948/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
              Quando chegou a Itajaí, Narciso encontrou uma cidade já em fase de modernização. O comércio prosperava com a instalação de lojas de armarinhos, relojoarias e de uma agência bancária, a do banco Inco, fundado em 1935.  O estabelecimento ficava anexo à firma Almeida & Voigt, na rua Pedro Ferreira. A agricultura também era forte e a pesca começava a se desenvolver. As primeiras empresas pesqueiras surgiram a partir de 1950. No entanto, foi a partir do fim do ciclo da madeira que ela chegou ao seu apogeu. A madeira, desde a sua fundação  de Itajaí em 1820 pelo português Vasconcelos Drummond, movimentou a economia por quase 150 anos. Pela cidade, os galpões abrigavam toras de árvores. Elas eram trazidas pelo rio Itajaí-Açu e vinham da região do Alto Vale. O terminal se encontrava na sua primeira fase, todavia já contribuía para aumentar a arrecadação do município. A segunda fase ficou pronta em 1950. O porto tinha um trecho de cais de 233 metros de extensão e poucos armazéns. 

              Tudo estava centrado no porto. A pesca só teria influência na economia da cidade a partir da década de 1970, quando teve seu ápice. O mesmo pode ser dito da construção naval. A história oficial não conta, mas os colonos ericeirenses  desempenharam um grande papel na pesca de Itajaí e de todo o Estado de Santa Catarina. Além da arte secular da pesca, os imigrantes eram excelentes carpinteiros navais e sabiam construir uma embarcação como ninguém. Parte das pessoas que atuam na pesca de Itajaí e nos estaleiros têm dois pontos em comum. O primeiro deles diz respeito aos sobrenomes, que são os mesmos dos colonos portugueses da Ericeira. O segundo é a origem: Porto Belo, sede da colônia. O bisavô de Narciso veio da Ericeira e dele herdou o dom da construção naval. Já seus filhos homens, por sua vez, demonstraram aptidão para a pesca.

            Narciso lembrava em muito seus antepassados lusos: homem de estatura mediana, pele clara, de grandes e sérios olhos claros, no caso dele azuis. As primeiras rugas já começavam aparecer no seu rosto – sempre calmo – e não era por menos. Ele já estava com 49 anos. A falta de cabelo foi outro resultado do tempo. A família se hospedou na casa cedida pela empresa, que anos mais tarde foi comprada pelo próprio Narciso. A firma se chamava Fluvial e também era responsável pela construção da ferrovia entre Blumenau e Itajaí.  Ele era encarregado de um estaleiro, que atuava na construção e reparos de embarcações. Além de carpinteiro naval, Narciso tinha conhecimentos nas áreas de construção, marcenaria e ferraria, era um “superdotado da natureza”, como diziam muitos dos que trabalhavam com ele.  
 
Depósitos de madeira no bairro São João/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
               Narciso exercia um serviço considerado importante, ao passo que o principal meio de transporte passava pela via fluvial ou marítima. E havia rodovias, carros e transporte coletivo? Sim, mas a frota de automóveis praticamente não existia e o ônibus foi considerado por muitos anos, um transporte caro, lento e bastante incômodo. Além disso, as rodovias que atualmente já não são uma das melhores, há 60 anos, dava dó só de ver. Não havia sinalização, iluminação e em dias de chuva, em vez de estrada, o motorista tinha que enfrentar a lama. O trajeto de Itajaí a Porto Belo que é feito em menos de duas horas, na década de 40 levava quase um dia inteiro. Os veículos precisavam dar uma volta pelo Estado até chegar a Porto Belo, isso quando chegavam, pois parte deles quebrava pelo caminho. Se não fosse por problemas mecânicos, provavelmente, paravam atolados na lama. Fora o perigo de naufrágios, o transporte marítimo era bem mais rápido. Havia tantas embarcações que sempre uma parava no estaleiro. 

            A casa da família Barreto foi erguida com madeira de lei. Ao todo tinha oito cômodos e ficava localizada bem perto do porto. De casa, Narciso levava apenas três minutos a pé para chegar ao trabalho. Na Fluvial, em virtude da sua experiência, o carpinteiro naval entrou como chefe. Ele era responsável pela contratação do pessoal e da manutenção dos inúmeros barcos, lanchas e vapores que apareciam em Itajaí. Para ajudar no serviço, Narciso trouxe vários outros descendentes da Ericeira para trabalhar na empresa. Algumas dessas pessoas não retornaram mais a Porto Belo e junto com outras famílias que haviam chegado em 1820, transformaram a cidade em um pólo da pesca e construção naval. Em 1979, o país chegou a ser considerado o maior fabricante de embarcações do mundo. Itajaí, Navegantes e a cidade do Rio de Janeiro eram os três grandes pólos da construção naval no Brasil.

            Enquanto o auge do setor não chegava, os pequenos estaleiros de Itajaí não paravam. No dia 19 de janeiro de 1948 houve muito movimento no estaleiro Fluvial. Entre as ferramentas, poeira e homens que carregavam troncos de árvores, tudo feito no braço, Narciso dava ordens e controlava o trabalho. O motivo de todo aquele alvoroço foi o pedido de uma grande embarcação para a capital da República, a cidade do Rio de Janeiro. Havia também mais três pequenos barcos para manutenção. Como na época existiam mais embarcações do que carros, os estaleiros permaneciam sempre cheios e o Fluvial não fugia à regra. Faltavam funcionários e Narciso já tinha alertado por mais de uma vez, da necessidade de contratar homens para o serviço. Com uma mão-de-obra sem qualificação, não restara alternativa ao carpinteiro naval senão ensinar outros homens. Alguns deles se tornaram exímios artífices, mas sem chegar a superar o mestre. No galpão aberto, bem próximo ao rio Itajaí, eles trabalhavam sob o comando do velho Narciso.

            – Não deixem essa madeira aqui. Cipriano, cuidado com a serra. Bruno onde está o martelo? – gritava.

            – Seu Narciso, aonde vai essa tábua?

            – Aqui na lateral. Não esqueçam de lixar bem essa madeira.
 
 
Porto pesqueiro década de 1970/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            E assim seguia a rotina no estaleiro, que era de poucas palavras, porém, de muito trabalho. A vida do carpinteiro naval na empresa poderia ser considerada muito penosa, mas era necessário trabalhar. Viver em 1948 era complicado, não existiam alimentos em abundância, já que o mundo tentava se reconstruir da Segunda Guerra Mundial. Além disso, os suprimentos eram caros e para poder obtê-los tinha-se que trabalhar muito. Doenças simples de hoje poderiam matar uma pessoa em poucas horas. No estaleiro, o serviço não parava e apenas representava o que passava no mundo pós-guerra. O horário de serviço começava às sete horas da manhã e seguia até as sete da noite. Acontecia às vezes, quando havia muito pedidos ou consertos, de ficar até perto da meia-noite. O ritmo que se seguia era de reconstrução. Aquele dia de verão de 1948 foi um bom exemplo desse movimento mundial. Dentro da oficina, o “faz isso” ou “faz aquilo” dominava o ambiente. O almoço durava uma hora e os lanches da manhã e da tarde 15 minutos. Isso quer dizer que um operário no estaleiro trabalhava dez horas por dia. A semana tinha seis dias e somente o domingo era respeitado para o descanso. A rotina do estaleiro representava a realidade de outras empresas de Itajaí, embora existam casos onde a jornada de trabalho superava às dez horas diárias.
            No entanto, havia um dia em que os espíritos dos trabalhadores estavam mais livres e os diálogos soltos.  O dia mais esperado por todos, sem dúvida, era a tarde de sábado. Nesse dia, acontecia apenas a manutenção dos equipamentos, limpeza e organização do local de trabalho. Cada trabalhador pensava no que faria para descansar ou aproveitar o fim de semana. No verão, os passeios levavam uma multidão para o rio Itajaí-Açu, bem como os piqueniques nas praias. Os moradores dedicavam o sábado à noite ao cinema. Já nos domingos, às matinês, tanto no Cine Itajaí como no Rex eram paradas obrigatórias para a juventude. Os chefes de família normalmente ficavam em suas casas.    

            Em Itajaí, no fim da década de 1940, tudo estava concentrado no centro da cidade. O comércio, o hospital Santa Beatriz, o banco, a agência dos Correios e até boa parte da população morava na parte central. Sem calçamento e com poucas ruas de acesso, caminhar em Itajaí não era uma tarefa tão simples. Na época, o caminho do porto até a rua Sete de Setembro seguia por trilhas na mata.  As crianças para chegar até a escola Victor Meireles tinham que andar um bom trecho de terra todo dia. O trânsito na cidade era formado na sua maioria por veículos de tração animal. Alguns carros eram vistos, mas poucos circulavam pelo perímetro urbano. O fim da tarde, no sábado de 22 de janeiro de 1948, foi, como de costume, de limpeza. O ambiente se encontrava bem mais leve e o encarregado Narciso dividiu fumo de corda para os funcionários. Nesse dia, o carpinteiro naval deixava um pouco o profissionalismo e chegava a brincar com os trabalhadores. Conversava-se de tudo e as novidades da medicina que apareciam na farmácia Brasil, de propriedade de Heitor Liberato, estavam neste contexto. Liberato era médico e, muitos dos funcionários, assim como Narciso, passaram pelas mãos precisas daquele cirurgião, tão famoso em Itajaí.
 
Vila Operária década de 1940/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            – Então Tonho, a tua barriga tá melhor? – perguntou um trabalhador, enquanto segurava com uma mão a vassoura de palha e na outra um cigarro. 

            – Tá um pouco melhor, tomei óleo de rícino e soltou tudo - disse o trabalhador com chapéu de palha.

            – Foi uma ideia de jerico. Um conhecido meu quase morreu depois de tomar óleo de rícino. Devia procurar o doutor Liberato e pedir pílulas purgativas. Hoje só se usa isso. Eu estive ontem lá. Sabe que um tal de elixir de Nogueira que é um santo remédio para muitas doenças?

            – É mesmo, mas eu não tenho um tostão no bolso para comprar essas pílulas.

            – Se o problema era o tutu eu te emprestava.
 
Helicóptero na década de 1940/Divulgação
 
           A conversa parou por causa do o Vapor Nacional. Pelo seu tamanho acima do normal, sempre chamava atenção. O vapor chegava de Santos saturada de mercadoria e o destino eram os mercados de Itajaí e cidades da região, por exemplo, Porto Belo. Entre os produtos que os comerciantes e clientes esperavam com ansiedade estavam o açúcar, a banha, o querosene (muito utilizado na iluminação das casas), a goma, o fumo de corda, polvilho, mel, fósforo, vinho virgem, azeite e o charque. Parte desses produtos ia para Domingos Marquezi, responsável por um comércio de Secos e Molhados na rua Pedro Ferreira. A família de Narciso, bem como boa parte da população fazia as compras nesse comércio.   O Secos e Molhados Marquezi seria hoje um grande supermercado. Bruno, jovem aprendiz de carpinteiro naval, recomeçou a conversa interrompida com um assunto que ficou na berlinda durante todo o mês de janeiro de 1948 e chegou mesmo a ser notícia nos jornais da cidade portuária.

            – Disseram que viram lá pelo lado da Itaipava um avião muito esquisito.

            – Avião Esquisito? – questionou Cipriano.

            Nesse ponto Narciso, que não tinha o hábito de se meter na conversa dos outros funcionários, também ficou atento. Já passava das seis horas da tarde, mas como era verão o dia permanecia bem claro. A limpeza se encontrava no fim e todos se encontravam agitados para ir embora. 

            – A coisa tinha uma hélice de barco bem grande em cima – completou o aprendiz de carpinteiro naval.

            – Então era um navio – comentou Juarez, um senhor de cabelos e barbas rasas e brancas.

            – Se voava não era navio – dizia uma voz entre os funcionários do estaleiro.

            Na semana que foi publicada a notícia, Narciso chegou a ler os jornais e logo matou a charada para espanto de todos. O fato tinha acontecido há duas semanas. O registro no jornal “A Nação” do dia 7 de janeiro de 1948 dizia que um proprietário rural havia de fato visto a tal aeronave. A manchete do jornal era a seguinte: “Uma estranha aeronave em Itajaí”

            – Era um helicóptero – disse resoluto o carpinteiro naval.

            – O que é isso?

            – Uma aeronave nova feita nos Estados Unidos.

            Os funcionários ficaram boquiabertos com a explicação. Ninguém teve coragem de duvidar do chefe. Muitos não entenderam o significado do nome e pediram que o carpinteiro naval repetisse.

            – Como é mesmo?

            – Um Helicóptero. 
 
Itajaí na década de 1950/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            Ele precisou dizer mais duas vezes para que os funcionários do estaleiro compreendessem. Assim que a limpeza terminou, os trabalhadores seguiram cada um para sua casa e alguns deles ainda pronunciavam bem baixinho a palavra. Eles  não queriam esquecer o que ouviram para poder contar em casa a novidade. Em tempos sem televisão, uma boa história tinha tudo para ser um ótimo passatempo. Narciso sem uma para contar, também seguiu para casa. Encontrou a esposa, sentada no sofá. Tricotava um suéter azul. No tapete branco, duas meninas brincavam, cada uma com sua boneca. Eram as filhas do carpinteiro naval. Eugênia tinha 11 anos e Herondina era doze meses mais nova. Assim que perceberam a chegada do pai, elas largaram as bonecas e correram na sua direção. 

            – Papai, papai! Hoje andamos de carro! – disse Eugênia ao mesmo tempo em que o abraçava. O mesmo fez a irmã que continuou o relato da aventura do dia. 

            – Era um carro tão bonito. Chegamos tão rápido em casa!

            O automóvel em questão era um modelo Sedan, fabricado em 1940. Ele era abastecido com gasogênio, um combustível que surgia da reação do oxigênio e carvão. A gasolina já existia na época, mas com a Segunda Guerra Mundial, o combustível derivado do petróleo ficou sem ser encontrado no Brasil.

            – Levei as meninas hoje de manhã para comprar roupas. Seus vestidos estão todos velhos e não tem mais o que remendar. Na loja encontrei o senhor Antônio Ramos. Como estava a caminho do estaleiro, ele ofereceu carona.

            – Papai foi tão bom. Não é mesmo, Eugênia?

            – O senhor deveria comprar um carro também papai.

            – Onde estão os garotos? – perguntou Narciso  à mulher ao mesmo tempo que olhava ao redor. 

            – Eles foram até o mercado do senhor Marquezi.

            O carpinteiro naval depois de beijar as filhas e a esposa seguiu para o seu quarto. O jantar foi servido às oito horas em ponto, já com a presença dos filhos Henrique e Firmino. Como de costume, a refeição noturna foi feita sem muitas palavras. O sábado também modificava os hábitos da família. Durante toda a semana grupo ia para cama logo após o jantar, mas como no domingo ninguém tinha compromisso, os filhos e os pais ficavam cada um com  seu divertimento favorito.
 
             Os meninos visitavam os colegas próximos, todavia tinham que respeitar o horário de voltar para casa, no caso deles, às dez da noite. As garotas brincavam até quase o mesmo horário. A mãe que se chamava Sebastiana pegava as agulhas e os novelos de lãs e continuava o trabalho de tricô. E o que fazia Narciso? Se tivesse um aparelho de televisão, provavelmente se entreteria com ele. Embora a primeira transmissão – uma partida de futebol – de televisão no Brasil acontecesse no dia 28 de setembro de 1948, um aparelho estaria ainda muito longe da realidade das famílias brasileiras. Os primeiros itajaienses só tiveram o primeiro contato com o aparelho no dia 17 de julho de 1960. O eletrodoméstico que veio de Curitiba foi ligado a uma torre de energia elétrica. Após horas de tentativas conseguiu-se captar apenas o som de uma emissora paulista. Isso chegou a ser motivo de comemoração na cidade.

            Sem imagens, Narciso teve que se contentar apenas com os sons emitidos por seu rádio, um modelo valvulado da Phillips, feito em madeira. Todos os dias após o jantar e aos domingos à tarde, o aparelho radiofônico, que ficava instalado em seu quarto, lhe fazia companhia. As radio-novelas, as transmissões dos jogos de futebol e as notícias estavam entre seus programas favoritos. Na noite daquele sábado, como era de costume, ele relaxou o corpo na sua “inseparável”, nome dado pela esposa a cadeira de balanço feita por ele na juventude. Para cada cidade que ia ele levava a “inseparável” junto. Ligou o rádio, sintonizou na única estação da cidade, a Rádio Difusora Itajaí, fundada em 1942. Naquele mesmo ano, um alto-falante instalado na praça Vidal Ramos anunciou a novidade para população, superada 18 anos depois pela televisão e quase 60, com a internet. Se perguntassem para o carpinteiro naval o que era internet, ele teria a mesma reação dos funcionários do estaleiro em relação ao helicóptero.

            – Que diabos é isso?  – diria o carpinteiro naval.

            Com a estação sintonizada, Narciso esperou passar os comerciais. Já estava quase na hora de começar o jornal, o Repórter Esso.

Locutor masculino – Amigo ouvinte, boa noite! Você está sintonizado na ZYK9, 1530. A menor com o maior alcance. Daqui a pouco, mais uma edição do seu jornal Repórter Esso, "o primeiro a dar as últimas".

Locutora feminina – Fracos e anêmicos tomem o vinho Creosato Silveira, um grande tônico.

Locutor masculino – Papéis de todos os tipos, carbono, diplomata, brístol, em diversas cores, tintas, penas e lápis. Você encontra na Casa Macedo, localizada na Rua Lauro Muller, nº 480.

Locutora feminina – Milhões têm usado com bom resultado o popular depurativo Elixir 914. Um santo remédio para queda de cabelo, fígado, baço, coração, estômago, pulmão e pele. Inofensivo ao organismo, agradável como licor. O Elixir 914 pode ser encontrado na Farmácia Brasil, de Heitor Liberato & Cia.

Locutor masculino – Em nome da Casa Almeida & Voigt começa em dois minutos o Repórter Esso.

            Narciso aproveitou esse tempo para pegar um cigarro de corda e se ajeitar na cadeira. A janela do quarto permanecia aberta. Era oito e meia e começava anoitecer. Uma brisa fria vinda do rio Itajaí-Açu, de vez quando, entrava no quarto escuro.

Gontijo Teodoro – Amigo ouvinte, aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da história.

Heron Domingues – Morreu assassinado na manhã de hoje, na Índia, Mohandas Karamchand Gandhi. O líder pacifista que era conhecido pela sábia política da boa vizinhança...

*    *    *

            O primeiro ano em Itajaí foi de poucas preocupações para Narciso. No trabalho, o estaleiro crescia a cada mês. Dono e funcionários estavam satisfeitos com o resultado do trabalho. Sempre tinha um pedido para construção de um barco. O profissionalismo do carpinteiro naval havia se espalhado pela cidade e ele era sempre requisitado para um serviço. Elogios não faltavam para o velho Narciso e aos poucos ele ganhava o reconhecimento das pessoas. O sucesso profissional se refletia também em casa. O ambiente era um dos melhores. Móveis começavam a ocupar o espaço vazio da casa, que vivia lotada. Toda semana, Narciso  abrigava, mesmo por alguns dias, um parente ou conhecido vindo de Porto Belo. A casa da família Barreto parecia mais um hotel do que um lar. Essas pessoas saíam de Porto Belo, mais precisamente de Bombinhas, para se livrar de uma vida difícil, cheia de privações. Lá não havia emprego, o dinheiro que se ganhava com a pesca era usado todo na alimentação, isso quando dava para comprar alguma coisa para comer. Existia apenas uma escolha a fazer: abandonar Bombinhas. Uma das poucas opções se chamava Itajaí. 
 
Regata náutica em 1948/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            Dezembro enfim chegou e em poucos dias 1948 iria embora, levando com ele muitas lembranças, algumas ruins e outras boas da vida do construtor naval. Entre essas agradáveis recordações estão as famosas regatas, realizadas no rio Itajaí-Açu. Elas aconteciam uma vez por ano e reuniam centenas de pessoas. Era um acontecimento tão esperado pela população que hoje pode ser comparado a uma partida de futebol ou até mesmo com o Carnaval. Não se comentava outra coisa na cidade, se não fosse às regatas. Quem ia competir? Quais eram os favoritos? Qual o melhor dos yolés? – embarcações pequenas usadas na prática de remo, conhecidas popularmente como caiaques. Essas e outras perguntas eram feitas e respondidas em bares, no trabalho, no porto, hospital, no comércio ou até mesmo na área rural. A semana que antecipava a data das regatas era cheias de expectativas. No estaleiro onde trabalhava Narciso a rotina também havia mudado. E não era para menos, dois yolés estavam sendo preparados para a competição ali. Na sexta-feira, dois dias antes das competições, os barcos foram entregues para seus proprietários. Mesmo não sendo sábado, os funcionários arriscaram seus palpites.

            – O Alvorada vai ganhar –  comentou Bruno.

            – O Alvorada é bom, mas a equipe é fraca. Eu acho que quem ganha a regata é o time do Marcílio Dias. Eu vi no sábado passado o Yara e Yarê no rio – disse Cipriano.

            A conversa seguiu com cada funcionário dando seu palpite ou discordando do colega. A discussão de quem ganharia a regata seguiu no sábado de limpeza e só terminou com o fim das provas. No domingo, antes das oito horas da manhã, a família de Narciso já estava pronta. Cada integrante mostrava com orgulho seu traje domingueiro. As mulheres com longos vestidos sem manga e os homens com terno, calça de linho e chapéu. No caminho, o carpinteiro naval encontrou outras tantas pessoas, que seguiam à praça Vidal Ramos. O trajeto a pé levava quase meia hora, mas ninguém reclamou do cansaço. Chegando ao local, um alto-falante dava as boas vindas para quem chegava e pedia para que os competidores se alinhassem, cada um na sua raia. As regatas no rio Itajaí-Açu eram realizadas sempre nas manhãs do segundo domingo do mês de dezembro. A corrida de barcos durava, em média, uma hora e meia. O percurso tinha 800 metros e era limitado por cordas. Ganhava a corrida quem completasse 20 voltas nesse trajeto. Narciso que tentava se proteger do sol escaldante daquela manhã de verão, observava por entre os seus grandes óculos, os oito yoles que permaneciam posicionados. Cada caiaque levava cinco atletas. Todos esperavam com aflição que o juiz da prova desse o tiro de largada. Centenas de pessoas se espremiam tanto na margem direita – Navegantes – , como na esquerda – Itajaí. O tiro para o alto foi dado e o locutor começou a narrativa de mais uma regata náutica.

            – Começa mais uma grande Regata Náutica de Itajaí O yole número cinco saiu na frente, mas a vantagem para o número dois é...

            Remando com toda a força que seus braços podiam aguentar, os atletas largaram, mas a distância de um caiaque para outro era muito pequena. Somente na metade da prova em diante é que se podia ver quem havia entrado para vencer e quem estava na regata apenas para competir. Parte do público que se encontrava nas margens do rio Itajaí-Açu animava os atletas com gritos de incentivo. “Vai José”, “Não desista João” e “Você é o melhor Pedro” eram algumas das frases ditas entre a multidão.

            – Faltam apenas oito voltas e o yole número três lidera. Agora... – continuava o locutor.

            A última volta foi cheia de emoção. Os caiaques Yara – número cinco – e Yarê – número dois – do Clube Náutico Marcílio Dias se encontravam um do lado do outro.  Favorito, o Yara chegou a se distanciar, mas faltou fôlego para os atletas. Nos últimos cem metros, para a surpresa do público, a equipe do Yarê conseguiu superar seus colegas de clube e venceu a prova. A regata náutica de 1948 apenas comprovou a hegemonia dos remadores do Marcílio Dias. Nas dez últimas edições, antes daquele ano, pelo menos em sete, um yole do clube terminou em primeiro lugar. No pódio, que tinha direito até a champanhe, o prefeito Arno Bauer entregou o troféu para o quinteto. Uma pequena banda formada por alunos do colégio Victor Meireles tocou o hino da vitória. Com o fim da regata e das premiações, a praça Vidal Ramos ficou vazia. A população que havia lotado o local foi embora do mesmo jeito que veio.  Narciso seguiu com a família o caminho de casa. Embora na torcida por um dos dois caiaques que ajudou a consertar, o carpinteiro estava satisfeito com o resultado. Os yoles que passaram pelo estaleiro Fluvial ficaram em terceiro e em quinto lugar, respectivamente. 
 
Yole na década de 1940/Divulgação
 
            A regata não foi o único motivo que fez Narciso sair de casa naquele domingo de 1948. Uma outra distração fazia parte dos seus planos e era aguardada com ansiedade pela família. Pela primeira vez, Sebastiana conheceria o cinema. Narciso e os filhos já haviam ido aos dois cinemas da cidade: o Cine Itajahy e o Rex. Durante todo aquele ano, o carpinteiro naval tentou levar a mulher ao cinema, mas o serviço no estaleiro o impediu. Os filhos não ficavam de fora, aliás, da casa eram eles que mais visitavam as salas de projeção. Todos os domingos, cada um com sua revista, seguia para o Cine Itajahy. Os filmes de faroeste, do Tarzan e as séries como “O Segredo da Ilha do Tesouro” e “Zorro” faziam a alegria de crianças e adolescentes e por que não dizer dos adultos também. A juventude tinha uma sessão especial às cinco horas. O cinema era tão popular na época, que essa diversão era acessível para todas as classes sociais. Durante o almoço de domingo não se falava em outra coisa na mesa. Até mesmo a regata havia sido esquecida.

– Henrique, descobristes que filme vai passar na sessão das oito no Cine Itajahy? – perguntou Narciso.

– Não sei o nome do filme, mas é sobre o Natal. Eu passei ontem pelo Cine Rex e vi o cartaz – respondeu sem desgrudar os olhos da revista que trazia informações sobre a programação.

            – O senhor vai ao cinema papa?

            – Sim Manoel, eu vou, mas não me chame mais de papa. Vou levar a mãe de vocês, que não sabe o que é um filme.

            – Não tem esse filme na revista pai.

            – Não faz mal Henrique. Não faz mal - respondeu Narciso batendo de leve nas costas do filho, que tentava encontrar o título na sua revista.

            – Podemos ir também? - perguntou Herondina.

            – Não, vocês vão à matinê. Nós vamos à noite. Eu e sua mãe.

            – Mas não é perigoso pai? Vir para casa tarde da noite e a pé? Perguntou  a esposa apreensiva.

            – Quem disse que vamos a pé? O senhor Leonardo Antunes, sócio do estaleiro, vai levar. Ele ofereceu carona para hoje à noite. Tentei recusar, mas ele disse que seria uma ofensa muito grande se eu dissesse não.
 
James Stewart em "A Felicidade não se compra"/Divulgação
 
 
            A noite daquele dia, 14 de dezembro de 1948, foi inesquecível para o casal. O tempo estava bom e não fazia calor. Meia hora antes do horário combinado para o cinema eles já se encontravam arrumados. Narciso de terno, gravata, sapato lustroso e chapéu. Sebastiana com um longo vestido, modelo tirado da última edição da revista “Cruzeiro”. O carro, um modelo Ford 1945, levou o casal ao cinema. Inaugurado no dia 3 de agosto de 1938, o Cine Itajahy funcionava em um prédio da rua Hercílio Luz. O primeiro filme apresentado foi “Anna Karenina”, produção americana de 1935, baseada no livro de mesmo nome, do escritor russo Leon Tolstoi e quem tinha no elenco a sueca Greta Garbo. As 60 poltronas do Cine Itajahy eram estofadas e com assento reclinável. O maquinário para a projeção era o melhor do Estado de Santa Catarina na época.  Grande parte dos filmes, a exemplo da produção de hoje, tinha origem americana. Na entrada do prédio,  Narciso e a esposa foram recepcionados pelo senhor Opuski, que reconheceu o carpinteiro naval. Opuski era uma pessoa muito popular na cidade.

            – Boa Noite senhor Narciso! Boa noite senhora! - cumprimentou sorridente, assim que entregava as entradas.

            – Que filme temos hoje, Opuski?

            – O melhor filme que passou pelo Cine Itajahy até agora. Chama-se “A Felicidade Não se Compra”, com James Stewart, o mesmo que fez “Núpcias de Escândalo” e “A Mulher Faz o Homem”. Para cada filme que era rodado, Opuski dizia que era o melhor filme que passou no Cine Itajahy.

            O casal entrou na sala de projeção e procurou um bom lugar para sentar. Como tinha problema de visão, Narciso ficou na segunda fila. O cinema estava lotado. Na cabine de projeção o operador Arnoldo Polhein e seu ajudante, Osmar Corrêa de Mello, o Marzinho, revisavam o filme para ver se as emendas estavam firmes. A principal preocupação do operador era da fita arrebentar durante a sessão. Quando as luzes se apagaram, todos nos cinema se encontravam apreensivos. A esposa de Narciso que nunca tinha ido a uma sala de projeção não se aguentava na poltrona. Uma luz percorreu toda a sala e chegou até parede em frente do público. Dirigido por Frank Capra em 1946, “A Felicidade Não se Compra” conta a história de um anjo que desce a terra para salvar um homem (Stewart) do suicídio. Na meia hora final do filme, o anjo, que precisa merecer suas asas, mostra como seria a cidadezinha do herói caso ele nunca tivesse existido. 


*    *    *

                        O sol outonal começava a se estender no horizonte por trás dos morros que cercam Bombinhas. Faltava ainda meia hora para anoitecer.  Depois que terminou a narrativa, Paulo Aguiar, ainda sentado na areia da praia, olhava para o mar. Como a história dos descendentes da Ericeira não havia terminado resolvi ficar até a noite em Bombinhas, mas esse lugar não seria a praia da Sepultura. Antes que eu mesmo falasse na tal possibilidade, Aguiar se adiantou.

            – Você vai voltar para Balneário?

            – Agora não, mas se precisar posso ficar em Bombinhas mais duas ou três horas.

            – Se quiseres você pode dormir aqui. Você tem compromisso amanhã?

            – Não, mas não posso ficar minha esposa está a minha espera. Ficarei de bom grado até a história acabar – respondi.

            – Eu acho que da para terminar mais uma história antes de anoitecer de vez.

            Paulo Aguiar contou o que aconteceu com o Narciso e sua família. As filhas cresceram e se formaram professoras. Eugênia casou e foi morar em Guarujá na década de 1960. Herondina nunca casou ou teve filhos. Ela mora hoje em Itajaí. Já os filhos homens seguiram o caminho da pesca. Henrique morreu em naufrágio na cidade do Belém do Pará, em 1975. No mesmo ano, Narciso que não aceitou a morte do filho, morreu em casa, perto da Capitania dos Portos, em Itajaí. Ele se aposentou pela Estrada de Ferro Santa Catarina, que era dona do estaleiro Fluvial. Sebastiana faleceu em 1984 e Firmino no ano passado.

            – Então sobraram apenas às meninas – conclui.

            – Sim, você se lembra que Narciso ajudou muitos moradores de Porto Belo a arrumar trabalho? A próxima narrativa conta a história de uma dessas pessoas.