quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Nova Ericeira


Brasão da antiga Nova Ericeira tinha no centro o ouriço, também presente no brasão da Ericeira


      Em fevereiro de 1818, Dom João VI foi coroado rei de Portugal, Brasil e Algarves. Uma das primeiras medidas já como monarca foi à criação de uma colônia pesqueira no Sul do Brasil. O Aviso Régio de 25 de março de 1818 tornou oficial a ideia sugerida um ano antes por Justino José da Silva. Coube ao então Intendente da Marinha de Santa Catarina, o comandante Miguel de Souza Mello e Alvim, a fundação do povoado no litoral catarinense. O local indicado foi a Enseada das Garoupas, hoje cidade de Porto Belo.

Oficialmente os colonos chegaram no Litoral de Santa Catarina em 1817, mas há registro de ericeirenses antes de 1800

      Como se tratava de um empreendimento pesqueiro, os colonos vieram de uma região com tradição secular na pesca em Portugal: a freguesia da Ericeira. Bem antes do descobrimento do Brasil, os ericeirenses já pescavam em alto mar e conheciam as técnicas da pesca. Todo esse conhecimento eles levaram para o litoral de Santa Catarina. Surgia assim a Colônia Nova Ericeira.


A Ericeira surgiu de uma vila pesqueira com mais de dois mil anos de história. O Foral de 1229 já faz referência a pesca

      Justino José da Silva era ex-funcionário da Câmara Municipal da Ericeira, extinta em 1855, por ocasião de uma reforma administrativa que o Reino de Portugal promoveu. Além de Justino, entre os colonos havia mais dois funcionários da Câmara Municipal. Antes da chegada da primeira leva de colonos, algumas famílias da Ericeira e de outras cidades de Portugal Continental residentes em Desterro (Florianópolis), São Miguel da Terra Firme (Biguaçu) e São José, seguiram para Enseada das Garoupas. Eles se ajuntaram com colonos e deram inicio a nova povoação.


Da Ericeira veio todo o conhecimento da pesca para o Sul do Brasil. Na foto Victorino Dias, o Cachafana, que nasceu em 12/12/1833 e morreu em 05/06/1861 na Ericeira

      João Vieira Tovar e Albuquerque, governador da Capitania de Santa Catarina, forneceu todo o material indispensável para os novos povoadores (casas, ferramentas, sementes e o pagamento pelos serviços prestados). Os terrenos, que começavam em Porto Belo e seguiam até Itajaí, foram doados por sorteio pelo próprio governador. O mesmo entregou na mão de cada colono o título de posse. Chefes de famílias receberam lotes próximo ao mar e os solteiros ficaram com as terras de interior.


Independência do Brasil, em 1822, apressou o fim da Nova Ericeira. Todos os projetos de Portugal foram esquecidos a partir dessa data

      Além dos pescadores, um padre e um médico foram contratados para atender, de graça, os colonos. Nos primeiros meses no Sul do Brasil, os ericeirenses se ocuparam na construção de casas e na aquisição de embarcações à pesca em alto mar. Eles contaram com a ajuda de Mello e Alvim, que providenciou uma embarcação pesqueira na Armação da Piedade, núcleo de captura e industrialização de baleia criado no ano de 1746. Com o barco, deu início a pesca marítima na Colônia Nova Ericeira.

Um dos legados deixados pelos ericeirenses foram as festas religiosas. Na Nova Ericeira, a festa em homenagem a Nossa Senhora da Boa Viagem recebeu o nome de Nossa Senhora dos Navegantes

     Depois de 1818, o litoral catarinense recebeu mais levas de colonos da Ericeira, a última aconteceu em 1824. Foi justamente nesse ano, no dia 18 de dezembro, que o nome Nova Ericeira foi substituído por Porto Belo. O alvará que determinava a mudança fez que a freguesia ficasse subordinada a vila de Tijucas por oito anos. No dia 13 de outubro, Porto Belo deixou de ser freguesia para se transformar em vila. O nome Nova Ericeira foi esquecido, mas seus descendentes não, continuaram a repassar por gerações as técnicas da pesca que os ericeirenses trouxeram de Portugal.

A Nova Ericeira tinha um território que ia de Governador Celso Ramos até a cidade de Itajaí, no Litoral de Santa Catarina

      O primeiro estudo realizado no Brasil sobre a colônia é da professora doutora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Arlete Assumpção Monteiro. Na década de 1980, a professora descobriu, por acaso, a existência da Colônia Nova Ericeira, quando pesquisava a temática de trabalho e a educação em áreas litorâneas. Ela aproveitou o tema para o seu mestrado, também na PUC-SP. No ano 2000, o mesmo material serviu para escrever “A Ericeira Brasileira: trajectória de uma colónia portuguesa no litoral brasileiro”. O livro publicado pela editora portuguesa Mar de Letras, em comemoração aos 500 Anos da Descoberta do Brasil, é referência sobre a Colônia Nova Ericeira.


De vila formada por pescadores, a Ericeira é hoje um balneário conhecido na Europa. O turismo é a principal atividade econômica

      No papel, a Colônia Nova Ericeira deixou de existir no ano de 1824. A Independência do Brasil, em 1822, a demora para distribuição das terras e construção dos barcos de pesca, contribuíram para o fim da colônia. Segundo professora Arlete, o movimento de apagar tudo que lembrasse os projetos de Portugal ajudou para trocar o nome Nova Ericeira por Porto Belo. Atualmente, as pessoas que residem nas oito cidades que fizeram parte da colônia (Governador Celso Ramos, Bombinhas, Porto Belo, Itapema, Camboriú, Balneário Camboriú, Itajaí e Navegantes) desconhecem que um dia houve a Colônia Nova Ericeira.
 
Por ter uma baia tranquila, Porto Belo foi escolhida para ser a sede da Nova Ericeira. Porto Belo vive hoje do turismo

      A Colônia Nova Ericeira foi criada em 1818, primeiro para garantir a ocupação portuguesa no litoral de Santa Catarina, região entre a Enseada das Garoupas (Porto Belo) a Foz do Rio Itajaí (Itajaí/Navegantes). Em segundo lugar, para explorar o potencial pesqueiro do litoral catarinense. As terras da Colônia iam de Tijucas a Camboriú, mas elas podem ter entrado pelo Rio Itajaí e chegado até Indaial. A Nova Ericeira foi uma colônia estatal, provida com recursos da Coroa Portuguesa. Estima-se que cerca de 300 famílias vieram da Ericeira para o Sul do Brasil, a maioria homens do mar (pescadores e carpinteiros navais).


A pesca é sem dúvida a grande herança deixada pelos jagozes em quase 200 anos de Nova Ericeira

      As famílias ericeirenses se estabeleceram entre Porto Belo a Itajaí, mas existem indícios de descendentes em outras cidades do Litoral de Santa Catarina. Pode ainda ter o translocamento de algumas famílias para os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.
 
Nove cidades foram criadas da antiga Nova Ericeira, Balneário Camboriú foi uma delas. A cidade catarinense é uma das mais conhecidas do Sul do Brasil

      A Colônia Nova Ericeira foi extinta em 1824, mas seus habitantes não. Com o nome de Porto Belo, as famílias da Ericeira continuaram a desenvolver a arte da pesca pelos anos que seguiram. Do antigo empreendimento pesqueiro surgiram nove cidades e todas com um algo em comum: a ligação com o mar. As cidades que nasceram da Nova Ericeira são: Balneário Camboriú, Bombinhas, Camboriú, Governador Celso Ramos, Itajaí, Itapema, Navegantes, Porto Belo e Tijucas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ex-vereador de 94 anos desaprova atitude de colegas mais jovens

Para Tito Filomeno vereadores deveriam estar preocupados com problemas de Itajaí e não com assuntos pessoais
A sabedoria que falta para muitos vereadores de hoje, sobra para o senhor Vicente Tito Filomeno, nos seus 94 anos. Tito Filomeno foi vereador em Itajaí, numa época que não havia salário, assessores e outras mordomias. Numa época em que os parlamentares tinham o dia descontado do trabalho toda a vez que eram obrigados a ir nas sessões. Os ex-vereadores vêm, segundo a opinião do próprio Tito Filomeno, de um período em que se legislava com preocupação de atender a comunidade e não a interesses pessoais.


Muito diferente do que os políticos fazem atualmente. Um exemplo, ou melhor, um mau exemplo surgiu do lugar que seu Tito Filomeno trabalhou de graça, a Câmara de Vereadores de Itajaí. Mesmo com a opinião pública totalmente contra, os parlamentares aprovaram o aumento de 12 para 21 vereadores.

A medida vale para a próxima legislatura. Durante dois Meses aconteceram protestos de repúdio a medida no município. O Observatório Social de Itajaí,que representa entidades civis organizadas do município, chegou a entregar no dia da votação um abaixo-assinado com cerca de 9 mil assinaturas, mas nada adiantou. Para o ex-vereador de 94 anos, a atitude vai gerar um gasto desnecessário para os cofres públicos.

Segundo Tito Filomeno, o dinheiro poderia ser utilizado para obras que Itajaí precisa.

- Eu acho que funciona muito bem como está, com 12 vereadores. Se nós olharmos para a nossa cidade falta muita coisa. Nós não temos um bom hospital ou uma linha de ônibus que preste. Eu acho uma sangria, o município não pode custear mais essa despesa – desabafou.
Vereadores, mesmo contra a vontade popular, aumentaram o número de cadeiras no legislativo de Itajaí
Vicente Tito Filomeno nasceu em Florianópolis, em 11 de março de 1917, de pai italiano e mãe brasileira. Ele veio morar em Itajaí, em 1939. Tito foi vereador entre 1951 e 1955. Tito Filomeno antes de ser vereador foi também maquinista da Marinha Mercante e se aposentou como funcionário da Previdência Social.

Getulista ferrenho, Tito Filomeno se filiou ao PDT, mas largou a política no fim do seu primeiro mandato.

- Eu me decepcionei com a política, não vou usar o termo enojado, mas perdi o interesse – explica.

De acordo com o ex-vereador, na década de 1950, o trabalho na Câmara de Vereadores era muito diferente do que é hoje.

- Não tinha nada, nem caneta e nem papel. A prefeitura nem sequer fornecia um funcionário para nos ajudar. Além do trabalho não ser remunerado, nós éramos obrigados a ir trabalhar de terno e gravata durante as sessões que aconteciam todas as terças e quintas- feiras.

Tito Filomeno contou que chegou até a ter o salário descontado para poder participar das votações na Câmara de Vereadores.

- Eu era agente marítimo e no fim do mês se fazia um relatório dizendo que o tal funcionário havia comparecido nas sessões tal dia, tal hora. Havia meses que eu tinha o salário descontado por ter optado em ir às sessões. Foram tempos difíceis - recorda.

Para Tito Filomeno, o vereador de hoje perdeu o amor pela camisa e só trabalha por causa do dinheiro.

- Hoje vale a pena ser vereador de Itajaí e vale a pena por causa do dinheiro. São todos uns mercenários. Aquele amor que gente tinha antigamente hoje não existe mais. – con
cluiu o ex-vereador.