domingo, 12 de fevereiro de 2017

Capítulo 10 – Uma história lamentável

                                                                                                Navio brasileiro "Tutóya" sendo torpedeado em 1943
 
            Na véspera do Natal de 1904, os moradores da única casa da praia de Fora, hoje conhecida por Quatro Ilhas, receberam o último hóspede. O parto foi demorado, começou por volta das 9 horas da manhã e terminou perto do meio-dia.  A criança insistia em não querer nascer e brigava com a pobre da parteira. Foi preciso da ajuda dos vizinhos para que o serviço fosse concluído. Como o mais próximo ficava a 800 metros de distância, o pai, muito a contra gosto, teve que correr para chamar alguém. Ele não podia ajudar, quer dizer, homem algum podia participar de um parto.

A casa estava movimentada. Os filhos choravam sem saber o que acontecia com a mãe. Félix, o pai, chegou com mais duas mulheres, que sem perda de tempo entraram no quarto. Após muito esforço, a parteira conseguiu retirar criança. Exausta, Justiniana, a mãe, descansava na cama, enquanto as duas mulheres lavavam recém-nascido. A parteira saiu do quarto e deu a notícia ao pai, que por sua vez não esboçou emoção alguma. Sentado numa cadeira, fumava tranquilamente um cigarro de corda. Deu uma baforada assim que a mulher disse: “É um menino”.

            – Muito bem! - disse ele ao se levantar.

            Félix pegou o chapéu e ainda com o cigarro na boca chamou pelos filhos adolescentes. Os garotos o ajudavam na pescaria.  Uma canoa na areia da praia esperava pelo trio. A mesma embarcação a remos usada há 88 anos pela família foi  construída pelos primeiros colonos vindos da Ericeira. A canoa passara por reformas com o tempo, mas conservava a mesma forma de quando o avô ericeirense chamado Ignácio, a usava na pescaria. Ignácio antes de deixar Portugal já trabalhava na pesca e chegou a fazer viagens de barco até a costa da Espanha. No Brasil, a profissão foi repassada para os filhos e dos filhos para os netos até chegar a Félix. O destino do recém-nascido Rogel também seria a pesca.

            Apesar de ser véspera de Natal, o trabalho foi o mesmo de um dia qualquer da semana. Ninguém cogitava a hipótese tirar o 24 de dezembro todo para descansar, pois se assim o fizessem faltaria comida na mesa. Na casa de Félix, bem como em outras residências de Bombinhas no início do século XX, os filhos  começavam a trabalhar cedo. Mal completavam dez anos, eles já realizavam alguma tarefa. Os meninos na pesca e as meninas em casa. A vida que em 1904 já era difícil para os mais velhos, tornava-se sacrificante para crianças, que precisavam ficar adultas antes do tempo. Isso se elas conseguissem passar pela infância. Se morria por muito pouco, até uma verminose mal curada podia ser um obstáculo para chegar a vida adulta.           

            Os anos passaram e o caçula da família Moutinho cresceu cheio de saúde. Com uma personalidade forte, Rogel não levava desaforo para casa e sempre se metia numa briga. A mesma personalidade fora herdada do pai. Félix era um homem severo e criava os filhos com bastante rigidez. Aplicava castigos corporais e deles ninguém escapava, muitos menos as meninas. Quem desobedecia apanhava e para os padrões atuais a surra se assemelhava ao espancamento. A mulher também não conseguia fugir da fúria do marido. Justiniana, por anos lembrou amargamente daquele fim de tarde do verão de 1906. Félix voltava de uma pescaria fraca. Justiniana se aproximou para cobrar o conserto do berço do caçula. Numa ocasião normal ele teria apenas dado uma bronca na mulher, mas como estava aborrecido, a bronca se transformou em sova.

            – Ó Antônio, a cama do menino ainda tá quebrada. Hoje ele quase caiu.

            Félix agachado limpava o peixe na areia da praia. Ao seu lado havia mais pescado para limpar e salgar.

            – Que cama? – perguntou ele olhando atravessado para a mulher.

            – Ora do nosso Rogel – respondeu a mulher dando um passo para trás.

            Naquele momento, ao notar aqueles olhos furiosos, Justiniana percebeu que cometido um erro em cobrar do marido o conserto do berço do filho. O medo da esposa não foi suficiente para diminuir a fúria de Félix. Ele pegou um peixe na mão, um bagre, e com um único golpe acertou a em cheio no rosto. Justiniana caiu e ficou desacordada por alguns minutos. Assim que recobrou os sentidos, ela pegou Rogel no colo e foi direto para casa. O menino havia presenciado tudo e isso não incomodava nada Félix. Muito menos ter deixado a face da esposa inchada pro mais de três meses. Félix voltou a limpar os peixes como se nada tivesse acontecido. No começo do século XX, a esposa era quase uma propriedade do marido e este estava livre para fazer o que quisesse com ela. Até mesmo matar, caso ele provasse uma suposta traição conjugal.

Félix se aproveitava dessa condição e transformava a vida familiar um tormento constante. Ninguém passava fome na casa dos Moutinhos, mas se vivia para o trabalho. Momentos de alegrias não existiam, muito menos nas horas das refeições. Os integrantes da família permaneciam sempre calados e sombrios. Félix não gostava nem de ver os filhos rindo. Certa vez, a filha entrou em casa a gargalhadas e a atitude fora o suficiente para resultar em um tapa. “Isso é para você aprender a se comportar melhor”, dizia sempre depois que batia nos filhos.

            Rogel apanhava quase todo santo dia, não por desobediência a Félix, mas sim porque aprontava fora de casa. Na escola batia nos colegas e não sentia medo nem dos mais velhos. Apesar das surras, o menino gostava do pai e o via como exemplo. Ele tinha apenas dez anos quando Félix morreu. Sentado na cama, o pai chamou filho por filho para se despedir. A morte se encontrava muito próxima e Félix sabia disso e o médico que deu a sentença mais ainda. Em abril de 1915, ele soube pelo doutor que não terminaria o mês vivo. A conversa individual começou pela esposa, que saiu do quarto chorando, seguiu entre os filhos até chegar em Rogel.

            – Entra logo – disse o pai ainda mais rabugento pela doença.

            Apesar do tempo ensolarado e frio, a janela do quarto permanecia fechada.  Velas que se encontravam acesas em frente à imagem de uma santa iluminava o ambiente. Assim que entrou, um cão da raça labrador levantou o focinho, latiu e  seguiu em direção a Rogel. “Camponês”, o cão favorito de Félix retornou para seu canto. O cão se recusava a sair do quarto e estava lá há três dias. O menino sentou no pé da cama e esperou o pai dizer alguma coisa. Félix encostado com as costas na parede fitou o filho caçula com seus belos olhos azuis. No leito, Rogel viu homem já com seus 60 anos. O peso da idade aparecia nos fios brancos da sua cabeleira castanha e nas rugas do seu rosto pálido. Numa semana, havia envelhecido muitos anos. Falava com dificuldade e às vezes era vencido pela  tosse.

            – Se aproxime mais. A doença do teu pai não é contagiosa.

            O garoto chegou mais próximo e para não encarar o pai olhou para as velas e a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. A santa observava a cena e talvez esperasse que o doente fizesse um último pedido. Pelo aspecto de Félix, poderia se dizer que ele faria isso a qualquer momento. Quem havia colocado o ícone no quarto foi a esposa e ela esperava que Félix se arrependesse de todos os seus pecados. Para se arrepender é preciso primeiro ter consciência dos próprios atos. Na  concepção de Félix, o que ele havia feito não contrariava a lei dos homens e a de Deus.

                                                                                                                                                                                   Camponês
 
            – Não posso falar muito. Acho que não tenho...

            O homem foi interrompido pela tosse. Quando isso acontecia sentia muitas dores no peito e nas costas. Pediu para o filho pegar uma bacia debaixo da cama. Nela, Rogel ficou enojado com que encontrou: catarro e uma espuma vermelha. Ao  terminar de cuspir, Félix limpou do canto da boca o resto de sangue. 

            – Vou ser rápido. Cuide da sua mãe e seja obediente aos teus irmãos mais velhos. Agora vá. Vá! - gritou.

            A despedida de pai e filho não teve abraço e muito menos lágrimas. Antes sair, Félix pediu mais uma vez a bacia. Durante toda a noite e a madrugada, o pescador agonizou. Sentia dores terríveis e Camponês latia e andava de um lado a outro do quarto, sem poder fazer nada para salvar o dono. Apesar da rigidez e dos castigos corporais que infligia aos filhos e a mulher, o pescador não poderia ser considerado um homem mal. No seu tempo de criança o pai havia feito o mesmo com ele, o avô também havia feito com pai e assim até chegar no primeiro Moutinho que veio da Ericeira. A pesca não fora a única herança deixada para os descendentes. A forma de criar os filhos foi uma delas. Até hoje é fácil encontrar esse indício severo nos ascendentes da Ericeira no Brasil.

            A morte de Félix chegou ao amanhecer. No quarto, os irmãos José – que viera de Porto Belo –, uma irmã solteirona chamada Maria e a esposa esperavam. Camponês sob a cama latia bem baixinho. Antes de morrer, no delírio da febre, o homem fez seu último pedido. Não para a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem e sim para esposa.  Ele pediu que fechasse as janelas, pois sentia muito frio. Não fora preciso já que a janela permaneceu fechada durante os três dias que esteve no quarto. Justiniana pegou mais um cobertor e o cobriu o marido. Félix olhou para a esposa e disse:

            – Muito bem!

            Pela primeira vez na vida, Justiniana viu um brilho no olhar do marido que parecia uma lágrima, porém ela nunca teve certeza. Ao se virar de lado na cama, o corpo de Félix ainda se retorceu antes de expirar. O enterro foi realizado no cemitério de Porto Belo no fim da tarde do mesmo dia. No cortejo, Justiniana e Rogel foram os únicos que choraram. A dor de mãe e filho não chegava nem perto do que sentia Camponês. O cachorro latia o tempo e não deixava de vigiar o caixão. Foi com muito custo que o afastaram para baixar o corpo a sepultura. As pessoas retornaram para Bombinhas e cachorro ficou no cemitério. Deixaram o pobre cão próximo ao túmulo e também se quisessem, talvez não conseguissem persuadi-lo a ir embora. Durante aquele fim de tarde, à noite e na madrugada do dia seguinte, Camponês permaneceu deitado no túmulo do seu dono. Recusou água e comida oferecida pelo coveiro. O cão ficou nessa posição pelos dois dias seguintes, até ser encontrado morto pelo coveiro Um buraco foi feito ao lado do túmulo de Félix. Camponês enfim conseguiu descansar.

*    *    *
 
                                                                                                                  Mercado Público de Florianópolis na década de 1920

            Passados sete anos da morte do pai e encontramos Rogel em Florianópolis. O jovem com então 18 anos, havia se alistado e fora convocado para servir o exército na capital. O tempo fez o jovem ganhar responsabilidade, força e experiência, porém sua personalidade não sofreu mudança alguma. Dos filhos de Félix, Rogel era o que seguia mais fielmente o seu comportamento severo. Quando chegou ao Batalhão, não estranhou a disciplina rígida do exército. Para quem apanhava quase todo dia, a vida no quartel poderia ser considerada até leve. Obedecia aos seus superiores e respeitava os colegas de farda.  Faltavam dois meses para concluir o serviço militar e o jovem não sabia ainda qual profissão seguir. Pescador desde criança e acostumado com o quintal de casa, a praia de Fora, Rogel sentia falta de sair para pescar. No quartel, chegou acompanhar a pescaria de um sargento e um capitão, que ficaram espantados com o conhecimento que o soldado tinha sobre a o mar.

Ele sabia todos os truques de como armar a isca no anzol e a hora de jogá-la na água. Se a pesca desse dinheiro, o jovem teria um futuro promissor, mas ele sabia que não dava e isso o deixava indeciso. Numa noite, antes de dormir, Rogel conversou com um amigo de infância chamado Manoel, que também servia no mesmo Batalhão.  Os dois conversavam justamente sobre o que fariam depois de sair do exército. Manoel ficava no beliche de cima e Rogel no de baixo. No quarto, alguns soldados liam a Bíblia, outros as cartas de namoradas e alguns apenas pensavam na vida.

            – Esse negócio de pesca já tá ultrapassado – disse Manoel, um jovem moreno e com cabelos negros e lisos,  que gostava de o alisar com frequência. Fazia isso, enquanto conversava com o colega de farda.

            – Eu não sei fazer mais nada na vida, se no for na pesca – comentou Rogel desanimado. 

            – Fica aqui. O exército é melhor do que catar peixe por aí.

            – Para mim não é. Eu não sei o que vou fazer na vida, mas no exército não fico. Estou bem certo disso. 

            – Eu também, mas como não sei pescar vou fazer outra coisa.

            – Que coisa?

            – Minha família tem um barquinho a motor. Descobri que posso ganhar muito dinheiro se começar a comprar e a vender mercadorias. Hoje, quem não precisa de  açúcar e querosene.

            – E como vai ganhar dinheiro vendendo essas porcarias?

            – Porcarias para ti. Para os outros isso vale muito. Não vou vender só isso.

            – Eu ainda não entendi esse negócio.

            – Então preste atenção. Por exemplo, eu compro dez libras de farinha aqui em Florianópolis por um preço. Eu posso vender por outro e bem maior em Porto Belo. Se você quiser pode trabalhar comigo. Garanto que vai ganhar mais dinheiro do que na pesca.

            – Não sei. Amanhã eu dou a resposta. Agora só quero dormir – disse Rogel virando de lado.

            No outro dia, quando os soldados eram transportados para um treinamento  na cidade de Laguna, no Sul de Santa Catarina, o jovem deu a reposta para Manoel. Antes disso, uma cena chamou atenção da tropa. Na calçada duas mulheres se engalfinhavam no chão, uma puxando o cabelo da outra. Um soldado não conseguiu se aguentar e gritou:

            – Não solta, não solta.

            Ao som das gargalhadas dos soldados, o caminhão seguiu o caminho à Laguna. Ao dobrar a esquina o motorista ainda conseguiu ver as duas mulheres no chão. Uma multidão começava a se aglomerar. Rogel aproveitou o clima de desconcentração para dar a resposta ao colega.

            – Pode marcar o meu nome na tua lista.

            – Ele já está escrito e com letra de ouro. Você não vai se arrepender.

            – Espero que sim. Quando podemos começar.

            – Assim que nos livrarmos disso – disse Manoel olhando para os outros soldados espalhado pela carroceria do caminhão.

            Quando Rogel e Manoel deram à baixa no exército, a primeira coisa que fizeram foi visitar o Mercado Público de Florianópolis. O prédio localizado em frente à Alfândega tinha a mesma aparência que tem hoje, com as duas alas, torres e uma escada que dava acesso ao vão. O Mercado Público aberto desde 1896 atraia centenas de pessoas de todo o Estado, que vinham em busca de mercadorias diversificadas e mais em conta. Produtos tão diferentes que chamaram a atenção de Rogel. Ele e Manoel foram até o local anotar os preços das mercadorias que poderiam vender em armazéns e casas de secos molhados entre Porto Belo e São Francisco do Sul.

            – Qual é o nome dessa coisa? – questionou Rogel apontando para um objeto oval e de cor amarela.

            – Essa coisa é uma fruta – respondeu o funcionário da barraca sem prestar muita atenção no cliente. 

            – Fruta?

            O pescador pegou a fruta na mão, cheirou e recolocou no lugar. Manoel pro sua vez anotava tudo que via pela frente.

            – Sim, é cacau. Você nunca comeu chocolate?

            – Já comi, mas não sabia que era feito com isso.

            – Não sei como é que o pessoal faz o chocolate. Parece que eles misturam cacau, leite e açúcar e um corante.

            Por uma manhã inteira eles ficaram no Mercado Público e anotaram tudo que encontraram pelo caminho. À tarde eles pegaram o paquete Carl Hoepcke. A embarcação fazia o transporte de passageiros de Florianópolis até Santos, mas também atracava nos pontos de desembarque em Porto Belo. De lá, os dois seguiram a pé até Bombinhas. Rogel chegou à praia de Fora perto da meia-noite. Com a mochila nas costas, o jovem olhou com  saudade para o mar, respirou fundo e correu para o lar. A mesma casa em que há 22 anos havia nascido se encontrava às escuras.

*    *    *

Submarino alemão Unterwasser-Schiff 513 chegou torpedear navios no litoral brasileiro
 
            Na medida em que o tempo passava Rogel ficava mais parecido com pai. Não pela aparência e sim pelo comportamento violento. Ao sair do exército ele bem que tentou trabalhar com o Manoel, porém divergências com a divisão dos lucros levaram a sociedade a ruir. O desejo de voltar para a pesca contou muito para que mudasse de plano. Rogel nasceu pescador, seus antepassados foram  trabalhadores do mar e para o futuro não restava outro caminho senão a pesca. Dormia cedo, acordava cedo, trabalhava o dia todo e no sábado se divertia no baile na praia do Canto Grande. Continuava a não levar desaforo para casa, retornava dos bailes machucado. Foi nessa rotina que o tempo passou para Rogel. Em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial, a experiência que teve no Batalhão do Exército lhe rendeu a convocação para vigiar possíveis navios ou submarinos alemães na costa de Santa Catarina. A mesma pedra em que os pescadores vigiam hoje a pesca da tainha, serviu por dois anos para avistar navios da Tríplice Aliança.

            Com 39 anos, casado e pais de quatro filhos, Rogel não tinha a mesma disciplina do quartel de Florianópolis. Ele odiava a guerra, não pelo mesmo motivo de uma pessoa que gosta da paz e sim porque a guerra atrapalhava seu trabalho. O pescador estava pouco preocupado se Hitler dominava metade da Europa ou se lia escondido os gibis de Wall Disney no bunker da chancelaria alemã, em Berlim. Além disso, a importância que dava a Hitler era a mesma que dedicava ao seu dedo minguinho, ou seja, nenhuma.

No entanto, o Brasil levava em consideração o führer e o medo fez o governo brasileiro proibir que embarcações navegassem a noite. Como a canoa de Rogel se incluía na lista, ele teve um motivo a mais para odiar a guerra e de não ser tão disciplinado na hora da vigia dos navios inimigos. Rogel dormia no trabalho e as vezes faltava.  Se alguma embarcação alemã navegou pelo litoral de Santa Catarina foi, certamente, no dia em que ele fez a vigília.

            Muito se falou até agora do comportamento agressivo de Rogel e a sua ligação com o pai. No entanto, existe um lado do caráter do pescador pouco conhecido entre os moradores de Bombinhas. Desde jovem ele sonhou em ganhar dinheiro e muito dinheiro. No ano em que serviu ao exército pensava a todo instante numa maneira de ficar rico. A proposta do amigo Manoel foi apenas uma das inúmeras tentativas que não deram certo. Embora gostasse de pescar, Rogel sabia que não conseguiria ganhar dinheiro nela. O máximo que poderia fazer era colocar comida na mesa. Na década de 1940, nem mesmo os primeiros empresários da indústria pesqueira de Santa Catarina conseguiam lucrar com a venda de peixes. Por muitos anos, Rogel tentou descobrir uma maneira de fazer fortuna. Até mesmo procurar tesouros escondidos ele fez. Em Bombinhas, ainda sobrevive uma lenda de que antes dos imigrantes da Ericeira chegarem, piratas franceses e espanhóis aproveitaram as praias da região para esconder ouro. Em 1946, moradores de Bombinhas procuravam riquezas debaixo da terra, entre eles se encontravam  Rogel.

            No começo de 1947, Justiniana adoeceu. O médico diagnosticou uma doença no pulmão. A matriarca da família sempre foi uma pessoa doente e as crises de bronquite pioravam a cada ano. Com 79 anos de idade, a mulher morava na antiga casa de madeira da praia de Fora, com o filho caçula e sua nova família: a esposa Maria e seis filhos. A doença ficou mais grave nos primeiros dias de abril daquele ano. Justiniana não saía de casa e permanecia quase o tempo todo deitada. Como a ligação de Rogel com a mãe não era tão forte, ele resolveu se aproveitar da situação para ganhar dinheiro. Ainda movido pela ganância, elaborou um plano onde seria beneficiado junto com a irmã Olga.

                                                                                                                                                     Bombinhas na década de 1940 
 
No dia 25 de abril, o estado de saúde de Justiniana piorou. O médico foi chamado e avisou que era inútil levá-la ao hospital. Rogel não insistiu e o assunto não foi mais discutido. No meio da tarde, Justiniana teve uma pequena melhora, mas isso durou pouco. Pediu para sair do quarto, pois segundo ela, não queria morrer na mesma cama em que o marido. Foi transferida para o pequeno sofá da sala e ali permaneceu até morrer. A morte chegou da madrugada do dia 26 de abril de 1946. A primeira a perceber foi Maria, que logo chamou o marido. Rogel foi até o sofá e fechou os olhos da mãe.

            – Aonde você vai? – berrou Rogel.

            – Vou avisar seus irmãos – respondeu a mulher.

            – Avisar o quê?

            – Que a mãe deles morreu.

            – Não vai avisar nada.

            Rogel pegou a mulher pelos cabelos e a arrastou até o sofá. Lá, ele jogou a esposa em cima de Justiniana.

            – Você vai ficar aqui cuidando da minha mãe.

            – A tua mãe tá morta – disse a mulher chorando.

            – Escuta seu demônio? – disse dando tapas seguidos no rosto de Maria.

            – Sem chorar – gritou.

            Com os punhos fechados e preparado para socar a cara da esposa, Rogel repetiu a ordem. Com medo de fazer companhia a sogra, Maria se acalmou. O marido então continuou a conversa.

            – Vou dizer mais uma vez. Você vai ficar aqui cuidando da minha mãe. Não quero que avise ninguém. Ouviu? Se alguém perguntar diz que ela está dormindo.

            – E se aparecer um dos teus irmãos, o que eu falo?  – questionou a mulher.

            – Diz que o médico pediu para ninguém aborrecer a mãe. Eu vou sair agora, mas retorno logo.

            – E pra onde você vai?

            – Não é da tua conta.

            Rogel seguiu de barco até Porto Belo e lá procurou o cartório.  Um funcionário chamado Leopoldo acompanhou o pescador de volta a Bombinhas. Trazia consigo  uma pasta e outros papéis. Rogel apesar de ter perdido a mãe naquela manhã não demonstrava sentimento algum. Seu rosto era igual ao de todos os dias, sem sentimento algum.  A canoa com os dois homens chegou em Bombinhas perto do meio dia. Assim que entrou em casa, a mulher disse que ninguém havia o procurado ou mãe.  Rogel acompanhou o funcionário do cartório até a sala. Ele sentou no sofá, bem próximo da cabeça da mãe. Justiniana jazia encostada sobre duas grandes almofadas.

            – Se aproxime senhor Leopoldo. A doença da minha mãezinha não é contagiosa. Ela não morreu ainda, mas pediu para chamá-lo.

            – O que ela quer de mim?

            – Como eu disse lá em Porto Belo, apenas dividir os bens da família com os seus dois filhos.

            – Uma casa de madeira e as terras da praia de Fora? – perguntou o funcionário do cartório.

            Rogel acenou afirmativamente com a cabeça.

            – Correto e os papéis do terreno estão com o senhor?

            – Das terras da praia de Fora estão comigo sim. Então vou perguntar de novo para minha mãe o que eu disse para o senhor lá em Porto Belo.

              Como ela vai responder, se dorme. 

            – Ela não tá dormindo. Comece a escrever!

            Rogel se aproximou mais da Mãe e começou a acariciar o rosto dela. Ele até tentou chorar, mas vendo que seu esforço apenas distorcia seus rosto, desistiu. O funcionário esperava a resposta da mulher.

            – Mãe, não é verdade que a senhora passou esse terreno para mim e para  Olga? – perguntou o filho para a defunta.

            Como seria muito difícil Justiniana falar alguma coisa, o filho encontrou um meio para que ela desse a resposta sem que abrisse a boca.  Com movimento bem sutil no travesseiro, ele conseguiu com que a mãe fizesse um sinal afirmativo com a cabeça. Leopoldo refez a pergunta e o filho continuou com a artimanha. O dedo polegar da defunta no papel selou definitivamente a transferência dos bens da família para Rogel e a irmã. Os outros irmãos é claro que protestaram, mas ninguém conseguiu provar que a mãe havia morrido antes de assinar aos documentos. Foi assim que Rogel conseguiu ficar com metade da praia de Fora ou Quatro Ilhas. No entanto, as terras em Bombinhas na década de 1940 valiam pouca coisa e o sonho de Rogel ficar rico não foi realizado. Durante o casamento, Justiniana apanhara várias vezes do marido, porém nenhuma dessas situações chegou perto dos atos de traição e perfídia praticados pelo filho caçula.
 

*    *    *

            Na varanda ninguém sabia por onde começar. Paulo Aguiar olhava para mim e para o casal ao mesmo tempo. Como ninguém havia tomado coragem para dizer algo, o meu xará resolveu ser o primeiro.

            – O seu Miguel é sobrinho do Rogel e sabe muito bem que tipo de pessoa ele foi.

            – Rogel foi o mais bravo da família, até mais que o pai dele – disse o homem num tom de voz bem baixinho, sendo que na idade dele, 88 anos, não se poderia esperar outra coisa.

            – Eu não entendo como uma pessoa possa ser tão mal a esse ponto. Foi como se ele tivesse matado a própria mãe – comentei indignado.

            – Ele foi um homem muito malvado, morreu de câncer, em 1974. Deus o castigou – disse a mulher do seu Miguel.

            Seu Miguel nos convidou para pernoitar em sua casa. Como precisava voltar para casa, recusei. Diferente de Paulo Aguiar que ficou em Bombinhas. Depois do jantar, nos reunimos com o casal de idosos, que fizeram questão de ouvir o fim da história. O meu xará fez um breve resumo do que havia relatado até então para que eles não ficassem perdidos.  Agradeci mais uma vez o gesto do seu pai e por ter contato tudo sobre os seus antepassados. Foi por meio deles que conheci a fundo a vida do doador. Paulo Aguiar retomou a narração, a última daquele dia. Miguel e Carolina ouviam em silêncio. Na frente deles, a Enseada das Garoupas permanência mergulhada no crepúsculo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Nova Ericeira: Justino José da Silva

 
                                                                                                                                                                Enseada das Garoupas
 

A Colônia Nova Ericeira surgiu no dia 18 de março de 1818, pelo decreto régio de Dom João VI. Apesar de ter uma data oficial de criação, a ideia começou a ser geminada bem antes e próximo a Enseada das Garoupas, litoral de Santa Catarina.


Antes da chegada dos primeiros colonos em 1817, ericeirenses e outros portugueses já residiam na freguesia de Santo Antônio de Lisboa, Norte da Ilha de Santa Catarina.


Por estar próximo a Enseada das Garoupas, é provável que eles conheciam a região e deram a ideia para a criação de um empreendimento pesqueiro no local.


Formado por uma bacia de águas tranquilas, a Enseada das Garoupas já era conhecida por navegadores desde o século XVI. Sempre esteve nos planos do governo português para a construção de um porto ou uma base naval.

Além da tranquilidade para aportar embarcações, outros fatores como a quantidade de peixes e a posição estratégica também contribuíram para criação de uma colônia pesqueira no local. Mais nada seduziu a corte portuguesa do que povoar a região.
 
                                                                                                                                                   Santo Antônio de Lisboa

A Enseada das Garoupas ficava entre as duas principais cidades de Santa Catarina na época: Desterro e São Francisco do Sul. Era uma região pouco habitada e ameaçada constantemente por invasões, principalmente dos espanhóis. A Espanha chegou a invadir Desterro em 1777, mas sem sucesso.

Com todos esses fatores a favor, surgiu à ideia, que ganhou folego depois que o ex-funcionário da antiga Câmara Municipal da Ericeira, Justino José da Silva, tomou a iniciativa. Justino chegou na Enseada das Garoupas junto com os outros ericeirenses em 1817, um ano antes da criação da colônia.

Silva não era pescador, mas conhecia bem os pescadores da Ericeira e também o potencial da Enseada das Garoupas para pesca. É provável que Justino José da Silva tivesse contato com esses ericeirenses que viviam em Santo Antônio de Lisboa e que eles ajudaram na criação da Colônia Nova Ericeira em 1818.

Mas quem era o ex-funcionário da Câmara Municipal da Ericeira?

Filho de José da Silva e Maria Joaquina, Justino José da Silva nasceu na Ericeira, no dia 22 de dezembro de 1765. Justino morava na Rua do Mendes Leal antes de embarcar rumo ao Sul do Brasil.

Ele casou com Caetana da Costa Fialho e teve os seguintes filhos: Maria Caetana (08/09/1797), Francisco (06/04/1800) e Ana. O casamento, bem como o nascimento da filha Ana não foram registrados na Ericeira.

Justino e a família viajaram para o Brasil e chegaram na Enseada das Garoupas em 1817, junto com o primeira leva de imigrantes. Eles permaneceram na Nova Ericeira até 1821.

Entre os prováveis motivos que fizeram o ex-funcionário da Câmara Municipal da Ericeira retornar para Portugal estão atrasos na distribuição das terras e na compra das rascas (barcos) parar os pescadores.

Justino faleceu no dia 17 de maio de 1827 e a esposa Caetana no dia 26/12/1835. As filhas Maria Caetana e Ana Bárbara casaram em 22/05/1822 e 23/09/1827, respectivamente. Francisco José da Silva "Ericeira" casou com a Maria Salomé da Silva Franco e teve sete filhos, todos batizados na Ericeira.


           Francisco José da Silva foi presidente da Câmara Municipal da Ericeira e administrador do Conselho, que foi extinto em 1855. Ele faleceu no dia 15 de janeiro de 1871.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Capítulo 9 - O Circo das Crianças

                                                                                                                                                       The Crcus 1964/Marc Chagall

No meio da noite, uma menina corre apressada pela casa de corredores escuros. Por entre portas fechadas, ela grita por ajuda. Seu pedido não é suficiente para acordar ou sensibilizar seus moradores. No caminho, com medo e cansada de gritar, a menina para no corredor e começa chorar. A luz de um dos quartos é acesa. Um homem de bermudas e sem camisa sai dele correndo. Aos socos bate na porta ao lado.

      Acordem! – berrava.

            Dois garotos abrem a porta assustados. A menina que aparenta ter menos de seis anos não chora mais e apenas observa o diálogo daquelas três pessoas.

      João e Cipriano, vão logo na casa do doutor Morgado e peça que venha rápido.

      A mãe vai ganhar o bebê?

      Sim, mas se vistam e corram.

      – E a mãe? – perguntou um dos meninos.  

      – Ela vai ficar bem se vocês andarem depressa. Corram! – gritou o pai no auge da raiva.

                Os dois garotos disparam em direção à rua. No lado de fora, a escuridão não era completa por causa do luar. Um faixo de luz cintilava o mar e iluminava o caminho de terra que os adolescentes teriam que percorrer até chegar à casa do médico. Com o grito do homem, o restante da casa despertou. Duas portas se abriram quase ao mesmo tempo. Em uma delas saíram duas meninas e da outra um casal.

            O que aconteceu? – perguntou uma mulher.

Ela tinha estatura mediana e estava bem acima do peso. Seus longos cabelos pretos contrastavam com pele alva. Ao seu lado, um homem de pijamas olhava a cena sem entender nada.

      A Juvelina está para ganhar o nenê – disse Manoel, o marido da mulher que estava preste a ter um filho. 

      E precisa fazer esse barulho todo por isso? – resmungou o homem que se encontrava ao lado da mulher.

      – O doutor disse que ela está doente, por isso mandei os meninos chamá-lo. A gravidez dela é diferente – respondeu Manoel cabisbaixo.

      – Eu sinto muito, acredite. – disse o homem sem jeito.

      Ainda abatido, Manoel seguiu para o quarto. No corredor, foi agarrado pelos filhos. O casal que observava a cena não tinha nenhum grau de parentesco com a família e estava na casa apenas como inquilinos.

      A mãe vai morrer? – indagou uma das meninas.

            Ela se aproximou dele, o abraçou pela cintura e começou a chorar. A atitude fez que as outras crianças e até a que se encontrava no corredor ir na direção de Manoel. Este tentava consolar os filhos sem poder fazer nada. Perto dali, a esposa agonizava na cama, alheia a tudo que passava ao redor. Manoel se libertou das garras dos filhos e continuou o seu caminho ao quarto. A mulher baixinha recolheu as crianças e as levou para cozinha.

            Após abrir a porta e ascender à lamparina, o quarto simples ficou a mostra. De móveis havia apenas um guarda-roupa velho e uma cama de casal. Redes e equipamentos para pesca, nos quais Manoel trabalhava nos dias de chuva, estavam escondidos na penumbra. Na cama, a mulher de tez pálida, com os cabelos presos da forma de coque, tentava se levantar. Manoel correu ao leito e tranquilizou a esposa.

      Não se agite tanto Juvelina, pode machucar o bebê. Os meninos já foram chamar o doutor. Então fique quieta.

      O doutor?

            A pergunta sobre o médico significava para Juvelina que algo não corria bem. Naquela época, tanto em Porto Belo, como em outras cidades pequenas, esse trabalho ficava com uma parteira e não com o médico. 

      Sim, ele já deve chegar logo. Tente descansar, pelo amor de Deus!

            Para uma mulher que começava a entrar em estado de parto, o pedido não fazia sentido algum. Manoel andava pelo quarto, como fosse curar a mulher. Quando caminhava, pensava numa maneira de aliviar o sofrimento da esposa, porém não encontrou maneira mais eficaz do que seus passos pesados no soalho de madeira. Do leito de Juvelina, ouvia-se apenas um sussurro. Da casa algumas vozes abafadas pelas paredes eram ouvidas por Manoel. De vez em quando essas vozes chegavam ao quarto.

            Entre doutor Morgado, disse um dos garotos vendo o médico parado em frente à soleira da porta.

            Por aqui, continuou o menino.

            Assim que conseguiu ouvir essas últimas palavras, Manoel se virou e olhou para porta do quarto. Até aquele momento não acreditava que o médico havia chegado. A resposta da sua dúvida encerrou, assim que porta abriu e um homem com uma longa barba negra, vestido com uma sobrecasaca azul e calças de linho da mesma cor entrou no quarto. Manoel correu a ele, como um náufrago corre para uma boia salva-vida.

            Que bom que senhor chegou doutor Morgado, eu não...

            Não precisa dizer nada, a sua esposa vai ter o nenê.

O senhor pode fazer alguma coisa?

            Saia do quarto e me deixe sozinho com ela.

            Manoel não relutou e ele não poderia fazer nada para ajudar. Na Porto Belo de 1939, a maneira do doutor Morgado atender seus pacientes era conhecida pela população da cidade. Seus métodos incluíam desde medicina tradicional, até sessões de curandeirismos. Houve quem duvidasse da profissão do médico, todavia ninguém provou coisa alguma. Fora os comentários, Morgado não tinha horário para fazer o atendimento aos moradores e às vezes não ganhava nada por isso.  Quando entrou na casa de Manoel, o médico sabia o serviço seria voluntário.

            Boa noite dona Juvelina – cumprimentou. 

O médico fechou a porta e sem aguardar a resposta da saudação prosseguiu.

            Esperava encontrar a senhora antes. A sua gravidez me surpreendeu e foi bem longe.  Isso é bom e mal ao mesmo tempo. Não vamos falar em coisas ruins e vamos para o lado bom da coisa. Preciso tirar seu filho e a senhora vai ter que me ajudar.

            Enquanto conversava com uma pessoa que não tinha naquele momento condições de responder, Morgado preparava seu material de trabalho. Gostava de trabalhar sem assistentes e ninguém sabia por que. Talvez daí surgiu às histórias de feitiçaria e curandeirismos que rodeavam o médico de Porto Belo. Seja como for, ele foi proibido pelo padre de entrar na igreja e nem precisava, Morgado não era de ir a missa mesmo. Juvelina delirava por causa da febre e a esse sinal o médico pressentiu que as coisas não iriam correr muito bem naquela noite. Assim que aplicou uma injeção na mulher, ela começou despertar. Juvelina se encontrava em estado de transe, não sabia onde estava e provavelmente não se lembrava do médico. Por isso, o motivo da pergunta.

            Quem é o senhor?

            Sou o doutor Morgado.

            Ao ouvir o sobrenome do médico a mulher tentou se levantar.  Se não tivesse tão debilitada, talvez até conseguisse. Morgado chegou perto dela e aplicou mais uma injeção.

            Isso vai fazer à senhora se ficar mais calma. Não fique nervosa, estou aqui para ajudar. Foi o seu marido que me chamou. Eu sei que não gosta de mim e da minha medicina, mas não a culpo por isso. O padre também não gosta e agora sei por que ele não deixa eu ir a missa de domingo. A senhora sabe por quê?  É para falar de mim pelas costas. Não me incomodo com isso, pois mesmo com os comentários nada santo do padre as pessoas me procuram. Um dia vou arrumar uma mulher e ter um bando de filhos, talvez assim às pessoas dessa cidade me olhem como uma pessoa normal. Não precisa olhar também com esses olhos arregalados e vamos ajudar o seu filho nascer, pois ele é o motivo da senhora estar doente. A senhora não quer ficar curada?

            Juvelina conhecia a fama do doutor Morgado e caso a situação não fosse tão grave, teria colocado o médico a força para fora de casa. Morgado preparou tudo e deixou a mulher em posição de parto. Ela ficou com as duas pernas afastadas por um equipamento inventado pelo médico. Outro fazia que os lençóis ficassem suspensos no ar. Com tudo pronto, o parto começou. Durante quase uma hora a mulher tentou expelir a criança, contudo sem conseguir. Sem forças, Juvelina não conseguia nem gritar. Na casa apenas se ouvia os gemidos abafados pelas paredes. Depois muito esforço, Juvelina deu a luz um menino. Ninguém ouviu o vagido e isso significava que algo não havia saído bem. Morgado, já exausto, olhou para mãe. Ela se encontrava com aqueles mesmos olhos de censura de antes.

            Passaram cinco minutos. Morgado enrolou a criança num pano branco e a colocou em cima de uma cadeira. Manoel entrou no quarto e topou com o médico perto da janela, que se encontrava aberta. Tentava recuperar as forças com o ar frio da madrugada. Ele olhou para Manoel e seus grandes olhos castanhos anunciaram a tragédia. O choro do marido abraçado ao corpo da Juvelina espalhou por toda a casa. A mesma menina que apareceu no corredor surgiu na soleira da porta. Ela  olhou para cama e viu Manoel ao lado do corpo da esposa. Na cadeira, um braço pequeno e alvo caiu do pano e ficou suspenso no ar. A primeira reação da menina foi cobrir os olhos com as mãos e gritar.


*    *    *

            Foi nessa posição que Maria acordou. As mãos que ainda permaneciam trêmulas sobre os olhos úmidos não eram tão pequenas. Ela ficou assim por mais de um minuto, sem coragem de olhar o que havia ao seu redor. Os gritos acordaram mais três garotas que dormiam no mesmo quarto. Uma ruiva de cabelos crespos e aparentando ter 18 anos se aproximou de Maria. Ainda sonolenta, ela tentou se localizar e entender o que acontecia.

            Você vai ficar muito tempo com as mãos na cara?

            A pergunta não provocou efeito algum em Maria, que continuava na mesma posição. As outras duas meninas menores que a ruiva também acompanharam a cena assustadas.

            Vamos Mariazinha, pare com isso – suplicou a ruiva.

            Onde estou?

            Ora, você sabe muito bem.

            Ainda estou no circo?

            – Claro que você está no circo.

            – Por um momento pensei que havia viajado no tempo.

            Maria tirou as mãos brancas com pequenas veias azuis salientes dos olhos e se levantou. Sentada na cama, ela fez questão de olhar mais uma vez o quarto improvisado do circo. Queria garantir a si mesma que não continuava a sonhar.

      Você teve mais um pesadelo Mariazinha? – perguntou uma das meninas.

      Sim, eu tive um sonho muito ruim.

      – Mariazinha, você vai contar o teu sonho pra gente, não é? Com essa é a quinta vez que acorda todo mundo com os teus gritos. – pediu a ruiva.

            Vai ter que contar tudo, tudo mesmo – reforçou uma outra menina.

            Eu queria é não dormir mais. Assim eu me livraria desses sonhos ruins. Vou contar – disse Maria decidida.
     

*    *    *

      A cena que a garota viu no sonho foi real, aconteceu de fato. Por dez anos, a lembrança da morte da mãe a perseguiu, principalmente nos seus sonhos.  Aquela madrugada do outono 1939 e o dia que a dona do circo esteve na sua casa eram as duas únicas lembranças da sua infância. Até seus cinco anos, Maria sempre viveu em Porto Belo, na localidade chamada Araçá. As casas, todas de madeira, se encontravam na encosta de um morro. De lá, os moradores tinham uma visão privilegiada da Enseada das Garoupas. Manoel e os outros pescadores do Araçá tinham suas origens na Ericeira e o lugar mantinha uma pequena lembrança da terra natal de seus antepassados. Embora Porto Belo e a freguesia portuguesa estejam localizadas em lugares diferentes, o Araçá foi local que chegou mais próximo da Ericeira.

      Mesmo sem saber, Manoel mantinha a tradição pesqueira de seus antepassados ericeirenses. O pequeno barco batizado de Galés trazia uma variedade de peixes para casa. Uma parte era consumida pela família, enquanto outra era trocada por outros alimentos, como açúcar, trigo e carne seca. A quantidade de peixes indicava como a família iria passar o mês. Não se trabalhava para ter conforto, mas sim para não morrer de fome. Na Porto Belo do final da década de 1930 essa era realidade de muitas famílias de pescadores.  Isolados por morros e sem estradas, a cidade ficou abandonada até o começo de 1970. Desde que os primeiros imigrantes da Ericeira chegaram, seus moradores tiveram que lutar contra a fome e as doenças, muitas delas fatais. Entre essas doenças estavam as que matavam as gestantes. Juvelina fez parte dessa triste estatística. Sendo a caçula da família, Maria teve uma ligação muito grande com a mãe. Sempre estava com ela, vivia agarrada à saia. A saudade que Maria sentia foi tanta que chegou a adoecer. Todos, inclusive o pai, concordavam que a menina não iria sobreviver muito tempo sem a mãe.

      A notícia de que um circo havia entrado, em Porto Belo, foi o assunto daquele cinzento 28 de novembro de 1939. A lona havia sido levantada durante a noite anterior e no final do dia tudo estava pronto. Comparado com outros, o Circo Petrov era muito modesto e ao todo dez pessoas trabalhavam nele. Macacos, cavalos, um urso ainda filhote e um leão velho que não tinha mais dentes estavam entre as atrações, que tinham também por tradição palhaços, trapezistas e malabaristas. O que chamou atenção dos moradores não foram animais ou os números apresentados e sim os artistas. Dos dez funcionários, sete mal haviam saído da adolescência.

      O circo foi fundado pela família Petrov, em 1893, no Estado de Minas Gerais. Naquele e nos anos seguintes até o nascimento do novo século, o Circo Petrov conheceu seu período mais brilhante. Além de levar uma multidão para suas apresentações, no seu elenco se encontravam 50 artistas diferentes. Criado por uma família de ciganos búlgaros, o circo tinha como dono, em 1939, uma mulher conhecida como Mirolasva. Quando chegou a Porto Belo, o Petrov não encontrou apenas uma cidade perdida no Sul do Brasil. A pequena Maria, então com cinco anos, foi um achado para a dona do circo. O encontro de Mirolasva e a menina de Porto Belo aconteceu durante uma apresentação. Manoel havia vendido peixes para o circo e em troca ganhou ingressos para a família inteira. Ao ver o espetáculo circense, Maria se encantou e por muitos dias a imagem dos trapezistas não saiu da cabeça. Perto dela, Mirolasva observava aquela menina frágil e de cabelos castanhos claros. O sorriso da menina foi que mais chamou atenção. Não era um riso de uma menina normal, havia muita tristeza nele. Era sorriso de uma pessoa que ficou muito tempo a chorar. A dona do circo sabia disso, pois durante a sua vida havia passado o mesmo.

      A família de Manoel voltou para casa e Mirolasva ficou com Maria no pensamento. Durante a noite e a madrugada imaginou uma maneira de trazê-la para o circo. O primeiro passo seria conversar com o pai e foi o que fez dois dias depois. Pelo cozinheiro, que também exercia a profissão de domador, Mirolasva descobriu o endereço da família. O mesmo contou a história de Maria e de sua mãe. Acompanhada do trapezista, a mulher chegou na casa de Manoel perto do meio dia. Os dois cavalos haviam ficado no começo da rua cheia de pedras e barro. Assim que caminhavam pelo Araçá, os dois artistas chamaram a atenção dos moradores, que corriam até a janela para ver os forasteiros. Se a visita de gente de fora já chamava atenção, imagine se essa “gente de fora” fosse de um circo. As roupas que vestiam, parecidas com os que usam os ciganos, eram coloridas. Para completar o figurino, Mirolasva tinha sobre a cabeça um turbante. Uma menina bem maior que Maria atendeu a dona do circo.

            Bom dia minha querida!

      Surpreendida por aquelas duas figuras estranhas, a primeira reação da garota foi o susto. Sem esperar ser convidada, Mirolasva entrou no quintal e foi direto ao assunto.

            Seu pai está em casa?

            Não, ele tá na praia com meus irmãos – respondeu sem tirar os olhos do pano que enrolava a cabeça da mulher.

            – Pode fechar a boca. É um turbante menina. Ajuda a aliviar o sol na cabeça. E quando voltam seu pai e seus irmãos?

             Daqui a pouco eles chegam. Eles vão ter que vir para almoçar.

      A garota que fazia as suas atividades domésticas não convidou os visitantes para entrar em casa e ela nem poderia. A ordem do pai era clara: “Não dê muita confiança para os estranhos”. Mirolasva, mesmo indiretamente, ainda tentou ser convidada, todavia a menina não entendeu ou fez questão de não entender. Perguntou ainda sobre a irmã caçula e descobriu que ela brincava no seu quarto. Depois de uma hora de espera, Manoel chegou em casa na companhia de dois meninos. Carregavam remos, redes e uma caixa de peixes pela metade. Mirolasva se apresentou e por ser dona do circo conseguiu ser convidada até para o almoço. Depois da refeição e de ter dito como era o dia a dia no circo, Manoel e Mirolasva foram para a sala conversar sobre Maria.

            O senhor pergunta qual é o motivo da minha visita? Quero conversar a respeito da sua filha.

            A Luciana. Ela foi mal educada com senhora?

              Não, não foi a menina que me atendeu.

            Então é a Emília, a do meio.

            Me refiro a mais novinha, a menina que estava com o senhor no circo.

            Ela se chama Maria. O que a senhora quer da minha filha?

            Eu quero adotá-la – respondeu secamente Mirolasva.

            A senhora pensa que vou dar a minha filha assim de graça para uma desconhecida – gritou Manoel.

            Não estou dizendo que o senhor vai dar ou não. Eu expressei apenas a minha vontade. Se senhor vai aceitar é outra história. 

            Por minha vontade Maria não sai dessa casa, mas como ela vive a chorar e sente muita saudade da mãe que morreu, talvez a senhora tenha alguma chance, isso se ela aceitar.

            Isso mesmo que eu queria ouvir do senhor.

      Mirolasva se ajeitou na cadeira de palha que foi posicionada próxima à janela. A mesma cadeira que disputava espaço na sala, com equipamentos de trabalho do pescador. O cheiro de peixe tomava conta do lugar e sem o uso de produtos de limpeza na época, todas as casas do Araçá tinha esse odor tão característico. A dona do circo apresentou as vantagens para educação da menina. Mirolasva disse, também, que considerava os artistas como seus filhos adotivos e que Maria teria uma família no circo. Como era uma pessoa que sabia conversar, Mirolasva conseguiu convencer o pai a chamar a menina e perguntar sobre a possibilidade de ir morar no circo. Manoel contou que Maria não parava de falar do palhaço, dos trapezistas e dos macacos equilibristas. Contou que a vinda do circo havia ajudado a diminuir a tristeza da filha.

            E quando o circo for embora? – questionou Mirolasva.

      Manoel ficou calado e esperou que a filha respondesse a pergunta. A menina entrou acompanhada pela irmã mais velha. Vestia uma espécie de vestido curto e bordado nas mangas. A mesma roupa usada quando foi ao circo. Maria sentou numa cadeira colocada perto do pai. A menina olhou com seus grandes e assustados olhos verdes para a visita inesperada.

            Luciana você pode ir agora – pediu o pai.

      A garota saiu, mas ficou próxima a porta da sala. A dona do circo se aproximou da menina, que ao notar o movimento olhou para o pai como quisesse dizer: “ela pode fazer isso?”. Mirolasva entendeu aquele olhar e resolveu quebrar o silêncio. Manoel esperava a resposta, mas o que ouviu foi mais uma pergunta.

            Você sabe quem sou eu?

            A mulher do circo - disse a Maria.

            Sim, eu sou a dona do circo que a senhorita foi ontem. Meu nome é Mirolasva e o seu?

      Maria olhou atentamente a mulher e não entendeu o nome que era pouco comum numa vila de pescadores com descendência portuguesa.

            Milos...

            Mirolasva. É estranho. Meus pais vieram de um pais distante chamado Bulgária. Você ainda não disse o seu nome.

            – Maria, Meu nome é Maria. Meu nome é Maria, Maria, Maria...


*    *    *

            – Maria! Maria! - gritou a garota ruiva.

            Não precisa gritar. Não sou surda.

            – Não é o que parece Mariazinha. Às vezes você não está nesse mundo. Em que você pensa tanto? – questionou Francisca.

      Das três meninas que dividiam o mesmo quarto, Francisca era a mais velha, tinha 17 anos. Morena, a garota descendia de uma tribo indígena do norte Mato Grosso. Mirolasva encontrou ela há dez anos, pedindo esmolas, no interior do Estado de São Paulo. A colega, Júlia, três anos mais nova, era também morena e foi adotada quando tinha oito anos em Minas Gerais. Já a ruiva Margarida, com seus 15 anos, foi abandonada na porta do circo assim que nasceu. 

            Eu estava tentando me lembrar daquele dia, mas não consigo.

            E do seu papai, você se lembra? – perguntou Margarida.

            Não, eu não me lembro do rosto dele e nem dos meus irmãos. Nos sonhos que tenho o único rosto que consigo me lembrar é da minha mãe verdadeira.

            Então a mãezinha foi até na sua casa e pediu que dessem você para ela.

            Eu chorava muito por causa da minha mãe e por isso foi melhor eu sair de casa por uns tempos.

            Embora elas tivessem que acordar cedo, continuaram a conversar. O circo fazia naquele 12 de novembro de 1949 a sua última apresentação na cidade de Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. De lá a trupe retornaria para Santa Catarina, primeiro o interior e depois o litoral. O itinerário do Petrov naquela época limitava-se aos Estados de São Paulo, Paraná e por fim Santa Catarina. Bem diferente do auge, quando a circo percorreu toda a América Latina.  Com a morte dos pais, Mirolasva não conseguiu administrar o circo e as dívidas só aumentaram. Sem pagamento, muitos artistas foram embora. Os que ficaram sabiam que não iriam receber, entretanto resolveram não abandonar o circo. Em cada cidade que o Petrov passava, Mirolasva notava a quantidade de crianças abandonadas ou criadas sem nenhum cuidado. Chegou até quem deixasse crianças recém-nascidas na sua porta. Uma dessas crianças foi a equilibrista e palhaça Margarida. Depois dela vieram mais crianças e adolescentes.

      Além das quatro garotas, havia três rapazes, que tinham entre 12 e 16 anos. Antes deles, outros garotos e garotas já haviam fugidos do circo antes completar a maioridade, não por maus tratos, mas sim por causa da idade e da falta de dinheiro. Desde que assumiu a direção do Petrov ninguém recebia pagamento no fim do mês, nem mesmo a dona do circo. Eles trabalhavam para não passar fome e para manter viva uma tradição. O Petrov era conhecido como “O Circo das Crianças”. Mirolasva pode ter explorado o trabalho infantil, mas ajudou a salvar muitas crianças da fome e de outros sofrimentos que estavam mergulhadas. A mãezinha, como era conhecida, sabia que não tinha feito mal algum para seus filhos adotivos. No fundo, o Circo Petrov foi uma grande família, mas como toda família que não deixa descendentes, um dia ele teve seu fim.

      Existem dois grandes momentos para um circo, a primeira e a última apresentação numa cidade. A reação do público nos primeiros dias é o fator decisivo para permanência dele na cidade. No caso de Francisco Beltrão, foram três semanas. Naquele domingo, seria o último na cidade paranaense. No dia seguinte, todos estariam na estrada a caminho de Santa Catarina. Maria era trapezista, malabarista e às vezes ajudava nas apresentações de mágica. No Petrov, todos ajudavam de alguma forma. Os artistas tinham mais que uma função, seja nas atrações apresentadas, seja nas atividades domésticas. As viagens duravam até cinco dias. Quando chegava à cidade, a primeira coisa a fazer era montar as lonas, serviço que ocupava a todos. Normalmente o trabalho para deixar tudo pronto levava um dia inteiro, do amanhecer até a noite. Assim que se instalava na cidade se fazia a divulgação. Integrantes do circo uniformizados e animais como o chimpanzé percorriam as principais ruas da cidade. O anúncio era feito com a ajuda de um megafone.

      Naquele domingo, a arena principal permaneceu lotada nos três horários disponíveis. Há muitos anos, uma apresentação não tinha levado um público tão expressivo, até mesmo para Francisco Beltrão de 1949. Parecia que a cidade inteira esperou para ir ao circo no último dia. Ficou muita gente de fora e muitos reclamaram da falta de estrutura. E eles tinham razão, com o tempo o Petrov  deixou de atender bem ao “respeitável público”, por isso ficou para trás e foi o motivo da falência no início dos anos de 1960. O fim do Petrov coincidiu com a morte de Mirolasva, em 1963. Morreu nos braços dos seus filhos adotivos.

      O relógio marcava nove horas da noite quando deu início a última apresentação. Maria se encontrava nervosa. Não era todo o dia que se apresentava para um grande público. O primeiro número foi de malabarismo, a primeira arte circense que aprendeu. Começou com cinco bolas de tênis. Os objetos eram mantidos no ar e ela se contorcia para fazer em todas as posições. Para dificultar ainda mais a tarefa, outras três bolas foram incluídas. Claro, tudo com um rufar de tambores e expectativa criada para ver se a artista conseguiria ou não a façanha. De repente,  as luzes se apagaram. A platéia foi iluminada por tochas. Agora sim a malabarista tinha algum motivo para se preocupar. Maria pegou três tochas e começou a jogar no ar. No alto um canhão de luz iluminou a garota. Na escuridão, as tochas faziam desenhos assustadores para a admiração do público. Maria saiu de cena emocionada. Nunca havia recebido tanto aplausos. Margarida, dois rapazes da mesma idade e o chimpanzé Congo notaram que seus olhos estavam umedecidos. O quarteto era a trupe de palhaços que divertia o público antes de começar uma nova  atração. Assim que os  palhaços terminaram, entrou o domador, que entre os animais ferozes, tinha o papel de dominar um leão desdentado e um urso ainda filhote.

      Maria se preparava nos bastidores quando ouviu seu nome ser chamado pelo megafone junto com mais dois garotos. Os três fechavam o último e um dos mais perigosos números do circo, o trapézio. Numa altura de um prédio de três andares, o trio voava por uma haste de madeira pendurada por cordas em forma de balanço. O canhão de luz se encontrava posicionado agora há a mais de dez metros de altura. Maria foi a primeira a saltar e a ser aparada por um dos jovens que se encontrava pendurado pelas pernas. Em seguida foi lançada ao ar e por muito pouco não caiu. O público mal tinha se refeito do primeiro susto e aconteceu o segundo. A cena foi repetida mais uma vez. Rufaram os tambores, Maria saltou da plataforma e no ar deu um salto mortal. O jovem que saltou de cabeça para baixo tentou pegar a garota e  até conseguiu, todavia como estava em alta velocidade ele não suportou o peso. Maria caiu para o assombro de mais 300 pessoas que estavam no circo. Na platéia surgiu rumores da morte da trapezista. Quando o canhão de luz se aproximou do picadeiro, encontrou a menina de cara no chão. Os trapezistas logo desceram e correram para socorrer a colega. Para surpresa de todos, Maria se levantou. Não havia nenhum ferimento. Foi nesse momento que o público descobriu que tudo não havia passado de um truque. Os aplausos foram tímidos, já que grande parte da platéia se refazia do susto. O número foi ensaiado e feito pela primeira vez naquela noite. Como a reação do público foi negativa, Mirolasva resolveu por fim ao número. A rede que amorteceu a queda de Maria já era vista em Chapecó, primeira cidade catarinense a receber o Circo Petrov no mês de janeiro de 1950.


*    *    *

      Ainda em 1950, o circo se apresentou em Itajaí. Maria foi abordada na rua da cidade por um homem. A garota que estava prestes a completar 16 anos, encontrou no meio da rua um dos seus irmãos, que a reconheceu logo de imediato. Naquele mesmo ano Maria retornou para casa – completou a narração Paulo Aguiar.

      Ela não mais teve notícia do circo? – perguntei.

      No começo as suas irmãs, principalmente a ruiva Margarida ainda a visitava em Porto Belo. Depois a família se mudou para Itajaí e de lá já casada Maria foi para  São Francisco do Sul, onde mora até hoje.

      – Puxa! É uma história e tanto – comentou dona Carolina.

      O senhor conhecia a história da Maria seu Miguel?

      Miguel arregalou seus grandes olhos azuis, pensou um pouco antes de responder.

      Maria foi minha colega de escola. Eu não sabia que ela foi trabalhar num circo. Contaram que foi morar na casa de uma mulher rica em São Paulo.

      Ela me contou também essa versão. A próxima história o senhor conhece muito bem. É do seu tio Rogel – prosseguiu Paulo Aguiar.