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| The Crcus 1964/Marc Chagall |
No meio da noite, uma menina corre apressada pela casa
de corredores escuros. Por entre portas fechadas, ela grita por ajuda. Seu
pedido não é suficiente para acordar ou sensibilizar seus moradores. No
caminho, com medo e cansada de gritar, a menina para no corredor e começa
chorar. A luz de um dos quartos é acesa. Um homem de bermudas e sem camisa sai
dele correndo. Aos socos bate na porta ao lado.
– Acordem! – berrava.
Dois garotos abrem a porta
assustados. A menina que aparenta ter menos de seis anos não chora mais e
apenas observa o diálogo daquelas três pessoas.
– João e Cipriano, vão logo
na casa do doutor Morgado e peça que venha rápido.
– A mãe vai ganhar o bebê?
– Sim, mas se vistam e
corram.
– E a mãe? – perguntou um dos
meninos.
– Ela vai ficar bem se vocês andarem
depressa. Corram! – gritou o pai no auge da raiva.
Os dois garotos disparam em direção à rua. No lado de fora, a escuridão
não era completa por causa do luar. Um faixo de luz cintilava o mar e iluminava
o caminho de terra que os adolescentes teriam que percorrer até chegar à casa
do médico. Com o grito do homem, o restante da casa despertou. Duas portas se
abriram quase ao mesmo tempo. Em uma delas saíram duas meninas e da outra um
casal.
– O que aconteceu? –
perguntou uma mulher.
Ela tinha estatura mediana e estava bem acima do peso.
Seus longos cabelos pretos contrastavam com pele alva. Ao seu lado, um homem de
pijamas olhava a cena sem entender nada.
– A Juvelina está para ganhar
o nenê – disse Manoel, o marido da mulher que estava preste a ter um
filho.
– E precisa fazer esse barulho
todo por isso? – resmungou o homem que se encontrava ao lado da mulher.
– O doutor disse que ela está
doente, por isso mandei os meninos chamá-lo. A gravidez dela é diferente –
respondeu Manoel cabisbaixo.
– Eu sinto muito, acredite. – disse o homem
sem jeito.
Ainda abatido, Manoel seguiu para o
quarto. No corredor, foi agarrado pelos filhos. O casal que observava a cena
não tinha nenhum grau de parentesco com a família e estava na casa apenas como
inquilinos.
– A mãe vai morrer? – indagou
uma das meninas.
Ela se aproximou dele, o abraçou
pela cintura e começou a chorar. A atitude fez que as outras crianças e até a
que se encontrava no corredor ir na direção de Manoel. Este tentava consolar os
filhos sem poder fazer nada. Perto dali, a esposa agonizava na cama, alheia a
tudo que passava ao redor. Manoel se libertou das garras dos filhos e continuou
o seu caminho ao quarto. A mulher baixinha recolheu as crianças e as levou para
cozinha.
Após abrir a porta e ascender à
lamparina, o quarto simples ficou a mostra. De móveis havia apenas um
guarda-roupa velho e uma cama de casal. Redes e equipamentos para pesca, nos
quais Manoel trabalhava nos dias de chuva, estavam escondidos na penumbra. Na
cama, a mulher de tez pálida, com os cabelos presos da forma de coque, tentava
se levantar. Manoel correu ao leito e tranquilizou a esposa.
– Não se agite tanto
Juvelina, pode machucar o bebê. Os meninos já foram chamar o doutor. Então
fique quieta.
– O doutor?
A pergunta sobre o médico
significava para Juvelina que algo não corria bem. Naquela época, tanto em Porto Belo, como em
outras cidades pequenas, esse trabalho ficava com uma parteira e não com o
médico.
– Sim, ele já deve chegar
logo. Tente descansar, pelo amor de Deus!
Para uma mulher que começava a
entrar em estado de parto, o pedido não fazia sentido algum. Manoel andava pelo
quarto, como fosse curar a mulher. Quando caminhava, pensava numa maneira de
aliviar o sofrimento da esposa, porém não encontrou maneira mais eficaz do que
seus passos pesados no soalho de madeira. Do leito de Juvelina, ouvia-se apenas
um sussurro. Da casa algumas vozes abafadas pelas paredes eram ouvidas por
Manoel. De vez em quando essas vozes chegavam ao quarto.
– Entre doutor
Morgado, disse um dos garotos vendo o médico parado em frente à soleira da
porta.
– Por aqui, continuou
o menino.
Assim que conseguiu ouvir essas
últimas palavras, Manoel se virou e olhou para porta do quarto. Até aquele
momento não acreditava que o médico havia chegado. A resposta da sua dúvida
encerrou, assim que porta abriu e um homem com uma longa barba negra, vestido
com uma sobrecasaca azul e calças de linho da mesma cor entrou no quarto.
Manoel correu a ele, como um náufrago corre para uma boia salva-vida.
– Que bom que senhor
chegou doutor Morgado, eu não...
– Não precisa dizer
nada, a sua esposa vai ter o nenê.
–
O senhor pode fazer alguma coisa?
– Saia do quarto e me
deixe sozinho com ela.
Manoel não relutou e ele não poderia
fazer nada para ajudar. Na Porto Belo de 1939, a maneira do doutor
Morgado atender seus pacientes era conhecida pela população da cidade. Seus
métodos incluíam desde medicina tradicional, até sessões de curandeirismos.
Houve quem duvidasse da profissão do médico, todavia ninguém provou coisa
alguma. Fora os comentários, Morgado não tinha horário para fazer o atendimento
aos moradores e às vezes não ganhava nada por isso. Quando entrou na casa de Manoel, o médico
sabia o serviço seria voluntário.
– Boa noite dona
Juvelina – cumprimentou.
O médico fechou a porta e sem aguardar a resposta da
saudação prosseguiu.
– Esperava encontrar a
senhora antes. A sua gravidez me surpreendeu e foi bem longe. Isso é bom e mal ao mesmo tempo. Não vamos
falar em coisas ruins e vamos para o lado bom da coisa. Preciso tirar seu filho
e a senhora vai ter que me ajudar.
Enquanto conversava com uma pessoa
que não tinha naquele momento condições de responder, Morgado preparava seu
material de trabalho. Gostava de trabalhar sem assistentes e ninguém sabia por
que. Talvez daí surgiu às histórias de feitiçaria e curandeirismos que rodeavam
o médico de Porto Belo. Seja como for, ele foi proibido pelo padre de entrar na
igreja e nem precisava, Morgado não era de ir a missa mesmo. Juvelina delirava
por causa da febre e a esse sinal o médico pressentiu que as coisas não iriam
correr muito bem naquela noite. Assim que aplicou uma injeção na mulher, ela
começou despertar. Juvelina se encontrava em estado de transe, não sabia onde
estava e provavelmente não se lembrava do médico. Por isso, o motivo da
pergunta.
– Quem é o senhor?
– Sou o doutor
Morgado.
Ao ouvir o sobrenome do médico a
mulher tentou se levantar. Se não
tivesse tão debilitada, talvez até conseguisse. Morgado chegou perto dela e
aplicou mais uma injeção.
– Isso vai fazer à senhora
se ficar mais calma. Não fique nervosa, estou aqui para ajudar. Foi o seu
marido que me chamou. Eu sei que não gosta de mim e da minha medicina, mas não
a culpo por isso. O padre também não gosta e agora sei por que ele não deixa eu
ir a missa de domingo. A senhora sabe por quê?
É para falar de mim pelas costas. Não me incomodo com isso, pois mesmo
com os comentários nada santo do padre as pessoas me procuram. Um dia vou
arrumar uma mulher e ter um bando de filhos, talvez assim às pessoas dessa
cidade me olhem como uma pessoa normal. Não precisa olhar também com esses
olhos arregalados e vamos ajudar o seu filho nascer, pois ele é o motivo da
senhora estar doente. A senhora não quer ficar curada?
Juvelina conhecia a fama do doutor
Morgado e caso a situação não fosse tão grave, teria colocado o médico a força
para fora de casa. Morgado preparou tudo e deixou a mulher em posição de parto.
Ela ficou com as duas pernas afastadas por um equipamento inventado pelo
médico. Outro fazia que os lençóis ficassem suspensos no ar. Com tudo pronto, o
parto começou. Durante quase uma hora a mulher tentou expelir a criança,
contudo sem conseguir. Sem forças, Juvelina não conseguia nem gritar. Na casa
apenas se ouvia os gemidos abafados pelas paredes. Depois muito esforço,
Juvelina deu a luz um menino. Ninguém ouviu o vagido e isso significava que
algo não havia saído bem. Morgado, já exausto, olhou para mãe. Ela se
encontrava com aqueles mesmos olhos de censura de antes.
Passaram cinco minutos. Morgado
enrolou a criança num pano branco e a colocou em cima de uma cadeira. Manoel
entrou no quarto e topou com o médico perto da janela, que se encontrava
aberta. Tentava recuperar as forças com o ar frio da madrugada. Ele olhou para
Manoel e seus grandes olhos castanhos anunciaram a tragédia. O choro do marido
abraçado ao corpo da Juvelina espalhou por toda a casa. A mesma menina que
apareceu no corredor surgiu na soleira da porta. Ela olhou para cama e viu Manoel ao lado do corpo
da esposa. Na cadeira, um braço pequeno e alvo caiu do pano e ficou suspenso no
ar. A primeira reação da menina foi cobrir os olhos com as mãos e gritar.
* *
*
Foi nessa posição que Maria acordou.
As mãos que ainda permaneciam trêmulas sobre os olhos úmidos não eram tão
pequenas. Ela ficou assim por mais de um minuto, sem coragem de olhar o que
havia ao seu redor. Os gritos acordaram mais três garotas que dormiam no mesmo
quarto. Uma ruiva de cabelos crespos e aparentando ter 18 anos se aproximou de
Maria. Ainda sonolenta, ela tentou se localizar e entender o que acontecia.
– Você vai ficar muito
tempo com as mãos na cara?
A pergunta não provocou efeito algum
em Maria, que continuava na mesma posição. As outras duas meninas menores que a
ruiva também acompanharam a cena assustadas.
– Vamos Mariazinha,
pare com isso – suplicou a ruiva.
– Onde estou?
– Ora, você sabe muito
bem.
– Ainda estou no
circo?
– Claro
que você está no circo.
– Por um momento pensei que havia
viajado no tempo.
Maria tirou as mãos brancas com
pequenas veias azuis salientes dos olhos e se levantou. Sentada na cama, ela
fez questão de olhar mais uma vez o quarto improvisado do circo. Queria
garantir a si mesma que não continuava a sonhar.
– Você teve mais um pesadelo
Mariazinha? – perguntou uma das meninas.
– Sim, eu tive um sonho muito
ruim.
– Mariazinha, você vai contar o
teu sonho pra gente, não é? Com essa é a quinta vez que acorda todo mundo com
os teus gritos. – pediu a ruiva.
– Vai ter que contar
tudo, tudo mesmo – reforçou uma outra menina.
– Eu queria é não
dormir mais. Assim eu me livraria desses sonhos ruins. Vou contar – disse Maria
decidida.
* * *
A cena que a garota viu no sonho foi real,
aconteceu de fato. Por dez anos, a lembrança da morte da mãe a perseguiu,
principalmente nos seus sonhos. Aquela
madrugada do outono 1939 e o dia que a dona do circo esteve na sua casa eram as
duas únicas lembranças da sua infância. Até seus cinco anos, Maria sempre viveu
em Porto Belo,
na localidade chamada Araçá. As casas, todas de madeira, se encontravam na
encosta de um morro. De lá, os moradores tinham uma visão privilegiada da
Enseada das Garoupas. Manoel e os outros pescadores do Araçá tinham suas
origens na Ericeira e o lugar mantinha uma pequena lembrança da terra natal de
seus antepassados. Embora Porto Belo e a freguesia portuguesa estejam
localizadas em lugares diferentes, o Araçá foi local que chegou mais próximo da
Ericeira.
Mesmo sem saber, Manoel mantinha a
tradição pesqueira de seus antepassados ericeirenses. O pequeno barco batizado
de Galés trazia uma variedade de peixes para casa. Uma parte era consumida pela
família, enquanto outra era trocada por outros alimentos, como açúcar, trigo e
carne seca. A quantidade de peixes indicava como a família iria passar o mês.
Não se trabalhava para ter conforto, mas sim para não morrer de fome. Na Porto
Belo do final da década de 1930 essa era realidade de muitas famílias de
pescadores. Isolados por morros e sem estradas,
a cidade ficou abandonada até o começo de 1970. Desde que os primeiros
imigrantes da Ericeira chegaram, seus moradores tiveram que lutar contra a fome
e as doenças, muitas delas fatais. Entre essas doenças estavam as que matavam
as gestantes. Juvelina fez parte dessa triste estatística. Sendo a caçula da
família, Maria teve uma ligação muito grande com a mãe. Sempre estava com ela,
vivia agarrada à saia. A saudade que Maria sentia foi tanta que chegou a
adoecer. Todos, inclusive o pai, concordavam que a menina não iria sobreviver
muito tempo sem a mãe.
A notícia de que um circo havia entrado, em Porto Belo, foi o
assunto daquele cinzento 28 de novembro de 1939. A lona havia sido
levantada durante a noite anterior e no final do dia tudo estava pronto.
Comparado com outros, o Circo Petrov era muito modesto e ao todo dez pessoas
trabalhavam nele. Macacos, cavalos, um urso ainda filhote e um leão velho que
não tinha mais dentes estavam entre as atrações, que tinham também por tradição
palhaços, trapezistas e malabaristas. O que chamou atenção dos moradores não
foram animais ou os números apresentados e sim os artistas. Dos dez
funcionários, sete mal haviam saído da adolescência.
O circo foi fundado pela família Petrov,
em 1893, no Estado de Minas Gerais. Naquele e nos anos seguintes até o
nascimento do novo século, o Circo Petrov conheceu seu período mais brilhante.
Além de levar uma multidão para suas apresentações, no seu elenco se
encontravam 50 artistas diferentes. Criado por uma família de ciganos búlgaros,
o circo tinha como dono, em 1939, uma mulher conhecida como Mirolasva. Quando
chegou a Porto Belo, o Petrov não encontrou apenas uma cidade perdida no Sul do
Brasil. A pequena Maria, então com cinco anos, foi um achado para a dona do
circo. O encontro de Mirolasva e a menina de Porto Belo aconteceu durante uma
apresentação. Manoel havia vendido peixes para o circo e em troca ganhou
ingressos para a família inteira. Ao ver o espetáculo circense, Maria se
encantou e por muitos dias a imagem dos trapezistas não saiu da cabeça. Perto
dela, Mirolasva observava aquela menina frágil e de cabelos castanhos claros. O
sorriso da menina foi que mais chamou atenção. Não era um riso de uma menina
normal, havia muita tristeza nele. Era sorriso de uma pessoa que ficou muito
tempo a chorar. A dona do circo sabia disso, pois durante a sua vida havia
passado o mesmo.
A família de Manoel voltou para casa e
Mirolasva ficou com Maria no pensamento. Durante a noite e a madrugada imaginou
uma maneira de trazê-la para o circo. O primeiro passo seria conversar com o
pai e foi o que fez dois dias depois. Pelo cozinheiro, que também exercia a
profissão de domador, Mirolasva descobriu o endereço da família. O mesmo contou
a história de Maria e de sua mãe. Acompanhada do trapezista, a mulher chegou na
casa de Manoel perto do meio dia. Os dois cavalos haviam ficado no começo da
rua cheia de pedras e barro. Assim que caminhavam pelo Araçá, os dois artistas
chamaram a atenção dos moradores, que corriam até a janela para ver os forasteiros.
Se a visita de gente de fora já chamava atenção, imagine se essa “gente de
fora” fosse de um circo. As roupas que vestiam, parecidas com os que usam os
ciganos, eram coloridas. Para completar o figurino, Mirolasva tinha sobre a
cabeça um turbante. Uma menina bem maior que Maria atendeu a dona do circo.
– Bom dia minha
querida!
Surpreendida por aquelas duas figuras
estranhas, a primeira reação da garota foi o susto. Sem esperar ser convidada,
Mirolasva entrou no quintal e foi direto ao assunto.
– Seu pai está em
casa?
– Não, ele tá na praia
com meus irmãos – respondeu sem tirar os olhos do pano que enrolava a cabeça da
mulher.
– Pode fechar a boca. É
um turbante menina. Ajuda a aliviar o sol na cabeça. E quando voltam seu pai e
seus irmãos?
– Daqui a pouco eles chegam.
Eles vão ter que vir para almoçar.
A garota que fazia as suas atividades
domésticas não convidou os visitantes para entrar em casa e ela nem poderia. A
ordem do pai era clara: “Não dê muita confiança para os estranhos”. Mirolasva,
mesmo indiretamente, ainda tentou ser convidada, todavia a menina não entendeu
ou fez questão de não entender. Perguntou ainda sobre a irmã caçula e descobriu
que ela brincava no seu quarto. Depois de uma hora de espera, Manoel chegou em
casa na companhia de dois meninos. Carregavam remos, redes e uma caixa de
peixes pela metade. Mirolasva se apresentou e por ser dona do circo conseguiu
ser convidada até para o almoço. Depois da refeição e de ter dito como era o
dia a dia no circo, Manoel e Mirolasva foram para a sala conversar sobre Maria.
– O senhor pergunta
qual é o motivo da minha visita? Quero conversar a respeito da sua filha.
– A Luciana. Ela foi
mal educada com senhora?
–
Não, não foi a menina que me atendeu.
– Então é a Emília, a
do meio.
– Me refiro a mais
novinha, a menina que estava com o senhor no circo.
– Ela se chama Maria.
O que a senhora quer da minha filha?
– Eu quero adotá-la –
respondeu secamente Mirolasva.
– A senhora pensa que
vou dar a minha filha assim de graça para uma desconhecida – gritou Manoel.
– Não estou dizendo
que o senhor vai dar ou não. Eu expressei apenas a minha vontade. Se senhor vai
aceitar é outra história.
– Por minha vontade
Maria não sai dessa casa, mas como ela vive a chorar e sente muita saudade da
mãe que morreu, talvez a senhora tenha alguma chance, isso se ela aceitar.
– Isso mesmo que eu
queria ouvir do senhor.
Mirolasva se ajeitou na cadeira de palha
que foi posicionada próxima à janela. A mesma cadeira que disputava espaço na
sala, com equipamentos de trabalho do pescador. O cheiro de peixe tomava conta
do lugar e sem o uso de produtos de limpeza na época, todas as casas do Araçá
tinha esse odor tão característico. A dona do circo apresentou as vantagens
para educação da menina. Mirolasva disse, também, que considerava os artistas
como seus filhos adotivos e que Maria teria uma família no circo. Como era uma
pessoa que sabia conversar, Mirolasva conseguiu convencer o pai a chamar a
menina e perguntar sobre a possibilidade de ir morar no circo. Manoel contou
que Maria não parava de falar do palhaço, dos trapezistas e dos macacos
equilibristas. Contou que a vinda do circo havia ajudado a diminuir a tristeza
da filha.
– E quando o circo for
embora? – questionou Mirolasva.
Manoel ficou calado e esperou que a filha
respondesse a pergunta. A menina entrou acompanhada pela irmã mais velha.
Vestia uma espécie de vestido curto e bordado nas mangas. A mesma roupa usada
quando foi ao circo. Maria sentou numa cadeira colocada perto do pai. A menina
olhou com seus grandes e assustados olhos verdes para a visita inesperada.
– Luciana você pode ir
agora – pediu o pai.
A garota saiu, mas ficou próxima a porta
da sala. A dona do circo se aproximou da menina, que ao notar o movimento olhou
para o pai como quisesse dizer: “ela pode fazer isso?”. Mirolasva entendeu
aquele olhar e resolveu quebrar o silêncio. Manoel esperava a resposta, mas o
que ouviu foi mais uma pergunta.
– Você sabe quem sou
eu?
– A mulher do circo -
disse a Maria.
– Sim, eu sou a dona
do circo que a senhorita foi ontem. Meu nome é Mirolasva e o seu?
Maria olhou atentamente a mulher e não
entendeu o nome que era pouco comum numa vila de pescadores com descendência
portuguesa.
– Milos...
– Mirolasva. É
estranho. Meus pais vieram de um pais distante chamado Bulgária. Você ainda não
disse o seu nome.
– Maria, Meu nome é Maria. Meu nome
é Maria, Maria, Maria...
* * *
– Maria! Maria! - gritou a garota
ruiva.
– Não precisa gritar.
Não sou surda.
– Não é o que parece Mariazinha. Às
vezes você não está nesse mundo. Em que você pensa tanto? – questionou
Francisca.
Das três meninas que dividiam o mesmo
quarto, Francisca era a mais velha, tinha 17 anos. Morena, a garota descendia
de uma tribo indígena do norte Mato Grosso. Mirolasva encontrou ela há dez
anos, pedindo esmolas, no interior do Estado de São Paulo. A colega, Júlia,
três anos mais nova, era também morena e foi adotada quando tinha oito anos em Minas Gerais. Já
a ruiva Margarida, com seus 15 anos, foi abandonada na porta do circo assim que
nasceu.
– Eu estava tentando
me lembrar daquele dia, mas não consigo.
– E do seu papai, você
se lembra? – perguntou Margarida.
– Não, eu não me
lembro do rosto dele e nem dos meus irmãos. Nos sonhos que tenho o único rosto
que consigo me lembrar é da minha mãe verdadeira.
– Então a mãezinha foi
até na sua casa e pediu que dessem você para ela.
– Eu chorava muito por
causa da minha mãe e por isso foi melhor eu sair de casa por uns tempos.
Embora elas tivessem que acordar
cedo, continuaram a conversar. O circo fazia naquele 12 de novembro de 1949 a sua última
apresentação na cidade de Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. De lá a
trupe retornaria para Santa Catarina, primeiro o interior e depois o litoral. O
itinerário do Petrov naquela época limitava-se aos Estados de São Paulo, Paraná
e por fim Santa Catarina. Bem diferente do auge, quando a circo percorreu toda
a América Latina. Com a morte dos pais,
Mirolasva não conseguiu administrar o circo e as dívidas só aumentaram. Sem
pagamento, muitos artistas foram embora. Os que ficaram sabiam que não iriam
receber, entretanto resolveram não abandonar o circo. Em cada cidade que o
Petrov passava, Mirolasva notava a quantidade de crianças abandonadas ou
criadas sem nenhum cuidado. Chegou até quem deixasse crianças recém-nascidas na
sua porta. Uma dessas crianças foi a equilibrista e palhaça Margarida. Depois
dela vieram mais crianças e adolescentes.
Além das quatro garotas, havia três rapazes,
que tinham entre 12 e 16 anos. Antes deles, outros garotos e garotas já haviam
fugidos do circo antes completar a maioridade, não por maus tratos, mas sim por
causa da idade e da falta de dinheiro. Desde que assumiu a direção do Petrov
ninguém recebia pagamento no fim do mês, nem mesmo a dona do circo. Eles
trabalhavam para não passar fome e para manter viva uma tradição. O Petrov era
conhecido como “O Circo das Crianças”. Mirolasva pode ter explorado o trabalho
infantil, mas ajudou a salvar muitas crianças da fome e de outros sofrimentos
que estavam mergulhadas. A mãezinha, como era conhecida, sabia que não tinha
feito mal algum para seus filhos adotivos. No fundo, o Circo Petrov foi uma
grande família, mas como toda família que não deixa descendentes, um dia ele
teve seu fim.
Existem dois grandes momentos para um
circo, a primeira e a última apresentação numa cidade. A reação do público nos
primeiros dias é o fator decisivo para permanência dele na cidade. No caso de
Francisco Beltrão, foram três semanas. Naquele domingo, seria o último na
cidade paranaense. No dia seguinte, todos estariam na estrada a caminho de
Santa Catarina. Maria era trapezista, malabarista e às vezes ajudava nas
apresentações de mágica. No Petrov, todos ajudavam de alguma forma. Os artistas
tinham mais que uma função, seja nas atrações apresentadas, seja nas atividades
domésticas. As viagens duravam até cinco dias. Quando chegava à cidade, a
primeira coisa a fazer era montar as lonas, serviço que ocupava a todos.
Normalmente o trabalho para deixar tudo pronto levava um dia inteiro, do
amanhecer até a noite. Assim que se instalava na cidade se fazia a divulgação.
Integrantes do circo uniformizados e animais como o chimpanzé percorriam as
principais ruas da cidade. O anúncio era feito com a ajuda de um megafone.
Naquele domingo, a arena principal
permaneceu lotada nos três horários disponíveis. Há muitos anos, uma
apresentação não tinha levado um público tão expressivo, até mesmo para
Francisco Beltrão de 1949. Parecia que a cidade inteira esperou para ir ao
circo no último dia. Ficou muita gente de fora e muitos reclamaram da falta de
estrutura. E eles tinham razão, com o tempo o Petrov deixou de atender bem ao “respeitável
público”, por isso ficou para trás e foi o motivo da falência no início dos
anos de 1960. O fim do Petrov coincidiu com a morte de Mirolasva, em 1963.
Morreu nos braços dos seus filhos adotivos.
O relógio marcava nove horas da noite
quando deu início a última apresentação. Maria se encontrava nervosa. Não era
todo o dia que se apresentava para um grande público. O primeiro número foi de
malabarismo, a primeira arte circense que aprendeu. Começou com cinco bolas de
tênis. Os objetos eram mantidos no ar e ela se contorcia para fazer em todas as
posições. Para dificultar ainda mais a tarefa, outras três bolas foram
incluídas. Claro, tudo com um rufar de tambores e expectativa criada para ver
se a artista conseguiria ou não a façanha. De repente, as luzes se apagaram. A platéia foi iluminada
por tochas. Agora sim a malabarista tinha algum motivo para se preocupar. Maria
pegou três tochas e começou a jogar no ar. No alto um canhão de luz iluminou a
garota. Na escuridão, as tochas faziam desenhos assustadores para a admiração
do público. Maria saiu de cena emocionada. Nunca havia recebido tanto aplausos.
Margarida, dois rapazes da mesma idade e o chimpanzé Congo notaram que seus
olhos estavam umedecidos. O quarteto era a trupe de palhaços que divertia o
público antes de começar uma nova
atração. Assim que os palhaços
terminaram, entrou o domador, que entre os animais ferozes, tinha o papel de
dominar um leão desdentado e um urso ainda filhote.
Maria se preparava nos bastidores quando
ouviu seu nome ser chamado pelo megafone junto com mais dois garotos. Os três
fechavam o último e um dos mais perigosos números do circo, o trapézio. Numa
altura de um prédio de três andares, o trio voava por uma haste de madeira
pendurada por cordas em forma de balanço. O canhão de luz se encontrava
posicionado agora há a mais de dez metros de altura. Maria foi a primeira a
saltar e a ser aparada por um dos jovens que se encontrava pendurado pelas
pernas. Em seguida foi lançada ao ar e por muito pouco não caiu. O público mal
tinha se refeito do primeiro susto e aconteceu o segundo. A cena foi repetida
mais uma vez. Rufaram os tambores, Maria saltou da plataforma e no ar deu um
salto mortal. O jovem que saltou de cabeça para baixo tentou pegar a garota
e até conseguiu, todavia como estava em
alta velocidade ele não suportou o peso. Maria caiu para o assombro de mais 300
pessoas que estavam no circo. Na platéia surgiu rumores da morte da trapezista.
Quando o canhão de luz se aproximou do picadeiro, encontrou a menina de cara no
chão. Os trapezistas logo desceram e correram para socorrer a colega. Para
surpresa de todos, Maria se levantou. Não havia nenhum ferimento. Foi nesse
momento que o público descobriu que tudo não havia passado de um truque. Os
aplausos foram tímidos, já que grande parte da platéia se refazia do susto. O
número foi ensaiado e feito pela primeira vez naquela noite. Como a reação do
público foi negativa, Mirolasva resolveu por fim ao número. A rede que
amorteceu a queda de Maria já era vista em Chapecó, primeira cidade catarinense
a receber o Circo Petrov no mês de janeiro de 1950.
*
* *
– Ainda em 1950, o circo se
apresentou em Itajaí.
Maria foi abordada na rua da cidade por um homem. A garota
que estava prestes a completar 16 anos, encontrou no meio da rua um dos seus
irmãos, que a reconheceu logo de imediato. Naquele mesmo ano Maria retornou
para casa – completou a narração Paulo Aguiar.
– Ela não mais teve notícia
do circo? – perguntei.
– No começo as suas irmãs,
principalmente a ruiva Margarida ainda a visitava em Porto Belo. Depois
a família se mudou para Itajaí e de lá já casada Maria foi para São Francisco do Sul, onde mora até hoje.
– Puxa! É uma história e tanto – comentou
dona Carolina.
– O senhor conhecia a
história da Maria seu Miguel?
Miguel arregalou seus grandes olhos azuis,
pensou um pouco antes de responder.
– Maria foi minha colega de
escola. Eu não sabia que ela foi trabalhar num circo. Contaram que foi morar na
casa de uma mulher rica em
São Paulo.
– Ela me contou também essa
versão. A próxima história o senhor conhece muito bem. É do seu tio Rogel –
prosseguiu Paulo Aguiar.