domingo, 15 de janeiro de 2017

A Nova Ericeira: Santos


         
                A partir de 1940, os descendentes dos colonos da Nova Ericeira tinham apenas uma opção para ganhar dinheiro: abandonar seus lugares de origem. Não existiam empresas na região e a pesca em Santa Catarina era ainda muito artesanal. A captura do pescado, além de ser pouca, servia apenas para que as famílias dos pescadores não morressem de fome. A viagem que o povo da Ericeira fez de Portugal ao Brasil no começo do século XIX não fora à única. No Novo Mundo, seus descendentes continuaram errantes e ainda o são. As cidades de Santos, Rio de Janeiro e Rio Grande faziam parte do destino desses homens. O emprego era certo, pois os armadores da pesca dessas cidades optavam pela mão-de-obra catarinense, considerada qualificada. Os pescadores conheciam tudo sobre o mar e grande parte dessa sabedoria eles haviam herdado dos seus antepassados ericeirenses. Segundo registram os relatos de navegantes e historiadores, desde 1229 a atividade pesqueira é praticada na Ericeira. Na mesma época em que Cabral comandava as três caravelas rumo ao Brasil, isso em 1500, os ericeirenses já se aventuravam pela costa da África, em busca de sardinhas no litoral marroquino.

            Assim que arrumavam empregos, os casados chamavam suas esposas e filhos e começavam uma vida nova na cidade escolhida. Já os solteiros não deixavam de visitar as famílias ou acabavam por constituir outras nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Hoje existem muitos descendentes do povo da Ericeira nessas três cidades, principalmente em Santos. Na cidade vizinha, Guarujá, o bairro do Santa Rosa é reduto dos “catarinas”, apelido dado às pessoas naturais de Santa Catarina, que para  lá migraram em busca de melhores condições de vida.

            Em junho de 1955, Arlindo Pinheiro, então com 18 anos, resolveu também mudar a sua. Cansado de ganhar pouco nos barcos de pesca de Porto Belo, o jovem resolveu partir para Santos. Anos antes, parentes e colegas haviam seguido o mesmo caminho.  Encravado entre morros, Porto Belo não era nem de perto a vila escolhida para sediar uma colônia pesqueira. Sem acesso por terra, contava apenas com trilhas por onde passavam carros pequenos. A cidade permanecia isolada e os costumes eram os mesmos do século XIX. Enquanto isso, cidades como Itajaí, Balneário Camboriú e Tijucas se desenvolviam. Na cidade paulista, Arlindo iria ao encontro do irmão mais velho, Francisco. Com a carteira de pescador na mão e uma mochila nas costas, o jovem pegou uma carona junto com a tripulação do barco Nacional.

            Depois de um dia inteiro de viagem, a embarcação entrou no canal de Bertioga.  Foi numa manhã do dia 10 de junho. O Nacional atracou na Ponte dos Pescadores, localizada no bairro da Ponta da Praia, em Santos. O local era destinado ao desembarque do pescado que entrava na cidade. Estavam ali lanchas, rebocadores, iates e barcos de pesca de todos os lugares do Brasil. O ambiente de tão diferente, ganhou a fama de ser um dos lugares mais curiosos e pitorescos da cidade. A fama vinha da aparência dos pescadores que rodeavam o lugar. Ao invés dos prédios e dos armazéns do Porto de Santos de hoje, barracões de pesca tomavam conta do cenário.

            Perto das 11 horas daquele dia, Arlindo terminou de descarregar o barco. Era o preço da passagem que dava direito também ao almoço. Na parte da tarde o Nacional seguiu viagem ao litoral fluminense. O jovem perambulou pela Ponta da Praia, em busca de um emprego e do irmão mais velho. Pelo caminho encontrou muitos conhecidos de Porto Belo. Sentados no trapiche de atracação da embarcação Elisa, dois pescadores observavam a movimentação no estuário. Foram despertados pelos passos pesados de Arlindo e um deles o reconheceu.

– Olha quem chegou?

– Arlindo! – disse o outro.

– Estou procurando o meu irmão. Vocês o viram?

– Quem?

– O Chico.

– Perdeste o teu tempo. O Chico foi para o Rio. O barco dele saiu há três dias.

– O que você veio fazer aqui mano?

– Arrumar um emprego. Tem vaga no teu barco?

– Não vai dar não Arlindo, a tripulação tá completa. Onde você vai dormir hoje?

– Não sei – respondeu o jovem cabisbaixo.

– Fica aqui mano. O barco só vai para o mar amanhã.
 
Ponta da Praia em 1954
 
   Não restou outra opção para Arlindo a não ser aceitar a oferta dos pescadores. Além disso, o que ele tinha no bolso não daria para pagar uma pernoite num quarto de pensão. Daquelas em que o hóspede tem que disputar espaço com as baratas e ratos. Oferecer abrigo para uma ou mais noites era uma prática comum entre os pescadores de Santa Catarina. Arlindo não foi o primeiro e nem o último que chegou sem nada no bolso e precisou dormir numa embarcação. No dia seguinte, o pescador saiu bem cedo à procura de emprego. Como não encontrou, precisou mais uma vez da ajuda de seus conterrâneos. O terceiro dia em Santos foi diferente. Bem cedinho, um pescador lhe disse que o barco Cármem precisava de um homem para completar a tripulação. Essa embarcação e outra chamada Irene, eram de propriedade do piloto do então ex-governador do Estado de São Paulo, Ademar de Barros. Um ano antes, em 1954, o político perdeu as eleições ao governo paulista para o candidato Jânio Quadros. Em 1955, veio uma nova derrota, desta vez para Juscelino Kubitschek. Os nomes das embarcações homenageavam as filhas do piloto.


Barcos de pesca na década de 1940
             
           Franzino e sem experiência na pesca, mas com conhecimentos culinários, Arlindo entrou no Cármem como cozinheiro e assim permaneceu pelos cinco anos em que ficou embarcado. A vaga veio na hora certa. O dinheiro já havia acabado e ele não queria pedir mais uma vez para dormir no barco dos outros.  Outra vantagem da embarcação em que iria trabalhar dizia respeito ao tempo que ficaria no mar. Na metade da década de 1950, grande parte dos barcos pesqueiros não possuía suporte para uma viagem longa. Eles eram pequenos e a capacidade de armazenar gelo para guardar os peixes também, assim como o suprimento dos trabalhadores. Cármem e Irene foram barcos de arrasto e saíam sempre juntos. As embarcações eram conhecidas pelos pescadores como barcos de “sol a sol”. Normalmente elas partiam de manhã e atracavam no porto pesqueiro ao final do dia, com ou sem peixes. Estando na Ponte dos Pescadores, em Santos, Arlindo teria a chance de encontrar o irmão mais velho.
 
            Na manhã nublada e fria do dia 13 de junho de 1955, o barco Cármem levantou âncora. O destino, segundo informou o mestre, era Litoral Norte de São Paulo. Arlindo começou a preparar o almoço num improvisado fogão a carvão, na casa de máquinas. Nesse lugar, ele e mais um pescador, responsável pela manutenção dos motores, dormiam. Na outra parte do barco ficava o restante do dormitório, que era destinada para mais quatro tripulantes. O cardápio daquele dia foi peixe seco, feijão e arroz. Quando não tinha peixe, entrava carne seca e o cardápio não variava muito. O mar se encontrava calmo, apenas um pouco de neblina atrapalhava a visão. No caminho, tendo o Irene sempre ao lado, o jovem descobriu que os pescadores não retornariam mais para Santos.

– Pelo cheiro, deve tá danado de bom – disse o pescador responsável pela casa das máquinas.

– Você deve ser o novato. Vamos ser companheiros de quarto –  continuou  sem esperar a resposta de Arlindo.

            O homem que entrara na cozinha improvisada se chamava Januário. Eles se cumprimentaram com um forte aperto de mão. Januário nasceu em Sergipe e morava em Santos há dez anos. Vivia no outro lado do canal Bertioga, que separava Santos de Guarujá. Casado, ele já tinha uma prole respeitável de cinco filhos. Entrara para a pesca recentemente e mais por necessidade do que por gosto. Diferente dos pescadores catarinenses que viviam da pesca, Januário e outros migrantes nordestinos que se aventuravam no mar vinham de famílias de agricultores.

– Que horas vamos voltar para Santos?

– Não vamos voltar - disse o pescador ao mesmo tempo em que colocava óleo nos motores.

– Não. Por quê?

            Por momento algum Arlindo esperava ouvir uma resposta daquelas. Ele, que durante a viagem já planejava encontrar o irmão, ficou desnorteado. O cozinheiro arrumou as duas panelas de barro na chapa do fogão e refez a pergunta, uma vez que Januário não se deu ao trabalho de responder. Talvez por não ter entendido ou por não ter ouvido a pergunta devido ao barulho do motor da embarcação.

– Por quê?

– O mestre disse que os dois barcos estão irregulares e a polícia marítima pode confiscar as embarcações. Alguém avisou o patrão lá em São Paulo.  Isso não me deixa admirado, o patrão trabalha para o Ademar de Barros, aquele “que rouba, mas faz”.

– Vamos para onde então?

– Vamos ficar uns tempos em Itanhaém até a poeira abaixar. Se o doutor Barros fosse governador, isso nunca iria acontecer. Deve ser perseguição do Vassourinha.

– Vassourinha?

– Oxente! De que mundo você veio? O Vassourinha é o Jânio Quadros. Quer saber, é tudo gente da mesma laia! Tudo ladrão.

– E esse tal ex-governador, o tal de Barros, é ladrão de verdade?

– Ele não rouba a mãe porque não tem uma. No ano passado ele disse no meio do comício que no bolso da calça dele nunca havia entrado dinheiro do povo. Um cabra no meio da multidão gritou assim: “o doutor tá de calça nova”.

– Sério?

– Claro que é sério. Quem me contou foi um comerciante que mora lá em São Paulo. Ele é parente de uma pessoa que mora em Bauru e foi no comício. Acredita que o “doutô” saiu do palanque e depois de fumar junto com o cabra, ainda deu boas risadas.

            Depois da conversa os dois homens se entregaram às suas tarefas. Januário foi pescar e cuidar do motor do barco e Arlindo continuou a preparar a comida para a tripulação. No final daquele dia, os dois barcos atracaram em Itanhaém, cidade muito antiga, fundada depois de uma acirrada pendência entre os herdeiros de Martim Afonso de Souza e seu irmão Pêro Lopes de Souza, em 6 de fevereiro de 1624. Na manhã seguinte, o jovem se lembrou que a cidade onde estava tinha o nome da embarcação em que um tio trabalhava. Fazia 15 anos que o irmão da sua mãe, Américo, havia saído de Porto Belo e desde então jamais tinha dado notícias. O barco em que o tio trabalhava chamava-se Conceição de Itanhaém. Antes de ir para Santos, a mãe havia pedido para que ele tentasse encontrar o tio. Na Praia dos Pescadores, em Itanhaém, o Cármem e o Irene permaneceram por seis meses. Só retornaram a Santos, em dezembro, cinco dias antes do Natal. Sem ter mais chance de ver o irmão, Arlindo aproveitou o tempo livre que tinha para descobrir o paradeiro do tio. Todas as manhãs meninos de rua da cidade vinham até os barcos pedir comida. Alguns deles também faziam serviços como levar um recado, uma carta aos Correios ou comprar alguma coisa na vendinha da esquina. Um desses meninos era conhecido como “Vinte e Um”. Ninguém sabia o seu nome e muito menos a idade. Sempre foi criado nas ruas. Era um menino negro que andava descalço e sem camisa. Dizia ter 12 anos, mas a aparência era de bem menos. “Vinte e Um” sempre pedia alguma coisa, normalmente para o cozinheiro. Arlindo lavava as louças na proa do barco, quando pelo trapiche surgiu o menino.

– Oi seu moço. Hoje não tem nada pro “Vinte e Um”? Preciso levar comida pra minha mãe e meus irmãos.

– Mas você disse que não tem família...

– Arrumaram uma família pro “Vinte e Um”. Agora tenho uma mãe, um pai e oito irmãos.

– Oito Irmãos. É muita gente.

            Arlindo já estava acostumado com as mentiras do garoto. Cada dia ele contava uma história nova para arrumar comida ou dinheiro. Na última, dissera que os alemães haviam invadido Itanhaém e precisava de dinheiro para fugir da cidade com o pobre avô doente. O mesmo avô que ele havia matado tantas outras vezes para conseguir dinheiro para o velório. Muitas das histórias que contava, ele apenas repetia dos marinheiros e pescadores que frequentavam o principal bar da cidade chamado Cassino. O cozinheiro sempre ajudava, mas em troca pedia que o menino lhe fizesse um favor. Desta vez ele havia pedido para o jovem descobrir se na cidade havia um homem chamado Américo.

– Descobristes onde meu tio mora?

– “Vinte e Um” não sabe e não conhece esse América.

– Não é América, é Américo. Ele é um senhor de cabelo loiro, olhos verdes e baixinho.

– Existe um homem russo parecido. Ele vai à igreja todos os domingos com a família.

– Você me leva até lá? Eu pago e se o homem for meu tio, eu pago em dobro.

– O dobro? - perguntou o menino admirado.

– Quer dizer mais do que está acostumado a ganhar.

            Sem dizer nada o menino saiu correndo. Nisso Arlindo o chamou. Ele foi até o barco e pegou uma laranja. “Vinte e Um” com a fruta na pequena mão direita saiu pela praia afora, em direção à praça da cidade, onde passava a manhã brincando e pedindo esmolas. Para o domingo faltavam três dias. Arlindo esperou com certa expectativa o dia chegar. Apesar da fama de mentiroso do menino, o cozinheiro do Cármem estava quase convicto de que o homem que ia às missas da Igreja Matriz de Itanhaém era o seu tio desaparecido. No domingo, bem antes do sol aparecer, Arlindo já estava pronto. Calça e terno de linho branco e chapéu tipo Panamá bege, uma imitação muito usada na época. Com traje domingueiro, o pescador esperou apenas “Vinte e Um” chegar. Perto das oito horas, o menino apareceu do mesmo jeito de sempre, descalço, sem camisa e de bermuda. Usava sempre uma até rasgar. Quando começavam a surgir entre os buracos do tecido as partes íntimas do rapaz, sempre aparecia uma alma caridosa e lhe doava uma outra bermuda.

– Tem certeza de que é o mesmo homem que falei? - perguntava Arlindo no  meio do caminho.

– Tu vai ver então se “Vinte e Um” é mentiroso.

            Por ruas estreitas de barro, os dois chegaram até o centro da cidade. Da Praia dos Pescadores até a igreja levava 20 minutos a pé. O garoto não caminhava, corria. O percurso foi realizado na metade do tempo costumeiro. No caminho, o Amarelinho parou no ponto para pegar os passageiros. O ônibus fazia a linha Santos-Itanhaém desde 1940. De dentro do Amarelinho, um homem gritou pelo nome de Arlindo. Era Januário.

– Hei Arlindo! Aqui cabra! Aonde você vai com esse trombadinha?

– Vou até a igreja. O “Vinte Um sabe” onde meu tio está.

– Rapaz, deixe de teimosia! O teu tio não tá aqui. Esse abusado só tá querendo tirar dinheiro de ti.

– Eu vou lá ver, não custa nada.

– A cabeça e a gaita são tuas mesmo. Eu vou ver a patroa e os filhos lá no Guarujá.


Linha Santos/São Paulo
            
             O ônibus partiu lotado, repleto de pescadores. Atrás dele se formou uma densa nuvem de poeira, que logo se dissipou no ar. Quando Arlindo e “Vinte e Um” chegaram à igreja, a missa já havia começado. O templo cristão era uma construção pequena e bastante antiga, da metade do século XVIII. A igreja não estava nem lotada e muito menos vazia. Entre olhares curiosos, os dois chegaram até a primeira fila. “Vinte e Um” apontou para o homem com as mesmas características do tio de Arlindo. Aos sussurros, o pescador pediu que o menino esperasse por ele no lado de fora da igreja. Ficou sentado ao lado do homem que era acompanhado por uma senhora, provavelmente a esposa. Durante a missa não se atreveu a interromper os pensamentos do desconhecido. Esperou então a cerimônia religiosa, que era realizada toda em latim, terminar. Depois de bocejar, se levantar e sentar mais de dez vezes, a missa acabou. Antes que o rebanho saísse da igreja, Arlindo aproveitou para interrogar o homem.

– Bom dia! Por acaso do senhor é de Bombinhas?

            O homem se virou e olhou seriamente para o jovem, que se encontrava visivelmente nervoso. Olhou para Arlindo como quisesse se lembrar de alguém. O jovem fez uma nova pergunta, uma vez que o homem demorou a responder à primeira.

– O senhor trabalha no Conceição de Itanhaém?

– Sim, eu sou de Bombinhas e trabalho nesse rebocador sim. Por acaso eu conheço o senhor? Eu estava olhando pra ti e parece que já vi você em algum lugar. 

– Acho que sim. Eu também sou de Bombinhas, sou filho da Gertrudes. O senhor se chama Américo?

– Então você é filho da minha mana Gertrudes? Vem aqui, me dá um abraço!

            Sobrinho e tio se abraçaram e continuaram a conversa. Dentro da igreja as pessoas formaram fila para receber a hóstia.

– Qual deles você é?

– Sou o Arlindo.

– Arlindo! Menino faz tanto tempo que eu não vou para Bombinhas. Quando eu saí de lá você era tão pequenino.

– Antes de vir para Santos a mãe pediu para eu ver onde o senhor estava.

– E como vai a minha a minha mana e o pessoal lá de Bombinhas?

– Vão bem. O senhor mora aqui perto?

– Sim, mas deixe o teu tio pegar uma hóstia. Converse com a sua tia. O nome dela é Vitalina.

            Arlindo apertou a mão da senhora que era natural de Itanhaém. Américo fora a última pessoa a receber das mãos do padre a hóstia consagrada. O sacerdote era um homem de estrutura baixa que vestia uma batina maior do que o corpo. Quando eles saíram, encontraram o garoto “Vinte e Um” sentado na escadaria de acesso à igreja. O jovem cochilava encostado a um pilar. Acordou sobressaltado e viu Arlindo o sacudindo pelo ombro esquerdo. Este deu o deu o dinheiro prometido. O menino saiu correndo pelas ruas da cidade. Virou uma rua e não foi mais visto. 

– Arlindo, meu filho, você tá trabalhando onde?

–No barco de Santos chamado Cármem.

– Eles te pagam direito?

– Não tio, às vezes eles atrasam o meu salário.

– Já recebeste este mês?

– Não.

– Eu sou uma pessoa conhecida aqui em Itanhaém. Conheço o comandante da Marinha e toda embarcação que entrar aqui tem que ter permissão dele. A amanhã vou falar com teu chefe e pedir que te pague tudo que deve.

– Obrigado tio, não precisa. 

– Precisa sim. Primeiro vou te levar para conhecer a minha casa e teus primos. Depois você vai até o barco pegar as tuas coisas. Enquanto estiver trabalhando aqui vai ficar na minha casa.

            No dia seguinte, conforme o combinado, Américo, utilizando da sua função de prático do canal de aceso ao Porto de Itanhaém e da amizade do comandante, conseguiu que o chefe de Arlindo lhe pagasse tudo o que devia. Era isso ou então as embarcações que estavam irregulares seriam apreendidas. O jovem pescador ficou durante seis meses em Itanhaém. Em dezembro de 1955, Arlindo retornou para Santos. Ele havia tinha saído do Carmem e arrumado emprego num outro barco.
 
Santos em 1955
 
                                                                   *    *    *
           
                Em Santos, Arlindo não tinha onde ficar. Como passava maior parte do seu tempo no mar, ele nem sentiu falta de uma casa. As viagens, desta vez, eram mais longas – ficava até duas semanas em alto mar – parando de vez em quando em algum porto. Sua função continuava a mesma: cozinheiro. Quando o barco entrava na Ponta da Praia, em Santos, ele tinha, normalmente, dois dias de folga.  Se a pescaria fosse boa, ele viajava para Porto Belo. Do contrário, ficava ali mesmo. A viagem realizada de ônibus para Santa Catarina era rara e acontecia quatro vezes ao ano. Durante quatro anos, Arlindo manteve essa rotina, mas ele queria mudar.  O jovem não queria ser pescador para sempre, a intenção era trabalhar num navio da Marinha Mercante. Esse sonho veio com ele de Bombinhas. Só não conseguiu realizar porque não tinha um curso específico e muito menos estudo suficiente para isso. Como no atual emprego ficava mais no mar do que em terra, a Marinha Mercante estava muito distante da sua realidade. Pela minúscula janela da cozinha do barco em que trabalhava, o pescador via todos os dias o seu sonho representado num grande navio, que a cada dia se afastava e ficava cada vez mais longe. Na manhã do dia 15 de março de 1956, o apito de uma grande embarcação de bandeira italiana tirou a atenção do cozinheiro.

– Arlindo! Parece que nunca vistes um navio na vida - disse um pescador que estava na popa do barco.

– Desse tamanho nunca – retrucou o cozinheiro.

– Se aparecer mais um navio vamos ficar sem almoço – gritou o mestre da embarcação.

            Arlindo voltou para a pequena cozinha com dois metros de largura e por três de comprimento. Por incrível que pareça, nesse cubículo, além do fogão e a despensa, ficava a cama do jovem. Enquanto preparava a comida, pensava como seria bom trabalhar num navio da Marinha Mercante. Naquele dia, uma terça-feira ensolarada e de muito vento, por muito pouco, ele quase viu o seu sonho naufragar literalmente. O jovem não tinha apenas a função de cozinheiro . Assim que terminava o serviço na cozinha, ajudava a lançar ou recolher as redes. Foi justamente na primeira opção que o pescador foi parar no mar. Arlindo e mais seis pescadores se encontravam na lateral da embarcação, quando tudo aconteceu.

– Vamos homens. Quando terminar de contar, vocês jogam – disse o mestre do barco.

– Um, dois, três. Agora...

            Cada um como pode lançou sua parte da rede ao mar. O esforço foi grande, já que a rede pesava muito. Nela havia ainda pedaços de chumbo, usados para o náilon afundar mais rápido e chegar a pelo menos 50 metros de profundidade. Cabos de aço seguravam o equipamento junto à embarcação. Entretanto não fora apenas a rede que fora lançada na água. Arlindo, que não tinha muita experiência e força, foi junto. Vestido com a grossa capa feita de lona, o jovem logo submergiu. Fez um esforço tremendo para voltar, mas o peso da roupa o impediu de subir de novo. Arlindo chegou a ver a claridade do céu e ouvir os gritos dos outros pescadores.

            – É melhor puxar a rede – sugeriu um homem.

            – Não temos tempo para isso. Até puxar a rede, o Arlindo já morreu afogado – disse o motorista do barco.

            – Eu vou pular.

            – Não adianta, o mar está muito revolto. Onde ele caiu? – perguntou o mestre.

            – Aqui! Nesse lugar – apontou um pescador.
 
            Como última tentativa, o mestre lançou uma corda amarrada junto a um peso na mesma direção indicada. Por sorte, Arlindo que se batia para não afundar mais ainda, sentiu algo passar por ele: era a corda. Segurou firme e do barco os outros pescadores o puxaram. Toda essa cena durou menos de dois minutos, mas para o cozinheiro o tempo foi maior. O jovem chegou ao barco mais morto do que vivo. Não engolira muita água, entretanto o susto fizera com que ele ficasse de cama durante o resto daquele dia e na manhã do dia seguinte. Depois de recuperado, Arlindo tomou mais cuidado e o assunto não deixou de ser alvo da brincadeira dos pescadores. A embarcação chegou em Santos no mês de abril, após ficar quase um mês no mar.

Depois de fazer as tarefas do barco, os homens receberam seus pagamentos e foram liberados. O armador, dono da embarcação, tinha dado dois dias de folga à tripulação. Eles somente deveriam voltar para trabalhar na manhã de segunda-feira. Os que tinham parentes ou família por perto foram para casa. Arlindo tinha dinheiro para viajar para Porto Belo, mas depois do susto, resolveu fazer uma poupança para garantir os estudos. Ele estava decidido a abandonar a pesca e entrar para a Marinha Mercante. Na tarde daquela sexta-feira, o cozinheiro foi até o Centro de Santos e depositou parte do dinheiro numa conta bancária. Chegou a visitar um curso de Supletivo e só não se matriculou porque ele precisava comparecer pelo menos três vezes por semana no local. Arlindo permaneceu no Centro até a noite. Foi ao Monte Serrat, um morro, de onde se tem uma visão de toda a Baixada Santista. Nesse morro há um restaurante e uma igreja construída em homenagem a Nossa Senhora de Monte Serrat. Foi para essa santa que, em 1645, os moradores da então Vila de Santos pediram para se livrar dos piratas franceses. Parte da pequena população da época subiu o morro e rezou para que os invasores fossem embora. Diz à história que os franceses foram embora.
 
Noite santista na década de 1950

Depois do Monte Serrat, o jovem fez hora no cinema. Não prestou atenção no filme que passava, apenas olhava de vez em quando para o relógio. Às nove horas da noite, seguiu em direção à Rua Conselheiro Nébias, local no Centro de Santos que abrigava clubes frequentados por marinheiros e pescadores. A diversão favorita do jovem Arlindo era dançar e o Clube XV era o melhor lugar para isso. Naquela sexta-feira, a noite foi tranquila, não houve brigas entre o pessoal da Marinha e da Guarda Marítima, rixa comum na cidade. Ao som de Francisco Alves, Marlene e Emilinha Borba, o pescador dançou e por duas horas esqueceu da vida. Bebeu a misturada, uma bebida que levava gasosa e vodca. No Clube XV encontrou colegas de pesca que ofereceram carona até o Macuco.

     Aceitou, já que o bairro ficava ao lado da Ponta da Praia. De lá ele levaria uns 15 minutos a pé para chegar até o barco. O bairro era formado por casas populares e alguns estabelecimentos comerciais e depósitos do Porto de Santos. O carro deixou Arlindo na Avenida Portuária. Não havia ninguém na via. Também, não era por menos, já passava da meia noite. Arlindo seguiu caminho sem se preocupar com o perigo que corria. Na década de 1950, o Macuco era um dos bairros mais perigosos de Santos. Assaltos a pedestres, homicídios aconteciam com certa frequência e ninguém ficava assombrado com isso. Nem Arlindo e os pescadores sabiam da fama do bairro. Caminhando lentamente pela avenida calçada por blocos de pedra, o jovem parou de repente para ouvir um barulho que vinha de longe. Parecia trote de cavalo. Olhou por toda a extensão da rua, mas a escuridão o impediu de ver mais alguma coisa. O jovem levou um susto quando o som aumentou e apareceram na sua frente dois cavalos mangas-largas da cor bege. Em cima deles, dois homens vestidos com casacão militar observam o rapaz. O mesmo casacão militar, que ia do peito até os pés e eram guardados por botas da mesma cor. Sobre suas cabeças um capacete com penacho formava o restante do figurino. Arlindo ficou mais calmo ao reconhecer os cavaleiros como sendo da Polícia Montada.   

            – O que você faz a essa hora na rua?  – perguntou um dos policiais.

            – Eu fui até o Centro e logo meu amigos...

            – E você veio a pé até aqui? – continuou o interrogatório.

            – Não, alguns colegas me deram carona de carro.

            – Mora aqui no Macuco? Onde?

            – Não moro em Santos. Trabalho num barco de pesca que está atracado na Ponta da Praia e estou indo para lá.

            – Você não sabe que o Macuco é um lugar perigoso? 

            – Não sabia não senhor.

            – Vamos acompanhá-lo até lá.
 
Avenida Conselheiro Nébias em 1955
               
            No caminho, Arlindo conversou com os policiais. Contou um pouco sobre sua vida, do sonho de se tornar um marinheiro e também da pesca. Assim que o jovem entrou no trapiche, os dois homens desapareceram na madrugada. Na segunda-feira, Arlindo embarcou novamente. Passou de barco a barco até 1960, quando resolveu pegar um trabalho em terra firme, porém numa empresa de pesca. Com as economias terminou o Ginásio e fez diversos cursos até conseguir à tão sonhada vaga na Marinha Mercante. Isso aconteceu em 1966, dois anos depois do golpe de 64. No dia 1º de abril de 1964 o Regime Militar foi instaurado no Brasil e seguiu até a Redemocratização, em 1985. Este período recente da história nacional foi marcado pelo autoritarismo, suspensão dos direitos constitucionais, perseguição policial, militar, política, prisão, tortura e assassinato dos opositores ao Regime. Arlindo resistiu a tudo isso e conseguiu realizar o seu sonho.
                                                                    *    *    *
            O vento começou a soprar mais forte e fez balançar as copas das árvores em torno da Praia da Sepultura. Uma canoa guiada por dois homens, um ainda jovem e outro de cabelos brancos, atracou na areia. Os dois homens logo puxaram o pequeno barco movido à força de remos para um rancho, que ficava bem junto da água. Em seguida eles desapareceram por uma trilha na mata.

            – O que aconteceu com Arlindo em Santos? – perguntei.

            – Ele conseguiu de fato realizar seu sonho. Em 1968, foi morar na cidade vizinha, no Guarujá. Lá permaneceu até 1995. Hoje ele mora em Navegantes. Arlindo está com 71 anos e é casado. Nunca teve filhos. Parece que a mulher tinha dificuldade em engravidar. O tempo passou e eles não se preocuparam com isso. Hoje, o casal tem nos sobrinhos os verdadeiros filhos.  Arlindo, desde que esteve em Santos deu abrigo para vários parentes e colegas pescadores de Bombinhas.

            – Da mesma maneira que o tio o havia ajudado.

            – Era uma forma de retribuir, como ele disse para mim. Está vendo aquele ponto de terra lá no fundo? – o meu xará apontou para um lugar no horizonte.

            – Não consigo, deve estar muito longe. O que há lá?

            – Não dá para ver muito bem. Tem muita névoa. Em dias bem claros dá para ver a Foz do rio Itajaí-Açu. Quando sair ou entrar um navio eu mostro o local certo.

            – Será que dá mesmo para ver? – questionei incrédulo.

            – Antes eu também não acreditava, mas se olhar no mapa, você percebe que Bombinhas está bem ao Leste de outras cidades do litoral catarinense e por isso, conseguimos enxergar algumas cidades daqui.

            – Interessante, muito interessante.

            – É lá naquele ponto, precisamente na cidade de Itajaí, que a história continua.

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Ilha da Pólvora

    Foto: Gilberto Simon/Porto Imagem                                                                      
          
             A partir da década de 1970, a pesca industrial brasileira alcançou seu ponto mais alto, com o recorde na captura de pescados, principalmente a sardinha. Indústrias de beneficiamentos e conservas foram abertas em muitos municípios do litoral das regiões Sul e Sudeste. Porto Belo, sede da primeira colônia pesqueira no Brasil, não se encontrava entre essas cidades. Na contramão do desenvolvimento pesqueiro nacional, a antiga Colônia Nova Ericeira definhava. Por esse motivo, os pescadores abandonavam a cidade em busca de um emprego. A procura começava em Itajaí. De ônibus, o morador de Porto Belo tentava encontrar trabalho em uma das dezenas de empresas de pesca do município. Como o setor se encontrava em alta em Itajaí, o emprego estava garantido. A viagem entre Porto Belo a Itajaí fora facilitada com a construção da BR-101, que encurtou o trajeto em muitos quilômetros.

            Em 1974, o pescador tinha mais chances de um trabalho registrado do que nos primeiros anos da década de 1950, quando surgiram as primeiras empresas de pesca.  Antes de Itajaí e Navegantes se tornarem pólos pesqueiros no Brasil, os homens do mar de Santa Catarina precisavam viajar para bem mais longe. Para o Norte, as cidades Rio de Janeiro e Santos e para o Sul, a cidade de Rio Grande, também recebeu os descendentes da Ericeira.

            Em abril de 1974, o jovem pescador Pedro Franco Ferreiro decidiu ir embora de Bombinhas, então bairro de Porto Belo. Ao contrário de seus conterrâneos, o destino não foi Itajaí. Embora já conhecesse o litoral de São Paulo e Rio de Janeiro, o pescador, com 23 anos de idade, se apaixonou pela cidade de Rio Grande e decidiu se mudar. Franco, como era conhecido, procedia de uma família de trabalhadores do mar. O pai, o avô e o bisavô tinham sido exímios pescadores. O primeiro Ferreiro, tataravô de Franco, chegou a Porto Belo, vindo da Ericeira, em 1818. Durante gerações, a profissão de pescador foi passada de pai para filho e aprimorada nesse tempo. A tecnologia ajudou, mas a técnica ensinada pelos antepassados portugueses contava e muito para o resultado de uma boa pescaria. Em 1974, sem o auxílio de sondas, o instinto do pescador era fundamental para a localização do cardume. Franco pertencia a esses pescadores que conseguiam localizar o peixe por intuição. Eles se baseavam na direção do vento, pela posição da lua, pela direção das correntes e coloração do mar. A presença de baleias e golfinhos eram outros indicativos da presença de cardumes. Por ter esse dom, Franco conseguiu ganhar dinheiro na pesca. Como os barcos em que trabalhava costumavam capturar muitos peixes, o salário superava em muito o de outros colegas de profissão.

            Depois de comprar uma casa no bairro da Barra, em Rio Grande, o pescador se mudou definitivamente para cidade gaúcha no mês de novembro de 1974. Morava em uma residência de madeira, com quarto, sala e cozinha. Ainda trabalhava em uma empresa de Itajaí, mas o barco que pescava atum no litoral uruguaio ficava mais no Rio Grande do Sul, do que em Santa Catarina. Os poucos dias em que tinha folga, Franco não permanecia em casa. Passeava pela praia do Cassino que, com seus 245 quilômetros de extensão, é considerada a maior do mundo. Essa praia começa em Rio Grande e vai até o Chuí, na fronteira com o Uruguai. Franco ainda visitava museus e frequentava a Catedral de São Pedro, uma igreja erguida pelos padres jesuítas em 1775.

Franco distinguia e muito de outros pescadores. Apesar de não ter concluído o Ensino Médio, lia com assiduidade jornais e livros sobre o mar. Consumia também com a mesma gula os pequenos livros de faroeste e não perdia um filme do gênero na televisão. Franco possuía um aparelho preto e branco em casa. Quando viajava, a televisão se mudava para a casa do vizinho, que não tinha o aparelho. A esposa e os filhos pequenos do vizinho recebiam o eletrodoméstico com festa. O sonho de consumo dos brasileiros era ter um aparelho de TV, mesmo que este transmitisse as imagens em preto e branco. O pescador de Bombinhas gostava muito de televisão e sempre que podia acompanhava os programas de auditório, filmes, seriados americanos, telejornais e novelas.

            No fim de tarde, nublado e frio, do dia 25 de julho de 1975, Franco resolveu parar num bar próximo de casa. O estabelecimento ficava em uma avenida larga e não pavimentada. O bar também servia de venda, comércio muito comum na cidade gaúcha. Encontrou alguns colegas que bebiam para espantar o frio. O vento Sul tão comum na cidade durante todo o ano, soprava mais forte nos meses de inverno. Naquele dia com o vento, a temperatura se encontrava bem próxima de zero grau. Agasalhado com casaco de lã, touca, luvas e cachecol, o pescador abriu a porta do bar e tomou assento em frente ao balcão. 

            – O que vai querer hoje guri?  – perguntou o dono do bar, um homem gordo e loiro chamado Mendonça. Um tabique de madeira separava a mercearia que ficava aos cuidados da esposa do comerciante. 

            – Pode me ver um copo de conhaque.

            – Com esse frio de quebrar os queixos é uma boa pedida guri!. – dizia ele, ao mesmo tempo em que enchia o copo de Franco até a borda.

            Nesse ponto da conversa, um homem que já estava no bar se aproximou do pescador. Assim que o reconheceu, Franco o cumprimentou com um aperto de mão. Era um colega de pesca que morava em Porto Belo. Atendia pelo nome de André.

            – Quando você chegou? – perguntou Franco ao colega.

            – Cheguei ontem e só por que o barco quebrou. A sorte nossa é que capturamos uma tonelada de atum. Vai dá para a gente se manter até o barco sair do estaleiro.

            – E a avaria foi grande?

            – Parece que apareceu uma rachadura a estibordo – lado direito de uma embarcação vista da popa à proa – e começou a entrar água na casa de máquinas.

            – E quando o barco fica pronto?

            – No mínimo vai ficar duas semanas no estaleiro. Vou aproveitar para viajar para Porto Belo. Já comprei as passagens – explicava ao mesmo tempo em que retirava os bilhetes do bolso – Saio no domingo e volto só na sexta-feira.

            No meio da conversa, um novo cliente entrou no bar. Vestia o tradicional poncho, um tipo de capa feita de lã e de forma arredondada. Com uma abertura no centro, por onde se enfiava a cabeça, as vestes do homem seguiam até as canelas. Franco não conhecia o cliente, um autêntico gaúcho.

            – Mas bah! Como minha vó dizia, é frio de renguear o cusco – disse assim que entrou no bar.

            Franco e André, sentados um ao lado do outro, olhavam com espanto para o homem que acabara de entrar. O sujeito aparentava ter mais de 50 anos. A sua cara era enrugada e cheia de bexigas. Seus longos cabelos começavam a ficar grisalhos.

            – Mendonça, passa-me a água benta! – pediu ele se referindo à cachaça.

            – O que tu tens guri? Parece que viste o negrinho do pastoreio? – questionou o dono bar ao reparar na cara de susto do cliente.

            – Vi coisa pior, homem. Acabou de encalhar um navio da praia do Cassino. Os marinheiros só não bateram as botas porque o patrão-velho não quis.

            O navio em questão era o Altair. Durante uma tempestade em alto mar a embarcação fora jogada à praia do Cassino e ficara encalhada próximo à faixa de areia. Apesar do susto, nenhum dos tripulantes sofreu ferimentos. O casco do navio ainda permanece na mesma posição e, com o passar das décadas, virou atração turística em Rio Grande.

            – Amanhã vou dar uma olhada no navio, guri – disse o dono bar ao cliente que curava o susto com a cachaça.

            André e Franco continuaram a conversa. Mendonça lavava copos na pia. Em uma mesa redonda, dois clientes jogavam cartas em silêncio. O único som vinha do vento, que soprava forte na rua.

            – Amanhã vou com uns amigos para a Ilha da Pólvora. Você quer ir? - convidou André.

            – Ilha da Pólvora?

            – Vai me dizer que você não conhece?

            – Não, eu não conheço.

            – Lá têm as ruínas de quartel do exército do tempo de Getúlio Vargas, mas a gente não vai para a ilha por causa disso. Vamos pescar e pegar caranguejos. Você quer ir ou não?

            – Amanhã é sábado – balbuciou Franco. 

            Ele tomou o último gole de conhaque, limpou a boca com a mão e depois de pensar um pouco respondeu.

            – Eu vou.

            – Amanhã de manhã eu passo lá na tua casa. O Zé Pedro, mestre do barco em que trabalho, é quem vai levar a gente. Ele mora em Pelotas, mas vai me pegar bem cedo no trapiche. Escreve o teu endereço.

            – Eu não tenho nada comigo, nem lápis.

            – Ô Mendonça! Me empresta a tua caneta e um pedaço de papel!

            O dono bar que tinha o hábito de ouvir a conversa dos clientes saiu por uma porta interna, que ficava ao lado do balcão. Dois minutos depois voltou com um pedaço de papel e uma caneta.

            – Aqui tá a caneta guri, mas o papel é de embrulhar o pão.

            – Não faz mal Mendonça, não faz mal.

            André passou o papel e a caneta para Franco que escreveu o endereço. Os dois pagaram a conta e se despediram. Franco voltou a pé para casa. O frio era de rachar e as ruas estavam quase desertas.  Ele chegou em casa e não teve vontade de fazer mais nada. Jantou sopa com pão. Deitou no sofá, pegou um cobertor e ligou a aparelho de televisão da marca telefunken. Passou pelos três únicos canais que eram sintonizados em Rio Grande: as emissoras Piratini, Gaúcha e Record. Como passava das oito da noite, o catarinense deixou o aparelho sintonizado na TV Piratini, afiliada da antiga Rede Tupi de Televisão. Uma novela chamada “O Sheik de Ipanema”, de Sérgio Jockman e direção de Luís Calmon, chamou-lhe a atenção. O folhetim televisivo tinha o ator Luiz Gustavo no papel de um trambiqueiro que passava por sheik na cidade do Rio de Janeiro. A novela que ia ao ar de segunda a sábado, a partir das oito e meia da noite, naquela sexta-feira estava no final. Depois dela começou uma sessão de filme. Ele se ajeitou no sofá para assistir, mas não viu até o fim. Dormiu com a televisão ligada.

*    *    *

            Quando o pescador André disse que na Ilha da Pólvora havia um Quartel do Exército ele quase acertou. O local tinha armas, munição e era guardada por soldados, porém ficava muito longe de ser um alojamento militar. Na época, a ilha abrigava um antigo prédio que fora construído em estilo neocolonial, em 1854, e que servia de paiol do exército. Foi a partir desse ano, que a ilha passou a ser conhecida como Ilha da Pólvora. O depósito não durou muito tempo. O motivo do fechamento do paiol pode ser encontrado nos versos do cantor nativista, Mano Lima: “De que me adianta eu socar pólvora nos cartuchos, se a umidade me molha a espoleta?" Sendo uma ilha e com um grande volume pluviométrico anual, principalmente no verão, a umidade do lugar sempre foi um problema para a munição.

            A lha da Pólvora é uma das dezenas de ilhas situadas na Lagoa dos Patos. Ela está localizada entre o Canal do Rio Grande, que liga a lagoa ao Oceano Atlântico. O diferencial para as outras ilhas é que os seus cerca de 300 mil metros quadrados de área ficam, de vez em quando, inundados. A vegetação reúne mais de 50 espécies nativas, todas aptas a suportar longos períodos de alagamento, tanto de água salgada, quanto de água doce. O ponto mais alto da ilha encontra-se a 70 centímetros do nível da Lagoa dos Patos. É nesse ponto que se encontra o edifício do paiol. A ilha era visitada por muitas pessoas e o mesmo fizeram Franco, André e Zé Pedro na manhã daquele sábado gélido.

            Um corcel azul parou e buzinou na frente da casa de Franco às oito horas da manhã. O sol, embora tímido, não foi o suficiente para esquentar as pessoas em que nele procuravam abrigo. A temperatura estava perto de zero grau. O frio considerado normal para época do ano em Rio Grande não surpreendeu os moradores do lugar, mas deixou Franco e André assustados, principalmente, esse último que estava apenas de passagem pela cidade. “Faz frio sim, mas não desse jeito”, respondeu André para Zé Pedro, que perguntou se em Porto Belo não fazia frio. André mesmo bem agasalhado tiritava. O carro partiu em direção à marina, onde uma canoa a motor levaria o trio à Ilha da Pólvora. Por ruas de areia, empoeiradas e cercadas por casas de madeira, Franco observou pela janela do veículo um Rio Grande do Sul diferente daquele que parecia na televisão durante a metade da década de 1970 e que o Governo Militar gostava de mostrar. O Rio Grande industrializado e em fase de desenvolvimento, com um padrão de vida melhor até existia, mas pertencia à metade Norte do Estado. Já a metade Sul poderia ser comparada, sem exagero algum, com o sertão do Nordeste.

            Nas ruas encontrou pessoas que se protegiam do frio enroladas em trapos. Uma cena o marcou e mesmo depois de mais de 30 anos, não conseguia lembrar sem chorar. Pela janela do carro viu uma mulher idosa e toda esfarrapada saindo de uma venda. Cabisbaixa, segurava uma caderneta com as duas mãos, sem se preocupar o vento. Ela provavelmente caminhava em direção de casa. Franco deduziu que o dono da venda havia negado o fiado e a aparência dela comprovava isso. Tentou ver o seu rosto, mas o vento agitava tanto seus longos cabelos brancos, que era difícil fazer um reconhecimento.  Pensou no destino da mulher e no que iria comer naquele dia. Quase pediu para parar, mas o carro passou rápido e quando olhou para trás ela já havia entrado em uma outra rua e desaparecido. “Por quê não ajudei aquela pobre mulher?”. Durante todo aquele sábado fez essa pergunta a si mesmo. E a noite quando escreveu uma carta para a família pensou de novo. 

            Enquanto o corcel seguia o caminho Franco não prestou atenção nos seus colegas, que conversavam sobre futebol. O carro passou em frente da Catedral de São Pedro. Franco pensou na história da cidade de Rio Grande. Um dia quando visitava um museu descobriu que a cidade fora descoberta em 1531 por Martin Afonso de Souza, aquele mesmo das Capitanias Hereditárias que estudamos nos livros de história, o fundador de São Vicente, a primeira vila brasileira.

            Além de fundar Rio Grande, Souza fora enviado ao Sul para expulsar piratas franceses da Costa Brasileira. O povoado que se chamava Rio de São Pedro permaneceu por quase 150 anos esquecido por Portugal. Com a fundação da Colônia do Sacramento, hoje o Uruguai, na margem esquerda do estuário do rio da Prata, bem em frente a Buenos Aires, o povoado ajudou a consolidar a posse da terra. Foi nesse tempo que aconteceu a primeira atividade comercial, com a criação de estabelecimentos de criação de gado.

            No dia 19 de fevereiro de 1737 o Brigadeiro José da Silva Paes, com homens de mar e de guerra, desembarcou na margem Sul do Rio Grande de São Pedro para estabelecer as fortificações na região. Com o estabelecimento militar deu o início oficial da colonização.  Daí em diante o Povoado de Rio de São Pedro mudou para Vila do Rio Grande de São Pedro.

            Com o crescimento da Vila, a partir de 1760, o Rio Grande, que até então recebia ordens da Capitania de Santa Catarina, passou a ser a capital da nova Organização Administrativa, a Capitania do Rio Grande de São Pedro, que mais tarde se transformaria em Província do Rio Grande do Sul e, com a revolução dos republicanos, Estado de mesmo nome. Rio Grande de São Pedro deixou de ser vila em 1835, quando ganhou o status de cidade de Rio Grande. O auge da sua história  aconteceu quando Rio Grande retornou à condição de Capital da Província, devido à transferência da sede do Governo Imperial de Porto Alegre.

            Antes de chegar à marina o carro entrou em uma rua. Nela existiam empresas de pesca. Franco sabia quem salvava Rio Grande era a pesca. O setor começou a se desenvolver na década de 1950. Junto com Santos e Rio de Janeiro o município foi considerado um dos portos pesqueiros mais importantes do Brasil. Essas três cidades acolheram centenas de descentes dos pescadores da Ericeira e por uma forma ou de outra contribuíram com o desenvolvimento da pesca. Franco e André eram dois bons exemplos desse resultado. 

            A pesca hoje ainda é muito forte e contribui com a economia da cidade. Fica à frente da construção naval e só perde espaço para o terminal portuário. As indústrias pesqueiras processam aproximadamente 70.000 toneladas de pescados por ano. O peixe é vendido congelado, salgado, vira farinha ou óleo. O setor emprega cerca de duas mil pessoas diretamente e umas cinco mil nas atividades de pesca artesanal. Uma das curiosidades do setor no Rio Grande do Sul é que metade da produção pesqueira de Santa Catarina é descarregada em Rio Grande. Com barcos modernos e trabalhadores bem preparados, os catarinenses aproveitam mais o litoral gaúcho do que os próprios donos. O interesse das empresas pesqueiras de Santa Catarina no litoral do Estado vizinho não é à toa. O mar rio-grandino possui uma grande diversidade de pescados como o camarão, corvina, pescada, agulha, pescadinha real, castanha, tainha, linguado, cação, peixe anjo, côngrio rosa, rosado, savelha, miragaia, anchova, merluza e o atum, esses últimos três de grande valor comercial.

            Depois de meia hora de viagem o carro estacionou em frente à marina. A canoa emprestada tinha três metros de comprimento e um motor com uma boa potência. Equipamento de pesca, comida para um dia e um rádio foram os objetos levados para a ilha. Pelas águas escuras e turbulentas da Lagoa dos Patos, Franco olhava admirado à beleza natural do lugar. As ilhas e ilhotas que encontrou pelo caminho eram formadas por uma vegetação parecida com capim. Viam-se poucas árvores, porém uma quantidade grande de pássaros, gaivotas na sua maioria. Um bando delas levantou vôo assim que a canoa passou perto de uma ilhota. Os primeiros raios de sol na superfície da água salobra da lagoa levantaram uma densa neblina. Nesses pontos a visão diminuía e para o desespero de André o frio aumentava. A canoa atracou num cais improvisado. Por entre tábuas podres por causa da umidade, o grupo tocou o solo firme. Aquela parte da Ilha da Pólvora era a mais seca e arborizada. Porém, havia pequenos lagos associados, as “piscinas de maré”, como essas formações são conhecidas, e que sempre pegam um visitante desatento. Eles se posicionaram perto de uma das ruínas do antigo paiol, perto da lagoa.  Molinetes e varas nas mãos, a pescaria começou. O rádio portátil foi ligado em uma estação local. Na hora tocava uma música de Clara Nunes chamada “Conto de Areia”. A música tocou até o fim, depois vieram mais três e na metade da quinta canção, o grupo resolveu conversar e o tema na moda era falar mal do Governo Militar.

            – Parece que querem acabar o AI-5 – comentou André.

            – Tá na hora desses milicos deixarem a gente em paz – acrescentou Zé Pedro com raiva.

            Ele colocou isca no anzol e em seguida jogou a linha em direção da lagoa. Franco mudou de assunto.

            – Você disse que vai hoje para Porto Belo?

            – Eu pego o ônibus amanhã à tarde. Você quer alguma coisa de lá?

            – Só quero que leve uma carta para minha família.

            – Começa escrever que eu levo. Olha só, eu acho que peguei alguma coisa.

            A pescaria na Ilha da Pólvora durou até o fim da tarde. O dia não foi muito bom para pesca, mas mesmo assim ninguém reclamou do passeio. Na noite de sábado, em casa, Franco começou a escrever a carta. Nela, dizia para a família que havia resolvido retornar para Bombinhas. Não aguentava mais morar numa cidade onde a população passava fome, só não morria dela por que a pesca ajudava. Na mesa da cozinha, ele às vezes parava para observar o vento Sul que balançava a janela. Na rua, o Minuano assoviava alto.
 
*    *    *

            Assim que terminamos de almoçar conheci a família de Valéria. O restaurante fica quase na frente da casa dela. Encontramos dona Alcione sozinha. Dos filhos, apenas Amarildo permanecia solteiro. A mãe de Valéria nos recebeu, não como dois estranhos e sim como parentes afastados. Era uma mulher idosa, franzina, com seus 76 anos de idade. O que me surpreendeu foi a sua simpatia e atenção com as visitas. Ela contou que Arildo estava “para fora” e Verônica trabalhava em Bombinhas. Já Amarildo pescava na Praia da Sepultura. Conversamos um pouco sobre Valéria, o que fez a pobre mãe chorar. Mesmo passados mais de 20 anos, a saudade que Alcione sente da filha ainda é grande. Assim que nos despedimos, fomos sem demora para a Praia da Sepultura. No caminho Paulo Aguiar apontou para a casa de Franco, que hoje está com 57 anos. A esposa, uma senhora gorda e morena, se encontrava na frente do portão. Ela apenas disse: “O Franco tá pra fora”. O pescador tinha filhos e netos, quase todos ligados à pesca. A decisão de voltar para Bombinhas veio depois daquele passeio pela Ilha da Pólvora, precisamente com a imagem da senhora que saiu do armazém com as mãos vazias. Um detalhe muito importante que o meu xará esqueceu de contar, é que a tal mulher era muito parecida com a mãe dele. Depois de dez minutos de caminhada, chegamos à praia da Sepultura e nem sinal de Amarildo. Paulo Aguiar alegou cansaço e pediu para descansar um pouco na areia. Resolvi então aproveitar a oportunidade para ouvir mais pouco da narrativa.