domingo, 5 de fevereiro de 2017

Capítulo 9 - O Circo das Crianças

                                                                                                                                                       The Crcus 1964/Marc Chagall

No meio da noite, uma menina corre apressada pela casa de corredores escuros. Por entre portas fechadas, ela grita por ajuda. Seu pedido não é suficiente para acordar ou sensibilizar seus moradores. No caminho, com medo e cansada de gritar, a menina para no corredor e começa chorar. A luz de um dos quartos é acesa. Um homem de bermudas e sem camisa sai dele correndo. Aos socos bate na porta ao lado.

      Acordem! – berrava.

            Dois garotos abrem a porta assustados. A menina que aparenta ter menos de seis anos não chora mais e apenas observa o diálogo daquelas três pessoas.

      João e Cipriano, vão logo na casa do doutor Morgado e peça que venha rápido.

      A mãe vai ganhar o bebê?

      Sim, mas se vistam e corram.

      – E a mãe? – perguntou um dos meninos.  

      – Ela vai ficar bem se vocês andarem depressa. Corram! – gritou o pai no auge da raiva.

                Os dois garotos disparam em direção à rua. No lado de fora, a escuridão não era completa por causa do luar. Um faixo de luz cintilava o mar e iluminava o caminho de terra que os adolescentes teriam que percorrer até chegar à casa do médico. Com o grito do homem, o restante da casa despertou. Duas portas se abriram quase ao mesmo tempo. Em uma delas saíram duas meninas e da outra um casal.

            O que aconteceu? – perguntou uma mulher.

Ela tinha estatura mediana e estava bem acima do peso. Seus longos cabelos pretos contrastavam com pele alva. Ao seu lado, um homem de pijamas olhava a cena sem entender nada.

      A Juvelina está para ganhar o nenê – disse Manoel, o marido da mulher que estava preste a ter um filho. 

      E precisa fazer esse barulho todo por isso? – resmungou o homem que se encontrava ao lado da mulher.

      – O doutor disse que ela está doente, por isso mandei os meninos chamá-lo. A gravidez dela é diferente – respondeu Manoel cabisbaixo.

      – Eu sinto muito, acredite. – disse o homem sem jeito.

      Ainda abatido, Manoel seguiu para o quarto. No corredor, foi agarrado pelos filhos. O casal que observava a cena não tinha nenhum grau de parentesco com a família e estava na casa apenas como inquilinos.

      A mãe vai morrer? – indagou uma das meninas.

            Ela se aproximou dele, o abraçou pela cintura e começou a chorar. A atitude fez que as outras crianças e até a que se encontrava no corredor ir na direção de Manoel. Este tentava consolar os filhos sem poder fazer nada. Perto dali, a esposa agonizava na cama, alheia a tudo que passava ao redor. Manoel se libertou das garras dos filhos e continuou o seu caminho ao quarto. A mulher baixinha recolheu as crianças e as levou para cozinha.

            Após abrir a porta e ascender à lamparina, o quarto simples ficou a mostra. De móveis havia apenas um guarda-roupa velho e uma cama de casal. Redes e equipamentos para pesca, nos quais Manoel trabalhava nos dias de chuva, estavam escondidos na penumbra. Na cama, a mulher de tez pálida, com os cabelos presos da forma de coque, tentava se levantar. Manoel correu ao leito e tranquilizou a esposa.

      Não se agite tanto Juvelina, pode machucar o bebê. Os meninos já foram chamar o doutor. Então fique quieta.

      O doutor?

            A pergunta sobre o médico significava para Juvelina que algo não corria bem. Naquela época, tanto em Porto Belo, como em outras cidades pequenas, esse trabalho ficava com uma parteira e não com o médico. 

      Sim, ele já deve chegar logo. Tente descansar, pelo amor de Deus!

            Para uma mulher que começava a entrar em estado de parto, o pedido não fazia sentido algum. Manoel andava pelo quarto, como fosse curar a mulher. Quando caminhava, pensava numa maneira de aliviar o sofrimento da esposa, porém não encontrou maneira mais eficaz do que seus passos pesados no soalho de madeira. Do leito de Juvelina, ouvia-se apenas um sussurro. Da casa algumas vozes abafadas pelas paredes eram ouvidas por Manoel. De vez em quando essas vozes chegavam ao quarto.

            Entre doutor Morgado, disse um dos garotos vendo o médico parado em frente à soleira da porta.

            Por aqui, continuou o menino.

            Assim que conseguiu ouvir essas últimas palavras, Manoel se virou e olhou para porta do quarto. Até aquele momento não acreditava que o médico havia chegado. A resposta da sua dúvida encerrou, assim que porta abriu e um homem com uma longa barba negra, vestido com uma sobrecasaca azul e calças de linho da mesma cor entrou no quarto. Manoel correu a ele, como um náufrago corre para uma boia salva-vida.

            Que bom que senhor chegou doutor Morgado, eu não...

            Não precisa dizer nada, a sua esposa vai ter o nenê.

O senhor pode fazer alguma coisa?

            Saia do quarto e me deixe sozinho com ela.

            Manoel não relutou e ele não poderia fazer nada para ajudar. Na Porto Belo de 1939, a maneira do doutor Morgado atender seus pacientes era conhecida pela população da cidade. Seus métodos incluíam desde medicina tradicional, até sessões de curandeirismos. Houve quem duvidasse da profissão do médico, todavia ninguém provou coisa alguma. Fora os comentários, Morgado não tinha horário para fazer o atendimento aos moradores e às vezes não ganhava nada por isso.  Quando entrou na casa de Manoel, o médico sabia o serviço seria voluntário.

            Boa noite dona Juvelina – cumprimentou. 

O médico fechou a porta e sem aguardar a resposta da saudação prosseguiu.

            Esperava encontrar a senhora antes. A sua gravidez me surpreendeu e foi bem longe.  Isso é bom e mal ao mesmo tempo. Não vamos falar em coisas ruins e vamos para o lado bom da coisa. Preciso tirar seu filho e a senhora vai ter que me ajudar.

            Enquanto conversava com uma pessoa que não tinha naquele momento condições de responder, Morgado preparava seu material de trabalho. Gostava de trabalhar sem assistentes e ninguém sabia por que. Talvez daí surgiu às histórias de feitiçaria e curandeirismos que rodeavam o médico de Porto Belo. Seja como for, ele foi proibido pelo padre de entrar na igreja e nem precisava, Morgado não era de ir a missa mesmo. Juvelina delirava por causa da febre e a esse sinal o médico pressentiu que as coisas não iriam correr muito bem naquela noite. Assim que aplicou uma injeção na mulher, ela começou despertar. Juvelina se encontrava em estado de transe, não sabia onde estava e provavelmente não se lembrava do médico. Por isso, o motivo da pergunta.

            Quem é o senhor?

            Sou o doutor Morgado.

            Ao ouvir o sobrenome do médico a mulher tentou se levantar.  Se não tivesse tão debilitada, talvez até conseguisse. Morgado chegou perto dela e aplicou mais uma injeção.

            Isso vai fazer à senhora se ficar mais calma. Não fique nervosa, estou aqui para ajudar. Foi o seu marido que me chamou. Eu sei que não gosta de mim e da minha medicina, mas não a culpo por isso. O padre também não gosta e agora sei por que ele não deixa eu ir a missa de domingo. A senhora sabe por quê?  É para falar de mim pelas costas. Não me incomodo com isso, pois mesmo com os comentários nada santo do padre as pessoas me procuram. Um dia vou arrumar uma mulher e ter um bando de filhos, talvez assim às pessoas dessa cidade me olhem como uma pessoa normal. Não precisa olhar também com esses olhos arregalados e vamos ajudar o seu filho nascer, pois ele é o motivo da senhora estar doente. A senhora não quer ficar curada?

            Juvelina conhecia a fama do doutor Morgado e caso a situação não fosse tão grave, teria colocado o médico a força para fora de casa. Morgado preparou tudo e deixou a mulher em posição de parto. Ela ficou com as duas pernas afastadas por um equipamento inventado pelo médico. Outro fazia que os lençóis ficassem suspensos no ar. Com tudo pronto, o parto começou. Durante quase uma hora a mulher tentou expelir a criança, contudo sem conseguir. Sem forças, Juvelina não conseguia nem gritar. Na casa apenas se ouvia os gemidos abafados pelas paredes. Depois muito esforço, Juvelina deu a luz um menino. Ninguém ouviu o vagido e isso significava que algo não havia saído bem. Morgado, já exausto, olhou para mãe. Ela se encontrava com aqueles mesmos olhos de censura de antes.

            Passaram cinco minutos. Morgado enrolou a criança num pano branco e a colocou em cima de uma cadeira. Manoel entrou no quarto e topou com o médico perto da janela, que se encontrava aberta. Tentava recuperar as forças com o ar frio da madrugada. Ele olhou para Manoel e seus grandes olhos castanhos anunciaram a tragédia. O choro do marido abraçado ao corpo da Juvelina espalhou por toda a casa. A mesma menina que apareceu no corredor surgiu na soleira da porta. Ela  olhou para cama e viu Manoel ao lado do corpo da esposa. Na cadeira, um braço pequeno e alvo caiu do pano e ficou suspenso no ar. A primeira reação da menina foi cobrir os olhos com as mãos e gritar.


*    *    *

            Foi nessa posição que Maria acordou. As mãos que ainda permaneciam trêmulas sobre os olhos úmidos não eram tão pequenas. Ela ficou assim por mais de um minuto, sem coragem de olhar o que havia ao seu redor. Os gritos acordaram mais três garotas que dormiam no mesmo quarto. Uma ruiva de cabelos crespos e aparentando ter 18 anos se aproximou de Maria. Ainda sonolenta, ela tentou se localizar e entender o que acontecia.

            Você vai ficar muito tempo com as mãos na cara?

            A pergunta não provocou efeito algum em Maria, que continuava na mesma posição. As outras duas meninas menores que a ruiva também acompanharam a cena assustadas.

            Vamos Mariazinha, pare com isso – suplicou a ruiva.

            Onde estou?

            Ora, você sabe muito bem.

            Ainda estou no circo?

            – Claro que você está no circo.

            – Por um momento pensei que havia viajado no tempo.

            Maria tirou as mãos brancas com pequenas veias azuis salientes dos olhos e se levantou. Sentada na cama, ela fez questão de olhar mais uma vez o quarto improvisado do circo. Queria garantir a si mesma que não continuava a sonhar.

      Você teve mais um pesadelo Mariazinha? – perguntou uma das meninas.

      Sim, eu tive um sonho muito ruim.

      – Mariazinha, você vai contar o teu sonho pra gente, não é? Com essa é a quinta vez que acorda todo mundo com os teus gritos. – pediu a ruiva.

            Vai ter que contar tudo, tudo mesmo – reforçou uma outra menina.

            Eu queria é não dormir mais. Assim eu me livraria desses sonhos ruins. Vou contar – disse Maria decidida.
     

*    *    *

      A cena que a garota viu no sonho foi real, aconteceu de fato. Por dez anos, a lembrança da morte da mãe a perseguiu, principalmente nos seus sonhos.  Aquela madrugada do outono 1939 e o dia que a dona do circo esteve na sua casa eram as duas únicas lembranças da sua infância. Até seus cinco anos, Maria sempre viveu em Porto Belo, na localidade chamada Araçá. As casas, todas de madeira, se encontravam na encosta de um morro. De lá, os moradores tinham uma visão privilegiada da Enseada das Garoupas. Manoel e os outros pescadores do Araçá tinham suas origens na Ericeira e o lugar mantinha uma pequena lembrança da terra natal de seus antepassados. Embora Porto Belo e a freguesia portuguesa estejam localizadas em lugares diferentes, o Araçá foi local que chegou mais próximo da Ericeira.

      Mesmo sem saber, Manoel mantinha a tradição pesqueira de seus antepassados ericeirenses. O pequeno barco batizado de Galés trazia uma variedade de peixes para casa. Uma parte era consumida pela família, enquanto outra era trocada por outros alimentos, como açúcar, trigo e carne seca. A quantidade de peixes indicava como a família iria passar o mês. Não se trabalhava para ter conforto, mas sim para não morrer de fome. Na Porto Belo do final da década de 1930 essa era realidade de muitas famílias de pescadores.  Isolados por morros e sem estradas, a cidade ficou abandonada até o começo de 1970. Desde que os primeiros imigrantes da Ericeira chegaram, seus moradores tiveram que lutar contra a fome e as doenças, muitas delas fatais. Entre essas doenças estavam as que matavam as gestantes. Juvelina fez parte dessa triste estatística. Sendo a caçula da família, Maria teve uma ligação muito grande com a mãe. Sempre estava com ela, vivia agarrada à saia. A saudade que Maria sentia foi tanta que chegou a adoecer. Todos, inclusive o pai, concordavam que a menina não iria sobreviver muito tempo sem a mãe.

      A notícia de que um circo havia entrado, em Porto Belo, foi o assunto daquele cinzento 28 de novembro de 1939. A lona havia sido levantada durante a noite anterior e no final do dia tudo estava pronto. Comparado com outros, o Circo Petrov era muito modesto e ao todo dez pessoas trabalhavam nele. Macacos, cavalos, um urso ainda filhote e um leão velho que não tinha mais dentes estavam entre as atrações, que tinham também por tradição palhaços, trapezistas e malabaristas. O que chamou atenção dos moradores não foram animais ou os números apresentados e sim os artistas. Dos dez funcionários, sete mal haviam saído da adolescência.

      O circo foi fundado pela família Petrov, em 1893, no Estado de Minas Gerais. Naquele e nos anos seguintes até o nascimento do novo século, o Circo Petrov conheceu seu período mais brilhante. Além de levar uma multidão para suas apresentações, no seu elenco se encontravam 50 artistas diferentes. Criado por uma família de ciganos búlgaros, o circo tinha como dono, em 1939, uma mulher conhecida como Mirolasva. Quando chegou a Porto Belo, o Petrov não encontrou apenas uma cidade perdida no Sul do Brasil. A pequena Maria, então com cinco anos, foi um achado para a dona do circo. O encontro de Mirolasva e a menina de Porto Belo aconteceu durante uma apresentação. Manoel havia vendido peixes para o circo e em troca ganhou ingressos para a família inteira. Ao ver o espetáculo circense, Maria se encantou e por muitos dias a imagem dos trapezistas não saiu da cabeça. Perto dela, Mirolasva observava aquela menina frágil e de cabelos castanhos claros. O sorriso da menina foi que mais chamou atenção. Não era um riso de uma menina normal, havia muita tristeza nele. Era sorriso de uma pessoa que ficou muito tempo a chorar. A dona do circo sabia disso, pois durante a sua vida havia passado o mesmo.

      A família de Manoel voltou para casa e Mirolasva ficou com Maria no pensamento. Durante a noite e a madrugada imaginou uma maneira de trazê-la para o circo. O primeiro passo seria conversar com o pai e foi o que fez dois dias depois. Pelo cozinheiro, que também exercia a profissão de domador, Mirolasva descobriu o endereço da família. O mesmo contou a história de Maria e de sua mãe. Acompanhada do trapezista, a mulher chegou na casa de Manoel perto do meio dia. Os dois cavalos haviam ficado no começo da rua cheia de pedras e barro. Assim que caminhavam pelo Araçá, os dois artistas chamaram a atenção dos moradores, que corriam até a janela para ver os forasteiros. Se a visita de gente de fora já chamava atenção, imagine se essa “gente de fora” fosse de um circo. As roupas que vestiam, parecidas com os que usam os ciganos, eram coloridas. Para completar o figurino, Mirolasva tinha sobre a cabeça um turbante. Uma menina bem maior que Maria atendeu a dona do circo.

            Bom dia minha querida!

      Surpreendida por aquelas duas figuras estranhas, a primeira reação da garota foi o susto. Sem esperar ser convidada, Mirolasva entrou no quintal e foi direto ao assunto.

            Seu pai está em casa?

            Não, ele tá na praia com meus irmãos – respondeu sem tirar os olhos do pano que enrolava a cabeça da mulher.

            – Pode fechar a boca. É um turbante menina. Ajuda a aliviar o sol na cabeça. E quando voltam seu pai e seus irmãos?

             Daqui a pouco eles chegam. Eles vão ter que vir para almoçar.

      A garota que fazia as suas atividades domésticas não convidou os visitantes para entrar em casa e ela nem poderia. A ordem do pai era clara: “Não dê muita confiança para os estranhos”. Mirolasva, mesmo indiretamente, ainda tentou ser convidada, todavia a menina não entendeu ou fez questão de não entender. Perguntou ainda sobre a irmã caçula e descobriu que ela brincava no seu quarto. Depois de uma hora de espera, Manoel chegou em casa na companhia de dois meninos. Carregavam remos, redes e uma caixa de peixes pela metade. Mirolasva se apresentou e por ser dona do circo conseguiu ser convidada até para o almoço. Depois da refeição e de ter dito como era o dia a dia no circo, Manoel e Mirolasva foram para a sala conversar sobre Maria.

            O senhor pergunta qual é o motivo da minha visita? Quero conversar a respeito da sua filha.

            A Luciana. Ela foi mal educada com senhora?

              Não, não foi a menina que me atendeu.

            Então é a Emília, a do meio.

            Me refiro a mais novinha, a menina que estava com o senhor no circo.

            Ela se chama Maria. O que a senhora quer da minha filha?

            Eu quero adotá-la – respondeu secamente Mirolasva.

            A senhora pensa que vou dar a minha filha assim de graça para uma desconhecida – gritou Manoel.

            Não estou dizendo que o senhor vai dar ou não. Eu expressei apenas a minha vontade. Se senhor vai aceitar é outra história. 

            Por minha vontade Maria não sai dessa casa, mas como ela vive a chorar e sente muita saudade da mãe que morreu, talvez a senhora tenha alguma chance, isso se ela aceitar.

            Isso mesmo que eu queria ouvir do senhor.

      Mirolasva se ajeitou na cadeira de palha que foi posicionada próxima à janela. A mesma cadeira que disputava espaço na sala, com equipamentos de trabalho do pescador. O cheiro de peixe tomava conta do lugar e sem o uso de produtos de limpeza na época, todas as casas do Araçá tinha esse odor tão característico. A dona do circo apresentou as vantagens para educação da menina. Mirolasva disse, também, que considerava os artistas como seus filhos adotivos e que Maria teria uma família no circo. Como era uma pessoa que sabia conversar, Mirolasva conseguiu convencer o pai a chamar a menina e perguntar sobre a possibilidade de ir morar no circo. Manoel contou que Maria não parava de falar do palhaço, dos trapezistas e dos macacos equilibristas. Contou que a vinda do circo havia ajudado a diminuir a tristeza da filha.

            E quando o circo for embora? – questionou Mirolasva.

      Manoel ficou calado e esperou que a filha respondesse a pergunta. A menina entrou acompanhada pela irmã mais velha. Vestia uma espécie de vestido curto e bordado nas mangas. A mesma roupa usada quando foi ao circo. Maria sentou numa cadeira colocada perto do pai. A menina olhou com seus grandes e assustados olhos verdes para a visita inesperada.

            Luciana você pode ir agora – pediu o pai.

      A garota saiu, mas ficou próxima a porta da sala. A dona do circo se aproximou da menina, que ao notar o movimento olhou para o pai como quisesse dizer: “ela pode fazer isso?”. Mirolasva entendeu aquele olhar e resolveu quebrar o silêncio. Manoel esperava a resposta, mas o que ouviu foi mais uma pergunta.

            Você sabe quem sou eu?

            A mulher do circo - disse a Maria.

            Sim, eu sou a dona do circo que a senhorita foi ontem. Meu nome é Mirolasva e o seu?

      Maria olhou atentamente a mulher e não entendeu o nome que era pouco comum numa vila de pescadores com descendência portuguesa.

            Milos...

            Mirolasva. É estranho. Meus pais vieram de um pais distante chamado Bulgária. Você ainda não disse o seu nome.

            – Maria, Meu nome é Maria. Meu nome é Maria, Maria, Maria...


*    *    *

            – Maria! Maria! - gritou a garota ruiva.

            Não precisa gritar. Não sou surda.

            – Não é o que parece Mariazinha. Às vezes você não está nesse mundo. Em que você pensa tanto? – questionou Francisca.

      Das três meninas que dividiam o mesmo quarto, Francisca era a mais velha, tinha 17 anos. Morena, a garota descendia de uma tribo indígena do norte Mato Grosso. Mirolasva encontrou ela há dez anos, pedindo esmolas, no interior do Estado de São Paulo. A colega, Júlia, três anos mais nova, era também morena e foi adotada quando tinha oito anos em Minas Gerais. Já a ruiva Margarida, com seus 15 anos, foi abandonada na porta do circo assim que nasceu. 

            Eu estava tentando me lembrar daquele dia, mas não consigo.

            E do seu papai, você se lembra? – perguntou Margarida.

            Não, eu não me lembro do rosto dele e nem dos meus irmãos. Nos sonhos que tenho o único rosto que consigo me lembrar é da minha mãe verdadeira.

            Então a mãezinha foi até na sua casa e pediu que dessem você para ela.

            Eu chorava muito por causa da minha mãe e por isso foi melhor eu sair de casa por uns tempos.

            Embora elas tivessem que acordar cedo, continuaram a conversar. O circo fazia naquele 12 de novembro de 1949 a sua última apresentação na cidade de Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. De lá a trupe retornaria para Santa Catarina, primeiro o interior e depois o litoral. O itinerário do Petrov naquela época limitava-se aos Estados de São Paulo, Paraná e por fim Santa Catarina. Bem diferente do auge, quando a circo percorreu toda a América Latina.  Com a morte dos pais, Mirolasva não conseguiu administrar o circo e as dívidas só aumentaram. Sem pagamento, muitos artistas foram embora. Os que ficaram sabiam que não iriam receber, entretanto resolveram não abandonar o circo. Em cada cidade que o Petrov passava, Mirolasva notava a quantidade de crianças abandonadas ou criadas sem nenhum cuidado. Chegou até quem deixasse crianças recém-nascidas na sua porta. Uma dessas crianças foi a equilibrista e palhaça Margarida. Depois dela vieram mais crianças e adolescentes.

      Além das quatro garotas, havia três rapazes, que tinham entre 12 e 16 anos. Antes deles, outros garotos e garotas já haviam fugidos do circo antes completar a maioridade, não por maus tratos, mas sim por causa da idade e da falta de dinheiro. Desde que assumiu a direção do Petrov ninguém recebia pagamento no fim do mês, nem mesmo a dona do circo. Eles trabalhavam para não passar fome e para manter viva uma tradição. O Petrov era conhecido como “O Circo das Crianças”. Mirolasva pode ter explorado o trabalho infantil, mas ajudou a salvar muitas crianças da fome e de outros sofrimentos que estavam mergulhadas. A mãezinha, como era conhecida, sabia que não tinha feito mal algum para seus filhos adotivos. No fundo, o Circo Petrov foi uma grande família, mas como toda família que não deixa descendentes, um dia ele teve seu fim.

      Existem dois grandes momentos para um circo, a primeira e a última apresentação numa cidade. A reação do público nos primeiros dias é o fator decisivo para permanência dele na cidade. No caso de Francisco Beltrão, foram três semanas. Naquele domingo, seria o último na cidade paranaense. No dia seguinte, todos estariam na estrada a caminho de Santa Catarina. Maria era trapezista, malabarista e às vezes ajudava nas apresentações de mágica. No Petrov, todos ajudavam de alguma forma. Os artistas tinham mais que uma função, seja nas atrações apresentadas, seja nas atividades domésticas. As viagens duravam até cinco dias. Quando chegava à cidade, a primeira coisa a fazer era montar as lonas, serviço que ocupava a todos. Normalmente o trabalho para deixar tudo pronto levava um dia inteiro, do amanhecer até a noite. Assim que se instalava na cidade se fazia a divulgação. Integrantes do circo uniformizados e animais como o chimpanzé percorriam as principais ruas da cidade. O anúncio era feito com a ajuda de um megafone.

      Naquele domingo, a arena principal permaneceu lotada nos três horários disponíveis. Há muitos anos, uma apresentação não tinha levado um público tão expressivo, até mesmo para Francisco Beltrão de 1949. Parecia que a cidade inteira esperou para ir ao circo no último dia. Ficou muita gente de fora e muitos reclamaram da falta de estrutura. E eles tinham razão, com o tempo o Petrov  deixou de atender bem ao “respeitável público”, por isso ficou para trás e foi o motivo da falência no início dos anos de 1960. O fim do Petrov coincidiu com a morte de Mirolasva, em 1963. Morreu nos braços dos seus filhos adotivos.

      O relógio marcava nove horas da noite quando deu início a última apresentação. Maria se encontrava nervosa. Não era todo o dia que se apresentava para um grande público. O primeiro número foi de malabarismo, a primeira arte circense que aprendeu. Começou com cinco bolas de tênis. Os objetos eram mantidos no ar e ela se contorcia para fazer em todas as posições. Para dificultar ainda mais a tarefa, outras três bolas foram incluídas. Claro, tudo com um rufar de tambores e expectativa criada para ver se a artista conseguiria ou não a façanha. De repente,  as luzes se apagaram. A platéia foi iluminada por tochas. Agora sim a malabarista tinha algum motivo para se preocupar. Maria pegou três tochas e começou a jogar no ar. No alto um canhão de luz iluminou a garota. Na escuridão, as tochas faziam desenhos assustadores para a admiração do público. Maria saiu de cena emocionada. Nunca havia recebido tanto aplausos. Margarida, dois rapazes da mesma idade e o chimpanzé Congo notaram que seus olhos estavam umedecidos. O quarteto era a trupe de palhaços que divertia o público antes de começar uma nova  atração. Assim que os  palhaços terminaram, entrou o domador, que entre os animais ferozes, tinha o papel de dominar um leão desdentado e um urso ainda filhote.

      Maria se preparava nos bastidores quando ouviu seu nome ser chamado pelo megafone junto com mais dois garotos. Os três fechavam o último e um dos mais perigosos números do circo, o trapézio. Numa altura de um prédio de três andares, o trio voava por uma haste de madeira pendurada por cordas em forma de balanço. O canhão de luz se encontrava posicionado agora há a mais de dez metros de altura. Maria foi a primeira a saltar e a ser aparada por um dos jovens que se encontrava pendurado pelas pernas. Em seguida foi lançada ao ar e por muito pouco não caiu. O público mal tinha se refeito do primeiro susto e aconteceu o segundo. A cena foi repetida mais uma vez. Rufaram os tambores, Maria saltou da plataforma e no ar deu um salto mortal. O jovem que saltou de cabeça para baixo tentou pegar a garota e  até conseguiu, todavia como estava em alta velocidade ele não suportou o peso. Maria caiu para o assombro de mais 300 pessoas que estavam no circo. Na platéia surgiu rumores da morte da trapezista. Quando o canhão de luz se aproximou do picadeiro, encontrou a menina de cara no chão. Os trapezistas logo desceram e correram para socorrer a colega. Para surpresa de todos, Maria se levantou. Não havia nenhum ferimento. Foi nesse momento que o público descobriu que tudo não havia passado de um truque. Os aplausos foram tímidos, já que grande parte da platéia se refazia do susto. O número foi ensaiado e feito pela primeira vez naquela noite. Como a reação do público foi negativa, Mirolasva resolveu por fim ao número. A rede que amorteceu a queda de Maria já era vista em Chapecó, primeira cidade catarinense a receber o Circo Petrov no mês de janeiro de 1950.


*    *    *

      Ainda em 1950, o circo se apresentou em Itajaí. Maria foi abordada na rua da cidade por um homem. A garota que estava prestes a completar 16 anos, encontrou no meio da rua um dos seus irmãos, que a reconheceu logo de imediato. Naquele mesmo ano Maria retornou para casa – completou a narração Paulo Aguiar.

      Ela não mais teve notícia do circo? – perguntei.

      No começo as suas irmãs, principalmente a ruiva Margarida ainda a visitava em Porto Belo. Depois a família se mudou para Itajaí e de lá já casada Maria foi para  São Francisco do Sul, onde mora até hoje.

      – Puxa! É uma história e tanto – comentou dona Carolina.

      O senhor conhecia a história da Maria seu Miguel?

      Miguel arregalou seus grandes olhos azuis, pensou um pouco antes de responder.

      Maria foi minha colega de escola. Eu não sabia que ela foi trabalhar num circo. Contaram que foi morar na casa de uma mulher rica em São Paulo.

      Ela me contou também essa versão. A próxima história o senhor conhece muito bem. É do seu tio Rogel – prosseguiu Paulo Aguiar.

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