domingo, 19 de fevereiro de 2017

Capítulo 11 – Viagem rumo ao Brasil


Se soubesse um dia que a Colônia Nova Ericeira iria abrigar pessoas tão ruins como Rogel, que se aproveitou da morte da mãe para ganhar dinheiro, Francisco Antônio Aguiar jamais teria aceitado a proposta de ir para o Brasil. Agora, se Francisco tivesse conhecimento das histórias de Arlindo, Valéria, Narciso, Franco e tantos outros descendentes ericeirenses, certamente se orgulharia. Entretanto, a vida dele e da família, na Ericeira, não era digna de satisfação.

Em 1818, a freguesia portuguesa, a exemplo de outras, incluindo a capital Lisboa, passava por uma crise econômica que assolava a Europa. Apesar de Napoleão ter sido derrotado e preso numa ilha na costa da África, parte do continente ainda se recuperava da guerra.  Portugal vivia uma situação diferente e mais grave, já que a sede coroa estava estabelecida no Brasil.

            Esquecidos por Dom João VI, os moradores da Ericeira sobrevivam como podiam. A vida deles só não era pior porque tiravam o sustento do mar. Grande parte do pescado tinha dois destinos: Lisboa e cidade do Porto. Com 25 anos e ainda solteiro, Francisco morava com o pai e mais três irmãos. O sobrado em que residia a sua família fora erguido na metade do século XVIII – três meses depois do grande terremoto que atingiu Lisboa, em 1755. 

A casa de vidraças lavadas, com paredes pintadas de branco, era uma das dezenas que ficavam no bairro Norte da Ericeira.  A que morava o pescador ficava no pé de um morro, próximo à capela de Santo Antônio.  O bairro Norte abrigava na sua maioria famílias de pescadores, bem diferente do bairro Sul, local do comércio e residência da burguesia da cidade.

                                                                                                                                                                  Pescadores da Ericeira

Por muitos anos perdurou uma rixa entre moradores dos dois bairros, que não podiam entrar no território do outro. Essa rivalidade foi suspensa durante a invasão das tropas de Napoleão e com o tempo perdeu força. No dia 11 de fevereiro de 1818, Francisco se encontrava na Praia dos Pescadores. Remendava redes sentado na proa do pequeno barco da família, quando Pedro Rodrigues, um colega de infância do pescador apareceu com a notícia que mudaria a sua vida.

            – Ó Francisco, hoje temos finalmente uma novidade.

            – Que novidades? – perguntou sem dar muita atenção à conversa do amigo.

            – Um oficial de Lisboa esteve a conversar com alguns pescadores na Praia de Sebastião. Ele disse que está a contratar mão-de-obra para trabalhar nas terras do Brasil?

            – O que tem no Brasil?

            – O Nosso el-rei quer montar uma colónia pesqueira no Sul do Brasil. Ele doará terras, ferramentas e provisões para quem desejar ir. Contratam famílias e solteiros.

            – O que disseram os outros pescadores?

            – Que vão levar suas famílias. Que futuro vamos ter aqui no meio a essa pobreza? Vamos deixar nossos filhos a morrer de fome? Não, estou a pensar em ir para o Brasil.

            – E se existisse um modo de ficar em Ericeira? – resmungou Francisco.

            – Não há outro! Não há outro! – exclamava Pedro eufórico.

            Antes de se despedir, o amigo de Francisco disse que o oficial convocara todos os pescadores do bairro Norte interessados em partir para o Brasil. O local da reunião ficou marcado para o dia seguinte, na frente da igreja de São Pedro. Haveria uma seleção para levar 100 pessoas, entre solteiros e casados. Além de pescadores, seriam escolhidos um sapateiro, dois barbeiros, dois alfaiates, um carpinteiro e um calafate.

Ter habilidade nas suas respectivas profissões e saúde. Esses eram os dois principais critérios para a seleção. Em outra situação, os moradores da Ericeira não teriam abandonado a cidade por hipótese alguma. No entanto, a fome e a própria presença de Dom João VI no Brasil incentivaram a imigração em massa. Aliado a isso, na época corria pelas ruas da Ericeira, bem como em todo Portugal, o boato de que o monarca português não teria a mínima vontade de voltar a Europa tão cedo.

            A ideia de fundar a primeira colônia pesqueira do Brasil, surgiu dois anos antes da sua criação. Em 1816, a Capitania de Santa Catarina emitiu um alerta ao governo português, da existência de um ponto vulnerável para invasão espanhola no Sul do país. Esse ponto chamava-se Enseada das Garoupas, uma Freguesia, considerada ponto estratégico para a defesa da capitania – naquele tempo praticamente desabitada.

Como o projeto não havia sensibilizado a Coroa Portuguesa, a Capitania sugeriu, já em 1817, a criação de um centro de pesca, como havia no litoral do Reino de Algarve, em Portugal. Nesse mesmo ano, Dom João VI aprovou a proposta e uma ordem foi dada para a demarcação das terras, que seriam doadas as famílias ericeirenses. Além disso, o material necessário para a formação do povoado deveria ser fornecido pelo então governador da capitania, João Vieira Tovar de Albuquerque.

                                                                                                                            Ericeirenses dominavam as técnicas pesqueiras
 
         Escolhido o local e demarcada as terras, o próximo passo foi escolher os novos moradores. Em Portugal, havia diversas comunidades pesqueiras, a do Algarve era a mais importante. Uma carta de Dom João VI enviada para Lisboa  no  final de 1817 pedia a escolha de cerca de 100 pessoas, de ambos os sexos, para a instalação de uma colônia pesqueira no Brasil. A embarcação Conde de Peniche faria o transporte dos pescadores. Tudo estava pronto para receber os colonos, mas quem seriam eles? 

A fama dos pescadores da Ericeira já existia em Lisboa no começo do século XIX e isso contribui bastante para a escolha da cidade. No dia 12 de janeiro, em pleno inverno europeu, aconteceu a reunião com a comissão do governo que iria escolher os imigrantes. No mês seguinte a notícia foi divulgada  na Ericeira e para surpresa de todos, apareceram pessoas até do bairro Sul. O número de moradores que se encontrava na frente da igreja de São Pedro passava fácil de 200. Entre a multidão o oficial respondeu a pergunta de um morador a respeito das vantagens de ir para o Brasil.

            – A doação dos terrenos será feita pelo governador da Capitania, o senhor João Vieira Tovar de Albuquerque, que entregará para cada colono o seu título da terra. Os terrenos que sobrarem serão posteriormente entregues e distribuídos àqueles que precisarem de área maior.

            – E há selvagens nessa tal Freguesia de Santa Catarina? – perguntou uma mulher.

            O oficial em pé num palanque improvisado até tentou ver quem era pessoa que fez pergunta, mas como havia no local muita gente desistiu e continuou.

            – É Capitania de Santa Catarina, a freguesia vai se chamar Nova Ericeira, em homenagem a cidade de vocês. Não há perigo e nem índios bravios por perto do novo povoado. O nosso bom rei garantiu a segurança dos colonos e isso é o bastante. A colónia contará com um cirurgião, boticário e pároco. 

            A Colônia Nova Ericeira foi apresentada para os pescadores do bairro Norte que aprovaram a nome da companhia pesqueira. Da casa da família Aguiar, apenas os irmãos Francisco e Manoel foram até a igreja de São Pedro. O pai Antônio, a irmã caçula – com 18 anos, chamada Ana – e o irmão mais velho de nome José, não demonstraram interesse com o novo empreendimento. O velho Antônio não aceitava a possibilidade de deixar a Ericeira.

            – Ainda que eu tivesse que roer ossos, não iria para o Brasil. Que o diabo leve essa colónia – dizia ele batendo com o punho na mesa.

            O velho Antônio ficou aborrecido porque os filhos Manoel e Francisco fizeram questão de colocar seus nomes na lista de imigrantes. Até os exames médicos a serem realizados em Lisboa foram marcados. O resultado, com os nomes dos aprovados seria conhecido no fim daquele fevereiro de 1818. Já a viagem para o Novo Mundo ficou marcada para o mês começo de março.

Embora sem aprovação do pai, os dois estavam decididos a partir e confiantes de que seriam escolhidos. Solteiro, Francisco sabia tudo sobre pesca e tinha noções de carpintaria naval. Já Manoel era um exímio carpinteiro naval e poderia ser considerado um bom pescador. No dia 27 fevereiro, uma lista com 101 pessoas foi pregada na porta da igreja. É claro que para o desgosto do pai, os nomes dos filhos Francisco e Manoel estavam na lista.

            A família Aguiar representava um pouco as outras tantas famílias de pescadores da Ericeira. O pai, pescador e carpinteiro naval, fora quem passara as duas profissões aos filhos. As mulheres não seguiam nenhum ofício e eram preparadas para as tarefas domésticas.  Isso era mínimo do que uma família poderia fazer, já que as moças das famílias de pescadores não tinham dotes para oferecer aos futuros maridos.

A família de um pescador era majoritariamente masculina. Em 1818, dos cerca de mil e quinhentos habitantes da vila, 60% eram homens. Outro fator característico na Ericeira dizia respeito ao número de integrantes em cada família: em média cinco pessoas. Isso não significava que as mulheres tivessem poucos filhos, ao contrário, a tacha de natalidade era alta, dez filhos por casal.

A mortalidade infantil diminua a quantidade de pessoas numa residência e de cada dez crianças, quatro morriam antes de completar sete anos. No caso dos Aguiar, a morte havia levado três filhos. A esposa fora um caso isolado, morreu de tísica, em 1814. As crianças que nasceram nos primeiros anos do século XIX tiveram mais sorte, todavia não escaparam da epidemia de cólera que assolou Portugal em 1833. Nessa tragédia morreram o irmão José, o pai Antônio e três filhos de Ana. Francisco e Manoel já estavam no Brasil nesse período e casados. Os irmãos Aguiar também tiveram suas pequenas tragédias na família, mas isso é outra história.

            Chegou o dia do embarque, famílias seguiram em bando ao Porto da Ericeira. A Nau Conde de Peniche, que fazia o transporte de passageiros de Portugal ao Brasil estava ancorada no cais a espera dos passageiros. Antônio se despediu friamente dos filhos em casa, já que não estava com vontade de ir prestigiar a besteira coletiva, como dizia ele. Francisco viajava solteiro e Manoel levaria a esposa Geraldina. O casal não tinha filhos e esperavam formar uma nova família no Brasil.

A bagagem com as roupas e objetos pessoas foram despachadas para a embarcação junto com uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. A imagem da santa pertencia à família há mais de cem anos e iria proteger a trajetória rumo ao Brasil. No cais, os irmãos se despediram. Eles não sabiam, mas aquele era o último dia em que a família estaria reunida. 

            – Eu quero que prometam que irão escrever ao chegarem ao Brasil – disse Ana com olhos umedecidos.

            – Pode deixar! O Francisco escreve! Ele é bom nisso – completou o irmão José.

            – E tu Geraldina? Sei que é uma rapariga ajuizada. Peço que cuides deles, como cuidas uma mãe dos seus filhos.  

            – Eles estarão bem protegidos, eu garanto.

            Houve um período de silêncio. Francisco e Manoel não escondiam a ansiedade e olhavam com frequência para o navio que acabara de apitar. Aquele era o sinal de que a nau partiria em breve. Na embarcação já se encontravam boa parte dos passageiros. Ana abraçou Geraldina. As duas choraram. Além de cunhadas, eram amigas de infância.

            – Vamos, acabem logo com isso, se não termino a chorar também – interrompeu José.

            Ana enxugou as lágrimas e respirou fundo.  Mesmo sendo a filha caçula, ela cuidava dos irmãos como filhos, isso explicava a emoção. Do bolso do seu vestido tirou dois pequenos pacotes. Dele saíram lenços brancos e bordados com o nome dela, do pai e do irmão José. Ana passou uma semana inteira na confecção daqueles lenços.

            – Isso é para vocês. É para que não esqueçam de nós. Não se metam em confusão, se papai souber de alguma coisa terá um desgosto.

            – Não precisava se preocupar conosco – disse Francisco.

            – Estaremos bem e ao lado de conhecidos. Se eu não gostar eu volto para Ericeira – tranquilizou Manoel, ao mesmo tempo em que observava o delicado presente. 

            O navio partiu e deixou centenas de braços e lenços bailando no ar. Crianças se despediam dos pais e pais que se despediam dos filhos. Não havia quem não chorasse na despedida. Até mesmo José, que tinha a fama igual aos outros pescadores de não chorar, teve de esconder às pressas uma lágrima que escorreu no canto esquerdo do seu rosto.            

*    *    *          

 
A viagem pelo Oceano Atlântico levou quase dois meses. Os dois irmãos e a maioria dos passageiros não estranharam o movimento da embarcação. O mesmo não podia se dizer das mulheres, crianças e pessoas de outras profissões. Para essas pessoas a primeira semana embarcada foi um teste de sobrevivência. Nada ficava no estômago e doenças gastrintestinais atacaram os passageiros poucos acostumados com o mar. Uma rara exceção entre as mulheres foi Geraldina. A loira  e franzina de olhos verdes ascendia de uma família de pescadores. Quando criança por muitas vezes, esteve a passeio pelo alto mar.

Fora esses pequenos contratempos, o itinerário Ericeira/Rio de Janeiro fora tranquilo. Nada de tempestade e os calafates não precisaram tampar buraco algum no navio. Ainda considerada nova, a nau transportava passageiros de Lisboa ao Rio de Janeiro quatro vezes por ano. No caso dos ericeirenses, a viagem seguiria até Porto Belo. Por oito anos a Charrua Transporte Conde de Peniche, como era oficialmente conhecida, transportou pescadores, agricultores, operários, condes, princesas, escritores, ladrões, jornalistas, atores, médicos, entre tantas outras profissões e ocupações.

A linha entre Portugal e Brasil terminou assim que a embarcação foi anexada a Marinha do Brasil por causa de uma dívida de Portugal com o Governo Brasileiro. A Nau Conde de Peniche foi capturada no dia 5 de julho de 1823 no litoral da Bahia por uma Esquadra inglesa, liderada pelo Almirante Lorde Thomas Cochrane.

            Na popa do navio, Francisco, Manoel e a esposa Geraldina conversavam. A embarcação navegava pelo litoral de Pernambuco.

            – Ó Manoel! Ainda estamos na África? – perguntou espantada Geraldina.

            – Não, segundo o comandante, aqui já é a costa do Brasil.

            – Será que para onde vamos é tão bonito assim?

            – Cuidado Geraldina. Tu podes cair rapariga – alertava o cunhado Francisco.

            A moça de 18 anos se aproximava cada vez mais do parapeito da proa. Era um final de tarde acinzentado de outono. Uma brisa leve e fresca soprava do Atlântico.

            – Esse mar é tão brioso que dá vontade de pular e ficar nele para sempre – disse ela rindo.

            – Deixe de dizer tolices e fique perto de mim – retrucou o marido.

            Manoel puxou Geraldina pela cintura a beijou. Abraçados, o casal permaneceu assim por uma quarto de hora, enquanto apreciava o entardecer. Francisco já com sinais de cansaço e saudades de Ericeira perguntou sobre a aventura no Brasil.

            – Será que fizemos bem em abandonar o pai, José e a nossa querida Ana?

            – Tu querias ficar naquela miséria? Não somos covardes. O que estamos a fazer hoje é algo que nossos filhos irão agradecer no futuro.

            – Você não pensa em desistir? – perguntou desconfiada Geraldina.

            – Não, é claro que não – respondeu Francisco com o olhar no Atlântico e o pensamento na Ericeira.

A Nau Conde de Peniche aportou no Rio de Janeiro, na noite do dia 11 de maio de 1818. Trazia a bordo fora a tripulação e outros passageiros de Lisboa, 101 pessoas que iriam fazer parte da primeira companhia pesqueira do Brasil. A estadia na cidade carioca durou um pouco mais de um dia.

Os ericeirenses foram cadastrados pelo setor de imigração do governo português. O documento com as assinaturas de Francisco, Manoel, Eugênia e tantos colonos podem ser encontrados hoje no Arquivo do Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. No dia 28 de maio, a nau portuguesa chegou à Enseada das Garoupas.

            Ainda na embarcação, os passageiros ficaram assustados com o isolamento do lugar. Rodeada por morros, a pequena baía era formada por uma planície escarpada por diversos lados. As praias de areias muito alvas abrigavam árvores com mais de dez metros de altura. Em 1818, apenas cinco famílias moravam na região, todos portugueses. Um desses moradores tinha uma casa no morro de Zimbros, o mais alto da Enseada das Garoupas.

De lá, em dias claros, era possível  ver as ilhas da Graça, Paz e Tamboretes e o morro do João Dias, na Barra de São Francisco do Sul. Ao Sudeste deste morro se observava a Baía na Barra de Tijucas e o Porto de Ganchos. Ao voltar os olhos ao Sul, a praia de Canasvieiras – em Florianópolis – e os rochedos da Ilha do Arvoredo eram vistos sem muita dificuldade. Já ao Norte, o expectador conseguia ver as praias do Canto Grande, Mariscal e da Enseada das Garoupas. Foi nesse ponto do morro que o morador viu os ericeirenses desembarcarem assustados.

            Os colonos seguiram a pé em direção a uma fazenda, que ficava bem na frente da praia. Um alojamento foi construído provisoriamente para abrigar os novos moradores. Os ericeirenses foram recepcionados pelo Intendente da Marinha de Santa Catarina, o comandante Miguel de Mello e Alvim, e o governador da Capitania João Vieira Tovar de Albuquerque.

O intendente da Marinha ficou responsável pela  medição dos terrenos, que seriam doados como sesmarias. Seus proprietários não podiam vender os mesmos antes completar de dez anos de posse. A medição não prejudicou os poucos moradores do lugar. Na tarde daquele 28 de maio, Tovar de Albuquerque fez as doações dos terrenos. Foi o próprio governador quem entregou os títulos, legalizando as terras recebidas. Além de um padre, o governador anunciou também a contratação de um cirurgião.

            Nos primeiros meses na Enseada das Garoupas, os ericeirenses se ocuparam na construção de suas casas e nas embarcações. Francisco e Manoel receberam um lote de cerca de 40 hectares, onde hoje é a praia de Mariscal, em Bombinhas. O tamanho das terras surpreendeu os irmãos. Depois de fundada, em 1818, a colônia recebeu mais famílias vindas da Ericeira. Diferente da primeira, onde os colonos se estabeleceram em Porto Belo e Bombinhas, na segunda a área de terra distribuída foi maior.

As terras chegavam até a Itajaí. Os últimos colonos da Ericeira chegaram em 1824, depois disso não há mais registro oficial. Outra aquisição feita pela Corte e que beneficiou aos pescadores foi a aquisição de uma lancha pesqueira da Armação da Piedade, núcleo baleeiro mais próximo da povoação. Com a lancha, os ericeirenses iniciaram a pesca em alto-mar na Colônia de Nova Ericeira, que segue até hoje.

            Com o tempo a freguesia da Nova Ericeira progrediu lentamente. A povoação ganhou um juiz, um escrivão e uma escola.  A administração da freguesia cabia à Intendência da Marinha de Santa Catarina e ao Governo da Capitania. Os recursos para a construção das casas, edifícios públicos e barcos de pesca vinham da Fazenda Real, controlada pelo Intendente da Marinha de Santa Catarina, Mello e Alvim.

Com a Independência do Brasil em 1822, tudo que era relacionado a Portugal começou a ser apagado. A Colônia Nova Ericeira conseguiu sobrevier por mais dois anos. No dia 18 de dezembro de 1824, por determinação da Capitania de Santa Catarina, a Nova Ericeira passou a ser chamar Porto Belo.  

            Naquele fim de tarde ensolarado e frio de 28 de maio de 1818, na Enseada das Garoupas, Francisco, Manoel e Geraldina resolveram passear pela praia. Eles foram alertados para não ir muito longe. Havia o perigo dos índios e piratas espanhóis. No fim da praia encontraram os rochedos que seguiam em direção ao mar. Eles sentaram numa pedra para descansar e de lá observaram o mar revolto. Ficaram assim como hipnotizados por cerca de dez minutos. Manoel foi o primeiro a sair do transe.

            – Soube pelo senhor Governador que Napoleão continua preso na Ilha de Santa Helena, na costa da África. Você acredita que a Marinha de Inglaterra interceptou uma galera repleta de piratas franceses? Ela iria resgatar aquele pulha.

            – Napoleão é um homem muito inteligente. Cedo ou mais tarde escapará dessa ilha – disse Geraldina.

            – O melhor seria mandar esse mandrião para a guilhotina – completou Manoel com raiva e cuspindo no chão.

            – O que me deixa com raiva é saber que Napoleão sempre será lembrado, mesmo que tenha destruído a vida de milhares de famílias. Os feitos desse celerado estarão nos livros de história e estátuas serão levantadas em sua honra.

            – Deixa estar Francisco! – exclamou Geraldina, tentando acalmar o cunhado.

            – O que será escrito sobre nós? Dos nossos filhos, netos, bisnetos? Nada, um parágrafo sequer. Valemos mais que Napoleão, mas ninguém registrará nada a esse respeito.

            No momento de raiva, Francisco se levantou e lançou algumas pedras em direção ao mar. O irmão e a cunhada se levantaram e se aproximaram dele. Manoel passou o braço esquerdo pelo ombro do irmão e tentou reconfortá-lo.

            – Eu estou certo de que um dia alguém há de contar. Ouviu Francisco? Um dia alguém há de contar.

            Os três ficaram em pé observando o mar. O crepúsculo começava a estender seu manto negro pela areia. Na fazenda, os lampiões a base de óleo de baleia já eram acesos. O mar, cada vez mais revolto, quebrava incessantemente nas pedras, lavando os rochedos desolados que choram eternamente lágrimas de espumas.

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