domingo, 12 de fevereiro de 2017

Capítulo 10 – Uma história lamentável

                                                                                                Navio brasileiro "Tutóya" sendo torpedeado em 1943
 
            Na véspera do Natal de 1904, os moradores da única casa da praia de Fora, hoje conhecida por Quatro Ilhas, receberam o último hóspede. O parto foi demorado, começou por volta das 9 horas da manhã e terminou perto do meio-dia.  A criança insistia em não querer nascer e brigava com a pobre da parteira. Foi preciso da ajuda dos vizinhos para que o serviço fosse concluído. Como o mais próximo ficava a 800 metros de distância, o pai, muito a contra gosto, teve que correr para chamar alguém. Ele não podia ajudar, quer dizer, homem algum podia participar de um parto.

A casa estava movimentada. Os filhos choravam sem saber o que acontecia com a mãe. Félix, o pai, chegou com mais duas mulheres, que sem perda de tempo entraram no quarto. Após muito esforço, a parteira conseguiu retirar criança. Exausta, Justiniana, a mãe, descansava na cama, enquanto as duas mulheres lavavam recém-nascido. A parteira saiu do quarto e deu a notícia ao pai, que por sua vez não esboçou emoção alguma. Sentado numa cadeira, fumava tranquilamente um cigarro de corda. Deu uma baforada assim que a mulher disse: “É um menino”.

            – Muito bem! - disse ele ao se levantar.

            Félix pegou o chapéu e ainda com o cigarro na boca chamou pelos filhos adolescentes. Os garotos o ajudavam na pescaria.  Uma canoa na areia da praia esperava pelo trio. A mesma embarcação a remos usada há 88 anos pela família foi  construída pelos primeiros colonos vindos da Ericeira. A canoa passara por reformas com o tempo, mas conservava a mesma forma de quando o avô ericeirense chamado Ignácio, a usava na pescaria. Ignácio antes de deixar Portugal já trabalhava na pesca e chegou a fazer viagens de barco até a costa da Espanha. No Brasil, a profissão foi repassada para os filhos e dos filhos para os netos até chegar a Félix. O destino do recém-nascido Rogel também seria a pesca.

            Apesar de ser véspera de Natal, o trabalho foi o mesmo de um dia qualquer da semana. Ninguém cogitava a hipótese tirar o 24 de dezembro todo para descansar, pois se assim o fizessem faltaria comida na mesa. Na casa de Félix, bem como em outras residências de Bombinhas no início do século XX, os filhos  começavam a trabalhar cedo. Mal completavam dez anos, eles já realizavam alguma tarefa. Os meninos na pesca e as meninas em casa. A vida que em 1904 já era difícil para os mais velhos, tornava-se sacrificante para crianças, que precisavam ficar adultas antes do tempo. Isso se elas conseguissem passar pela infância. Se morria por muito pouco, até uma verminose mal curada podia ser um obstáculo para chegar a vida adulta.           

            Os anos passaram e o caçula da família Moutinho cresceu cheio de saúde. Com uma personalidade forte, Rogel não levava desaforo para casa e sempre se metia numa briga. A mesma personalidade fora herdada do pai. Félix era um homem severo e criava os filhos com bastante rigidez. Aplicava castigos corporais e deles ninguém escapava, muitos menos as meninas. Quem desobedecia apanhava e para os padrões atuais a surra se assemelhava ao espancamento. A mulher também não conseguia fugir da fúria do marido. Justiniana, por anos lembrou amargamente daquele fim de tarde do verão de 1906. Félix voltava de uma pescaria fraca. Justiniana se aproximou para cobrar o conserto do berço do caçula. Numa ocasião normal ele teria apenas dado uma bronca na mulher, mas como estava aborrecido, a bronca se transformou em sova.

            – Ó Antônio, a cama do menino ainda tá quebrada. Hoje ele quase caiu.

            Félix agachado limpava o peixe na areia da praia. Ao seu lado havia mais pescado para limpar e salgar.

            – Que cama? – perguntou ele olhando atravessado para a mulher.

            – Ora do nosso Rogel – respondeu a mulher dando um passo para trás.

            Naquele momento, ao notar aqueles olhos furiosos, Justiniana percebeu que cometido um erro em cobrar do marido o conserto do berço do filho. O medo da esposa não foi suficiente para diminuir a fúria de Félix. Ele pegou um peixe na mão, um bagre, e com um único golpe acertou a em cheio no rosto. Justiniana caiu e ficou desacordada por alguns minutos. Assim que recobrou os sentidos, ela pegou Rogel no colo e foi direto para casa. O menino havia presenciado tudo e isso não incomodava nada Félix. Muito menos ter deixado a face da esposa inchada pro mais de três meses. Félix voltou a limpar os peixes como se nada tivesse acontecido. No começo do século XX, a esposa era quase uma propriedade do marido e este estava livre para fazer o que quisesse com ela. Até mesmo matar, caso ele provasse uma suposta traição conjugal.

Félix se aproveitava dessa condição e transformava a vida familiar um tormento constante. Ninguém passava fome na casa dos Moutinhos, mas se vivia para o trabalho. Momentos de alegrias não existiam, muito menos nas horas das refeições. Os integrantes da família permaneciam sempre calados e sombrios. Félix não gostava nem de ver os filhos rindo. Certa vez, a filha entrou em casa a gargalhadas e a atitude fora o suficiente para resultar em um tapa. “Isso é para você aprender a se comportar melhor”, dizia sempre depois que batia nos filhos.

            Rogel apanhava quase todo santo dia, não por desobediência a Félix, mas sim porque aprontava fora de casa. Na escola batia nos colegas e não sentia medo nem dos mais velhos. Apesar das surras, o menino gostava do pai e o via como exemplo. Ele tinha apenas dez anos quando Félix morreu. Sentado na cama, o pai chamou filho por filho para se despedir. A morte se encontrava muito próxima e Félix sabia disso e o médico que deu a sentença mais ainda. Em abril de 1915, ele soube pelo doutor que não terminaria o mês vivo. A conversa individual começou pela esposa, que saiu do quarto chorando, seguiu entre os filhos até chegar em Rogel.

            – Entra logo – disse o pai ainda mais rabugento pela doença.

            Apesar do tempo ensolarado e frio, a janela do quarto permanecia fechada.  Velas que se encontravam acesas em frente à imagem de uma santa iluminava o ambiente. Assim que entrou, um cão da raça labrador levantou o focinho, latiu e  seguiu em direção a Rogel. “Camponês”, o cão favorito de Félix retornou para seu canto. O cão se recusava a sair do quarto e estava lá há três dias. O menino sentou no pé da cama e esperou o pai dizer alguma coisa. Félix encostado com as costas na parede fitou o filho caçula com seus belos olhos azuis. No leito, Rogel viu homem já com seus 60 anos. O peso da idade aparecia nos fios brancos da sua cabeleira castanha e nas rugas do seu rosto pálido. Numa semana, havia envelhecido muitos anos. Falava com dificuldade e às vezes era vencido pela  tosse.

            – Se aproxime mais. A doença do teu pai não é contagiosa.

            O garoto chegou mais próximo e para não encarar o pai olhou para as velas e a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. A santa observava a cena e talvez esperasse que o doente fizesse um último pedido. Pelo aspecto de Félix, poderia se dizer que ele faria isso a qualquer momento. Quem havia colocado o ícone no quarto foi a esposa e ela esperava que Félix se arrependesse de todos os seus pecados. Para se arrepender é preciso primeiro ter consciência dos próprios atos. Na  concepção de Félix, o que ele havia feito não contrariava a lei dos homens e a de Deus.

                                                                                                                                                                                   Camponês
 
            – Não posso falar muito. Acho que não tenho...

            O homem foi interrompido pela tosse. Quando isso acontecia sentia muitas dores no peito e nas costas. Pediu para o filho pegar uma bacia debaixo da cama. Nela, Rogel ficou enojado com que encontrou: catarro e uma espuma vermelha. Ao  terminar de cuspir, Félix limpou do canto da boca o resto de sangue. 

            – Vou ser rápido. Cuide da sua mãe e seja obediente aos teus irmãos mais velhos. Agora vá. Vá! - gritou.

            A despedida de pai e filho não teve abraço e muito menos lágrimas. Antes sair, Félix pediu mais uma vez a bacia. Durante toda a noite e a madrugada, o pescador agonizou. Sentia dores terríveis e Camponês latia e andava de um lado a outro do quarto, sem poder fazer nada para salvar o dono. Apesar da rigidez e dos castigos corporais que infligia aos filhos e a mulher, o pescador não poderia ser considerado um homem mal. No seu tempo de criança o pai havia feito o mesmo com ele, o avô também havia feito com pai e assim até chegar no primeiro Moutinho que veio da Ericeira. A pesca não fora a única herança deixada para os descendentes. A forma de criar os filhos foi uma delas. Até hoje é fácil encontrar esse indício severo nos ascendentes da Ericeira no Brasil.

            A morte de Félix chegou ao amanhecer. No quarto, os irmãos José – que viera de Porto Belo –, uma irmã solteirona chamada Maria e a esposa esperavam. Camponês sob a cama latia bem baixinho. Antes de morrer, no delírio da febre, o homem fez seu último pedido. Não para a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem e sim para esposa.  Ele pediu que fechasse as janelas, pois sentia muito frio. Não fora preciso já que a janela permaneceu fechada durante os três dias que esteve no quarto. Justiniana pegou mais um cobertor e o cobriu o marido. Félix olhou para a esposa e disse:

            – Muito bem!

            Pela primeira vez na vida, Justiniana viu um brilho no olhar do marido que parecia uma lágrima, porém ela nunca teve certeza. Ao se virar de lado na cama, o corpo de Félix ainda se retorceu antes de expirar. O enterro foi realizado no cemitério de Porto Belo no fim da tarde do mesmo dia. No cortejo, Justiniana e Rogel foram os únicos que choraram. A dor de mãe e filho não chegava nem perto do que sentia Camponês. O cachorro latia o tempo e não deixava de vigiar o caixão. Foi com muito custo que o afastaram para baixar o corpo a sepultura. As pessoas retornaram para Bombinhas e cachorro ficou no cemitério. Deixaram o pobre cão próximo ao túmulo e também se quisessem, talvez não conseguissem persuadi-lo a ir embora. Durante aquele fim de tarde, à noite e na madrugada do dia seguinte, Camponês permaneceu deitado no túmulo do seu dono. Recusou água e comida oferecida pelo coveiro. O cão ficou nessa posição pelos dois dias seguintes, até ser encontrado morto pelo coveiro Um buraco foi feito ao lado do túmulo de Félix. Camponês enfim conseguiu descansar.

*    *    *
 
                                                                                                                  Mercado Público de Florianópolis na década de 1920

            Passados sete anos da morte do pai e encontramos Rogel em Florianópolis. O jovem com então 18 anos, havia se alistado e fora convocado para servir o exército na capital. O tempo fez o jovem ganhar responsabilidade, força e experiência, porém sua personalidade não sofreu mudança alguma. Dos filhos de Félix, Rogel era o que seguia mais fielmente o seu comportamento severo. Quando chegou ao Batalhão, não estranhou a disciplina rígida do exército. Para quem apanhava quase todo dia, a vida no quartel poderia ser considerada até leve. Obedecia aos seus superiores e respeitava os colegas de farda.  Faltavam dois meses para concluir o serviço militar e o jovem não sabia ainda qual profissão seguir. Pescador desde criança e acostumado com o quintal de casa, a praia de Fora, Rogel sentia falta de sair para pescar. No quartel, chegou acompanhar a pescaria de um sargento e um capitão, que ficaram espantados com o conhecimento que o soldado tinha sobre a o mar.

Ele sabia todos os truques de como armar a isca no anzol e a hora de jogá-la na água. Se a pesca desse dinheiro, o jovem teria um futuro promissor, mas ele sabia que não dava e isso o deixava indeciso. Numa noite, antes de dormir, Rogel conversou com um amigo de infância chamado Manoel, que também servia no mesmo Batalhão.  Os dois conversavam justamente sobre o que fariam depois de sair do exército. Manoel ficava no beliche de cima e Rogel no de baixo. No quarto, alguns soldados liam a Bíblia, outros as cartas de namoradas e alguns apenas pensavam na vida.

            – Esse negócio de pesca já tá ultrapassado – disse Manoel, um jovem moreno e com cabelos negros e lisos,  que gostava de o alisar com frequência. Fazia isso, enquanto conversava com o colega de farda.

            – Eu não sei fazer mais nada na vida, se no for na pesca – comentou Rogel desanimado. 

            – Fica aqui. O exército é melhor do que catar peixe por aí.

            – Para mim não é. Eu não sei o que vou fazer na vida, mas no exército não fico. Estou bem certo disso. 

            – Eu também, mas como não sei pescar vou fazer outra coisa.

            – Que coisa?

            – Minha família tem um barquinho a motor. Descobri que posso ganhar muito dinheiro se começar a comprar e a vender mercadorias. Hoje, quem não precisa de  açúcar e querosene.

            – E como vai ganhar dinheiro vendendo essas porcarias?

            – Porcarias para ti. Para os outros isso vale muito. Não vou vender só isso.

            – Eu ainda não entendi esse negócio.

            – Então preste atenção. Por exemplo, eu compro dez libras de farinha aqui em Florianópolis por um preço. Eu posso vender por outro e bem maior em Porto Belo. Se você quiser pode trabalhar comigo. Garanto que vai ganhar mais dinheiro do que na pesca.

            – Não sei. Amanhã eu dou a resposta. Agora só quero dormir – disse Rogel virando de lado.

            No outro dia, quando os soldados eram transportados para um treinamento  na cidade de Laguna, no Sul de Santa Catarina, o jovem deu a reposta para Manoel. Antes disso, uma cena chamou atenção da tropa. Na calçada duas mulheres se engalfinhavam no chão, uma puxando o cabelo da outra. Um soldado não conseguiu se aguentar e gritou:

            – Não solta, não solta.

            Ao som das gargalhadas dos soldados, o caminhão seguiu o caminho à Laguna. Ao dobrar a esquina o motorista ainda conseguiu ver as duas mulheres no chão. Uma multidão começava a se aglomerar. Rogel aproveitou o clima de desconcentração para dar a resposta ao colega.

            – Pode marcar o meu nome na tua lista.

            – Ele já está escrito e com letra de ouro. Você não vai se arrepender.

            – Espero que sim. Quando podemos começar.

            – Assim que nos livrarmos disso – disse Manoel olhando para os outros soldados espalhado pela carroceria do caminhão.

            Quando Rogel e Manoel deram à baixa no exército, a primeira coisa que fizeram foi visitar o Mercado Público de Florianópolis. O prédio localizado em frente à Alfândega tinha a mesma aparência que tem hoje, com as duas alas, torres e uma escada que dava acesso ao vão. O Mercado Público aberto desde 1896 atraia centenas de pessoas de todo o Estado, que vinham em busca de mercadorias diversificadas e mais em conta. Produtos tão diferentes que chamaram a atenção de Rogel. Ele e Manoel foram até o local anotar os preços das mercadorias que poderiam vender em armazéns e casas de secos molhados entre Porto Belo e São Francisco do Sul.

            – Qual é o nome dessa coisa? – questionou Rogel apontando para um objeto oval e de cor amarela.

            – Essa coisa é uma fruta – respondeu o funcionário da barraca sem prestar muita atenção no cliente. 

            – Fruta?

            O pescador pegou a fruta na mão, cheirou e recolocou no lugar. Manoel pro sua vez anotava tudo que via pela frente.

            – Sim, é cacau. Você nunca comeu chocolate?

            – Já comi, mas não sabia que era feito com isso.

            – Não sei como é que o pessoal faz o chocolate. Parece que eles misturam cacau, leite e açúcar e um corante.

            Por uma manhã inteira eles ficaram no Mercado Público e anotaram tudo que encontraram pelo caminho. À tarde eles pegaram o paquete Carl Hoepcke. A embarcação fazia o transporte de passageiros de Florianópolis até Santos, mas também atracava nos pontos de desembarque em Porto Belo. De lá, os dois seguiram a pé até Bombinhas. Rogel chegou à praia de Fora perto da meia-noite. Com a mochila nas costas, o jovem olhou com  saudade para o mar, respirou fundo e correu para o lar. A mesma casa em que há 22 anos havia nascido se encontrava às escuras.

*    *    *

Submarino alemão Unterwasser-Schiff 513 chegou torpedear navios no litoral brasileiro
 
            Na medida em que o tempo passava Rogel ficava mais parecido com pai. Não pela aparência e sim pelo comportamento violento. Ao sair do exército ele bem que tentou trabalhar com o Manoel, porém divergências com a divisão dos lucros levaram a sociedade a ruir. O desejo de voltar para a pesca contou muito para que mudasse de plano. Rogel nasceu pescador, seus antepassados foram  trabalhadores do mar e para o futuro não restava outro caminho senão a pesca. Dormia cedo, acordava cedo, trabalhava o dia todo e no sábado se divertia no baile na praia do Canto Grande. Continuava a não levar desaforo para casa, retornava dos bailes machucado. Foi nessa rotina que o tempo passou para Rogel. Em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial, a experiência que teve no Batalhão do Exército lhe rendeu a convocação para vigiar possíveis navios ou submarinos alemães na costa de Santa Catarina. A mesma pedra em que os pescadores vigiam hoje a pesca da tainha, serviu por dois anos para avistar navios da Tríplice Aliança.

            Com 39 anos, casado e pais de quatro filhos, Rogel não tinha a mesma disciplina do quartel de Florianópolis. Ele odiava a guerra, não pelo mesmo motivo de uma pessoa que gosta da paz e sim porque a guerra atrapalhava seu trabalho. O pescador estava pouco preocupado se Hitler dominava metade da Europa ou se lia escondido os gibis de Wall Disney no bunker da chancelaria alemã, em Berlim. Além disso, a importância que dava a Hitler era a mesma que dedicava ao seu dedo minguinho, ou seja, nenhuma.

No entanto, o Brasil levava em consideração o führer e o medo fez o governo brasileiro proibir que embarcações navegassem a noite. Como a canoa de Rogel se incluía na lista, ele teve um motivo a mais para odiar a guerra e de não ser tão disciplinado na hora da vigia dos navios inimigos. Rogel dormia no trabalho e as vezes faltava.  Se alguma embarcação alemã navegou pelo litoral de Santa Catarina foi, certamente, no dia em que ele fez a vigília.

            Muito se falou até agora do comportamento agressivo de Rogel e a sua ligação com o pai. No entanto, existe um lado do caráter do pescador pouco conhecido entre os moradores de Bombinhas. Desde jovem ele sonhou em ganhar dinheiro e muito dinheiro. No ano em que serviu ao exército pensava a todo instante numa maneira de ficar rico. A proposta do amigo Manoel foi apenas uma das inúmeras tentativas que não deram certo. Embora gostasse de pescar, Rogel sabia que não conseguiria ganhar dinheiro nela. O máximo que poderia fazer era colocar comida na mesa. Na década de 1940, nem mesmo os primeiros empresários da indústria pesqueira de Santa Catarina conseguiam lucrar com a venda de peixes. Por muitos anos, Rogel tentou descobrir uma maneira de fazer fortuna. Até mesmo procurar tesouros escondidos ele fez. Em Bombinhas, ainda sobrevive uma lenda de que antes dos imigrantes da Ericeira chegarem, piratas franceses e espanhóis aproveitaram as praias da região para esconder ouro. Em 1946, moradores de Bombinhas procuravam riquezas debaixo da terra, entre eles se encontravam  Rogel.

            No começo de 1947, Justiniana adoeceu. O médico diagnosticou uma doença no pulmão. A matriarca da família sempre foi uma pessoa doente e as crises de bronquite pioravam a cada ano. Com 79 anos de idade, a mulher morava na antiga casa de madeira da praia de Fora, com o filho caçula e sua nova família: a esposa Maria e seis filhos. A doença ficou mais grave nos primeiros dias de abril daquele ano. Justiniana não saía de casa e permanecia quase o tempo todo deitada. Como a ligação de Rogel com a mãe não era tão forte, ele resolveu se aproveitar da situação para ganhar dinheiro. Ainda movido pela ganância, elaborou um plano onde seria beneficiado junto com a irmã Olga.

                                                                                                                                                     Bombinhas na década de 1940 
 
No dia 25 de abril, o estado de saúde de Justiniana piorou. O médico foi chamado e avisou que era inútil levá-la ao hospital. Rogel não insistiu e o assunto não foi mais discutido. No meio da tarde, Justiniana teve uma pequena melhora, mas isso durou pouco. Pediu para sair do quarto, pois segundo ela, não queria morrer na mesma cama em que o marido. Foi transferida para o pequeno sofá da sala e ali permaneceu até morrer. A morte chegou da madrugada do dia 26 de abril de 1946. A primeira a perceber foi Maria, que logo chamou o marido. Rogel foi até o sofá e fechou os olhos da mãe.

            – Aonde você vai? – berrou Rogel.

            – Vou avisar seus irmãos – respondeu a mulher.

            – Avisar o quê?

            – Que a mãe deles morreu.

            – Não vai avisar nada.

            Rogel pegou a mulher pelos cabelos e a arrastou até o sofá. Lá, ele jogou a esposa em cima de Justiniana.

            – Você vai ficar aqui cuidando da minha mãe.

            – A tua mãe tá morta – disse a mulher chorando.

            – Escuta seu demônio? – disse dando tapas seguidos no rosto de Maria.

            – Sem chorar – gritou.

            Com os punhos fechados e preparado para socar a cara da esposa, Rogel repetiu a ordem. Com medo de fazer companhia a sogra, Maria se acalmou. O marido então continuou a conversa.

            – Vou dizer mais uma vez. Você vai ficar aqui cuidando da minha mãe. Não quero que avise ninguém. Ouviu? Se alguém perguntar diz que ela está dormindo.

            – E se aparecer um dos teus irmãos, o que eu falo?  – questionou a mulher.

            – Diz que o médico pediu para ninguém aborrecer a mãe. Eu vou sair agora, mas retorno logo.

            – E pra onde você vai?

            – Não é da tua conta.

            Rogel seguiu de barco até Porto Belo e lá procurou o cartório.  Um funcionário chamado Leopoldo acompanhou o pescador de volta a Bombinhas. Trazia consigo  uma pasta e outros papéis. Rogel apesar de ter perdido a mãe naquela manhã não demonstrava sentimento algum. Seu rosto era igual ao de todos os dias, sem sentimento algum.  A canoa com os dois homens chegou em Bombinhas perto do meio dia. Assim que entrou em casa, a mulher disse que ninguém havia o procurado ou mãe.  Rogel acompanhou o funcionário do cartório até a sala. Ele sentou no sofá, bem próximo da cabeça da mãe. Justiniana jazia encostada sobre duas grandes almofadas.

            – Se aproxime senhor Leopoldo. A doença da minha mãezinha não é contagiosa. Ela não morreu ainda, mas pediu para chamá-lo.

            – O que ela quer de mim?

            – Como eu disse lá em Porto Belo, apenas dividir os bens da família com os seus dois filhos.

            – Uma casa de madeira e as terras da praia de Fora? – perguntou o funcionário do cartório.

            Rogel acenou afirmativamente com a cabeça.

            – Correto e os papéis do terreno estão com o senhor?

            – Das terras da praia de Fora estão comigo sim. Então vou perguntar de novo para minha mãe o que eu disse para o senhor lá em Porto Belo.

              Como ela vai responder, se dorme. 

            – Ela não tá dormindo. Comece a escrever!

            Rogel se aproximou mais da Mãe e começou a acariciar o rosto dela. Ele até tentou chorar, mas vendo que seu esforço apenas distorcia seus rosto, desistiu. O funcionário esperava a resposta da mulher.

            – Mãe, não é verdade que a senhora passou esse terreno para mim e para  Olga? – perguntou o filho para a defunta.

            Como seria muito difícil Justiniana falar alguma coisa, o filho encontrou um meio para que ela desse a resposta sem que abrisse a boca.  Com movimento bem sutil no travesseiro, ele conseguiu com que a mãe fizesse um sinal afirmativo com a cabeça. Leopoldo refez a pergunta e o filho continuou com a artimanha. O dedo polegar da defunta no papel selou definitivamente a transferência dos bens da família para Rogel e a irmã. Os outros irmãos é claro que protestaram, mas ninguém conseguiu provar que a mãe havia morrido antes de assinar aos documentos. Foi assim que Rogel conseguiu ficar com metade da praia de Fora ou Quatro Ilhas. No entanto, as terras em Bombinhas na década de 1940 valiam pouca coisa e o sonho de Rogel ficar rico não foi realizado. Durante o casamento, Justiniana apanhara várias vezes do marido, porém nenhuma dessas situações chegou perto dos atos de traição e perfídia praticados pelo filho caçula.
 

*    *    *

            Na varanda ninguém sabia por onde começar. Paulo Aguiar olhava para mim e para o casal ao mesmo tempo. Como ninguém havia tomado coragem para dizer algo, o meu xará resolveu ser o primeiro.

            – O seu Miguel é sobrinho do Rogel e sabe muito bem que tipo de pessoa ele foi.

            – Rogel foi o mais bravo da família, até mais que o pai dele – disse o homem num tom de voz bem baixinho, sendo que na idade dele, 88 anos, não se poderia esperar outra coisa.

            – Eu não entendo como uma pessoa possa ser tão mal a esse ponto. Foi como se ele tivesse matado a própria mãe – comentei indignado.

            – Ele foi um homem muito malvado, morreu de câncer, em 1974. Deus o castigou – disse a mulher do seu Miguel.

            Seu Miguel nos convidou para pernoitar em sua casa. Como precisava voltar para casa, recusei. Diferente de Paulo Aguiar que ficou em Bombinhas. Depois do jantar, nos reunimos com o casal de idosos, que fizeram questão de ouvir o fim da história. O meu xará fez um breve resumo do que havia relatado até então para que eles não ficassem perdidos.  Agradeci mais uma vez o gesto do seu pai e por ter contato tudo sobre os seus antepassados. Foi por meio deles que conheci a fundo a vida do doador. Paulo Aguiar retomou a narração, a última daquele dia. Miguel e Carolina ouviam em silêncio. Na frente deles, a Enseada das Garoupas permanência mergulhada no crepúsculo.

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