Xilografia Fábio Dudas/Divulgação
Quando
o barco de pesca Estrela Dalva saiu da Praia do Mariscal, em Bombinhas, na
madrugada de sábado, dia 11 de outubro de 1980, o tempo era bom e o mar tranquilo.
Cenário bem diferente dos primeiros dez dias daquele mês, que haviam sido de
muita chuva. Por esse motivo, os quatro tripulantes do Estrela Dalva
aproveitaram o tempo bom para pescar. A embarcação seguia rumo a Galés, uma
pequena ilha de formação rochosa, distante 11 quilômetros da
costa. No lugar da tainha, o alvo dos trabalhadores do mar desta vez foi à
corvina. O barco ancorou próximo à Ilha, às cinco horas. Enquanto não chegava a
hora de recolher as redes, os pescadores iniciaram uma conversa para espantar o
sono. Mariano, um pescador com 60 anos de vida e 45 dedicados à pesca foi o
primeiro a falar.
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– Eu acho que o tempo vai virar.
Está calmo demais aqui. Vocês não acham? Olhem como o vento começou a soprar a
Sudeste – disse o velho marujo encostado junto à proa.
Para quem possui experiência, o
vento na direção Sudeste em alto mar pode trazer muitas preocupações. Já para
os mais jovens, o conhecimento dos mais velhos, às vezes se torna uma
oportunidade a mais para uma pilhéria. Foi o que fez Reginaldo, o mais novo dos
tripulantes do Estrela Dalva.
– Sabe que eu acho? O senhor trouxe
uma garrafa de cachaça para bordo e tomou tudo.
Reginaldo também filho de pescador,
com seus 23 anos, andou pela lateral da embarcação. Fez de conta que tinha uma
garrafa de aguardente na mão. Levantou o dedo indicador esquerdo molhou no
lábio e verificou a direção do vento. Com a voz entrecortada de um bêbado disse
para a gargalhada de todos:
– “Meu Deus! O vento mudou para
Sudeste”. Até Mariano esboçou um sorriso tímido.
Depois de alguns minutos de silêncio,
Valdir, um pescador loiro cheio de sardas mudou de assunto. Ele perguntou para
o dono do barco, um senhor com a idade e o mesmo tempo de pesca do velho
Mariano, sobre o cargueiro Lili.
– João, onde tá o navio fantasma?
– Que navio fantasma?
– O navio que encalhou. Dizem que
até mesmo da ilha dá para ouvir os gritos dos marinheiros que morreram no
naufrágio.
Da cabine do barco, João apontou
para a escuridão do oceano rumo ao farol – a única testemunha do diálogo
daqueles pescadores.
– Tudo isso não passa de crendices
do povo. O resto do navio está naquela direção, mas não existe fantasma nenhum
– continuou o dono e mestre do barco.
A embarcação alvo da conversa dos
pescadores era o cargueiro Lili. Em 1958, o navio de bandeira espanhola se
perdeu durante um nevoeiro e bateu nas pedras da Ilha das Galés. Morreram nesse
naufrágio cerca de 30 marinheiros. A embarcação pode ser vista dividida ao meio
e a uma profundidade superior a cinco metros. Hoje, o navio serve de abrigo
para algas, peixes de todas as espécies, tartarugas marinhas e arraias. Fora
esse naufrágio, outra curiosidade não vem do mar e sim do ar. A Ilha das Galés
é um dos mais importantes locais de acasalamento de aves marinhas da costa
brasileira.
Perto das seis horas, em vez dos
primeiros raios de sol, quem apareceu mesmo foram às nuvens mais pesadas no
horizonte. O vento havia mudado mais uma vez de direção. Soprava agora sentido
Leste e bem forte.
– É melhor a gente recolher as redes
logo e sair daqui. O seu Mariano acertou mais uma vez – gritou Valdir.
– Eu peço desculpas seu Mariano –
disse o jovem Reginaldo assustado com a tempestade que começava a se formar.
– Não é hora de papo agora. Vamos,
puxem as redes – ordenou João.
Os quatro tripulantes do Estrela
Dalva começaram a puxar as redes com toda a pressa do mundo. Não prestavam
atenção na quantidade de peixes que jogavam no porão do barco. Os olhares
estavam direcionados às nuvens negras, que para o azar dos pescadores, eram bem
mais rápidas do que eles. Para completar, uma das redes ficou enrolada em um
coral e mesmo com toda a força dos pescadores nada conseguia levantá-la. Um
raio iluminou o crepúsculo e logo em seguida um trovão fez tremer a embarcação.
Aquele era um sinal para que eles tomassem uma medida extrema. Mariano e Valdir
puxaram cada um sua faca e desprenderam a rede. O vento era muito forte, os
raios caiam por todos os lados. Os pescadores se refugiaram na cabine. João
ligou os motores e o Estrela Dalva seguiu como pode em direção à ilha, desafiando
as ondas de quase três metros de altura e os relâmpagos. Todavia, já era tarde
demais para os pescadores, a tempestade caiu com toda força. A batalha que
estava prestes a ser travada era de David e Golias. No entanto, ao contrário da
Bíblia, na história do Estrela Dalva e seus tripulantes, o vencedor não seria o
mais fraco.
Dentro
da cabine ninguém conseguia ficar em
pé. A chuva caía agora a cântaros. O vento forte quebrou ao
meio o mastro central do barco. A situação era tão grave que os quatro pescadores
já se encontravam cada um com seu salva-vidas. O equipamento passava uma falsa
sensação de segurança. Mesmo com o salva-vidas seria muito difícil sobreviver.
Acostumados com os perigos do mar, João e Mariano estavam receosos. Embora
indesejável, a morte é uma companheira sempre constante para aqueles que
desafiam o oceano. Cada pescador, com pelo menos cinco anos de profissão já
perdeu um amigo, colega ou parente num naufrágio. Além disso, os quatro homens
descendiam dos imigrantes portugueses que vieram da Ericeira. Mesmo sem saber,
eles traziam no sangue o gosto pelo mar e a coragem para enfrentá-lo. Porém,
naquele 11 de outubro de 1980,
a morte anunciava-se mais próxima. E os dois velhos
pescadores pressentiam isso.
A situação agora era de desespero.
Os vagalhões empurravam o barco cada vez mais para o fundo. Por duas vezes a
embarcação quase foi engolida pelo mar. Uma onda mais forte inclinou para o
lado o barco e depois o virou. Desesperados, os homens tentaram sair da cabine
pela portinhola. Não conseguiram e na hora que tentavam fazer isso uma onda
gingante atingiu a cabine, levando a embarcação para o fundo do mar. O impacto
do vagalhão foi tão grande, que minutos depois os destroços do Estrela Dalva
submergiram, junto com três pescadores. Faltava um tripulante.
Próximo a Ilha das Galés, o farol
que há 22 anos havia testemunhado o naufrágio do cargueiro Lili, observava
friamente a do barco de pesca que homenageava o planeta Vênus. No meio do
Atlântico Sul, três pessoas lutavam para sobreviver. Seus pedidos de socorro se
perdiam no meio das ondas e dos raios que caíam sob as suas cabeças. Cada
pescador se agarrou como pode em algum pedaço da embarcação e assim lutou
contra a morte.
* *
*
Uma chuva bem fraca em forma de
garoa insistia em cair na manhã daquele 11 de outubro. Pequenos pingos
escorriam pelas telhas de barro e formavam poças nas três janelas da casa de
madeira. Em um desses quartos dormiam duas meninas: Verônica e Valéria. O
quarto era simples. Duas camas de solteiro, um guarda-roupa velho, que além de
guardar as vestes das meninas, servia também de alimentação aos cupins, e um
criado-mudo formavam toda a mobília. A primeira tinha oito anos e a segunda era
dois anos mais velha. Embora estudassem à tarde, as garotas ainda iriam para
escola naquele dia. Diferente de hoje, em 1980, as escolas abriam suas portas
normalmente aos sábados. No entanto, naquele dia a atividade não seria de
reforço escolar. Véspera do Dia das Crianças, os estudantes não teriam
essencialmente uma aula, mas sim uma festa. O relógio de parede do quarto das
meninas marcava sete e meia. Faltava ainda meia hora para que elas acordassem.
Enroscada em um cobertor marrom, a pequena Valéria dormia um sono de anjo, sem
saber que o sábado mudaria de modo radical a sua vida. Até então, a menina que
sempre viveu em Bombinhas, havia tido uma infância feliz. Ela dormia o sono
daquela infância sem problemas.
Em 1980, Bombinhas não diferenciava
muito do que é hoje. Pelo menos no que diz respeito às vias públicas da cidade.
Grande parte das ruas não eram pavimentadas e havia pouca iluminação. Um
passeio de dez minutos pela área central hoje é o suficiente para se notar que
o tempo mudou pouca coisa. Em 1980, o município pertencia a Porto Belo e seus
moradores dependiam quase tudo da cidade vizinha. Banco, posto de saúde, escola
do ensino médio eram apenas alguns serviços que os moradores de Bombinhas não
possuíam. A economia toda baseada na
pesca, ainda não se sentia o impacto do turismo. As poucas pessoas que
procuravam Bombinhas com a intenção de lazer tinham origem no Rio Grande do
Sul. Os turistas gaúchos passavam apenas os finais de semana no verão. O
turismo começou a ganhar projeção e importância econômica a partir de 1992,
quando a cidade se emancipou de Porto Belo. Em 2007, o turismo correspondia a
mais de 70% do rendimento de uma família e a pesca é apenas uma renda extra
para os meses de inverno no município.
Valéria até o mês de outubro daquele
ano – então com dez anos – tinha uma vida normal de criança. Frequentava a
escola, brincava, ajudava a mãe nos afazeres de casa e participava das festas
populares de Bombinhas. Além da menina, a família era constituída por mais
quatro pessoas. A irmã Verônica, os irmãos Arildo e Amarildo, a mãe Alcione e o
pai Valdir. Todo o dinheiro que entrava em casa vinha do trabalho do pai, que
passava grande parte do mês embarcado. O pouco dinheiro que ele ganhava, a
família usava na alimentação, isso quando ganhava alguma coisa. Se a vida de
pescador é complicada hoje, naquele tempo poderia ser considerada bem pior. O
setor pesqueiro se encontrava em crise, até uma paralisação foi realizada: a
famosa “Greve da Sardinha” de setembro de 1980. A única renda da
maioria dos moradores vinha da pesca. Como os turistas não tinham o hábito de
visitar o lugar com frequência, ninguém contava com o dinheiro deles. Isso era
apenas a ponta do iceberg. Com os militares ainda no controle da economia, a
vida de uma família no início dos anos de1980 foi muito difícil. A democracia
começava a dar os primeiros passos com a discussão de uma nova Assembleia
Constituinte. As máquinas que alteravam os preços nas prateleiras dos
supermercados não paravam um dia sequer. Não perdoavam nem os dias santos. A
agricultura, sem incentivo algum do Governo Militar, definhava e o Brasil via
um êxodo rural de tamanho e aspecto medonhos. A cada dia, dezenas de refugiados
dos campos migravam para as cidades. Favelas, a fome e a violência começavam
fazer parte da realidade das capitais brasileiras. Mesmo em cidades pequenas como
Porto Belo, a crise perseguia os moradores e com a família de Valéria não foi
diferente. Naqueles tempos, a inflação de todo ano de 1980 passou dos 1.000%.
Valéria cresceu até então sem se preocupar com as crises econômicas ou
vigilância que o Estado insistia em impor aos seus cidadãos. A menina só
percebia a crise quando faltava comida em casa.
* *
*
Depois de muito esforço e de ficar
horas à deriva no mar, os três pescadores conseguiram alcançar a Ilha das
Galés. Estavam cansados, feridos, famintos e com frio. O tempo havia melhorado
e de vez em quando um vento Sul mais forte soprava, todavia nada que lembrasse
a tempestade anterior. Um sol tímido tentava romper as nuvens. Sob as copas das
árvores, um bando de gaivotas passou sobre os pescadores. Era um sinal de que
havia por perto um barco de pesca. Dos três homens, a situação de Mariano
preocupava mais. Ele tinha um corte profundo na cabeça e fraturas no braço
direito e em algumas costelas. Por isso, respirava com dificuldade. Na frente
da ilha, não apareceu um barco como haviam suspeitado, mas sim uma canoa. A
notícia do naufrágio já havia se espalhado por Bombinhas. Os dois pescadores
que guiavam à canoa procuravam pelos náufragos desde as oito horas da manhã. O
acidente havia sido avisado pela tripulação de uma embarcação que fugia da
tormenta e avistara o barco Estrela Dalva em apuros. Sem tempo para
perguntar os detalhes do naufrágio, os pescadores entraram na canoa e partiram
para o continente.
Quando a canoa chegou à praia de
Quatro de Ilhas já passava da uma da tarde. Algumas pessoas aguardavam notícias
do Estrela Dalva, sentadas na areia. Outras, de tão aflitas, não conseguiam
ficar quietas num canto. As famílias dos pescadores saíram agitadas de suas
casas assim que se anunciou à tragédia. Parentes de trabalhadores do mar
correram à praia de Quatro Ilhas. Valéria e a irmã pegaram todo esse movimento
nas ruas. Elas seguiam para a escola sem saber que o barco em que o pai
trabalhava tinha ido a pique. A mãe e os outros dois irmãos foram avisados
desde cedo, mas resolveram não contar a verdade para as meninas, principalmente
à Valéria, que era muito apegada ao pai. Quando ele chegava, depois de ficar no
mar por muitas semanas, Valéria, a irmã e as colegas de rua seguiam-no até um
bar e lá ganhavam doces. Era comum ver Valdir rodeado de crianças. Naquele dia,
elas ficariam sem as suas guloseimas.
Na praia, os filhos, netos e a
esposa choravam a morte do velho pescador Mariano. Ele não resistira aos
ferimentos e morrera durante o caminho. Por outro lado, a situação foi quase à
mesma para a família de Valdir. Sem ter o corpo do marido presente, a esposa
Alcione e os filhos choraram como se ele já estivesse morto. Reginaldo e João
ainda permaneciam assustados e contavam o que havia acontecido para os colegas
de pesca. A mesma história foi contada mais vezes durante aquele sábado e nos
anos que seguiram ao naufrágio. No mesmo dia do acidente, a Marinha e os
pescadores iniciaram as buscas por Valdir. Além das Galés, ilhas próximas como
a do Arvoredo, habitada na época, foram revistadas. Dos sobreviventes,
Reginaldo era o mais emocionado. Não conseguia falar nada sem chorar. Olhava
fixamente o corpo de Mariano estendido na praia.
– A culpa foi minha – disse João
para surpresa de todos.
Com as mãos sobre o rosto caminhou
em direção à família de Valdir. Bem próximo ao mar, os dois filhos amparavam a
esposa Alcione. Curiosos ainda chegavam à praia de Quatro Ilhas. Naquela tarde
fria e cinzenta de outubro, seja qual foi o motivo, um simples desejo mórbido
de bisbilhotar a dor alheia ou até mesmo oferecer um ombro amigo, os moradores
saíram de suas casas para ver a tragédia.
– Não fale isso João – comentou uma
pessoa entre a turba.
– Eu não devia ter saído com o barco
para alto mar. Ontem fui até a casa do Valdir. Ele não queria ir, chegou até a
dizer que não estava com vontade. Eu insisti tanto que ele acabou indo. Meu
Deus, porque eu não esperei mais um dia?
– perguntou o dono do Estrela Dalva no auge do desespero.
–
João, não é você que decide isso, aconteceu e pronto. Deus sabe o que faz
–tentou acalmar o mestre João, uma senhora chamada Augusta, que também havia
perdido um filho no mar.
–
Ele deve saber, mas eu fiz uma besteira em ter ido e levado os outros comigo.
–
João, nós vamos encontrar o Valdir, ele pode estar em alguma ilha – opinou
Reginaldo, ainda muito emocionado.
A noite chegou e trouxe com ela uma
dose a mais de aflição, desespero e sofrimento para as famílias dos pescadores
envolvidas no naufrágio. Quando se passa por uma situação muito dolorosa, a
impressão é que a noite intensifica a dor. As horas demoram a passar e tudo
parece longe de uma solução. Assim que a noite vai embora, um sentimento de
esperança e fé no futuro nasce junto com o amanhecer. Ao falar em sentimentos, vários
e diferentes deles perseguiam os moradores de Bombinhas naquela noite. Na praia
de Quatro Ilhas, apenas os pescadores que faziam as buscas por Valdir ficaram
na areia.
Na casa simples de Mariano, a
família aguardava pelo corpo. Um carro havia transportado o pescador para um
hospital de Itajaí, onde seria feita a autópsia. A esposa, os filhos, netos, sobrinhos e
vizinhos esperavam o cadáver com ansiedade. Havia pessoas no quintal, perto da
cerca de madeira e na sala que servia também de cozinha. Todos conversavam
sobre o mesmo assunto: o naufrágio. Cada um tinha uma explicação para o que
havia acontecido. Na parte da casa que
correspondia à sala, em cima de uma pequena mesa, uma vela acesa iluminava um
porta-retrato. Nele havia a imagem de um homem de cabelo branco e rosto cheio
de rugas. Era o velho Mariano. A foto tinha três anos e fora tirada dentro de
um barco, no litoral de São Paulo. À frente dessa mesa se encontrava o local
onde seria feita a vigília do corpo.
Mariano não foi o primeiro homem vítima de um naufrágio em Bombinhas. Desde
que chegaram os primeiros colonos da Ericeira, em 1818, pescadores descendentes
pereceram no mar. A morte como já foi dito, não é novidade para o pescador, mas
ele não gosta de comentar o assunto. A família tem conhecimento do risco e
também faz vista grossa a respeito. No entanto, quando acontece uma tragédia
ficam surpresos e perdidos ao mesmo tempo. Esse foi o caso de quem estava na
casa do velho Mariano.
Situações diferentes e também
dolorosas viviam as famílias dos dois sobreviventes. João até que tentou ajudar
na procura do corpo do amigo, mas foi convencido pelos colegas de profissão a
descansar primeiro. Assim que chegou ao refúgio de casa foi para cama. E lá, só
Deus sabe se teve uma noite de sono. Por outro lado, o jovem Reginaldo, sem
vontade de dormir, passou a noite na rua. Foi de casa em casa. Em cada lugar que
parava contou tudo que tinha acontecido na Ilha das Galés. Narrou os mesmos
fatos na casa de Mariano e na da família de Valdir. Vinte e oito anos se
passaram e Reginaldo ainda não esqueceu a madrugada daquele 11 de outubro de
1980.
Uma data difícil de esquecer também
para a família de Valéria. Naquele sábado, as meninas foram à festa da escola
sem saber do trágico destino do pai. Brincaram inocentemente aquela infância
feliz. No fim da tarde, retornaram e encontraram a casa vazia. Não estranharam
a ausência da família, porque para as meninas isso era comum. Já passava das
sete da noite, quando a mãe e os dois irmãos chegaram. Eles tinham que contar
tudo para as duas, mas não sabiam por onde começar. Até aquele momento tudo
fora escondido delas. Assim que eles entraram as meninas foram até a sala. Logo
que viram a mãe, que tentava esconder as lágrimas, notaram que algo estava
errado. O irmão Amarildo, então com 17 anos, foi o primeiro a falar.
– O barco do pai virou.
– O quê? – perguntou sem entender a
pequena Valéria.
– Eles foram pescar nas Galés e não
conseguiram escapar do temporal.
– Cadê o pai? Cadê o pai? - gritava
Valéria. Já a irmã Verônica apenas chorava.
– Ele caiu no mar – respondeu a mãe
sem conseguir conter as lágrimas.
– O pessoal começou a procurar por
ele. O pai deve tá em alguma ilha. Ele sabe nadar.
– Não! Ele não foi para nenhuma
ilha. Eu quero o meu pai agora. Ele não pode morrer, não pode. Eu vou atrás
dele.
Valéria já tentava passar pela
porta, quando foi agarrada por um dos irmãos. Ela chorava ao mesmo tempo em que
gritava pelo nome do pai. A cena era de desespero e chamou a atenção dos
vizinhos, que já adivinhavam o que acontecia. Desde pequena, Valéria nutria um
amor incondicional pelo pai. Quando Valdir viajava, isso acontecia muitas
vezes, a menina ia até o costão da praia de Quatro Ilhas para vê-lo
chegar. Isso se repetia todos os dias.
Assim que chegava de Santos – cidade no litoral paulista, onde Valdir também
passou boa parte da sua vida trabalhando – as meninas improvisavam uma festa e
Valéria permanecia sempre alegre. A primeira coisa que Valdir pensava era
reunir as crianças. Todos o seguiam até a venda mais próxima. Enquanto ele
bebia – e bebia muito por sinal – as crianças se empanturravam de doces. Mesmo
a queda pela bebida não superava o carinho que o pai sentia pelos filhos. Isso explicava o amor ao extremo de Valéria
pelo pai.
– Ele vai voltar. Ele vai voltar –
dizia o irmão Arildo, levando a irmã até o sofá junto da mãe.
– Não! Ele não vai voltar, eu sei.
Ele não vai voltar – gritava Valéria.
– Amanhã vamos até a praia. Vamos
ficar até a noite.
– Temos que ir agora, ele deve tá
precisando de ajuda – dizia a menina com a voz entrecortada pelos soluços.
A noite foi terrível para a família.
Valéria não conseguiu dormir. De vez em quando tinha crises de choro. O dia
amanheceu ensolarado. A menina depois de lutar contra o desespero a que havia
se entregado, conseguiu dormir um pouco. Na praia, barcos saíam para retomar as
buscas ao corpo do pescador. Durante 15 dias elas foram realizadas na Ilha das
Galés. Um navio da Marinha percorreu uma área de 50 quilômetros do
local, mas sem sucesso. Até um parente, mergulhador profissional, ajudou nas
buscas. Os dias se passaram e com eles foram às esperanças e possibilidades de
encontrar o pescador vivo. Tudo foi visto e revisto. Cada fenda dos costões das
praias de Bombinhas, cada canto de ilha, porém nada do corpo de Valdir
aparecer.
* *
*
Cinco anos se passaram e Valéria
cresceu sem esquecer o naufrágio. O trauma foi tanto que ela não entrava no mar
por motivo nenhum, mesmo nos dias quentes de verão. O corpo do pai não havia
sido encontrado e pela experiência dos pescadores jamais apareceria. Ela sempre
culpou os dois únicos sobreviventes, mas o mestre João foi o alvo principal do
ódio da menina. Não podia vê-lo na rua e dizia para todo mundo que a culpa era
dele, já que havia insistido tanto em sair para o mar. À revolta de Valéria não
tinha como destino apenas o pescador e sim todas as pessoas que conviviam com ela.
O desaparecimento do pai foi o principal motivo da sua indignação. Desde os 11
anos já sabia qual profissão seguiria. A mãe ainda se lembra da época, dezembro
de 1981, quando a filha chegou da escola sem fôlego. Valéria acabava de passar
de ano para a sexta-série.
– Mãe eu já sei o que quero ser.
– O que aconteceu contigo minha
filha?
– Nada, eu vim correndo pra contar a
minha decisão.
– Que decisão?
– Ora, de ser advogada. Agora sei o
que quero ser no futuro. Vou estudar bastante para um dia fazer uma faculdade
igual a minha professora.
Nesses cinco anos, a família com ajuda
dos filhos e de parentes conseguiu sobreviver à falta de Valdir. Arildo, com
apenas 15 anos, teve que trabalhar em um barco de pesca. Amarildo, o filho mais
velho, também seguiu o mesmo caminho do irmão. Em Bombinhas, a pesca ainda é
uma profissão herdada de pai para filho. Com o tempo, a pesca foi aprimorada,
novas técnicas apareceram, os barcos ficaram mais modernos e os próprios
pescadores se capacitaram, mas a tradição dos filhos homens seguirem a
profissão de seus pais continua. Já no caso das mulheres, o destino é bem
diferente. Criadas para os afazeres domésticos, elas seguem o exemplo das mães,
donas de casas na sua maioria. Valéria queria mudar a sina das mulheres filhas
de pescadores. Desde pequena sabia que essa mudança seria possível somente com
os estudos. Enquanto a revolução não chegava, a garota mantinha uma vida normal
e sem novidades. Estudava a tarde e ajudava a mãe nos afazeres domésticos de
manhã. A jovem não era de sair de casa. Aliás, Bombinhas, em 1985, não dispunha
de grandes distrações para a juventude. Um acontecimento na cidade era ir à
praia ver as baleias, que apareciam no litoral catarinense a partir do mês de
setembro.
–
Às vezes não dá vontade de fazer igual às baleias. Sair pelo mundo?
– A mim não – disse uma das garotas.
– Valéria, tu tens cada ideia.
– Por quê?
– Olha lá!
Uma baleia havia aparecido e chamado à
atenção. Valéria não falou mais nada. Seus pensamentos vagavam pelo mar e, como
as ondas, voltavam. A menina falava muito pouco, porém seu gênio era inquieto e
sua personalidade forte.
– Valéria o que aconteceu com aquela
carta que você mandou para o governador? – perguntou uma das amigas,
referindo-se ao então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, ao mesmo
tempo em que se levantava da areia para observar a baleia.
– Não deu em nada, ele nem sequer
respondeu – disse cabisbaixa.
Até 1986, os alunos que terminavam a 8ª
série do ensino fundamental e quisessem continuar os estudos tinham que ir até
Porto Belo. Além disso, eles eram obrigados a pagar uma mensalidade todos os
meses para a manutenção da escola, que não era pública. Na época, a obrigação
do Estado correspondia apenas ao ensino do 1º Grau, da 1ª a 8ª série. Quem não
tivesse condições não continuava. Valéria seria um desses alunos caso não fosse
à ajuda que recebia dos irmãos. O dinheiro que entrava em casa vinha da
pescaria de Arildo e Amarildo. A mãe não recebia nada referente ao marido
porque ele oficialmente não estava morto. Somente depois de cinco anos, ou
seja, no fim de 1985, a
esposa de Valdir começou a ganhar a pensão pela morte do marido. Um salário
mínimo, impiedosamente devorado por uma inflação que em 1986 chegaria a 115% ao
mês.
Assim que começou a cursar o 2º Grau
ou o ensino médio de hoje, numa escola de Porto Belo, Valéria resolveu abraçar
sua primeira causa: lutar para que todos os alunos tivessem o direito de
terminar os estudos sem precisar pagar. No começo de 1985, ela enviou uma carta
ao governador de Santa Catarina. A carta estava assim escrita:
“”Senhor Governador do Estado de Santa Catarina, Esperidião
Amin.
Meu nome é Valéria Alcione Melo e estou
matriculada na 1ª série do 2º Grau. Escrevo em nome dos jovens de Porto Belo,
que precisam estudar, mas não tem condições de pagar as mensalidades do 2º
Grau. Tenho hoje 15 anos e moro com a minha mãe, uma irmã e dois irmãos. Perdi
meu pai em um naufrágio, quando tinha apenas dez anos. Desde então a vida da
nossa família mudou e confesso para pior. A gente dependia só do sustento do
que o pai trazia para casa. A mãe não tem trabalho, o governo não libera a
pensão que temos direito porque o corpo não foi encontrado. Nossa situação não
é mais complicada porque meus irmãos Arildo e Amarildo trabalham. O dinheiro
para comida são eles que colocam em casa. Às vezes aparece um turista do Rio
Grande do Sul, que aluga uma parte da nossa casa, mas isso acontece em alguns
dias do verão.
É com muito sacrifício que meus irmãos me ajudam a pagar todo o mês o
carnê da escola. A minha situação é difícil, mas existem aqui em Porto Belo , dezenas de
jovens que tiveram que abandonar a escola porque não possuem dinheiro para
estudar. Este ano devo terminar 1ª série do 2º Grau e a minha preocupação é com
1986. Minha família já avisou que não terá condições de continuar a pagar o
carnê. Peço em nome da juventude de Porto Belo que o senhor interceda por nós e
construa uma escola estadual. Não precisa ser em Bombinhas, onde moro, mas que
seja perto de casa. Quero continuar estudando e esse é o desejo de muitas
garotas e garotos de Porto Belo. Na minha conta eu não coloco as despesas do
transporte e do material escolar. Se o senhor não tiver condições de construir
a escola, peço então que nos ajude a pagar. Assim que terminar meus estudos,
quero fazer a Faculdade de Direito. Que Deus o abençoe e não faça esquecer desse
pedido.
Obrigada”.
A carta foi enviada pelos Correios à
Florianópolis em junho de 1985. Quando a colega perguntou sobre a missiva já
era quase outubro. A menina se chamava Cátia e também tinha interesse na
resposta do governador. Aquele ano passou e nada de alguém atender ao pedido de
Valéria. Quem pensa que ela pintou de negro um quadro colorido se engana.
Orgulhosa, a carta apenas retratava uma parte da sua vida. O dia a dia da
família Melo era bem mais difícil. O ano de 1986 chegou e não restou outro
jeito para Valéria senão continuar a pagar por seus estudos. Ela já não
esperava mais pela resposta de prefeito, governador ou presidente. Se
dependesse da vontade política da época, a menina não teria terminado o
primário. A vontade de vencer superava todas as dificuldades. Ela tirava força
para lutar de onde não tinha. Apesar de todos os obstáculos, Valéria continuou
sua caminhada para realizar seu sonho: de ser advogada. Além de poder ajudar
aos outros, a garota queria ajudar a família.
* * *
Aos 15 anos, Valéria era a rainha do lugar.
Não existia nenhuma mulher que conseguisse vencê-la na beleza. Apesar de não
ligar para isso, ela percebia os olhares mais atrevidos dos homens. É certo que
essa beleza fez aumentar a sua altivez e auto-estima, mas, no fundo, Valéria
não se preocupava. Difícil o jovem que não se encantasse com a sua fisionomia.
Os longos cabelos castanhos eram levemente ondulados na fronte. A menina tinha
um rosto de feições suaves. Seus lábios, pequenos e o nariz pareciam ter sido
esculpidos por Donatello. Os olhos eram
grandes e sérios, contudo transmitiam afeto. Além da beleza, Valéria possuía
uma inteligência e o senso de responsabilidade fora do normal para sua idade.
Em casa, gostava de ver tudo em ordem. Brigas com os irmãos aconteciam com assiduidade.
Ela não admitia que sujassem algo que havia acabado de limpar e isso era motivo
para uma briga. O amor materno também servia de pretexto para uma nova
disputa. Depois que o pai morreu, todos
os filhos queriam a atenção e a mãe tinha que se desdobrar em quatro para dar
carinho. No caso de Valéria, queria todo o afeto só para ela. Os
desentendimentos não duravam muito tempo e a garota sempre achava um jeito de
fazer as pazes com a família. Desafiava todo mundo em um dia, reconciliava no
outro, para provocar mais uma vez no dia seguinte. Assim era Valéria, linda,
decidida, inteligente, mas com uma personalidade tão forte que ela mesma não
conseguia controlar.
Mesmo
sem dizer nada para ninguém, o pai ainda lhe fazia falta. A revolta que trazia desde pequena não havia
abrandado. Isso não foi um obstáculo para a garota, já que existiam outros bem
maiores para superar, por exemplo, a distância de casa para a escola. Na 2ª
série do 2º Grau, ela continuava a estudar em Porto Belo e desta vez
à noite. Sem contar com uma condução ou uma linha de ônibus, os estudantes
dependiam da carona de um colega. O transporte era a carroceria de uma
caminhonete. Ela saía de casa às 18h30min e retornava perto da meia noite.
Durante o dia, ajudava nas tarefas de casa e estudava. Valéria manteve essa
rotina até 11 de março de 1986. Três dias antes, ela teve um sonho estranho, um
presságio do que aconteceria. Encontrava-se no sofá, pensativa e isso chamou a
atenção da mãe.
– O que você tem hoje minha filha?
Acordou cedo e foi direto para o sofá.
– Nada, estava pensando no sonho que
tive.
– Que sonho?
– Não sei, tenho medo de contar.
Esquece é besteira.
– É melhor contar do que guardar
isso aí dentro de ti.
– Eu não me lembro de muita coisa.
Estava deitada em uma cama de hospital. Na cabeceira eu consegui ver três
médicos e a mãe. Havia também outra pessoa que apenas chamava por mim. Não sei
quem era.
– Você deve ter visto algum filme na
televisão – disse a mãe indo para a cozinha.
– Pode ser.
Valéria ficou pensativa durante todo o
sábado. Não brigou com os irmãos e não exigiu muito de si. O fim de semana, o
penúltimo do verão de 1986, havia começado. Para Valéria isso não fazia a menor
diferença, já que ela não tinha o hábito de sair de casa. Muito raramente ia ao
baile e sempre acompanhada do irmão mais velho. Amarildo era a única pessoa em
que ela confiava, depois do seu diário. A sua beleza chamava atenção dos
garotos, mas ela não queria nada com eles. Dizia sempre que a prioridade eram
os estudos. Na segunda-feira, dia 10 de
março, a mãe da garota ficou doente e ela não foi para a escola. Apesar de ser
uma gripe, Valéria resolveu ficar em casa. No dia seguinte, Alcione melhorou, mas algo
dentro da menina dizia para ela não sair.
– Não estou com vontade de ir para a
aula hoje.
– Então não vai minha filha –
sugeriu a mãe.
– Eu não gosto de faltar e já faltei
ontem
Encostada na porta da sala, Valéria
já com a mochila nas costas e arrumada para ir para a escola, permaneceu indecisa.
Os minutos passaram com ela em silêncio, pensava qual decisão tomar. Enquanto a
resposta não vinha, a mãe tentou dissuadi-la.
– Se não tá com vontade de ir, não
vai guria.
– Já vou mãe. Tchau.
Valéria deu as costas e ainda ouviu
a mãe dizer: “Deus te acompanhe minha filha”. No caminho até a avenida
principal que corta Bombinhas, a moça encontrou dois homens que estavam em
frente a um bar. Como era uma mulher bonita, sempre um engraçadinho fazia um
comentário indecente. Valéria empinou o nariz e seguiu o seu caminho em direção
ao seu destino. Quando chegou ao ponto, onde pegaria a carona na caminhonete
junto com os outros estudantes, encontrou a colega Cátia.
– Hoje tem prova de história. Vai
cair a Revolução Francesa. Estudastes? - perguntou Valéria para a colega.
– Claro que sim. Escuta, eu não
quero saber de guilhotinas ou de Napoleão. Quero falar uma coisa para ti. Tem
um guri e ele é tão...
A história de um rapaz interessado
nela, não causou nenhuma novidade para Valéria. Ela não levou em consideração o
que Cátia disse. Além disso, a moça tinha olhos apenas para a escola e naquele
momento não pensava só nisso. Alguma coisa que Valéria não entendia ainda a
deixava angustiada. Quando ela subiu na caminhonete, tentou desistir, mas já
era tarde demais, o carro seguiu em direção a Porto Belo. O caminho foi calmo, aula normal e nada de
interessante aconteceu. No entanto, o retorno estava reservado para uma
tragédia.
No caminho, os estudantes
conversavam e faziam muito barulho. A cem metros do ponto em que a caminhonete
iria parar, Valéria resolveu se levantar para arrumar a mochila. Ao passar por
uma lajota fora do caminho, o veículo fez um movimento brusco. A garota perdeu
o equilíbrio e caiu na estrada. A caminhonete andou alguns metros sem que as
outras seis pessoas que estavam na caçamba percebessem a queda da jovem. Um
motociclista que seguia o carro logo atrás foi o primeiro a socorrer a
estudante. Ainda com a mochila nas costas, Valéria se encontrava inconsciente.
O único ferimento era um pequeno corte na altura da testa. Tentaram reanimá-la
com ajuda de pano molhado no álcool, mas não deu certo. A menina continuava
desmaiada em frente da igreja católica de Bombinhas.
Um casal que passava pelo local e
com um pouco de conhecimento de primeiros socorros decidiu levá-la para que
fosse examinada por um médico de Porto Belo. Foi somente nesse momento que se
descobriu que a situação foi mais grave do que parecia. O pequeno corte havia
provocado um coágulo no cérebro. Por recomendação do médico que pouco poderia
fazer pela menina, Valéria foi levada às pressas ao hospital mais próximo, que
na época ficava a 50
quilômetros de distância. A estudante que lutava tanto para vencer,
começava a travar uma nova batalha, agora contra a morte. A garota deu entrada
num hospital de Itajaí, por volta das duas horas da madrugada, ou seja, quase
três horas após o acidente. Quando os enfermeiros a colocaram na maca, ela
tentou se levantar. Assim que abaixou de novo a cabeça, o sangue começou a
jorrar pela boca. Os médicos a levaram para a sala de cirurgia, onde tiveram
que cortar todo o cabelo. Valéria foi internada na Unidade de Terapia
Intensiva. O diagnóstico: traumatismo craniano. Sem documentos, a estudante não
deu entrada como indigente, porque uma enfermeira, moradora de Bombinhas, a
reconheceu assim que entrou no hospital.
Ao mesmo tempo em que o casal de
desconhecidos levou Valéria para Porto Belo, uma colega da estudante foi avisar
a mãe, que já estava ansiosa com a demora da filha. Até àquela hora, dona
Alcione não tinha conhecimento da gravidade do acidente. Quer dizer, ninguém
tinha. Por isso a demora em procurar socorro médico. No dia seguinte, logo de
manhã, a enfermeira que reconheceu Valéria foi até a casa dar notícias e,
infelizmente, más notícias. A garota ainda estava viva, todavia não seria por
muito tempo. Com traumatismo craniano, Valéria respirava com ajuda de
aparelhos. O estado de saúde dela era considerado gravíssimo. Mesmo que
conseguisse escapar, os médicos deram como certo que ela teria sequelas graves.
Chegou-se a cogitar a possibilidade de desligar os aparelhos, probabilidade
essa negada pela família. Durante 72 horas, a menina que um dia sonhou ser
advogada lutou para se manter viva. No dia 14 de março de 1986, os médicos
deram a sentença final: Valéria estava morta. Um mês antes de morrer, a menina
que encantou a todos com a sua força de vontade e beleza escreveu no
inseparável diário:
“Vou
lutar para vencer e vencerei”
* *
*
Um navio de grandes proporções
entrou na Enseada das Garoupas, em direção a Porto Belo. De longe dava para
ouvir o apito da embarcação que se preparava para atracar. Era um cruzeiro que
trazia centenas de turistas estrangeiros para conhecer o litoral catarinense.
Eu que permanecia sentado, me levantei para ver o navio e também para esconder
uma lágrima furtiva do meu rosto.
– Essa história foi muito triste.
Deu até vontade de chorar – disse ao mesmo tempo em que observava o navio
cruzeiro.
– Tem coisas que por mais que
tentemos, nunca vamos encontrar uma explicação. Esse foi o caso de Valéria.
– E como ficou a família dela? –
perguntei ainda vendo, mesmo de longe, o navio desembarcar numa pequena
embarcação, os primeiros turistas que seguiriam para terra firme.
– Sobreviveu como toda a família que
passa por uma tragédia dessas. Se você quiser podemos ir até a casa da mãe dela
e dos irmãos. Eles moram perto daqui.
– Eu gostaria muito.
– Você está com fome? – perguntou o
meu xará ao notar que eu olhava para o relógio, já eram quase meio dia.
– Sim, existe um lugar para almoçar
aqui perto?
– Conheço um excelente a menos de um
quilômetro daqui. No caminho continuo a contar a história dos descendentes dos
pescadores da Ericeira. Não fique preocupado, garanto a você que a próxima
história não será tão triste.

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