domingo, 1 de janeiro de 2017

Capítulo IV – Valéria

               Xilografia Fábio Dudas/Divulgação
                                                                                                                              
              Quando o   barco de pesca Estrela Dalva saiu da Praia do Mariscal, em Bombinhas, na madrugada de sábado, dia 11 de outubro de 1980, o tempo era bom e o mar tranquilo. Cenário bem diferente dos primeiros dez dias daquele mês, que haviam sido de muita chuva. Por esse motivo, os quatro tripulantes do Estrela Dalva aproveitaram o tempo bom para pescar. A embarcação seguia rumo a Galés, uma pequena ilha de formação rochosa, distante 11 quilômetros da costa. No lugar da tainha, o alvo dos trabalhadores do mar desta vez foi à corvina. O barco ancorou próximo à Ilha, às cinco horas. Enquanto não chegava a hora de recolher as redes, os pescadores iniciaram uma conversa para espantar o sono. Mariano, um pescador com 60 anos de vida e 45 dedicados à pesca foi o primeiro a falar. 

            – Eu acho que o tempo vai virar. Está calmo demais aqui. Vocês não acham? Olhem como o vento começou a soprar a Sudeste – disse o velho marujo encostado junto à proa. 

            Para quem possui experiência, o vento na direção Sudeste em alto mar pode trazer muitas preocupações. Já para os mais jovens, o conhecimento dos mais velhos, às vezes se torna uma oportunidade a mais para uma pilhéria. Foi o que fez Reginaldo, o mais novo dos tripulantes do Estrela Dalva. 

            – Sabe que eu acho? O senhor trouxe uma garrafa de cachaça para bordo e tomou tudo.

            Reginaldo também filho de pescador, com seus 23 anos, andou pela lateral da embarcação. Fez de conta que tinha uma garrafa de aguardente na mão. Levantou o dedo indicador esquerdo molhou no lábio e verificou a direção do vento. Com a voz entrecortada de um bêbado disse para a gargalhada de todos:

            – “Meu Deus! O vento mudou para Sudeste”. Até Mariano esboçou um sorriso tímido.

            Depois de alguns minutos de silêncio, Valdir, um pescador loiro cheio de sardas mudou de assunto. Ele perguntou para o dono do barco, um senhor com a idade e o mesmo tempo de pesca do velho Mariano, sobre o cargueiro Lili.

            – João, onde tá o navio fantasma?

            – Que navio fantasma?

            – O navio que encalhou. Dizem que até mesmo da ilha dá para ouvir os gritos dos marinheiros que morreram no naufrágio.

            Da cabine do barco, João apontou para a escuridão do oceano rumo ao farol – a única testemunha do diálogo daqueles pescadores. 

            – Tudo isso não passa de crendices do povo. O resto do navio está naquela direção, mas não existe fantasma nenhum – continuou o dono e mestre do barco.

            A embarcação alvo da conversa dos pescadores era o cargueiro Lili. Em 1958, o navio de bandeira espanhola se perdeu durante um nevoeiro e bateu nas pedras da Ilha das Galés. Morreram nesse naufrágio cerca de 30 marinheiros. A embarcação pode ser vista dividida ao meio e a uma profundidade superior a cinco metros. Hoje, o navio serve de abrigo para algas, peixes de todas as espécies, tartarugas marinhas e arraias. Fora esse naufrágio, outra curiosidade não vem do mar e sim do ar. A Ilha das Galés é um dos mais importantes locais de acasalamento de aves marinhas da costa brasileira. 

            Perto das seis horas, em vez dos primeiros raios de sol, quem apareceu mesmo foram às nuvens mais pesadas no horizonte. O vento havia mudado mais uma vez de direção. Soprava agora sentido Leste e bem forte.

            – É melhor a gente recolher as redes logo e sair daqui. O seu Mariano acertou mais uma vez – gritou Valdir.

            – Eu peço desculpas seu Mariano – disse o jovem Reginaldo assustado com a tempestade que começava a se formar.

            – Não é hora de papo agora. Vamos, puxem as redes – ordenou João.

            Os quatro tripulantes do Estrela Dalva começaram a puxar as redes com toda a pressa do mundo. Não prestavam atenção na quantidade de peixes que jogavam no porão do barco. Os olhares estavam direcionados às nuvens negras, que para o azar dos pescadores, eram bem mais rápidas do que eles. Para completar, uma das redes ficou enrolada em um coral e mesmo com toda a força dos pescadores nada conseguia levantá-la. Um raio iluminou o crepúsculo e logo em seguida um trovão fez tremer a embarcação. Aquele era um sinal para que eles tomassem uma medida extrema. Mariano e Valdir puxaram cada um sua faca e desprenderam a rede. O vento era muito forte, os raios caiam por todos os lados. Os pescadores se refugiaram na cabine. João ligou os motores e o Estrela Dalva seguiu como pode em direção à ilha, desafiando as ondas de quase três metros de altura e os relâmpagos. Todavia, já era tarde demais para os pescadores, a tempestade caiu com toda força. A batalha que estava prestes a ser travada era de David e Golias. No entanto, ao contrário da Bíblia, na história do Estrela Dalva e seus tripulantes, o vencedor não seria o mais fraco.

            Dentro da cabine ninguém conseguia ficar em pé. A chuva caía agora a cântaros. O vento forte quebrou ao meio o mastro central do barco. A situação era tão grave que os quatro pescadores já se encontravam cada um com seu salva-vidas. O equipamento passava uma falsa sensação de segurança. Mesmo com o salva-vidas seria muito difícil sobreviver. Acostumados com os perigos do mar, João e Mariano estavam receosos. Embora indesejável, a morte é uma companheira sempre constante para aqueles que desafiam o oceano. Cada pescador, com pelo menos cinco anos de profissão já perdeu um amigo, colega ou parente num naufrágio. Além disso, os quatro homens descendiam dos imigrantes portugueses que vieram da Ericeira. Mesmo sem saber, eles traziam no sangue o gosto pelo mar e a coragem para enfrentá-lo. Porém, naquele 11 de outubro de 1980, a morte anunciava-se mais próxima. E os dois velhos pescadores pressentiam isso.

            A situação agora era de desespero. Os vagalhões empurravam o barco cada vez mais para o fundo. Por duas vezes a embarcação quase foi engolida pelo mar. Uma onda mais forte inclinou para o lado o barco e depois o virou. Desesperados, os homens tentaram sair da cabine pela portinhola. Não conseguiram e na hora que tentavam fazer isso uma onda gingante atingiu a cabine, levando a embarcação para o fundo do mar. O impacto do vagalhão foi tão grande, que minutos depois os destroços do Estrela Dalva submergiram, junto com três pescadores. Faltava um tripulante.

            Próximo a Ilha das Galés, o farol que há 22 anos havia testemunhado o naufrágio do cargueiro Lili, observava friamente a do barco de pesca que homenageava o planeta Vênus. No meio do Atlântico Sul, três pessoas lutavam para sobreviver. Seus pedidos de socorro se perdiam no meio das ondas e dos raios que caíam sob as suas cabeças. Cada pescador se agarrou como pode em algum pedaço da embarcação e assim lutou contra a morte.  


*    *    *

            Uma chuva bem fraca em forma de garoa insistia em cair na manhã daquele 11 de outubro. Pequenos pingos escorriam pelas telhas de barro e formavam poças nas três janelas da casa de madeira. Em um desses quartos dormiam duas meninas: Verônica e Valéria. O quarto era simples. Duas camas de solteiro, um guarda-roupa velho, que além de guardar as vestes das meninas, servia também de alimentação aos cupins, e um criado-mudo formavam toda a mobília. A primeira tinha oito anos e a segunda era dois anos mais velha. Embora estudassem à tarde, as garotas ainda iriam para escola naquele dia. Diferente de hoje, em 1980, as escolas abriam suas portas normalmente aos sábados. No entanto, naquele dia a atividade não seria de reforço escolar. Véspera do Dia das Crianças, os estudantes não teriam essencialmente uma aula, mas sim uma festa. O relógio de parede do quarto das meninas marcava sete e meia. Faltava ainda meia hora para que elas acordassem. Enroscada em um cobertor marrom, a pequena Valéria dormia um sono de anjo, sem saber que o sábado mudaria de modo radical a sua vida. Até então, a menina que sempre viveu em Bombinhas, havia tido uma infância feliz. Ela dormia o sono daquela infância sem problemas.

            Em 1980, Bombinhas não diferenciava muito do que é hoje. Pelo menos no que diz respeito às vias públicas da cidade. Grande parte das ruas não eram pavimentadas e havia pouca iluminação. Um passeio de dez minutos pela área central hoje é o suficiente para se notar que o tempo mudou pouca coisa. Em 1980, o município pertencia a Porto Belo e seus moradores dependiam quase tudo da cidade vizinha. Banco, posto de saúde, escola do ensino médio eram apenas alguns serviços que os moradores de Bombinhas não possuíam.  A economia toda baseada na pesca, ainda não se sentia o impacto do turismo. As poucas pessoas que procuravam Bombinhas com a intenção de lazer tinham origem no Rio Grande do Sul. Os turistas gaúchos passavam apenas os finais de semana no verão. O turismo começou a ganhar projeção e importância econômica a partir de 1992, quando a cidade se emancipou de Porto Belo. Em 2007, o turismo correspondia a mais de 70% do rendimento de uma família e a pesca é apenas uma renda extra para os meses de inverno no município.

            Valéria até o mês de outubro daquele ano – então com dez anos – tinha uma vida normal de criança. Frequentava a escola, brincava, ajudava a mãe nos afazeres de casa e participava das festas populares de Bombinhas. Além da menina, a família era constituída por mais quatro pessoas. A irmã Verônica, os irmãos Arildo e Amarildo, a mãe Alcione e o pai Valdir. Todo o dinheiro que entrava em casa vinha do trabalho do pai, que passava grande parte do mês embarcado. O pouco dinheiro que ele ganhava, a família usava na alimentação, isso quando ganhava alguma coisa. Se a vida de pescador é complicada hoje, naquele tempo poderia ser considerada bem pior. O setor pesqueiro se encontrava em crise, até uma paralisação foi realizada: a famosa “Greve da Sardinha” de setembro de 1980. A única renda da maioria dos moradores vinha da pesca. Como os turistas não tinham o hábito de visitar o lugar com frequência, ninguém contava com o dinheiro deles. Isso era apenas a ponta do iceberg. Com os militares ainda no controle da economia, a vida de uma família no início dos anos de1980 foi muito difícil. A democracia começava a dar os primeiros passos com a discussão de uma nova Assembleia Constituinte. As máquinas que alteravam os preços nas prateleiras dos supermercados não paravam um dia sequer. Não perdoavam nem os dias santos. A agricultura, sem incentivo algum do Governo Militar, definhava e o Brasil via um êxodo rural de tamanho e aspecto medonhos. A cada dia, dezenas de refugiados dos campos migravam para as cidades. Favelas, a fome e a violência começavam fazer parte da realidade das capitais brasileiras. Mesmo em cidades pequenas como Porto Belo, a crise perseguia os moradores e com a família de Valéria não foi diferente. Naqueles tempos, a inflação de todo ano de 1980 passou dos 1.000%. Valéria cresceu até então sem se preocupar com as crises econômicas ou vigilância que o Estado insistia em impor aos seus cidadãos. A menina só percebia a crise quando faltava comida em casa.
 

*    *    *

            Depois de muito esforço e de ficar horas à deriva no mar, os três pescadores conseguiram alcançar a Ilha das Galés. Estavam cansados, feridos, famintos e com frio. O tempo havia melhorado e de vez em quando um vento Sul mais forte soprava, todavia nada que lembrasse a tempestade anterior. Um sol tímido tentava romper as nuvens. Sob as copas das árvores, um bando de gaivotas passou sobre os pescadores. Era um sinal de que havia por perto um barco de pesca. Dos três homens, a situação de Mariano preocupava mais. Ele tinha um corte profundo na cabeça e fraturas no braço direito e em algumas costelas. Por isso, respirava com dificuldade. Na frente da ilha, não apareceu um barco como haviam suspeitado, mas sim uma canoa. A notícia do naufrágio já havia se espalhado por Bombinhas. Os dois pescadores que guiavam à canoa procuravam pelos náufragos desde as oito horas da manhã. O acidente havia sido avisado pela tripulação de uma embarcação que fugia da tormenta e avistara o barco Estrela Dalva em apuros. Sem tempo para perguntar os detalhes do naufrágio, os pescadores entraram na canoa e partiram para o continente.

            Quando a canoa chegou à praia de Quatro de Ilhas já passava da uma da tarde. Algumas pessoas aguardavam notícias do Estrela Dalva, sentadas na areia. Outras, de tão aflitas, não conseguiam ficar quietas num canto. As famílias dos pescadores saíram agitadas de suas casas assim que se anunciou à tragédia. Parentes de trabalhadores do mar correram à praia de Quatro Ilhas. Valéria e a irmã pegaram todo esse movimento nas ruas. Elas seguiam para a escola sem saber que o barco em que o pai trabalhava tinha ido a pique. A mãe e os outros dois irmãos foram avisados desde cedo, mas resolveram não contar a verdade para as meninas, principalmente à Valéria, que era muito apegada ao pai. Quando ele chegava, depois de ficar no mar por muitas semanas, Valéria, a irmã e as colegas de rua seguiam-no até um bar e lá ganhavam doces. Era comum ver Valdir rodeado de crianças. Naquele dia, elas ficariam sem as suas guloseimas.

            Na praia, os filhos, netos e a esposa choravam a morte do velho pescador Mariano. Ele não resistira aos ferimentos e morrera durante o caminho. Por outro lado, a situação foi quase à mesma para a família de Valdir. Sem ter o corpo do marido presente, a esposa Alcione e os filhos choraram como se ele já estivesse morto. Reginaldo e João ainda permaneciam assustados e contavam o que havia acontecido para os colegas de pesca. A mesma história foi contada mais vezes durante aquele sábado e nos anos que seguiram ao naufrágio. No mesmo dia do acidente, a Marinha e os pescadores iniciaram as buscas por Valdir. Além das Galés, ilhas próximas como a do Arvoredo, habitada na época, foram revistadas. Dos sobreviventes, Reginaldo era o mais emocionado. Não conseguia falar nada sem chorar. Olhava fixamente o corpo de Mariano estendido na praia.

            – A culpa foi minha – disse João para surpresa de todos.

            Com as mãos sobre o rosto caminhou em direção à família de Valdir. Bem próximo ao mar, os dois filhos amparavam a esposa Alcione. Curiosos ainda chegavam à praia de Quatro Ilhas. Naquela tarde fria e cinzenta de outubro, seja qual foi o motivo, um simples desejo mórbido de bisbilhotar a dor alheia ou até mesmo oferecer um ombro amigo, os moradores saíram de suas casas para ver a tragédia.

            – Não fale isso João – comentou uma pessoa entre a turba.

            – Eu não devia ter saído com o barco para alto mar. Ontem fui até a casa do Valdir. Ele não queria ir, chegou até a dizer que não estava com vontade. Eu insisti tanto que ele acabou indo. Meu Deus, porque eu não esperei mais um dia?  – perguntou o dono do Estrela Dalva no auge do desespero.

– João, não é você que decide isso, aconteceu e pronto. Deus sabe o que faz –tentou acalmar o mestre João, uma senhora chamada Augusta, que também havia perdido um filho no mar.

– Ele deve saber, mas eu fiz uma besteira em ter ido e levado os outros comigo.

– João, nós vamos encontrar o Valdir, ele pode estar em alguma ilha – opinou Reginaldo, ainda muito emocionado.

            A noite chegou e trouxe com ela uma dose a mais de aflição, desespero e sofrimento para as famílias dos pescadores envolvidas no naufrágio. Quando se passa por uma situação muito dolorosa, a impressão é que a noite intensifica a dor. As horas demoram a passar e tudo parece longe de uma solução. Assim que a noite vai embora, um sentimento de esperança e fé no futuro nasce junto com o amanhecer. Ao falar em sentimentos, vários e diferentes deles perseguiam os moradores de Bombinhas naquela noite. Na praia de Quatro Ilhas, apenas os pescadores que faziam as buscas por Valdir ficaram na areia.

            Na casa simples de Mariano, a família aguardava pelo corpo. Um carro havia transportado o pescador para um hospital de Itajaí, onde seria feita a autópsia.  A esposa, os filhos, netos, sobrinhos e vizinhos esperavam o cadáver com ansiedade. Havia pessoas no quintal, perto da cerca de madeira e na sala que servia também de cozinha. Todos conversavam sobre o mesmo assunto: o naufrágio. Cada um tinha uma explicação para o que havia acontecido.  Na parte da casa que correspondia à sala, em cima de uma pequena mesa, uma vela acesa iluminava um porta-retrato. Nele havia a imagem de um homem de cabelo branco e rosto cheio de rugas. Era o velho Mariano. A foto tinha três anos e fora tirada dentro de um barco, no litoral de São Paulo. À frente dessa mesa se encontrava o local onde seria feita a vigília do corpo.  Mariano não foi o primeiro homem vítima de um naufrágio em Bombinhas. Desde que chegaram os primeiros colonos da Ericeira, em 1818, pescadores descendentes pereceram no mar. A morte como já foi dito, não é novidade para o pescador, mas ele não gosta de comentar o assunto. A família tem conhecimento do risco e também faz vista grossa a respeito. No entanto, quando acontece uma tragédia ficam surpresos e perdidos ao mesmo tempo. Esse foi o caso de quem estava na casa do velho Mariano.

            Situações diferentes e também dolorosas viviam as famílias dos dois sobreviventes. João até que tentou ajudar na procura do corpo do amigo, mas foi convencido pelos colegas de profissão a descansar primeiro. Assim que chegou ao refúgio de casa foi para cama. E lá, só Deus sabe se teve uma noite de sono. Por outro lado, o jovem Reginaldo, sem vontade de dormir, passou a noite na rua. Foi de casa em casa. Em cada lugar que parava contou tudo que tinha acontecido na Ilha das Galés. Narrou os mesmos fatos na casa de Mariano e na da família de Valdir. Vinte e oito anos se passaram e Reginaldo ainda não esqueceu a madrugada daquele 11 de outubro de 1980.

            Uma data difícil de esquecer também para a família de Valéria. Naquele sábado, as meninas foram à festa da escola sem saber do trágico destino do pai. Brincaram inocentemente aquela infância feliz. No fim da tarde, retornaram e encontraram a casa vazia. Não estranharam a ausência da família, porque para as meninas isso era comum. Já passava das sete da noite, quando a mãe e os dois irmãos chegaram. Eles tinham que contar tudo para as duas, mas não sabiam por onde começar. Até aquele momento tudo fora escondido delas. Assim que eles entraram as meninas foram até a sala. Logo que viram a mãe, que tentava esconder as lágrimas, notaram que algo estava errado. O irmão Amarildo, então com 17 anos, foi o primeiro a falar.

            – O barco do pai virou.

            – O quê? – perguntou sem entender a pequena Valéria.

            – Eles foram pescar nas Galés e não conseguiram escapar do temporal.

            – Cadê o pai? Cadê o pai? - gritava Valéria. Já a irmã Verônica apenas chorava.

            – Ele caiu no mar – respondeu a mãe sem conseguir conter as lágrimas. 

            – O pessoal começou a procurar por ele. O pai deve tá em alguma ilha. Ele sabe nadar.

            – Não! Ele não foi para nenhuma ilha. Eu quero o meu pai agora. Ele não pode morrer, não pode. Eu vou atrás dele.

            Valéria já tentava passar pela porta, quando foi agarrada por um dos irmãos. Ela chorava ao mesmo tempo em que gritava pelo nome do pai. A cena era de desespero e chamou a atenção dos vizinhos, que já adivinhavam o que acontecia. Desde pequena, Valéria nutria um amor incondicional pelo pai. Quando Valdir viajava, isso acontecia muitas vezes, a menina ia até o costão da praia de Quatro Ilhas para vê-lo chegar.  Isso se repetia todos os dias. Assim que chegava de Santos – cidade no litoral paulista, onde Valdir também passou boa parte da sua vida trabalhando – as meninas improvisavam uma festa e Valéria permanecia sempre alegre. A primeira coisa que Valdir pensava era reunir as crianças. Todos o seguiam até a venda mais próxima. Enquanto ele bebia – e bebia muito por sinal – as crianças se empanturravam de doces. Mesmo a queda pela bebida não superava o carinho que o pai sentia pelos filhos.  Isso explicava o amor ao extremo de Valéria pelo pai.

            – Ele vai voltar. Ele vai voltar – dizia o irmão Arildo, levando a irmã até o sofá junto da mãe.

            – Não! Ele não vai voltar, eu sei. Ele não vai voltar – gritava Valéria.

            – Amanhã vamos até a praia. Vamos ficar até a noite.

            – Temos que ir agora, ele deve tá precisando de ajuda – dizia a menina com a voz entrecortada pelos soluços.

            A noite foi terrível para a família. Valéria não conseguiu dormir. De vez em quando tinha crises de choro. O dia amanheceu ensolarado. A menina depois de lutar contra o desespero a que havia se entregado, conseguiu dormir um pouco. Na praia, barcos saíam para retomar as buscas ao corpo do pescador. Durante 15 dias elas foram realizadas na Ilha das Galés. Um navio da Marinha percorreu uma área de 50 quilômetros do local, mas sem sucesso. Até um parente, mergulhador profissional, ajudou nas buscas. Os dias se passaram e com eles foram às esperanças e possibilidades de encontrar o pescador vivo. Tudo foi visto e revisto. Cada fenda dos costões das praias de Bombinhas, cada canto de ilha, porém nada do corpo de Valdir aparecer.

*    *    *

        Cinco anos se passaram e Valéria cresceu sem esquecer o naufrágio. O trauma foi tanto que ela não entrava no mar por motivo nenhum, mesmo nos dias quentes de verão. O corpo do pai não havia sido encontrado e pela experiência dos pescadores jamais apareceria. Ela sempre culpou os dois únicos sobreviventes, mas o mestre João foi o alvo principal do ódio da menina. Não podia vê-lo na rua e dizia para todo mundo que a culpa era dele, já que havia insistido tanto em sair para o mar. À revolta de Valéria não tinha como destino apenas o pescador e sim todas as pessoas que conviviam com ela. O desaparecimento do pai foi o principal motivo da sua indignação. Desde os 11 anos já sabia qual profissão seguiria. A mãe ainda se lembra da época, dezembro de 1981, quando a filha chegou da escola sem fôlego. Valéria acabava de passar de ano para a sexta-série. 

            – Mãe eu já sei o que quero ser.

            – O que aconteceu contigo minha filha?

            – Nada, eu vim correndo pra contar a minha decisão.

            – Que decisão?

            – Ora, de ser advogada. Agora sei o que quero ser no futuro. Vou estudar bastante para um dia fazer uma faculdade igual a minha professora.

      Nesses cinco anos, a família com ajuda dos filhos e de parentes conseguiu sobreviver à falta de Valdir. Arildo, com apenas 15 anos, teve que trabalhar em um barco de pesca. Amarildo, o filho mais velho, também seguiu o mesmo caminho do irmão. Em Bombinhas, a pesca ainda é uma profissão herdada de pai para filho. Com o tempo, a pesca foi aprimorada, novas técnicas apareceram, os barcos ficaram mais modernos e os próprios pescadores se capacitaram, mas a tradição dos filhos homens seguirem a profissão de seus pais continua. Já no caso das mulheres, o destino é bem diferente. Criadas para os afazeres domésticos, elas seguem o exemplo das mães, donas de casas na sua maioria. Valéria queria mudar a sina das mulheres filhas de pescadores. Desde pequena sabia que essa mudança seria possível somente com os estudos. Enquanto a revolução não chegava, a garota mantinha uma vida normal e sem novidades. Estudava a tarde e ajudava a mãe nos afazeres domésticos de manhã. A jovem não era de sair de casa. Aliás, Bombinhas, em 1985, não dispunha de grandes distrações para a juventude. Um acontecimento na cidade era ir à praia ver as baleias, que apareciam no litoral catarinense a partir do mês de setembro.

– Às vezes não dá vontade de fazer igual às baleias. Sair pelo mundo?

            – A mim não – disse uma das garotas.

            – Valéria, tu tens cada ideia.

            – Por quê?

            – Olha lá!

     Uma baleia havia aparecido e chamado à atenção. Valéria não falou mais nada. Seus pensamentos vagavam pelo mar e, como as ondas, voltavam. A menina falava muito pouco, porém seu gênio era inquieto e sua personalidade forte.

            – Valéria o que aconteceu com aquela carta que você mandou para o governador? – perguntou uma das amigas, referindo-se ao então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, ao mesmo tempo em que se levantava da areia para observar a baleia.

            – Não deu em nada, ele nem sequer respondeu – disse cabisbaixa.       

     Até 1986, os alunos que terminavam a 8ª série do ensino fundamental e quisessem continuar os estudos tinham que ir até Porto Belo. Além disso, eles eram obrigados a pagar uma mensalidade todos os meses para a manutenção da escola, que não era pública. Na época, a obrigação do Estado correspondia apenas ao ensino do 1º Grau, da 1ª a 8ª série. Quem não tivesse condições não continuava. Valéria seria um desses alunos caso não fosse à ajuda que recebia dos irmãos. O dinheiro que entrava em casa vinha da pescaria de Arildo e Amarildo. A mãe não recebia nada referente ao marido porque ele oficialmente não estava morto. Somente depois de cinco anos, ou seja, no fim de 1985, a esposa de Valdir começou a ganhar a pensão pela morte do marido. Um salário mínimo, impiedosamente devorado por uma inflação que em 1986 chegaria a 115% ao mês.

            Assim que começou a cursar o 2º Grau ou o ensino médio de hoje, numa escola de Porto Belo, Valéria resolveu abraçar sua primeira causa: lutar para que todos os alunos tivessem o direito de terminar os estudos sem precisar pagar. No começo de 1985, ela enviou uma carta ao governador de Santa Catarina. A carta estava assim escrita:

”Senhor Governador do Estado de Santa Catarina, Esperidião Amin.

Meu nome é Valéria Alcione Melo e estou matriculada na 1ª série do 2º Grau. Escrevo em nome dos jovens de Porto Belo, que precisam estudar, mas não tem condições de pagar as mensalidades do 2º Grau. Tenho hoje 15 anos e moro com a minha mãe, uma irmã e dois irmãos. Perdi meu pai em um naufrágio, quando tinha apenas dez anos. Desde então a vida da nossa família mudou e confesso para pior. A gente dependia só do sustento do que o pai trazia para casa. A mãe não tem trabalho, o governo não libera a pensão que temos direito porque o corpo não foi encontrado. Nossa situação não é mais complicada porque meus irmãos Arildo e Amarildo trabalham. O dinheiro para comida são eles que colocam em casa. Às vezes aparece um turista do Rio Grande do Sul, que aluga uma parte da nossa casa, mas isso acontece em alguns dias do verão.

     É com muito sacrifício que meus irmãos me ajudam a pagar todo o mês o carnê da escola. A minha situação é difícil, mas existem aqui em Porto Belo, dezenas de jovens que tiveram que abandonar a escola porque não possuem dinheiro para estudar. Este ano devo terminar 1ª série do 2º Grau e a minha preocupação é com 1986. Minha família já avisou que não terá condições de continuar a pagar o carnê. Peço em nome da juventude de Porto Belo que o senhor interceda por nós e construa uma escola estadual. Não precisa ser em Bombinhas, onde moro, mas que seja perto de casa. Quero continuar estudando e esse é o desejo de muitas garotas e garotos de Porto Belo. Na minha conta eu não coloco as despesas do transporte e do material escolar. Se o senhor não tiver condições de construir a escola, peço então que nos ajude a pagar. Assim que terminar meus estudos, quero fazer a Faculdade de Direito. Que Deus o abençoe e não faça esquecer desse pedido.

Obrigada”.

     A carta foi enviada pelos Correios à Florianópolis em junho de 1985. Quando a colega perguntou sobre a missiva já era quase outubro. A menina se chamava Cátia e também tinha interesse na resposta do governador. Aquele ano passou e nada de alguém atender ao pedido de Valéria. Quem pensa que ela pintou de negro um quadro colorido se engana. Orgulhosa, a carta apenas retratava uma parte da sua vida. O dia a dia da família Melo era bem mais difícil. O ano de 1986 chegou e não restou outro jeito para Valéria senão continuar a pagar por seus estudos. Ela já não esperava mais pela resposta de prefeito, governador ou presidente. Se dependesse da vontade política da época, a menina não teria terminado o primário. A vontade de vencer superava todas as dificuldades. Ela tirava força para lutar de onde não tinha. Apesar de todos os obstáculos, Valéria continuou sua caminhada para realizar seu sonho: de ser advogada. Além de poder ajudar aos outros, a garota queria ajudar a família. 
 

*    *    *

    Aos 15 anos, Valéria era a rainha do lugar. Não existia nenhuma mulher que conseguisse vencê-la na beleza. Apesar de não ligar para isso, ela percebia os olhares mais atrevidos dos homens. É certo que essa beleza fez aumentar a sua altivez e auto-estima, mas, no fundo, Valéria não se preocupava. Difícil o jovem que não se encantasse com a sua fisionomia. Os longos cabelos castanhos eram levemente ondulados na fronte. A menina tinha um rosto de feições suaves. Seus lábios, pequenos e o nariz pareciam ter sido esculpidos por Donatello.  Os olhos eram grandes e sérios, contudo transmitiam afeto. Além da beleza, Valéria possuía uma inteligência e o senso de responsabilidade fora do normal para sua idade. Em casa, gostava de ver tudo em ordem. Brigas com os irmãos aconteciam com assiduidade. Ela não admitia que sujassem algo que havia acabado de limpar e isso era motivo para uma briga. O amor materno também servia de pretexto para uma nova disputa.   Depois que o pai morreu, todos os filhos queriam a atenção e a mãe tinha que se desdobrar em quatro para dar carinho. No caso de Valéria, queria todo o afeto só para ela. Os desentendimentos não duravam muito tempo e a garota sempre achava um jeito de fazer as pazes com a família. Desafiava todo mundo em um dia, reconciliava no outro, para provocar mais uma vez no dia seguinte. Assim era Valéria, linda, decidida, inteligente, mas com uma personalidade tão forte que ela mesma não conseguia controlar.    

Mesmo sem dizer nada para ninguém, o pai ainda lhe fazia falta.  A revolta que trazia desde pequena não havia abrandado. Isso não foi um obstáculo para a garota, já que existiam outros bem maiores para superar, por exemplo, a distância de casa para a escola. Na 2ª série do 2º Grau, ela continuava a estudar em Porto Belo e desta vez à noite. Sem contar com uma condução ou uma linha de ônibus, os estudantes dependiam da carona de um colega. O transporte era a carroceria de uma caminhonete. Ela saía de casa às 18h30min e retornava perto da meia noite. Durante o dia, ajudava nas tarefas de casa e estudava. Valéria manteve essa rotina até 11 de março de 1986. Três dias antes, ela teve um sonho estranho, um presságio do que aconteceria. Encontrava-se no sofá, pensativa e isso chamou a atenção da mãe.

            – O que você tem hoje minha filha? Acordou cedo e foi direto para o sofá.

            – Nada, estava pensando no sonho que tive.

            – Que sonho?

            – Não sei, tenho medo de contar. Esquece é besteira.

            – É melhor contar do que guardar isso aí dentro de ti.

            – Eu não me lembro de muita coisa. Estava deitada em uma cama de hospital. Na cabeceira eu consegui ver três médicos e a mãe. Havia também outra pessoa que apenas chamava por mim. Não sei quem era.

            – Você deve ter visto algum filme na televisão – disse a mãe indo para a cozinha.

            – Pode ser.

     Valéria ficou pensativa durante todo o sábado. Não brigou com os irmãos e não exigiu muito de si. O fim de semana, o penúltimo do verão de 1986, havia começado. Para Valéria isso não fazia a menor diferença, já que ela não tinha o hábito de sair de casa. Muito raramente ia ao baile e sempre acompanhada do irmão mais velho. Amarildo era a única pessoa em que ela confiava, depois do seu diário. A sua beleza chamava atenção dos garotos, mas ela não queria nada com eles. Dizia sempre que a prioridade eram os estudos.  Na segunda-feira, dia 10 de março, a mãe da garota ficou doente e ela não foi para a escola. Apesar de ser uma gripe, Valéria resolveu ficar em casa. No dia seguinte, Alcione melhorou, mas algo dentro da menina dizia para ela não sair.

            – Não estou com vontade de ir para a aula hoje.

            – Então não vai minha filha – sugeriu a mãe.

            – Eu não gosto de faltar e já faltei ontem

            Encostada na porta da sala, Valéria já com a mochila nas costas e arrumada para ir para a escola, permaneceu indecisa. Os minutos passaram com ela em silêncio, pensava qual decisão tomar. Enquanto a resposta não vinha, a mãe tentou dissuadi-la.

            – Se não tá com vontade de ir, não vai guria.

            – Já vou mãe. Tchau.

            Valéria deu as costas e ainda ouviu a mãe dizer: “Deus te acompanhe minha filha”. No caminho até a avenida principal que corta Bombinhas, a moça encontrou dois homens que estavam em frente a um bar. Como era uma mulher bonita, sempre um engraçadinho fazia um comentário indecente. Valéria empinou o nariz e seguiu o seu caminho em direção ao seu destino. Quando chegou ao ponto, onde pegaria a carona na caminhonete junto com os outros estudantes, encontrou a colega Cátia.

            – Hoje tem prova de história. Vai cair a Revolução Francesa. Estudastes? - perguntou Valéria para a colega.

            – Claro que sim. Escuta, eu não quero saber de guilhotinas ou de Napoleão. Quero falar uma coisa para ti. Tem um guri e ele é tão...

            A história de um rapaz interessado nela, não causou nenhuma novidade para Valéria. Ela não levou em consideração o que Cátia disse. Além disso, a moça tinha olhos apenas para a escola e naquele momento não pensava só nisso. Alguma coisa que Valéria não entendia ainda a deixava angustiada. Quando ela subiu na caminhonete, tentou desistir, mas já era tarde demais, o carro seguiu em direção a Porto Belo.  O caminho foi calmo, aula normal e nada de interessante aconteceu. No entanto, o retorno estava reservado para uma tragédia.

            No caminho, os estudantes conversavam e faziam muito barulho. A cem metros do ponto em que a caminhonete iria parar, Valéria resolveu se levantar para arrumar a mochila. Ao passar por uma lajota fora do caminho, o veículo fez um movimento brusco. A garota perdeu o equilíbrio e caiu na estrada. A caminhonete andou alguns metros sem que as outras seis pessoas que estavam na caçamba percebessem a queda da jovem. Um motociclista que seguia o carro logo atrás foi o primeiro a socorrer a estudante. Ainda com a mochila nas costas, Valéria se encontrava inconsciente. O único ferimento era um pequeno corte na altura da testa. Tentaram reanimá-la com ajuda de pano molhado no álcool, mas não deu certo. A menina continuava desmaiada em frente da igreja católica de Bombinhas.

            Um casal que passava pelo local e com um pouco de conhecimento de primeiros socorros decidiu levá-la para que fosse examinada por um médico de Porto Belo. Foi somente nesse momento que se descobriu que a situação foi mais grave do que parecia. O pequeno corte havia provocado um coágulo no cérebro. Por recomendação do médico que pouco poderia fazer pela menina, Valéria foi levada às pressas ao hospital mais próximo, que na época ficava a 50 quilômetros de distância.  A estudante que lutava tanto para vencer, começava a travar uma nova batalha, agora contra a morte. A garota deu entrada num hospital de Itajaí, por volta das duas horas da madrugada, ou seja, quase três horas após o acidente. Quando os enfermeiros a colocaram na maca, ela tentou se levantar. Assim que abaixou de novo a cabeça, o sangue começou a jorrar pela boca. Os médicos a levaram para a sala de cirurgia, onde tiveram que cortar todo o cabelo. Valéria foi internada na Unidade de Terapia Intensiva. O diagnóstico: traumatismo craniano. Sem documentos, a estudante não deu entrada como indigente, porque uma enfermeira, moradora de Bombinhas, a reconheceu assim que entrou no hospital.

            Ao mesmo tempo em que o casal de desconhecidos levou Valéria para Porto Belo, uma colega da estudante foi avisar a mãe, que já estava ansiosa com a demora da filha. Até àquela hora, dona Alcione não tinha conhecimento da gravidade do acidente. Quer dizer, ninguém tinha. Por isso a demora em procurar socorro médico. No dia seguinte, logo de manhã, a enfermeira que reconheceu Valéria foi até a casa dar notícias e, infelizmente, más notícias. A garota ainda estava viva, todavia não seria por muito tempo. Com traumatismo craniano, Valéria respirava com ajuda de aparelhos. O estado de saúde dela era considerado gravíssimo. Mesmo que conseguisse escapar, os médicos deram como certo que ela teria sequelas graves. Chegou-se a cogitar a possibilidade de desligar os aparelhos, probabilidade essa negada pela família. Durante 72 horas, a menina que um dia sonhou ser advogada lutou para se manter viva. No dia 14 de março de 1986, os médicos deram a sentença final: Valéria estava morta. Um mês antes de morrer, a menina que encantou a todos com a sua força de vontade e beleza escreveu no inseparável diário:

“Vou lutar para vencer e vencerei”


*    *    *

            Um navio de grandes proporções entrou na Enseada das Garoupas, em direção a Porto Belo. De longe dava para ouvir o apito da embarcação que se preparava para atracar. Era um cruzeiro que trazia centenas de turistas estrangeiros para conhecer o litoral catarinense. Eu que permanecia sentado, me levantei para ver o navio e também para esconder uma lágrima furtiva do meu rosto.

            – Essa história foi muito triste. Deu até vontade de chorar – disse ao mesmo tempo em que observava o navio cruzeiro.

            – Tem coisas que por mais que tentemos, nunca vamos encontrar uma explicação. Esse foi o caso de Valéria.

            – E como ficou a família dela? – perguntei ainda vendo, mesmo de longe, o navio desembarcar numa pequena embarcação, os primeiros turistas que seguiriam para terra firme. 

            – Sobreviveu como toda a família que passa por uma tragédia dessas. Se você quiser podemos ir até a casa da mãe dela e dos irmãos. Eles moram perto daqui.

            – Eu gostaria muito.

            – Você está com fome? – perguntou o meu xará ao notar que eu olhava para o relógio, já eram quase meio dia.

            – Sim, existe um lugar para almoçar aqui perto?

            – Conheço um excelente a menos de um quilômetro daqui. No caminho continuo a contar a história dos descendentes dos pescadores da Ericeira. Não fique preocupado, garanto a você que a próxima história não será tão triste.

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