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| Festa Nossa Senhora dos Navegantes na década de 1940/Foto Arquivo Público de Itajaí |
Sem
futuro algum. Era assim que muitas pessoas viviam em Porto Belo, depois da
Segunda Guerra Mundial. A falta de esperança rondava os seus moradores desde
1930 e ninguém conseguia ver uma solução para o problema. No período
pós-guerra, Bombinhas então pertencente a Porto Belo, estava dividido em cinco
bairros: Bombas, Zimbros, Canto Grande, Encantado e Sertão. Isolados entre
montanhas, os moradores sobreviviam com o que tiravam do mar. A agricultura era
escassa e o pouco que vinha da colheita, apenas ajudava no complemento da
alimentação. Seja do mar ou da terra, sempre havia algo para comer, mas a luta diária
para se conseguir as coisas desiludiam a todos. Isso para quem possuía algum
pedaço de terra para plantar. Por incrível que pareça nessa região viviam
famílias que não tinham onde morar e dependiam exclusivamente da pesca ou da
caridade dos outros.
Sem
um posto de saúde, abastecimento de água, ou até mesmo luz elétrica, Bombinhas
em 1947 mantinha o mesmo estilo de vida dos primeiros imigrantes da Ericeira.
Ali existia somente uma escola, que ensinava o básico: ler e escrever. Não
passava disso e para quem eles iam reclamar? O comércio se encontrava restrito
a algumas vendinhas de esquina e o médico mais próximo atendia em Porto Belo. Enquanto
sua economia definhava, outras cidades do litoral catarinense se desenvolviam.
Bombinhas, a exemplo do que ocorria em Porto Belo , havia parado no tempo. Vivia uma
época perdida no século XIX.
No final dos anos de 1940, a família do pescador
Eusébio Mendes era uma das que passava por dificuldades. Sem casa própria, a
esposa Joana e mais três filhos pequenos perambulavam feitos ciganos. A cada
mês e a cada ano, o lugar e a habitação pioravam. Por necessidade, eles se
enfiavam no primeiro buraco que encontravam pelo caminho, isso quando
encontrava algum. Nesse ponto a compaixão humana falava mais alto e os buracos
apareciam. Por mais absurda que essa situação possa parecer, vale frisar que o
trisavô de Eusébio - no tempo em que veio de Ericeira para o Brasil – foi um
dos colonos que recebeu uma faixa de terra na região da Enseada das
Garoupas. O seu título dava direito a
uma área de aproximadamente 400 mil metros quadrados. Como e porque ele ficou
sem nada ninguém sabia.
Voltemos ao drama da família Mendes.
Desde que casou, em 1935, o pescador e a família já havia morado em um rancho
de pesca, num engenho de farinha, numa casa de barro no meio do mato e até em
um barracão que havia servido de senzala para os escravos no final do século
XIX. Só faltou mesmo ter que dividir espaço com os morcegos numa caverna. Para
não ter que chegar a esse extremo, Eusébio resolveu fugir. Mas uma pergunta o
afligia: para onde?
Em
1947, surgiu a oportunidade de ir embora. Seu colega de infância, Narciso, o
convidou para trabalhar em
Itajaí. Além de todos os problemas relacionados ao sustento
dos seus filhos, Eusébio parecia doente. Assim ele não hesitou quando recebeu o
convite. No dia 27 de março de 1947,
a família arrumou tudo para a viagem. Do ponto de vista
de quem tem alguma coisa, o tudo de Eusébio era considerado uma ninharia. Mas
para quem não tinha nada, o tudo de Eusébio já valia alguma coisa. Entre essas coisas estavam panelas de barro,
talheres feitos de latão, algumas peças de roupas de cama e as vestes da
família.
Na manhã do dia seguinte, bem antes
do sol nascer, o barco que fazia compras pelo litoral catarinense transportou a
família Mendes para Itajaí. A viagem pelo Atlântico Sul foi tranquila, no mar
calmo uma leve brisa soprava na direção Sul. Isso era o suficiente para
refrescar a madrugada. Eusébio – com dores nas costas – permanecia deitado no minúsculo dormitório
da embarcação. Na cama fria e dura, o pescador pensava na escolha que tinha
feito. Se ele tivesse um lugar para ficar em Bombinhas, um emprego e
conseguisse colocar comida em casa, certamente não teria abandonado o lugar em
que nascera. Mas, a sina que começou com os seus antepassados da Ericeira,
teimava em perseguir seus descendentes e os mesmos continuavam errantes.
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| Navegantes na década de 1950/Avenida João Sacavem/Foto Arquivo Público de Itajaí |
A viagem pelo oceano levava seis
horas. O barco atracou na margem esquerda do rio Itajaí-Açu, por volta das 10
horas da manhã, do dia 28 de março de 1947. O lugar era a cidade de Navegantes,
na época apenas um bairro de Itajaí. Tudo havia sido pensado para receber a
família de Eusébio. Até um lugar para morar fora escolhido. A casa de madeira
feita pelo colega Narciso apenas aguardava seus novos moradores. Para erguê-la,
ele utilizou tábuas, ripas e caibros do estaleiro Fluvial. O terreno da
construção foi emprestado por um homem chamado Juca, colega do carpinteiro
naval. Juca era fotógrafo e por muitos anos teve uma loja na Rua Hercílio Luz, em Itajaí. A casa era
formada por quatro cômodos: dois quartos, sala e cozinha. O banheiro se
encontrava nos fundos do terreno e era conhecido pela população por
patente.
Do cais, onde o barco atracou,
levava cinco minutos de caminhada até a casa, que ficava também perto do rio.
Os objetos da família foram carregados por Joana e os filhos pequenos. O dia
ensolarado e fresco facilitou o transporte das coisas. A moradia já tinha
alguns móveis: fogão a lenha e camas, que eram cobertas por colchões forrados
por capim seco. Navegantes, em 1947, estava quase no mesmo patamar econômico de
Bombinhas. A única diferença é que Navegantes ficava ao lado de Itajaí. Embora
tivesse abastecimento de água e luz elétrica desde 1928, grande parte da
população vivia da água de poço e iluminados por lamparinas a base de
querosene. No caso da família de Eusébio, uma lata e um pedaço de corda faziam
o papel de um lampião improvisado.
Durante
todo aquele dia, o pescador não saiu da nova casa. As dores nas costas eram
fortes e o faziam torcer o corpo na cama. A viagem de Bombinhas a Navegantes só
piorou o estado de saúde dele. À noite, Eusébio contou para a companheira o
inusitado acidente que lhe provocara as tais dores. Uma semana antes de
transferir-se para Itajaí o pescador chegou em casa bêbado e todo machucado. Na
ocasião ele não quis falar nada. Nem para a mulher e nem para os conhecidos que
lhe questionaram a respeito.
– Mulher, eu acho que vou morrer.
Não aguento mais de dor.
– Não fala bobagem. Ninguém morre de
dor nas costas.
– Mas agora tá doendo até minhas
pernas. Que diabos de dor.
– Não fale isso. Deus pode castigar.
– Eu acho que ele já me castigou.
Olha, preciso dizer por que fiquei assim.
Recostado na cama de madeira e sob a
luz do lampião improvisado, Eusébio
contou uma história mirabolante envolvendo dois bodes. Joana que já estava
acostumada com as desculpas do marido não acreditou na versão apresentada.
– Você lembra daqueles dois bodes
que ficavam no meio do caminho toda a vez que eu ia pra casa? Foram eles que
fizeram isso comigo.
Em 1947, como existiam apenas duas
ruas em Bombinhas, grande parte do caminho tinha que ser realizado por trilhas
na mata e nos morros. Eusébio usava um
desses caminhos alternativos para ir de casa para a praia de Quatro Ilhas. A
trilha era íngreme, sinuosa e cansativa. No meio do percurso havia um riacho.
Era justamente nesse ponto que o pescador dizia ter visto os bodes. Não fora
apenas uma vez, mas sim uma dezena delas. Em todas as ocasiões, os animais se
colocavam em posição de ataque. Eusébio
recuava um pouco, abaixava a cabeça e passava por eles. O que fazia a esposa
não acreditar no marido, era o fato de que ninguém criava bodes por perto. O
caminho fora percorrido por muitas pessoas e nunca alguém relatara a existência
dos animais. Eusébio prosseguiu com a explicação. Joana arregalou os olhos e
acenou a cabeça surpreendendo-se com a fala do marido.
– Eu descia a trilha, quando
encontrei os dois diabos. Como estava cansado de ver aqueles demônios me
desafiando todo santo dia, resolvi enfrentá-los. Olhei pra eles e comecei a
tacar pedras. Gritei que não tinha medo e que ia mandar os dois pro inferno a
pedradas. Nisso um bode olhou pro outro e veio pra cima de mim. Eles pularam e
berraram tanto que cheguei a desmaiar. Quando acordei já era quase noitinha.
Por isso que me atrasei naquele dia. Quer saber, foi bom ir embora de lá, do
contrário acho que eles já teriam me matado. Ai que dor! Dói até quando falo.
Malditos bodes. Mulher traga uma caneca d' água.
Depois de alguns minutos, Joana retornou ao
quarto.
– Aqui tá a água. Vamos dormir, amanhã
temos que ir ao médico, um tal de doutor Liberato. Um garoto chamado Bruno veio
avisar que ele marcou uma consulta amanhã pela manhã. Esse garoto é funcionário
do seu colega Narciso. O consultório é na cidade, lá em Itajaí. Parece que
tem de atravessar o rio pela lanchinha.
Enquanto a família dorme a primeira
noite em Navegantes, contarei um pouco da história do pescador de Bombinhas.
Eusébio nasceu em 1913, fruto de um estupro. A mãe dele, de 38 anos, havia sido
molestada pelo próprio genro. Durante nove meses, Mariana, escondeu a gravidez
indesejada da família. Assim que teve as primeiras contrações, ela seguiu uma
trilha em direção de um morro. Em uma clareira na floresta, sozinha, entrou em
trabalho de parto. Tudo havia sido planejado, o local escolhido era isolado.
Nasceu um menino loiro, de grandes olhos azuis. Mariana prestou pouca atenção
na criança. Seus pensamentos estavam bem longe dali, em casa.
Perturbada,
ela olhou para aos lados, como se alguém tivesse no seu encalço. Arrumou a criança em um pedaço de pano e a
deixou sob uma árvore. Com um objeto de ferro a mulher começou a cavar a terra
e depois de uns dez minutos, um buraco de meio metro se formou entre a
vegetação. Ela caminhou para onde estava o menino, que permanecia quieto. Pegou
o bebê no colo, olhou o rosto e o posicionou na cavidade. Com as mãos, tentou
fechar a cova. Nesse momento, a criança – como quisesse fazer uma tentativa
para viver – começou a chorar tão forte que paralisou a mãe. No entanto, o
desespero de Mariana era maior e ela
voltou ao trabalho. Se o destino existe, o de Eusébio não iria terminar naquele
buraco. Quem mudou a sorte da criança foi um homem que passou por uma trilha
próxima, bem na hora em que a mãe jogava o filho na cova improvisada. O choro
do recém-nascido chamou a atenção do peregrino.
– Não faça isso – gritou o homem
para a mulher.
Mariana tentou correr, mas percebeu que era inútil. O
homem tirou a criança do buraco e não teve coragem de entregar à mulher. Como
despertada de um transe, Mariana começou a chorar mais do que o filho.
Tranquilizada pelo desconhecido, ela contou a história do estupro e a decisão
de se livrar da criança.
– A senhora é casada? – perguntou o
estranho.
– Não, viúva. Vai fazer três anos
que meu marido morreu.
Com piedade o homem entregou o filho
à mãe e por garantia a acompanhou até em casa. Mariana não
revelou nada para a família e mais uma vez poupou o genro. Ela contou que havia
engravidado de um pescador, que morava em Ganchos. Como de vez
quando surgiam uns desconhecidos na cidade, ninguém desconfiou e a história do
estupro ficou por muito tempo esquecida. O fato só foi descoberto em 1998,
quando o genro dela faleceu. Dois dias antes de morrer, ele revelou o crime
para o filho mais velho. Pediu que o crime fosse anunciado para o restante da
família, assim que o caixão descesse ao túmulo.
Eusébio
cresceu sem saber quem fora o pai. O bastardo da família, como era conhecido,
cresceu com ódio das pessoas que o cercavam. A indignação só perdeu um pouco de
força no momento em que se tornou adulto e casou. Joana se encantou com o homem
loiro e de olhos azuis, que sempre a fitavam de longe. O namoro durou apenas
dois meses, o suficiente para ter uma filha, a pequena Leonor. O pescador não
era um exemplo de marido. Em Bombinhas, quando saía para ver as redes de pesca,
ele sumia do mapa por três dias consecutivos e não se dava ao trabalho de
avisar a mulher. Joana se virava para criar os filhos. Eusébio bebia muito e tinha fama de boêmio.
Com o violão debaixo dos braços, o pescador se esquecia que tinha uma esposa
e filhos para sustentar. Quando surgiu a
oportunidade de ir embora para Itajaí, Joana comemorou. Naquele primeiro dia em
Navegantes, ela rezou e pediu que o novo lugar mudasse os hábitos desregrados
do marido.
* * *
Três anos se passaram e a vida da
família Mendes começava a melhorar em Navegantes. Eusébio
trocara a profissão de pescador pela construção naval, contudo seis meses
depois, ainda em 1947, retornou à pesca. O salário em Itajaí dava para
sustentar a família e sobrava. Joana se admirava com cada eletrodoméstico que
entrava em casa. Com
o primeiro, um ferro de passar roupa, ela não conseguiu esconder as lágrimas.
As novidades mexiam com as emoções da dona de casa. Um dos momentos mais
marcantes foi o dia em que
Eusébio comprou uma máquina de costura usada. Com o aparelho
Joana começou a confeccionar a roupa da família. A transformação só não foi
completa por causa do comportamento de Eusébio. O pescador era pontual,
responsável e competente no trabalho. No entanto, fora dele o trabalhador dava
lugar ao seu lado boêmio. Com o violão, ele se metia no primeiro bar que
encontrava pelo caminho e sempre chegava em casa embriagado. Quando isso
acontecia, botava a família inteira “para correr”. Ele bebia para fugir de um
de um fato do passado que envenenava seus pensamentos. Em toda a vida, jamais
falou ou permitiu que alguém tocasse no assunto referente ao seu pai.
Ninguém
sabia o que ele pensava, mas um dos motivos certos que o levavam a beber era o
estigma de bastardo. Sobre o estupro que a mãe dele sofreu não se sabe se ele
tinha ou não conhecimento a respeito do fato. Mariana morreu aos 53 anos,
quando Eusébio tinha 15 e não passava de um adolescente. O garoto ajudava a
remendar as redes de pesca na praia de Mariscal, em Bombinhas. A mãe sempre levava comida
para ele. Mariana faleceu perto do meio dia, quando fazia uma dessas entregas
para o filho. Morreu do coração em uma trilha bem próxima à outra, em que há
quinze anos havia tentado matar o filho. Eusébio nunca agrediu a mulher ou os
filhos, mas perturbava a todos. Apesar disso, Joana parecia satisfeita em Navegantes. O
pescador às vezes pensava em voltar para Bombinhas. Marido e mulher discutiam
sobre o assunto. Foi na tarde de um domingo de verão, nos fundos da casa de
madeira que isso aconteceu pela primeira vez. Sentados num banco improvisado,
com a vista para o rio Itajaí-Açú e suas águas transparentes, os dois
conversavam.
– Mulher, eu tenho que contar uma
coisa para ti.
– Fala então.
– Às vezes dá vontade de largar tudo
e voltar para Bombinhas.
– Por quê? As coisas vão bem aqui.
Moramos perto de tudo: médico, boticário e mercado.
– Tem tudo, mas eu quero voltar para
Bombinhas. Se eu tivesse lá no domingo eu iria caçar.
– E por que você não faz isso aqui?
Em Navegantes, o que não falta é mato pra caçar.
– Não é mesma coisa. Tenho vontade
de voltar.
– Vai voltar sozinho, eu não volto
mais pra Bombinhas. Quem anda pra trás é caranguejo.
Eusébio se levantou e foi para o
quarto tirar a cesta da tarde. Joana ainda ficou por um tempo no banco. Olhava
a correnteza do rio, que levava a água doce para o Atlântico. Como estava muito
quente, ela se aproximou do rio e molhou o rosto. A imagem refletida na água
mostrava uma mulher branca, de cabelos negros e cacheados. Os olhos verdes
chamavam atenção no belo rosto. Do outro lado do rio, Itajaí parecia uma cidade
fantasma. Naquele último domingo de janeiro, como em tantos outros do ano, a
família não recebeu visitas. No entanto, o mês seguinte prometia ser diferente
e uma festa prometia trazer muita gente para Navegantes. A casa da família
recebia visitantes de Porto Belo e outras cidades. A festa em questão era para
Nossa Senhora dos Navegantes e ocorria desde 1897.
Durante
a semana, o então bairro de Itajaí se preparava para o acontecimento. Eusébio ia para o trabalho – agora na
praticagem do Porto de Itajaí. Foi nesse serviço que ele se aposentou no ano de
1968. O salário não é a fortuna que se ganha hoje – em 2008 estava na casa dos
100 mil reais ao mês –, mas poderia ser considerado bem melhor do que a
pesca. Quem pensa que ele abandonou a
paixão pelo mar está enganado. Eusébio
sempre pescava quando podia. Além disso, seus antepassados vinham da Ericeira e
mesmo não sabendo ele trazia o gosto
pela pesca no seu sangue. Depois da aposentadoria, conforme planejara, retornou
para Bombinhas. Morreu sozinho em um rancho de pesca na praia de Quatro Ilhas,
em 1984.
* *
*
Em 1950, as pessoas conheciam
Navegantes como um bairro de Itajaí. A designação nascera dois anos antes com a
construção de um jardim público na frente da capela. A população não passava de
dois mil habitantes e grande parte dela morava na área central do bairro, as
margens do rio Itajaí-Açu. A dependência de Navegantes a Itajaí era completa.
Para conseguir atendimento médico, por exemplo, o morador tinha que atravessar
o rio por uma pequena lancha, conduzida por um homem que usava tranças iguais a
de uma mulher.
O
condutor da embarcação era chamado de “Velho”, e devia-se ao fato dele viver
reclamando da vida. A travessia durava em média cinco minutos. A embarcação não
parava e levava trabalhadores, donas de casa, presos para a cadeia pública de
Itajaí, pacientes para o hospital Santa Beatriz e tantas outras pessoas que por
um motivo ou outro precisavam fazer a travessia. Joana se encontrava entre
essas pessoas, mas durante aquela semana não precisou ir para Itajaí. Ela
comprou o que precisava na vendinha perto de casa. O armazém ficava bem no
início da principal Avenida de Navegantes, a João Sacavem.
A avenida de casas de madeira e
postes feitos com o mesmo material, abrigava mais duas vendas e uma farmácia.
Todo o comércio do bairro localizava-se na Avenida João Sacavem, que tinha
areia ao invés de asfalto. Isso era uma realidade em todas as ruas. Navegantes
ganharia uma via pavimentada somente em 1971, oito anos após a emancipação de
Itajaí. Joana chegou à venda por volta das 8 horas. No balcão encontrou Bento,
um senhor calvo e com grandes bigodes negros. Na venda estava mais uma pessoa
de nome Oscar. O eletricista foi que instalara a energia na casa da família
Mendes, uma novidade tão grande que chegou a ser motivo até de festa.
– Bom dia dona Joana – disse o dono
da venda à cliente que chegava.
– Bom dia seu Bento.
– O quê o senhora vai querer hoje?
– Duas libras de açúcar e três de
trigo. Pode me ver também um pedaço daquela carne seca ali – apontou indicando
a carne pendurada atrás do balcão.
Apesar da medida de peso ter mudado
desde 1930, ainda era comum as pessoas comprarem usando a medida inglesa. Uma
libra equivalia a 493
gramas . Como não se falava em outro assunto, além da
festa de Nossa Senhora dos Navegantes, o trio que se achava na venda não fugiu
à regra.
– A procissão já tem 30 barcos
inscritos. Eu vou no “Lindalva”, um barco de pesca de um colega - comentou o
eletricista depois de cumprimentar a conhecida.
Dois de fevereiro é comemorado o dia
da santa. Naquele ano a data caiu em uma sexta-feira, feriado municipal. A
festa começava sempre um dia antes. Na ocasião, comerciantes de Itajaí montavam
barracas em frente à capela, onde eram vendidos doces e bolos. Havia missas e
cortejos pelas ruas. No dia de Nossa Senhora de Navegantes, acontecia
primeiramente uma cerimônia religiosa e depois a imagem era levada por uma
embarcação, seguida em cortejo pelas outras. A procissão fluvial levava quase
uma hora e percorria dois quilômetros de rio.
– Será que esse número é correto? -
questionou Bento.
– Tão correto como amanhã é
quinta-feira. Ontem a tarde eu fui na cidade Itajaí – comprar fios na Casa Malburg – adivinhem quem estava
lá?
– Não faço a mínima idéia.
– O Capitão dos Portos seu Bento, o
Capitão dos Portos. Dona Maria, a senhora deveria ter visto o nosso capitão.
Ele estava vestido com uniforme branco e cheio de condecorações. O seu Malburg
perguntou quantos barcos teria na procissão e ele respondeu: “Até agora já são
trinta”. É um homem de poucas palavras. Comprou uma lâmpada e foi embora. Essa
gente do Rio de Janeiro é assim mesmo.
– Eu vou embora, na sexta-feira vou
receber visitas de Bombinhas – disse Joana.
– E quem não recebe, não é mesmo
dona Joana? Todos querem ver Nossa Senhora dos Navegantes. Sabe da última,
parece que tá para chegar um circo aqui. Um tal de circo Petrov. Meu primo que
mora em Chapecó escreveu uma carta me avisando. Parece que...
Joana
deixou os dois falando sozinhos e foi para casa. Os filhos Tereza, Bernardo e
Leonor estavam na escola. À tarde Leonor cuidava de uma senhora na Avenida João
Sacavem. O dinheiro que ganhava, além de ajudar nas despesas, servia também
para a menina comprar roupas. Os outros irmãos ajudavam nos afazeres
domésticos. As crianças quase não se divertiam e isso não espantava ninguém na
época. Além disso, elas não tinham brinquedos de verdade. Uma banana verde, uma
abobrinha, um pedaço de pau transformavam-se em brinquedos na imaginação dos
pequenos. Naquela quarta-feira e também no dia seguinte, a mulher de Eusébio se
preparou para receber as visitas.
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| Procissão pelo Rio Itajaí-Açu na década de 1930/Foto Arquivo Público de Itajaí |
A sexta-feira chegou e, como de costume,
a manhã surgiu nublada. No dia de Nossa Senhora dos Navegantes era comum chover
e isso acontecia desde a primeira edição da festa, em 1897. A homenagem começou
quando terminou a construção da capela, erguida dois anos antes. A imagem da
santa veio de Portugal. Assim que chegou a Navegantes, um cortejo a levou até a
capela dando início aos festejos, que até 1950 eram celebrados também nos meses
de setembro e dezembro. Na Ericeira, a padroeira da cidade é Nossa Senhora da
Conceição, mas os pescadores ainda são devotos de Nossa Senhora dos Navegantes,
conhecida também como Nossa Senhora da Boa Viagem.
Em
Portugal, a santa é associada ao mar e a proteção dos marinheiros desde o
século XV. Em terras lusas, a festa de Nossa Senhora dos Navegantes acontece em
agosto, todavia é semelhante a que acontece no Brasil, com missas, novenas,
cortejos por terra e no final a procissão marítima. Semelhante a Nossa Senhora
da Conceição, a santa dos Navegantes é apenas um dos inúmeros nomes dados a
Maria, mãe de Jesus. Formada por uma comunidade de pescadores, Navegantes
escolheu a virgem como padroeira e dela recebeu o nome que batizou o futuro
município.
Em 1950, completavam-se dez anos de
um dos milagres dedicados à santa. No dia 2 de janeiro de 1940, quatro veleiros
saíram de Itajaí em direção à cidade do Rio de Janeiro. A previsão dos
marinheiros era retornar no final do mês, bem perto do dia 2 de fevereiro. A
viagem de ida foi tranquila e a de volta também, no entanto, isso ocorreu
apenas para três das embarcações. A quarta, de nome “Almirante”, não chegara a
Itajaí. No dia 1° de fevereiro, o jornal “O Povo”, estampava na capa a
manchete: “Veleiro Almirante está desaparecido”. O assunto do dia – tanto em Itajaí como em Navegantes – foi o
barco que se encontrava perdido em alto mar. As pessoas olhavam para a barra e
não encontravam nenhum sinal da embarcação. Rebocadores da Capitania dos Portos
e outras embarcações fizeram buscas pelo litoral, entre São Francisco do Sul e
Porto Belo, mas não encontraram nenhum sinal do veleiro.
No
dia da festa – entre as pessoas que se encontravam na procissão pelo rio
Itajaí-Açú – um sentimento de tristeza era visível com a má sorte da tripulação
do “Almirante”. Poucos acreditavam que alguém pudesse aparecer vivo. O milagre
aconteceu, no momento em que uma lancha entrou pelo rio e anunciou aos outros
barcos que um veleiro estava parado no oceano. O rebocador Laguna, embarcação
em que trabalhou Eusébio até 1968 foi até o local onde avistou o tal veleiro.
Sob fogos de artifício e para a alegria dos fiéis, o barco desaparecido entrou
pela foz do rio Itajaí-Açú.
Em terra firme, os oito tripulantes
contaram o que havia acontecido. O relato dos marinheiros causou admiração nas
pessoas que ouviram. O mestre do Almirante relatou que depois de se afastar dos
outros três veleiros, o barco tomou a direção do alto mar. Apesar do esforço da
tripulação, nada pode ser feito para mudar a rota. Depois que o vento parou de
soprar foi que se descobriu que o leme sofrera uma avaria. Durante 36 horas seguidas,
os marinheiros lutaram para consertar o leme e retornar para casa. Em meio ao
desespero, a tripulação rezou e pediu auxílio a Nossa Senhora dos Navegantes e
foi atendida. A embarcação seguiu em direção a Itajaí e chegou justamente na
hora da procissão. Com forma de agradecer, os marinheiros levaram a vela nos
ombros até a capela.
No
dia em que a história do milagre completava dez anos, um barco levou os oito
tripulantes na procissão. Não era o “Almirante”, mas não fazia a menor
diferença – os marinheiros queriam agradecer. A gratidão durou o resto de suas
vidas e sempre aparecia com mais força no dia 2 de fevereiro. Hoje não existe mais ninguém vivo daquela
tripulação, mas a história daqueles oito pescadores continua viva e alguém vai
se lembrar novamente com a proximidade de uma nova festa.
No
rebocador Laguna, Eusébio e família participaram da edição da festa de 1950.
Naquela tarde, veleiros, rebocadores, barcos de pesca e lanchas, todos
enfeitados por bandeirinhas, seguiam a procissão pelo rio Itajaí-Açu. O barco
de pesca Netuno, o maior da época, levava a imagem da santa. De um lado e outro
do rio, fiéis e curiosos se aglomeravam para ver o cortejo com mais de 30
barcos. Nem mesmo uma garoa fina que caiu quase todo dia espantou o público. Ao som de fogos e aplausos de centenas
pessoas, Nossa Senhora dos Navegantes retornou à capela, onde somente sairia no
mês de fevereiro do ano seguinte.
Eusébio, a esposa e os filhos
acompanharam a missa, que era lida toda em latim. Depois da
cerimônia religiosa, a família retornou para casa junto com as visitas que
tinham vindo de Bombinhas na parte da manhã. Um pequeno barco de pesca trouxe
no total seis pessoas. Irmãos, sobrinhos de Joana e alguns colegas de Eusébio,
que não estranhou a ausência de familiares seus. E isso não fez a menor
diferença no seu humor. Prova disso é que assim que entrou em casa, ele pegou o
violão e começou a tocar. Na sala, Eusébio, Joana e seus convidados conversavam
sobre a festa. Na rua, as crianças aproveitaram que a garoa havia cessado para
brincar. Aquele era um dos poucos dias alegres que aquela família desfrutava
durante o ano.
– Quantos barcos a procissão teve
esse ano? Parece que tinha uns 20, isso é o que consegui contar – comentou um
dos convidados, colega de profissão de Eusébio.
– Tinha mais de trinta com certeza –
retrucou outro convidado.
– Pena foi essa chuva fraca que
caiu. Se não fosse isso, a procissão teria bem mais barcos – comentou Rogel, um
dos conhecidos da família Mendes que morava em Bombinhas.
Rogel era um homem ruivo, já com os
seus 38 anos de idade. Vamos falar ainda muito de Rogel, mas não agora. Na
sala, rodeados por cadeiras, os convidados conversavam sobre a festa, o tempo e
a pesca. Em cima da mesa, um garrafão de vinho foi servido junto com um bolo de
milho feito por Joana um dia antes. Eusébio já um pouco embriagado tocava
violão e por sinal muito bem.
–
Eusébio canta alguma coisa – pediu um dos convidados.
– O que você quer ouvir?
– “A Deusa da minha Rua” – sugeriu
Rogel. Mesmo em 1950, a
música de Nelson Rodrigues de 1947 continuava entre as mais pedidas nas rádios.
– “Atire a primeira pedra” – quem
pediu a música de Ataúlfo Alves foi um dos convidados, amigo de Eusébio.
– Para mim pode ser qualquer coisa –
completou Maria.
– Eu já sei o que vou cantar – a
música escolhida era a de Francisco Alves, conhecido também como o rei da voz,
e se chamava “Adeus” – cinco letras que choram –, escrita em 1947 por Silvino
Neto.
“Adeus,
adeus, adeus. Cinco letras que choram num soluço de dor
Adeus,
adeus, adeus é como o fim de uma estrada, cortando a encruzilhada....”
* *
*
A praia da Sepultura mergulhou na
escuridão. O único som que se ouvia vinha das ondas quebrando nas pedras. Se não fosse a lua cheia, que naquela noite
brilhava no céu estrelado de Bombinhas, não daria para enxergar um palmo à
frente. A temperatura que permaneceu agradável durante o dia começava a cair.
Do mar, o vento soprava para o Sudeste, e fazia a sensação de frio ser maior.
Embora o outono aqui não seja tão rigoroso como ele é na Serra, o frio úmido do
litoral às vezes é bastante desagradável.
– Vamos embora – disse.
– Que horas são? – perguntou Paulo
Aguiar.
– Seis e meia. Para onde vamos
agora?
– Aqui perto mora um antigo morador
de Bombinhas. Ele tem 88 anos e também é ascendente direto do povo da Ericeira.
Quando o visito, ele sempre pede para ficar.
No almoço liguei para ele e disse que iria apresentar uma pessoa.
Por uma estrada estreita, feita de
lajotas chegamos ao nosso destino. A caminhada não durou cinco minutos. A
residência em questão tinha um pavimento e não era guardada por muros. Ela está
localizada bem em frente ao mar e dela se tem uma visão por completo de
Bombinhas. No caminho, o meu xará contou o que
havia acontecido com a família de Eusébio. Joana faleceu no Natal de
1970 e ele, como já foi dito, em 1984. Os filhos cresceram e tiveram suas
próprias famílias. Na varanda da casa,
tendo como vista a Enseada das Garoupas, continuei a ouvir a história dos
descendentes da Ericeira. Agora com mais dois expectadores: o morador antigo de
Bombinhas, Miguel Moutinho, e sua esposa Carolina, um ano mais nova.



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