domingo, 29 de janeiro de 2017

Capítulo 8 – A fuga


Festa Nossa Senhora dos Navegantes na década de 1940/Foto Arquivo Público de Itajaí
 
Sem futuro algum. Era assim que muitas pessoas viviam em Porto Belo, depois da Segunda Guerra Mundial. A falta de esperança rondava os seus moradores desde 1930 e ninguém conseguia ver uma solução para o problema. No período pós-guerra, Bombinhas então pertencente a Porto Belo, estava dividido em cinco bairros: Bombas, Zimbros, Canto Grande, Encantado e Sertão. Isolados entre montanhas, os moradores sobreviviam com o que tiravam do mar. A agricultura era escassa e o pouco que vinha da colheita, apenas ajudava no complemento da alimentação. Seja do mar ou da terra, sempre havia algo para comer, mas a luta diária para se conseguir as coisas desiludiam a todos. Isso para quem possuía algum pedaço de terra para plantar. Por incrível que pareça nessa região viviam famílias que não tinham onde morar e dependiam exclusivamente da pesca ou da caridade dos outros.

Sem um posto de saúde, abastecimento de água, ou até mesmo luz elétrica, Bombinhas em 1947 mantinha o mesmo estilo de vida dos primeiros imigrantes da Ericeira. Ali existia somente uma escola, que ensinava o básico: ler e escrever. Não passava disso e para quem eles iam reclamar? O comércio se encontrava restrito a algumas vendinhas de esquina e o médico mais próximo atendia em Porto Belo. Enquanto sua economia definhava, outras cidades do litoral catarinense se desenvolviam. Bombinhas, a exemplo do que ocorria em Porto Belo, havia parado no tempo. Vivia uma época perdida no século XIX.

           No final dos anos de 1940, a família do pescador Eusébio Mendes era uma das que passava por dificuldades. Sem casa própria, a esposa Joana e mais três filhos pequenos perambulavam feitos ciganos. A cada mês e a cada ano, o lugar e a habitação pioravam. Por necessidade, eles se enfiavam no primeiro buraco que encontravam pelo caminho, isso quando encontrava algum. Nesse ponto a compaixão humana falava mais alto e os buracos apareciam. Por mais absurda que essa situação possa parecer, vale frisar que o trisavô de Eusébio - no tempo em que veio de Ericeira para o Brasil – foi um dos colonos que recebeu uma faixa de terra na região da Enseada das Garoupas.  O seu título dava direito a uma área de aproximadamente 400 mil metros quadrados. Como e porque ele ficou sem nada ninguém sabia.

        Voltemos ao drama da família Mendes. Desde que casou, em 1935, o pescador e a família já havia morado em um rancho de pesca, num engenho de farinha, numa casa de barro no meio do mato e até em um barracão que havia servido de senzala para os escravos no final do século XIX. Só faltou mesmo ter que dividir espaço com os morcegos numa caverna. Para não ter que chegar a esse extremo, Eusébio resolveu fugir. Mas uma pergunta o afligia: para onde?

Em 1947, surgiu a oportunidade de ir embora. Seu colega de infância, Narciso, o convidou para trabalhar em Itajaí. Além de todos os problemas relacionados ao sustento dos seus filhos, Eusébio parecia doente. Assim ele não hesitou quando recebeu o convite. No dia 27 de março de 1947, a família arrumou tudo para a viagem. Do ponto de vista de quem tem alguma coisa, o tudo de Eusébio era considerado uma ninharia. Mas para quem não tinha nada, o tudo de Eusébio já valia alguma coisa.  Entre essas coisas estavam panelas de barro, talheres feitos de latão, algumas peças de roupas de cama e as vestes da família.

            Na manhã do dia seguinte, bem antes do sol nascer, o barco que fazia compras pelo litoral catarinense transportou a família Mendes para Itajaí. A viagem pelo Atlântico Sul foi tranquila, no mar calmo uma leve brisa soprava na direção Sul. Isso era o suficiente para refrescar a madrugada. Eusébio – com dores nas costas   – permanecia deitado no minúsculo dormitório da embarcação. Na cama fria e dura, o pescador pensava na escolha que tinha feito. Se ele tivesse um lugar para ficar em Bombinhas, um emprego e conseguisse colocar comida em casa, certamente não teria abandonado o lugar em que nascera. Mas, a sina que começou com os seus antepassados da Ericeira, teimava em perseguir seus descendentes e os mesmos continuavam errantes.

Navegantes na década de 1950/Avenida João Sacavem/Foto Arquivo Público de Itajaí
          
           A viagem pelo oceano levava seis horas. O barco atracou na margem esquerda do rio Itajaí-Açu, por volta das 10 horas da manhã, do dia 28 de março de 1947. O lugar era a cidade de Navegantes, na época apenas um bairro de Itajaí. Tudo havia sido pensado para receber a família de Eusébio. Até um lugar para morar fora escolhido. A casa de madeira feita pelo colega Narciso apenas aguardava seus novos moradores. Para erguê-la, ele utilizou tábuas, ripas e caibros do estaleiro Fluvial. O terreno da construção foi emprestado por um homem chamado Juca, colega do carpinteiro naval. Juca era fotógrafo e por muitos anos teve uma loja na Rua Hercílio Luz, em Itajaí. A casa era formada por quatro cômodos: dois quartos, sala e cozinha. O banheiro se encontrava nos fundos do terreno e era conhecido pela população por patente. 

            Do cais, onde o barco atracou, levava cinco minutos de caminhada até a casa, que ficava também perto do rio. Os objetos da família foram carregados por Joana e os filhos pequenos. O dia ensolarado e fresco facilitou o transporte das coisas. A moradia já tinha alguns móveis: fogão a lenha e camas, que eram cobertas por colchões forrados por capim seco. Navegantes, em 1947, estava quase no mesmo patamar econômico de Bombinhas. A única diferença é que Navegantes ficava ao lado de Itajaí. Embora tivesse abastecimento de água e luz elétrica desde 1928, grande parte da população vivia da água de poço e iluminados por lamparinas a base de querosene. No caso da família de Eusébio, uma lata e um pedaço de corda faziam o papel de um lampião improvisado.

Durante todo aquele dia, o pescador não saiu da nova casa. As dores nas costas eram fortes e o faziam torcer o corpo na cama. A viagem de Bombinhas a Navegantes só piorou o estado de saúde dele. À noite, Eusébio contou para a companheira o inusitado acidente que lhe provocara as tais dores. Uma semana antes de transferir-se para Itajaí o pescador chegou em casa bêbado e todo machucado. Na ocasião ele não quis falar nada. Nem para a mulher e nem para os conhecidos que lhe questionaram a respeito.

            – Mulher, eu acho que vou morrer. Não aguento mais de dor.

            – Não fala bobagem. Ninguém morre de dor nas costas.

            – Mas agora tá doendo até minhas pernas. Que diabos de dor.

            – Não fale isso. Deus pode castigar.

            – Eu acho que ele já me castigou. Olha, preciso dizer por que fiquei assim.

            Recostado na cama de madeira e sob a luz do lampião improvisado,  Eusébio contou uma história mirabolante envolvendo dois bodes. Joana que já estava acostumada com as desculpas do marido não acreditou na versão apresentada.

            – Você lembra daqueles dois bodes que ficavam no meio do caminho toda a vez que eu ia pra casa? Foram eles que fizeram isso comigo.

            Em 1947, como existiam apenas duas ruas em Bombinhas, grande parte do caminho tinha que ser realizado por trilhas na mata e nos morros.  Eusébio usava um desses caminhos alternativos para ir de casa para a praia de Quatro Ilhas. A trilha era íngreme, sinuosa e cansativa. No meio do percurso havia um riacho. Era justamente nesse ponto que o pescador dizia ter visto os bodes. Não fora apenas uma vez, mas sim uma dezena delas. Em todas as ocasiões, os animais se colocavam em posição de ataque.  Eusébio recuava um pouco, abaixava a cabeça e passava por eles. O que fazia a esposa não acreditar no marido, era o fato de que ninguém criava bodes por perto. O caminho fora percorrido por muitas pessoas e nunca alguém relatara a existência dos animais. Eusébio prosseguiu com a explicação. Joana arregalou os olhos e acenou a cabeça surpreendendo-se com a fala do marido.

            – Eu descia a trilha, quando encontrei os dois diabos. Como estava cansado de ver aqueles demônios me desafiando todo santo dia, resolvi enfrentá-los. Olhei pra eles e comecei a tacar pedras. Gritei que não tinha medo e que ia mandar os dois pro inferno a pedradas. Nisso um bode olhou pro outro e veio pra cima de mim. Eles pularam e berraram tanto que cheguei a desmaiar. Quando acordei já era quase noitinha. Por isso que me atrasei naquele dia. Quer saber, foi bom ir embora de lá, do contrário acho que eles já teriam me matado. Ai que dor! Dói até quando falo. Malditos bodes. Mulher traga uma caneca d' água.

             Depois de alguns minutos, Joana retornou ao quarto.

            – Aqui tá a água. Vamos dormir, amanhã temos que ir ao médico, um tal de doutor Liberato. Um garoto chamado Bruno veio avisar que ele marcou uma consulta amanhã pela manhã. Esse garoto é funcionário do seu colega Narciso. O consultório é na cidade, lá em Itajaí. Parece que tem de atravessar o rio pela lanchinha.

            Enquanto a família dorme a primeira noite em Navegantes, contarei um pouco da história do pescador de Bombinhas. Eusébio nasceu em 1913, fruto de um estupro. A mãe dele, de 38 anos, havia sido molestada pelo próprio genro. Durante nove meses, Mariana, escondeu a gravidez indesejada da família. Assim que teve as primeiras contrações, ela seguiu uma trilha em direção de um morro. Em uma clareira na floresta, sozinha, entrou em trabalho de parto. Tudo havia sido planejado, o local escolhido era isolado. Nasceu um menino loiro, de grandes olhos azuis. Mariana prestou pouca atenção na criança. Seus pensamentos estavam bem longe dali, em casa.

Perturbada, ela olhou para aos lados, como se alguém tivesse no seu encalço.  Arrumou a criança em um pedaço de pano e a deixou sob uma árvore. Com um objeto de ferro a mulher começou a cavar a terra e depois de uns dez minutos, um buraco de meio metro se formou entre a vegetação. Ela caminhou para onde estava o menino, que permanecia quieto. Pegou o bebê no colo, olhou o rosto e o posicionou na cavidade. Com as mãos, tentou fechar a cova. Nesse momento, a criança – como quisesse fazer uma tentativa para viver – começou a chorar tão forte que paralisou a mãe. No entanto, o desespero de Mariana  era maior e ela voltou ao trabalho. Se o destino existe, o de Eusébio não iria terminar naquele buraco. Quem mudou a sorte da criança foi um homem que passou por uma trilha próxima, bem na hora em que a mãe jogava o filho na cova improvisada. O choro do recém-nascido chamou a atenção do peregrino.

            – Não faça isso – gritou o homem para a mulher.

            Mariana  tentou correr, mas percebeu que era inútil. O homem tirou a criança do buraco e não teve coragem de entregar à mulher. Como despertada de um transe, Mariana começou a chorar mais do que o filho. Tranquilizada pelo desconhecido, ela contou a história do estupro e a decisão de se livrar da criança.

            – A senhora é casada? – perguntou o estranho.

            – Não, viúva. Vai fazer três anos que meu marido morreu.

            Com piedade o homem entregou o filho à mãe e por garantia a acompanhou até em casa. Mariana não revelou nada para a família e mais uma vez poupou o genro. Ela contou que havia engravidado de um pescador, que morava em Ganchos. Como de vez quando surgiam uns desconhecidos na cidade, ninguém desconfiou e a história do estupro ficou por muito tempo esquecida. O fato só foi descoberto em 1998, quando o genro dela faleceu. Dois dias antes de morrer, ele revelou o crime para o filho mais velho. Pediu que o crime fosse anunciado para o restante da família, assim que o caixão descesse ao túmulo. 

Eusébio cresceu sem saber quem fora o pai. O bastardo da família, como era conhecido, cresceu com ódio das pessoas que o cercavam. A indignação só perdeu um pouco de força no momento em que se tornou adulto e casou. Joana se encantou com o homem loiro e de olhos azuis, que sempre a fitavam de longe. O namoro durou apenas dois meses, o suficiente para ter uma filha, a pequena Leonor. O pescador não era um exemplo de marido. Em Bombinhas, quando saía para ver as redes de pesca, ele sumia do mapa por três dias consecutivos e não se dava ao trabalho de avisar a mulher. Joana se virava para criar os filhos.  Eusébio bebia muito e tinha fama de boêmio. Com o violão debaixo dos braços, o pescador se esquecia que tinha uma esposa e  filhos para sustentar. Quando surgiu a oportunidade de ir embora para Itajaí, Joana comemorou. Naquele primeiro dia em Navegantes, ela rezou e pediu que o novo lugar mudasse os hábitos desregrados do marido.

*    *    *
 
            Três anos se passaram e a vida da família Mendes começava a melhorar em Navegantes. Eusébio trocara a profissão de pescador pela construção naval, contudo seis meses depois, ainda em 1947, retornou à pesca. O salário em Itajaí dava para sustentar a família e sobrava. Joana se admirava com cada eletrodoméstico que entrava em casa. Com o primeiro, um ferro de passar roupa, ela não conseguiu esconder as lágrimas. As novidades mexiam com as emoções da dona de casa. Um dos momentos mais marcantes foi o dia em que Eusébio comprou uma máquina de costura usada. Com o aparelho Joana começou a confeccionar a roupa da família. A transformação só não foi completa por causa do comportamento de Eusébio. O pescador era pontual, responsável e competente no trabalho. No entanto, fora dele o trabalhador dava lugar ao seu lado boêmio. Com o violão, ele se metia no primeiro bar que encontrava pelo caminho e sempre chegava em casa embriagado. Quando isso acontecia, botava a família inteira “para correr”. Ele bebia para fugir de um de um fato do passado que envenenava seus pensamentos. Em toda a vida, jamais falou ou permitiu que alguém tocasse no assunto referente ao seu pai.

Ninguém sabia o que ele pensava, mas um dos motivos certos que o levavam a beber era o estigma de bastardo. Sobre o estupro que a mãe dele sofreu não se sabe se ele tinha ou não conhecimento a respeito do fato. Mariana morreu aos 53 anos, quando Eusébio tinha 15 e não passava de um adolescente. O garoto ajudava a remendar as redes de pesca na praia de Mariscal, em Bombinhas.  A mãe sempre levava comida para ele. Mariana faleceu perto do meio dia, quando fazia uma dessas entregas para o filho. Morreu do coração em uma trilha bem próxima à outra, em que há quinze anos havia tentado matar o filho. Eusébio nunca agrediu a mulher ou os filhos, mas perturbava a todos. Apesar disso, Joana parecia satisfeita em Navegantes. O pescador às vezes pensava em voltar para Bombinhas. Marido e mulher discutiam sobre o assunto. Foi na tarde de um domingo de verão, nos fundos da casa de madeira que isso aconteceu pela primeira vez. Sentados num banco improvisado, com a vista para o rio Itajaí-Açú e suas águas transparentes, os dois conversavam.

            – Mulher, eu tenho que contar uma coisa para ti.

            – Fala então.

            – Às vezes dá vontade de largar tudo e voltar para Bombinhas.

            – Por quê? As coisas vão bem aqui. Moramos perto de tudo: médico, boticário e mercado.

            – Tem tudo, mas eu quero voltar para Bombinhas. Se eu tivesse lá no domingo eu iria caçar.

            – E por que você não faz isso aqui? Em Navegantes, o que não falta é mato pra caçar.

            – Não é mesma coisa. Tenho vontade de voltar.

            – Vai voltar sozinho, eu não volto mais pra Bombinhas. Quem anda pra trás é caranguejo.

          Eusébio se levantou e foi para o quarto tirar a cesta da tarde. Joana ainda ficou por um tempo no banco. Olhava a correnteza do rio, que levava a água doce para o Atlântico. Como estava muito quente, ela se aproximou do rio e molhou o rosto. A imagem refletida na água mostrava uma mulher branca, de cabelos negros e cacheados. Os olhos verdes chamavam atenção no belo rosto. Do outro lado do rio, Itajaí parecia uma cidade fantasma. Naquele último domingo de janeiro, como em tantos outros do ano, a família não recebeu visitas. No entanto, o mês seguinte prometia ser diferente e uma festa prometia trazer muita gente para Navegantes. A casa da família recebia visitantes de Porto Belo e outras cidades. A festa em questão era para Nossa Senhora dos Navegantes e ocorria desde 1897.      

Durante a semana, o então bairro de Itajaí se preparava para o acontecimento.  Eusébio ia para o trabalho – agora na praticagem do Porto de Itajaí. Foi nesse serviço que ele se aposentou no ano de 1968. O salário não é a fortuna que se ganha hoje – em 2008 estava na casa dos 100 mil reais ao mês –, mas poderia ser considerado bem melhor do que a pesca.  Quem pensa que ele abandonou a paixão pelo mar está enganado.  Eusébio sempre pescava quando podia. Além disso, seus antepassados vinham da Ericeira e mesmo não sabendo ele  trazia o gosto pela pesca no seu sangue. Depois da aposentadoria, conforme planejara, retornou para Bombinhas. Morreu sozinho em um rancho de pesca na praia de Quatro Ilhas, em 1984.

*    *    *

            Em 1950, as pessoas conheciam Navegantes como um bairro de Itajaí. A designação nascera dois anos antes com a construção de um jardim público na frente da capela. A população não passava de dois mil habitantes e grande parte dela morava na área central do bairro, as margens do rio Itajaí-Açu. A dependência de Navegantes a Itajaí era completa. Para conseguir atendimento médico, por exemplo, o morador tinha que atravessar o rio por uma pequena lancha, conduzida por um homem que usava tranças iguais a de uma mulher.

O condutor da embarcação era chamado de “Velho”, e devia-se ao fato dele viver reclamando da vida. A travessia durava em média cinco minutos. A embarcação não parava e levava trabalhadores, donas de casa, presos para a cadeia pública de Itajaí, pacientes para o hospital Santa Beatriz e tantas outras pessoas que por um motivo ou outro precisavam fazer a travessia. Joana se encontrava entre essas pessoas, mas durante aquela semana não precisou ir para Itajaí. Ela comprou o que precisava na vendinha perto de casa. O armazém ficava bem no início da principal Avenida de Navegantes, a João Sacavem. 

            A avenida de casas de madeira e postes feitos com o mesmo material, abrigava mais duas vendas e uma farmácia. Todo o comércio do bairro localizava-se na Avenida João Sacavem, que tinha areia ao invés de asfalto. Isso era uma realidade em todas as ruas. Navegantes ganharia uma via pavimentada somente em 1971, oito anos após a emancipação de Itajaí. Joana chegou à venda por volta das 8 horas. No balcão encontrou Bento, um senhor calvo e com grandes bigodes negros. Na venda estava mais uma pessoa de nome Oscar. O eletricista foi que instalara a energia na casa da família Mendes, uma novidade tão grande que chegou a ser motivo até de festa.

            – Bom dia dona Joana – disse o dono da venda à cliente que chegava.

            – Bom dia seu Bento.

            – O quê o senhora vai querer hoje?

            – Duas libras de açúcar e três de trigo. Pode me ver também um pedaço daquela carne seca ali – apontou indicando a carne pendurada atrás do balcão.

            Apesar da medida de peso ter mudado desde 1930, ainda era comum as pessoas comprarem usando a medida inglesa. Uma libra equivalia a 493 gramas. Como não se falava em outro assunto, além da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, o trio que se achava na venda não fugiu à regra.

            – A procissão já tem 30 barcos inscritos. Eu vou no “Lindalva”, um barco de pesca de um colega - comentou o eletricista depois de cumprimentar a conhecida.

            Dois de fevereiro é comemorado o dia da santa. Naquele ano a data caiu em uma sexta-feira, feriado municipal. A festa começava sempre um dia antes. Na ocasião, comerciantes de Itajaí montavam barracas em frente à capela, onde eram vendidos doces e bolos. Havia missas e cortejos pelas ruas. No dia de Nossa Senhora de Navegantes, acontecia primeiramente uma cerimônia religiosa e depois a imagem era levada por uma embarcação, seguida em cortejo pelas outras. A procissão fluvial levava quase uma hora e percorria dois quilômetros de rio.

            – Será que esse número é correto? - questionou Bento.

            – Tão correto como amanhã é quinta-feira. Ontem a tarde eu fui na cidade Itajaí – comprar  fios na Casa Malburg – adivinhem quem estava lá?

            – Não faço a mínima idéia.

            – O Capitão dos Portos seu Bento, o Capitão dos Portos. Dona Maria, a senhora deveria ter visto o nosso capitão. Ele estava vestido com uniforme branco e cheio de condecorações. O seu Malburg perguntou quantos barcos teria na procissão e ele respondeu: “Até agora já são trinta”. É um homem de poucas palavras. Comprou uma lâmpada e foi embora. Essa gente do Rio de Janeiro é assim mesmo.

            – Eu vou embora, na sexta-feira vou receber visitas de Bombinhas – disse Joana.

            – E quem não recebe, não é mesmo dona Joana? Todos querem ver Nossa Senhora dos Navegantes. Sabe da última, parece que tá para chegar um circo aqui. Um tal de circo Petrov. Meu primo que mora em Chapecó escreveu uma carta me avisando. Parece que...

Joana deixou os dois falando sozinhos e foi para casa. Os filhos Tereza, Bernardo e Leonor estavam na escola. À tarde Leonor cuidava de uma senhora na Avenida João Sacavem. O dinheiro que ganhava, além de ajudar nas despesas, servia também para a menina comprar roupas. Os outros irmãos ajudavam nos afazeres domésticos. As crianças quase não se divertiam e isso não espantava ninguém na época. Além disso, elas não tinham brinquedos de verdade. Uma banana verde, uma abobrinha, um pedaço de pau transformavam-se em brinquedos na imaginação dos pequenos. Naquela quarta-feira e também no dia seguinte, a mulher de Eusébio se preparou para receber as visitas.
 
Procissão pelo Rio Itajaí-Açu na década de 1930/Foto Arquivo Público de Itajaí
 
            A sexta-feira chegou e, como de costume, a manhã surgiu nublada. No dia de Nossa Senhora dos Navegantes era comum chover e isso acontecia desde a primeira edição da festa, em 1897. A homenagem começou quando terminou a construção da capela, erguida dois anos antes. A imagem da santa veio de Portugal. Assim que chegou a Navegantes, um cortejo a levou até a capela dando início aos festejos, que até 1950 eram celebrados também nos meses de setembro e dezembro. Na Ericeira, a padroeira da cidade é Nossa Senhora da Conceição, mas os pescadores ainda são devotos de Nossa Senhora dos Navegantes, conhecida também como Nossa Senhora da Boa Viagem.

Em Portugal, a santa é associada ao mar e a proteção dos marinheiros desde o século XV. Em terras lusas, a festa de Nossa Senhora dos Navegantes acontece em agosto, todavia é semelhante a que acontece no Brasil, com missas, novenas, cortejos por terra e no final a procissão marítima. Semelhante a Nossa Senhora da Conceição, a santa dos Navegantes é apenas um dos inúmeros nomes dados a Maria, mãe de Jesus. Formada por uma comunidade de pescadores, Navegantes escolheu a virgem como padroeira e dela recebeu o nome que batizou o futuro município.

            Em 1950, completavam-se dez anos de um dos milagres dedicados à santa. No dia 2 de janeiro de 1940, quatro veleiros saíram de Itajaí em direção à cidade do Rio de Janeiro. A previsão dos marinheiros era retornar no final do mês, bem perto do dia 2 de fevereiro. A viagem de ida foi tranquila e a de volta também, no entanto, isso ocorreu apenas para três das embarcações. A quarta, de nome “Almirante”, não chegara a Itajaí. No dia 1° de fevereiro, o jornal “O Povo”, estampava na capa a manchete: “Veleiro Almirante está desaparecido”. O assunto do dia –  tanto em Itajaí como em Navegantes – foi o barco que se encontrava perdido em alto mar. As pessoas olhavam para a barra e não encontravam nenhum sinal da embarcação. Rebocadores da Capitania dos Portos e outras embarcações fizeram buscas pelo litoral, entre São Francisco do Sul e Porto Belo, mas não encontraram nenhum sinal do veleiro.

No dia da festa – entre as pessoas que se encontravam na procissão pelo rio Itajaí-Açú – um sentimento de tristeza era visível com a má sorte da tripulação do “Almirante”. Poucos acreditavam que alguém pudesse aparecer vivo. O milagre aconteceu, no momento em que uma lancha entrou pelo rio e anunciou aos outros barcos que um veleiro estava parado no oceano. O rebocador Laguna, embarcação em que trabalhou Eusébio até 1968 foi até o local onde avistou o tal veleiro. Sob fogos de artifício e para a alegria dos fiéis, o barco desaparecido entrou pela foz do rio Itajaí-Açú.        

            Em terra firme, os oito tripulantes contaram o que havia acontecido. O relato dos marinheiros causou admiração nas pessoas que ouviram. O mestre do Almirante relatou que depois de se afastar dos outros três veleiros, o barco tomou a direção do alto mar. Apesar do esforço da tripulação, nada pode ser feito para mudar a rota. Depois que o vento parou de soprar foi que se descobriu que o leme sofrera uma avaria. Durante 36 horas seguidas, os marinheiros lutaram para consertar o leme e retornar para casa. Em meio ao desespero, a tripulação rezou e pediu auxílio a Nossa Senhora dos Navegantes e foi atendida. A embarcação seguiu em direção a Itajaí e chegou justamente na hora da procissão. Com forma de agradecer, os marinheiros levaram a vela nos ombros até a capela.  

          No dia em que a história do milagre completava dez anos, um barco levou os oito tripulantes na procissão. Não era o “Almirante”, mas não fazia a menor diferença – os marinheiros queriam agradecer. A gratidão durou o resto de suas vidas e sempre aparecia com mais força no dia 2 de fevereiro.  Hoje não existe mais ninguém vivo daquela tripulação, mas a história daqueles oito pescadores continua viva e alguém vai se lembrar novamente com a proximidade de uma nova festa.

No rebocador Laguna, Eusébio e família participaram da edição da festa de 1950. Naquela tarde, veleiros, rebocadores, barcos de pesca e lanchas, todos enfeitados por bandeirinhas, seguiam a procissão pelo rio Itajaí-Açu. O barco de pesca Netuno, o maior da época, levava a imagem da santa. De um lado e outro do rio, fiéis e curiosos se aglomeravam para ver o cortejo com mais de 30 barcos. Nem mesmo uma garoa fina que caiu quase todo dia espantou o público.  Ao som de fogos e aplausos de centenas pessoas, Nossa Senhora dos Navegantes retornou à capela, onde somente sairia no mês de fevereiro do ano seguinte.

            Eusébio, a esposa e os filhos acompanharam a missa, que era lida toda em latim. Depois da cerimônia religiosa, a família retornou para casa junto com as visitas que tinham vindo de Bombinhas na parte da manhã. Um pequeno barco de pesca trouxe no total seis pessoas. Irmãos, sobrinhos de Joana e alguns colegas de Eusébio, que não estranhou a ausência de familiares seus. E isso não fez a menor diferença no seu humor. Prova disso é que assim que entrou em casa, ele pegou o violão e começou a tocar. Na sala, Eusébio, Joana e seus convidados conversavam sobre a festa. Na rua, as crianças aproveitaram que a garoa havia cessado para brincar. Aquele era um dos poucos dias alegres que aquela família desfrutava durante o ano.

            – Quantos barcos a procissão teve esse ano? Parece que tinha uns 20, isso é o que consegui contar – comentou um dos convidados, colega de profissão de Eusébio.

            – Tinha mais de trinta com certeza – retrucou outro convidado.

            – Pena foi essa chuva fraca que caiu. Se não fosse isso, a procissão teria bem mais barcos – comentou Rogel, um dos conhecidos da família Mendes que morava em Bombinhas.

            Rogel era um homem ruivo, já com os seus 38 anos de idade. Vamos falar ainda muito de Rogel, mas não agora. Na sala, rodeados por cadeiras, os convidados conversavam sobre a festa, o tempo e a pesca. Em cima da mesa, um garrafão de vinho foi servido junto com um bolo de milho feito por Joana um dia antes. Eusébio já um pouco embriagado tocava violão e por sinal muito bem. 

– Eusébio canta alguma coisa – pediu um dos convidados.

            – O que você quer ouvir?

            – “A Deusa da minha Rua” – sugeriu Rogel. Mesmo em 1950, a música de Nelson Rodrigues de 1947 continuava entre as mais pedidas nas rádios.

            – “Atire a primeira pedra” – quem pediu a música de Ataúlfo Alves foi um dos convidados, amigo de Eusébio.

            – Para mim pode ser qualquer coisa – completou Maria.

            – Eu já sei o que vou cantar – a música escolhida era a de Francisco Alves, conhecido também como o rei da voz, e se chamava “Adeus” – cinco letras que choram –, escrita em 1947 por Silvino Neto.

“Adeus, adeus, adeus. Cinco letras que choram num soluço de dor

Adeus, adeus, adeus é como o fim de uma estrada, cortando a encruzilhada....”

*    *    *

            A praia da Sepultura mergulhou na escuridão. O único som que se ouvia vinha das ondas quebrando nas pedras.  Se não fosse a lua cheia, que naquela noite brilhava no céu estrelado de Bombinhas, não daria para enxergar um palmo à frente. A temperatura que permaneceu agradável durante o dia começava a cair. Do mar, o vento soprava para o Sudeste, e fazia a sensação de frio ser maior. Embora o outono aqui não seja tão rigoroso como ele é na Serra, o frio úmido do litoral às vezes é bastante desagradável.

            – Vamos embora – disse.

            – Que horas são? – perguntou Paulo Aguiar.

            – Seis e meia. Para onde vamos agora?

            – Aqui perto mora um antigo morador de Bombinhas. Ele tem 88 anos e também é ascendente direto do povo da Ericeira. Quando o visito, ele sempre pede para ficar.  No almoço liguei para ele e disse que iria apresentar uma pessoa.

            Por uma estrada estreita, feita de lajotas chegamos ao nosso destino. A caminhada não durou cinco minutos. A residência em questão tinha um pavimento e não era guardada por muros. Ela está localizada bem em frente ao mar e dela se tem uma visão por completo de Bombinhas. No caminho, o meu xará contou o que  havia acontecido com a família de Eusébio. Joana faleceu no Natal de 1970 e ele, como já foi dito, em 1984. Os filhos cresceram e tiveram suas próprias famílias.  Na varanda da casa, tendo como vista a Enseada das Garoupas, continuei a ouvir a história dos descendentes da Ericeira. Agora com mais dois expectadores: o morador antigo de Bombinhas, Miguel Moutinho, e sua esposa Carolina, um ano mais nova.

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