domingo, 22 de janeiro de 2017

Capítulo 7 – A felicidade não se compra

Itajaí década de 1940/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
Das cidades que faziam parte da antiga Colônia Nova Ericeira, Itajaí foi a que mais se desenvolveu. Ela foi a primeira a ter iluminação elétrica, uma indústria, serviço telefônico, agência dos Correios, abastecimento de água, banco, universidade e hospital. Enfim, tudo que um município moderno pode oferecer para seus moradores. Esse desenvolvimento somente foi conquistado graças às atividades ligadas ao mar. O terminal portuário construído no final do século XIX foi o grande responsável por todo esse crescimento. Para ter uma ideia, o porto representou quase 100% da economia até a década de 70, quando a indústria pesqueira conquistou espaço. Desde metade do século XIX muitas famílias vieram para a Itajaí em busca de uma vida melhor. Os primeiros chegaram de Porto Belo, São Francisco do Sul, Florianópolis e Paranaguá. Entre essas famílias, estava a de Narciso Barreto. Depois de sair de Bombinhas, até então um bairro de Porto Belo, o carpinteiro naval perambulou por Florianópolis e Blumenau, no Vale do Itajaí.

            No dia 8 de novembro de 1946, o vapor Blumenau atracou no trapiche de embarque e desembarque do Porto de Itajaí. Entre os passageiros que vinham de Blumenau pelo rio Itajaí-Açu, chegaram os integrantes da família Barreto, que era constituída por seis pessoas: quatro filhos, a esposa e o próprio Narciso. O carpinteiro naval desembarcava em Itajaí depois de passar toda a Segunda Guerra Mundial em Blumenau. Foram oito anos trabalhando na construção da estrada de ferro que ligava as duas cidades. Nesse período, a família ficou hospedada em uma casa onde os proprietários, imigrantes alemães, eram privados de falar a língua materna. Como ascendia de portugueses, Narciso teve uma estada mais tranquila em Blumenau, bem diferente das pessoas com sobrenomes alemães. Para essas  pessoas o Estado exerceu uma vigilância total. Mas, isso não fez muita diferença para vida dele, já que era um homem quieto e não tinha o hábito de falar sobre negócios de Estado.

Porto em 1948/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
              Quando chegou a Itajaí, Narciso encontrou uma cidade já em fase de modernização. O comércio prosperava com a instalação de lojas de armarinhos, relojoarias e de uma agência bancária, a do banco Inco, fundado em 1935.  O estabelecimento ficava anexo à firma Almeida & Voigt, na rua Pedro Ferreira. A agricultura também era forte e a pesca começava a se desenvolver. As primeiras empresas pesqueiras surgiram a partir de 1950. No entanto, foi a partir do fim do ciclo da madeira que ela chegou ao seu apogeu. A madeira, desde a sua fundação  de Itajaí em 1820 pelo português Vasconcelos Drummond, movimentou a economia por quase 150 anos. Pela cidade, os galpões abrigavam toras de árvores. Elas eram trazidas pelo rio Itajaí-Açu e vinham da região do Alto Vale. O terminal se encontrava na sua primeira fase, todavia já contribuía para aumentar a arrecadação do município. A segunda fase ficou pronta em 1950. O porto tinha um trecho de cais de 233 metros de extensão e poucos armazéns. 

              Tudo estava centrado no porto. A pesca só teria influência na economia da cidade a partir da década de 1970, quando teve seu ápice. O mesmo pode ser dito da construção naval. A história oficial não conta, mas os colonos ericeirenses  desempenharam um grande papel na pesca de Itajaí e de todo o Estado de Santa Catarina. Além da arte secular da pesca, os imigrantes eram excelentes carpinteiros navais e sabiam construir uma embarcação como ninguém. Parte das pessoas que atuam na pesca de Itajaí e nos estaleiros têm dois pontos em comum. O primeiro deles diz respeito aos sobrenomes, que são os mesmos dos colonos portugueses da Ericeira. O segundo é a origem: Porto Belo, sede da colônia. O bisavô de Narciso veio da Ericeira e dele herdou o dom da construção naval. Já seus filhos homens, por sua vez, demonstraram aptidão para a pesca.

            Narciso lembrava em muito seus antepassados lusos: homem de estatura mediana, pele clara, de grandes e sérios olhos claros, no caso dele azuis. As primeiras rugas já começavam aparecer no seu rosto – sempre calmo – e não era por menos. Ele já estava com 49 anos. A falta de cabelo foi outro resultado do tempo. A família se hospedou na casa cedida pela empresa, que anos mais tarde foi comprada pelo próprio Narciso. A firma se chamava Fluvial e também era responsável pela construção da ferrovia entre Blumenau e Itajaí.  Ele era encarregado de um estaleiro, que atuava na construção e reparos de embarcações. Além de carpinteiro naval, Narciso tinha conhecimentos nas áreas de construção, marcenaria e ferraria, era um “superdotado da natureza”, como diziam muitos dos que trabalhavam com ele.  
 
Depósitos de madeira no bairro São João/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
               Narciso exercia um serviço considerado importante, ao passo que o principal meio de transporte passava pela via fluvial ou marítima. E havia rodovias, carros e transporte coletivo? Sim, mas a frota de automóveis praticamente não existia e o ônibus foi considerado por muitos anos, um transporte caro, lento e bastante incômodo. Além disso, as rodovias que atualmente já não são uma das melhores, há 60 anos, dava dó só de ver. Não havia sinalização, iluminação e em dias de chuva, em vez de estrada, o motorista tinha que enfrentar a lama. O trajeto de Itajaí a Porto Belo que é feito em menos de duas horas, na década de 40 levava quase um dia inteiro. Os veículos precisavam dar uma volta pelo Estado até chegar a Porto Belo, isso quando chegavam, pois parte deles quebrava pelo caminho. Se não fosse por problemas mecânicos, provavelmente, paravam atolados na lama. Fora o perigo de naufrágios, o transporte marítimo era bem mais rápido. Havia tantas embarcações que sempre uma parava no estaleiro. 

            A casa da família Barreto foi erguida com madeira de lei. Ao todo tinha oito cômodos e ficava localizada bem perto do porto. De casa, Narciso levava apenas três minutos a pé para chegar ao trabalho. Na Fluvial, em virtude da sua experiência, o carpinteiro naval entrou como chefe. Ele era responsável pela contratação do pessoal e da manutenção dos inúmeros barcos, lanchas e vapores que apareciam em Itajaí. Para ajudar no serviço, Narciso trouxe vários outros descendentes da Ericeira para trabalhar na empresa. Algumas dessas pessoas não retornaram mais a Porto Belo e junto com outras famílias que haviam chegado em 1820, transformaram a cidade em um pólo da pesca e construção naval. Em 1979, o país chegou a ser considerado o maior fabricante de embarcações do mundo. Itajaí, Navegantes e a cidade do Rio de Janeiro eram os três grandes pólos da construção naval no Brasil.

            Enquanto o auge do setor não chegava, os pequenos estaleiros de Itajaí não paravam. No dia 19 de janeiro de 1948 houve muito movimento no estaleiro Fluvial. Entre as ferramentas, poeira e homens que carregavam troncos de árvores, tudo feito no braço, Narciso dava ordens e controlava o trabalho. O motivo de todo aquele alvoroço foi o pedido de uma grande embarcação para a capital da República, a cidade do Rio de Janeiro. Havia também mais três pequenos barcos para manutenção. Como na época existiam mais embarcações do que carros, os estaleiros permaneciam sempre cheios e o Fluvial não fugia à regra. Faltavam funcionários e Narciso já tinha alertado por mais de uma vez, da necessidade de contratar homens para o serviço. Com uma mão-de-obra sem qualificação, não restara alternativa ao carpinteiro naval senão ensinar outros homens. Alguns deles se tornaram exímios artífices, mas sem chegar a superar o mestre. No galpão aberto, bem próximo ao rio Itajaí, eles trabalhavam sob o comando do velho Narciso.

            – Não deixem essa madeira aqui. Cipriano, cuidado com a serra. Bruno onde está o martelo? – gritava.

            – Seu Narciso, aonde vai essa tábua?

            – Aqui na lateral. Não esqueçam de lixar bem essa madeira.
 
 
Porto pesqueiro década de 1970/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            E assim seguia a rotina no estaleiro, que era de poucas palavras, porém, de muito trabalho. A vida do carpinteiro naval na empresa poderia ser considerada muito penosa, mas era necessário trabalhar. Viver em 1948 era complicado, não existiam alimentos em abundância, já que o mundo tentava se reconstruir da Segunda Guerra Mundial. Além disso, os suprimentos eram caros e para poder obtê-los tinha-se que trabalhar muito. Doenças simples de hoje poderiam matar uma pessoa em poucas horas. No estaleiro, o serviço não parava e apenas representava o que passava no mundo pós-guerra. O horário de serviço começava às sete horas da manhã e seguia até as sete da noite. Acontecia às vezes, quando havia muito pedidos ou consertos, de ficar até perto da meia-noite. O ritmo que se seguia era de reconstrução. Aquele dia de verão de 1948 foi um bom exemplo desse movimento mundial. Dentro da oficina, o “faz isso” ou “faz aquilo” dominava o ambiente. O almoço durava uma hora e os lanches da manhã e da tarde 15 minutos. Isso quer dizer que um operário no estaleiro trabalhava dez horas por dia. A semana tinha seis dias e somente o domingo era respeitado para o descanso. A rotina do estaleiro representava a realidade de outras empresas de Itajaí, embora existam casos onde a jornada de trabalho superava às dez horas diárias.
            No entanto, havia um dia em que os espíritos dos trabalhadores estavam mais livres e os diálogos soltos.  O dia mais esperado por todos, sem dúvida, era a tarde de sábado. Nesse dia, acontecia apenas a manutenção dos equipamentos, limpeza e organização do local de trabalho. Cada trabalhador pensava no que faria para descansar ou aproveitar o fim de semana. No verão, os passeios levavam uma multidão para o rio Itajaí-Açu, bem como os piqueniques nas praias. Os moradores dedicavam o sábado à noite ao cinema. Já nos domingos, às matinês, tanto no Cine Itajaí como no Rex eram paradas obrigatórias para a juventude. Os chefes de família normalmente ficavam em suas casas.    

            Em Itajaí, no fim da década de 1940, tudo estava concentrado no centro da cidade. O comércio, o hospital Santa Beatriz, o banco, a agência dos Correios e até boa parte da população morava na parte central. Sem calçamento e com poucas ruas de acesso, caminhar em Itajaí não era uma tarefa tão simples. Na época, o caminho do porto até a rua Sete de Setembro seguia por trilhas na mata.  As crianças para chegar até a escola Victor Meireles tinham que andar um bom trecho de terra todo dia. O trânsito na cidade era formado na sua maioria por veículos de tração animal. Alguns carros eram vistos, mas poucos circulavam pelo perímetro urbano. O fim da tarde, no sábado de 22 de janeiro de 1948, foi, como de costume, de limpeza. O ambiente se encontrava bem mais leve e o encarregado Narciso dividiu fumo de corda para os funcionários. Nesse dia, o carpinteiro naval deixava um pouco o profissionalismo e chegava a brincar com os trabalhadores. Conversava-se de tudo e as novidades da medicina que apareciam na farmácia Brasil, de propriedade de Heitor Liberato, estavam neste contexto. Liberato era médico e, muitos dos funcionários, assim como Narciso, passaram pelas mãos precisas daquele cirurgião, tão famoso em Itajaí.
 
Vila Operária década de 1940/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            – Então Tonho, a tua barriga tá melhor? – perguntou um trabalhador, enquanto segurava com uma mão a vassoura de palha e na outra um cigarro. 

            – Tá um pouco melhor, tomei óleo de rícino e soltou tudo - disse o trabalhador com chapéu de palha.

            – Foi uma ideia de jerico. Um conhecido meu quase morreu depois de tomar óleo de rícino. Devia procurar o doutor Liberato e pedir pílulas purgativas. Hoje só se usa isso. Eu estive ontem lá. Sabe que um tal de elixir de Nogueira que é um santo remédio para muitas doenças?

            – É mesmo, mas eu não tenho um tostão no bolso para comprar essas pílulas.

            – Se o problema era o tutu eu te emprestava.
 
Helicóptero na década de 1940/Divulgação
 
           A conversa parou por causa do o Vapor Nacional. Pelo seu tamanho acima do normal, sempre chamava atenção. O vapor chegava de Santos saturada de mercadoria e o destino eram os mercados de Itajaí e cidades da região, por exemplo, Porto Belo. Entre os produtos que os comerciantes e clientes esperavam com ansiedade estavam o açúcar, a banha, o querosene (muito utilizado na iluminação das casas), a goma, o fumo de corda, polvilho, mel, fósforo, vinho virgem, azeite e o charque. Parte desses produtos ia para Domingos Marquezi, responsável por um comércio de Secos e Molhados na rua Pedro Ferreira. A família de Narciso, bem como boa parte da população fazia as compras nesse comércio.   O Secos e Molhados Marquezi seria hoje um grande supermercado. Bruno, jovem aprendiz de carpinteiro naval, recomeçou a conversa interrompida com um assunto que ficou na berlinda durante todo o mês de janeiro de 1948 e chegou mesmo a ser notícia nos jornais da cidade portuária.

            – Disseram que viram lá pelo lado da Itaipava um avião muito esquisito.

            – Avião Esquisito? – questionou Cipriano.

            Nesse ponto Narciso, que não tinha o hábito de se meter na conversa dos outros funcionários, também ficou atento. Já passava das seis horas da tarde, mas como era verão o dia permanecia bem claro. A limpeza se encontrava no fim e todos se encontravam agitados para ir embora. 

            – A coisa tinha uma hélice de barco bem grande em cima – completou o aprendiz de carpinteiro naval.

            – Então era um navio – comentou Juarez, um senhor de cabelos e barbas rasas e brancas.

            – Se voava não era navio – dizia uma voz entre os funcionários do estaleiro.

            Na semana que foi publicada a notícia, Narciso chegou a ler os jornais e logo matou a charada para espanto de todos. O fato tinha acontecido há duas semanas. O registro no jornal “A Nação” do dia 7 de janeiro de 1948 dizia que um proprietário rural havia de fato visto a tal aeronave. A manchete do jornal era a seguinte: “Uma estranha aeronave em Itajaí”

            – Era um helicóptero – disse resoluto o carpinteiro naval.

            – O que é isso?

            – Uma aeronave nova feita nos Estados Unidos.

            Os funcionários ficaram boquiabertos com a explicação. Ninguém teve coragem de duvidar do chefe. Muitos não entenderam o significado do nome e pediram que o carpinteiro naval repetisse.

            – Como é mesmo?

            – Um Helicóptero. 
 
Itajaí na década de 1950/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            Ele precisou dizer mais duas vezes para que os funcionários do estaleiro compreendessem. Assim que a limpeza terminou, os trabalhadores seguiram cada um para sua casa e alguns deles ainda pronunciavam bem baixinho a palavra. Eles  não queriam esquecer o que ouviram para poder contar em casa a novidade. Em tempos sem televisão, uma boa história tinha tudo para ser um ótimo passatempo. Narciso sem uma para contar, também seguiu para casa. Encontrou a esposa, sentada no sofá. Tricotava um suéter azul. No tapete branco, duas meninas brincavam, cada uma com sua boneca. Eram as filhas do carpinteiro naval. Eugênia tinha 11 anos e Herondina era doze meses mais nova. Assim que perceberam a chegada do pai, elas largaram as bonecas e correram na sua direção. 

            – Papai, papai! Hoje andamos de carro! – disse Eugênia ao mesmo tempo em que o abraçava. O mesmo fez a irmã que continuou o relato da aventura do dia. 

            – Era um carro tão bonito. Chegamos tão rápido em casa!

            O automóvel em questão era um modelo Sedan, fabricado em 1940. Ele era abastecido com gasogênio, um combustível que surgia da reação do oxigênio e carvão. A gasolina já existia na época, mas com a Segunda Guerra Mundial, o combustível derivado do petróleo ficou sem ser encontrado no Brasil.

            – Levei as meninas hoje de manhã para comprar roupas. Seus vestidos estão todos velhos e não tem mais o que remendar. Na loja encontrei o senhor Antônio Ramos. Como estava a caminho do estaleiro, ele ofereceu carona.

            – Papai foi tão bom. Não é mesmo, Eugênia?

            – O senhor deveria comprar um carro também papai.

            – Onde estão os garotos? – perguntou Narciso  à mulher ao mesmo tempo que olhava ao redor. 

            – Eles foram até o mercado do senhor Marquezi.

            O carpinteiro naval depois de beijar as filhas e a esposa seguiu para o seu quarto. O jantar foi servido às oito horas em ponto, já com a presença dos filhos Henrique e Firmino. Como de costume, a refeição noturna foi feita sem muitas palavras. O sábado também modificava os hábitos da família. Durante toda a semana grupo ia para cama logo após o jantar, mas como no domingo ninguém tinha compromisso, os filhos e os pais ficavam cada um com  seu divertimento favorito.
 
             Os meninos visitavam os colegas próximos, todavia tinham que respeitar o horário de voltar para casa, no caso deles, às dez da noite. As garotas brincavam até quase o mesmo horário. A mãe que se chamava Sebastiana pegava as agulhas e os novelos de lãs e continuava o trabalho de tricô. E o que fazia Narciso? Se tivesse um aparelho de televisão, provavelmente se entreteria com ele. Embora a primeira transmissão – uma partida de futebol – de televisão no Brasil acontecesse no dia 28 de setembro de 1948, um aparelho estaria ainda muito longe da realidade das famílias brasileiras. Os primeiros itajaienses só tiveram o primeiro contato com o aparelho no dia 17 de julho de 1960. O eletrodoméstico que veio de Curitiba foi ligado a uma torre de energia elétrica. Após horas de tentativas conseguiu-se captar apenas o som de uma emissora paulista. Isso chegou a ser motivo de comemoração na cidade.

            Sem imagens, Narciso teve que se contentar apenas com os sons emitidos por seu rádio, um modelo valvulado da Phillips, feito em madeira. Todos os dias após o jantar e aos domingos à tarde, o aparelho radiofônico, que ficava instalado em seu quarto, lhe fazia companhia. As radio-novelas, as transmissões dos jogos de futebol e as notícias estavam entre seus programas favoritos. Na noite daquele sábado, como era de costume, ele relaxou o corpo na sua “inseparável”, nome dado pela esposa a cadeira de balanço feita por ele na juventude. Para cada cidade que ia ele levava a “inseparável” junto. Ligou o rádio, sintonizou na única estação da cidade, a Rádio Difusora Itajaí, fundada em 1942. Naquele mesmo ano, um alto-falante instalado na praça Vidal Ramos anunciou a novidade para população, superada 18 anos depois pela televisão e quase 60, com a internet. Se perguntassem para o carpinteiro naval o que era internet, ele teria a mesma reação dos funcionários do estaleiro em relação ao helicóptero.

            – Que diabos é isso?  – diria o carpinteiro naval.

            Com a estação sintonizada, Narciso esperou passar os comerciais. Já estava quase na hora de começar o jornal, o Repórter Esso.

Locutor masculino – Amigo ouvinte, boa noite! Você está sintonizado na ZYK9, 1530. A menor com o maior alcance. Daqui a pouco, mais uma edição do seu jornal Repórter Esso, "o primeiro a dar as últimas".

Locutora feminina – Fracos e anêmicos tomem o vinho Creosato Silveira, um grande tônico.

Locutor masculino – Papéis de todos os tipos, carbono, diplomata, brístol, em diversas cores, tintas, penas e lápis. Você encontra na Casa Macedo, localizada na Rua Lauro Muller, nº 480.

Locutora feminina – Milhões têm usado com bom resultado o popular depurativo Elixir 914. Um santo remédio para queda de cabelo, fígado, baço, coração, estômago, pulmão e pele. Inofensivo ao organismo, agradável como licor. O Elixir 914 pode ser encontrado na Farmácia Brasil, de Heitor Liberato & Cia.

Locutor masculino – Em nome da Casa Almeida & Voigt começa em dois minutos o Repórter Esso.

            Narciso aproveitou esse tempo para pegar um cigarro de corda e se ajeitar na cadeira. A janela do quarto permanecia aberta. Era oito e meia e começava anoitecer. Uma brisa fria vinda do rio Itajaí-Açu, de vez quando, entrava no quarto escuro.

Gontijo Teodoro – Amigo ouvinte, aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da história.

Heron Domingues – Morreu assassinado na manhã de hoje, na Índia, Mohandas Karamchand Gandhi. O líder pacifista que era conhecido pela sábia política da boa vizinhança...

*    *    *

            O primeiro ano em Itajaí foi de poucas preocupações para Narciso. No trabalho, o estaleiro crescia a cada mês. Dono e funcionários estavam satisfeitos com o resultado do trabalho. Sempre tinha um pedido para construção de um barco. O profissionalismo do carpinteiro naval havia se espalhado pela cidade e ele era sempre requisitado para um serviço. Elogios não faltavam para o velho Narciso e aos poucos ele ganhava o reconhecimento das pessoas. O sucesso profissional se refletia também em casa. O ambiente era um dos melhores. Móveis começavam a ocupar o espaço vazio da casa, que vivia lotada. Toda semana, Narciso  abrigava, mesmo por alguns dias, um parente ou conhecido vindo de Porto Belo. A casa da família Barreto parecia mais um hotel do que um lar. Essas pessoas saíam de Porto Belo, mais precisamente de Bombinhas, para se livrar de uma vida difícil, cheia de privações. Lá não havia emprego, o dinheiro que se ganhava com a pesca era usado todo na alimentação, isso quando dava para comprar alguma coisa para comer. Existia apenas uma escolha a fazer: abandonar Bombinhas. Uma das poucas opções se chamava Itajaí. 
 
Regata náutica em 1948/Centro de Documentação e Memória Histórica
 
            Dezembro enfim chegou e em poucos dias 1948 iria embora, levando com ele muitas lembranças, algumas ruins e outras boas da vida do construtor naval. Entre essas agradáveis recordações estão as famosas regatas, realizadas no rio Itajaí-Açu. Elas aconteciam uma vez por ano e reuniam centenas de pessoas. Era um acontecimento tão esperado pela população que hoje pode ser comparado a uma partida de futebol ou até mesmo com o Carnaval. Não se comentava outra coisa na cidade, se não fosse às regatas. Quem ia competir? Quais eram os favoritos? Qual o melhor dos yolés? – embarcações pequenas usadas na prática de remo, conhecidas popularmente como caiaques. Essas e outras perguntas eram feitas e respondidas em bares, no trabalho, no porto, hospital, no comércio ou até mesmo na área rural. A semana que antecipava a data das regatas era cheias de expectativas. No estaleiro onde trabalhava Narciso a rotina também havia mudado. E não era para menos, dois yolés estavam sendo preparados para a competição ali. Na sexta-feira, dois dias antes das competições, os barcos foram entregues para seus proprietários. Mesmo não sendo sábado, os funcionários arriscaram seus palpites.

            – O Alvorada vai ganhar –  comentou Bruno.

            – O Alvorada é bom, mas a equipe é fraca. Eu acho que quem ganha a regata é o time do Marcílio Dias. Eu vi no sábado passado o Yara e Yarê no rio – disse Cipriano.

            A conversa seguiu com cada funcionário dando seu palpite ou discordando do colega. A discussão de quem ganharia a regata seguiu no sábado de limpeza e só terminou com o fim das provas. No domingo, antes das oito horas da manhã, a família de Narciso já estava pronta. Cada integrante mostrava com orgulho seu traje domingueiro. As mulheres com longos vestidos sem manga e os homens com terno, calça de linho e chapéu. No caminho, o carpinteiro naval encontrou outras tantas pessoas, que seguiam à praça Vidal Ramos. O trajeto a pé levava quase meia hora, mas ninguém reclamou do cansaço. Chegando ao local, um alto-falante dava as boas vindas para quem chegava e pedia para que os competidores se alinhassem, cada um na sua raia. As regatas no rio Itajaí-Açu eram realizadas sempre nas manhãs do segundo domingo do mês de dezembro. A corrida de barcos durava, em média, uma hora e meia. O percurso tinha 800 metros e era limitado por cordas. Ganhava a corrida quem completasse 20 voltas nesse trajeto. Narciso que tentava se proteger do sol escaldante daquela manhã de verão, observava por entre os seus grandes óculos, os oito yoles que permaneciam posicionados. Cada caiaque levava cinco atletas. Todos esperavam com aflição que o juiz da prova desse o tiro de largada. Centenas de pessoas se espremiam tanto na margem direita – Navegantes – , como na esquerda – Itajaí. O tiro para o alto foi dado e o locutor começou a narrativa de mais uma regata náutica.

            – Começa mais uma grande Regata Náutica de Itajaí O yole número cinco saiu na frente, mas a vantagem para o número dois é...

            Remando com toda a força que seus braços podiam aguentar, os atletas largaram, mas a distância de um caiaque para outro era muito pequena. Somente na metade da prova em diante é que se podia ver quem havia entrado para vencer e quem estava na regata apenas para competir. Parte do público que se encontrava nas margens do rio Itajaí-Açu animava os atletas com gritos de incentivo. “Vai José”, “Não desista João” e “Você é o melhor Pedro” eram algumas das frases ditas entre a multidão.

            – Faltam apenas oito voltas e o yole número três lidera. Agora... – continuava o locutor.

            A última volta foi cheia de emoção. Os caiaques Yara – número cinco – e Yarê – número dois – do Clube Náutico Marcílio Dias se encontravam um do lado do outro.  Favorito, o Yara chegou a se distanciar, mas faltou fôlego para os atletas. Nos últimos cem metros, para a surpresa do público, a equipe do Yarê conseguiu superar seus colegas de clube e venceu a prova. A regata náutica de 1948 apenas comprovou a hegemonia dos remadores do Marcílio Dias. Nas dez últimas edições, antes daquele ano, pelo menos em sete, um yole do clube terminou em primeiro lugar. No pódio, que tinha direito até a champanhe, o prefeito Arno Bauer entregou o troféu para o quinteto. Uma pequena banda formada por alunos do colégio Victor Meireles tocou o hino da vitória. Com o fim da regata e das premiações, a praça Vidal Ramos ficou vazia. A população que havia lotado o local foi embora do mesmo jeito que veio.  Narciso seguiu com a família o caminho de casa. Embora na torcida por um dos dois caiaques que ajudou a consertar, o carpinteiro estava satisfeito com o resultado. Os yoles que passaram pelo estaleiro Fluvial ficaram em terceiro e em quinto lugar, respectivamente. 
 
Yole na década de 1940/Divulgação
 
            A regata não foi o único motivo que fez Narciso sair de casa naquele domingo de 1948. Uma outra distração fazia parte dos seus planos e era aguardada com ansiedade pela família. Pela primeira vez, Sebastiana conheceria o cinema. Narciso e os filhos já haviam ido aos dois cinemas da cidade: o Cine Itajahy e o Rex. Durante todo aquele ano, o carpinteiro naval tentou levar a mulher ao cinema, mas o serviço no estaleiro o impediu. Os filhos não ficavam de fora, aliás, da casa eram eles que mais visitavam as salas de projeção. Todos os domingos, cada um com sua revista, seguia para o Cine Itajahy. Os filmes de faroeste, do Tarzan e as séries como “O Segredo da Ilha do Tesouro” e “Zorro” faziam a alegria de crianças e adolescentes e por que não dizer dos adultos também. A juventude tinha uma sessão especial às cinco horas. O cinema era tão popular na época, que essa diversão era acessível para todas as classes sociais. Durante o almoço de domingo não se falava em outra coisa na mesa. Até mesmo a regata havia sido esquecida.

– Henrique, descobristes que filme vai passar na sessão das oito no Cine Itajahy? – perguntou Narciso.

– Não sei o nome do filme, mas é sobre o Natal. Eu passei ontem pelo Cine Rex e vi o cartaz – respondeu sem desgrudar os olhos da revista que trazia informações sobre a programação.

            – O senhor vai ao cinema papa?

            – Sim Manoel, eu vou, mas não me chame mais de papa. Vou levar a mãe de vocês, que não sabe o que é um filme.

            – Não tem esse filme na revista pai.

            – Não faz mal Henrique. Não faz mal - respondeu Narciso batendo de leve nas costas do filho, que tentava encontrar o título na sua revista.

            – Podemos ir também? - perguntou Herondina.

            – Não, vocês vão à matinê. Nós vamos à noite. Eu e sua mãe.

            – Mas não é perigoso pai? Vir para casa tarde da noite e a pé? Perguntou  a esposa apreensiva.

            – Quem disse que vamos a pé? O senhor Leonardo Antunes, sócio do estaleiro, vai levar. Ele ofereceu carona para hoje à noite. Tentei recusar, mas ele disse que seria uma ofensa muito grande se eu dissesse não.
 
James Stewart em "A Felicidade não se compra"/Divulgação
 
 
            A noite daquele dia, 14 de dezembro de 1948, foi inesquecível para o casal. O tempo estava bom e não fazia calor. Meia hora antes do horário combinado para o cinema eles já se encontravam arrumados. Narciso de terno, gravata, sapato lustroso e chapéu. Sebastiana com um longo vestido, modelo tirado da última edição da revista “Cruzeiro”. O carro, um modelo Ford 1945, levou o casal ao cinema. Inaugurado no dia 3 de agosto de 1938, o Cine Itajahy funcionava em um prédio da rua Hercílio Luz. O primeiro filme apresentado foi “Anna Karenina”, produção americana de 1935, baseada no livro de mesmo nome, do escritor russo Leon Tolstoi e quem tinha no elenco a sueca Greta Garbo. As 60 poltronas do Cine Itajahy eram estofadas e com assento reclinável. O maquinário para a projeção era o melhor do Estado de Santa Catarina na época.  Grande parte dos filmes, a exemplo da produção de hoje, tinha origem americana. Na entrada do prédio,  Narciso e a esposa foram recepcionados pelo senhor Opuski, que reconheceu o carpinteiro naval. Opuski era uma pessoa muito popular na cidade.

            – Boa Noite senhor Narciso! Boa noite senhora! - cumprimentou sorridente, assim que entregava as entradas.

            – Que filme temos hoje, Opuski?

            – O melhor filme que passou pelo Cine Itajahy até agora. Chama-se “A Felicidade Não se Compra”, com James Stewart, o mesmo que fez “Núpcias de Escândalo” e “A Mulher Faz o Homem”. Para cada filme que era rodado, Opuski dizia que era o melhor filme que passou no Cine Itajahy.

            O casal entrou na sala de projeção e procurou um bom lugar para sentar. Como tinha problema de visão, Narciso ficou na segunda fila. O cinema estava lotado. Na cabine de projeção o operador Arnoldo Polhein e seu ajudante, Osmar Corrêa de Mello, o Marzinho, revisavam o filme para ver se as emendas estavam firmes. A principal preocupação do operador era da fita arrebentar durante a sessão. Quando as luzes se apagaram, todos nos cinema se encontravam apreensivos. A esposa de Narciso que nunca tinha ido a uma sala de projeção não se aguentava na poltrona. Uma luz percorreu toda a sala e chegou até parede em frente do público. Dirigido por Frank Capra em 1946, “A Felicidade Não se Compra” conta a história de um anjo que desce a terra para salvar um homem (Stewart) do suicídio. Na meia hora final do filme, o anjo, que precisa merecer suas asas, mostra como seria a cidadezinha do herói caso ele nunca tivesse existido. 


*    *    *

                        O sol outonal começava a se estender no horizonte por trás dos morros que cercam Bombinhas. Faltava ainda meia hora para anoitecer.  Depois que terminou a narrativa, Paulo Aguiar, ainda sentado na areia da praia, olhava para o mar. Como a história dos descendentes da Ericeira não havia terminado resolvi ficar até a noite em Bombinhas, mas esse lugar não seria a praia da Sepultura. Antes que eu mesmo falasse na tal possibilidade, Aguiar se adiantou.

            – Você vai voltar para Balneário?

            – Agora não, mas se precisar posso ficar em Bombinhas mais duas ou três horas.

            – Se quiseres você pode dormir aqui. Você tem compromisso amanhã?

            – Não, mas não posso ficar minha esposa está a minha espera. Ficarei de bom grado até a história acabar – respondi.

            – Eu acho que da para terminar mais uma história antes de anoitecer de vez.

            Paulo Aguiar contou o que aconteceu com o Narciso e sua família. As filhas cresceram e se formaram professoras. Eugênia casou e foi morar em Guarujá na década de 1960. Herondina nunca casou ou teve filhos. Ela mora hoje em Itajaí. Já os filhos homens seguiram o caminho da pesca. Henrique morreu em naufrágio na cidade do Belém do Pará, em 1975. No mesmo ano, Narciso que não aceitou a morte do filho, morreu em casa, perto da Capitania dos Portos, em Itajaí. Ele se aposentou pela Estrada de Ferro Santa Catarina, que era dona do estaleiro Fluvial. Sebastiana faleceu em 1984 e Firmino no ano passado.

            – Então sobraram apenas às meninas – conclui.

            – Sim, você se lembra que Narciso ajudou muitos moradores de Porto Belo a arrumar trabalho? A próxima narrativa conta a história de uma dessas pessoas.

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