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| Itajaí década de 1940/Centro de Documentação e Memória Histórica |
Das
cidades que faziam parte da antiga Colônia Nova Ericeira, Itajaí foi a que mais
se desenvolveu. Ela foi a primeira a ter iluminação elétrica, uma indústria,
serviço telefônico, agência dos Correios, abastecimento de água, banco,
universidade e hospital. Enfim, tudo que um município moderno pode oferecer
para seus moradores. Esse desenvolvimento somente foi conquistado graças às atividades
ligadas ao mar. O terminal portuário construído no final do século XIX foi o
grande responsável por todo esse crescimento. Para ter uma ideia, o porto
representou quase 100% da economia até a década de 70, quando a indústria
pesqueira conquistou espaço. Desde metade do século XIX muitas famílias vieram
para a Itajaí em busca de uma vida melhor. Os primeiros chegaram de Porto Belo,
São Francisco do Sul, Florianópolis e Paranaguá. Entre essas famílias, estava a
de Narciso Barreto. Depois de sair de Bombinhas, até então um bairro de Porto
Belo, o carpinteiro naval perambulou por Florianópolis e Blumenau, no Vale do
Itajaí.
No dia 8 de novembro de 1946, o
vapor Blumenau atracou no trapiche de embarque e desembarque do Porto de
Itajaí. Entre os passageiros que vinham de Blumenau pelo rio Itajaí-Açu,
chegaram os integrantes da família Barreto, que era constituída por seis
pessoas: quatro filhos, a esposa e o próprio Narciso. O carpinteiro naval
desembarcava em Itajaí depois de passar toda a Segunda Guerra Mundial em Blumenau. Foram
oito anos trabalhando na construção da estrada de ferro que ligava as duas
cidades. Nesse período, a família ficou hospedada em uma casa onde os
proprietários, imigrantes alemães, eram privados de falar a língua materna.
Como ascendia de portugueses, Narciso teve uma estada mais tranquila em
Blumenau, bem diferente das pessoas com sobrenomes alemães. Para essas pessoas o Estado exerceu uma vigilância
total. Mas, isso não fez muita diferença para vida dele, já que era um homem quieto
e não tinha o hábito de falar sobre negócios de Estado.
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Quando chegou a Itajaí, Narciso
encontrou uma cidade já em fase de modernização. O comércio prosperava com a
instalação de lojas de armarinhos, relojoarias e de uma agência bancária, a do
banco Inco, fundado em 1935. O
estabelecimento ficava anexo à firma Almeida & Voigt, na rua Pedro
Ferreira. A agricultura também era forte e a pesca começava a se desenvolver.
As primeiras empresas pesqueiras surgiram a partir de 1950. No entanto, foi a
partir do fim do ciclo da madeira que ela chegou ao seu apogeu. A madeira,
desde a sua fundação de Itajaí em 1820
pelo português Vasconcelos Drummond, movimentou a economia por quase 150 anos.
Pela cidade, os galpões abrigavam toras de árvores. Elas eram trazidas pelo rio
Itajaí-Açu e vinham da região do Alto Vale. O terminal se encontrava na sua
primeira fase, todavia já contribuía para aumentar a arrecadação do município.
A segunda fase ficou pronta em 1950. O porto tinha um trecho de cais de 233 metros de extensão e
poucos armazéns.
Tudo estava centrado no porto. A pesca só teria influência na economia
da cidade a partir da década de 1970, quando teve seu ápice. O mesmo pode ser
dito da construção naval. A história oficial não conta, mas os colonos ericeirenses desempenharam um grande papel na pesca de
Itajaí e de todo o Estado de Santa Catarina. Além da arte secular da pesca, os
imigrantes eram excelentes carpinteiros navais e sabiam construir uma
embarcação como ninguém. Parte das pessoas que atuam na pesca de Itajaí e nos
estaleiros têm dois pontos em
comum. O primeiro deles diz respeito aos sobrenomes, que são
os mesmos dos colonos portugueses da Ericeira. O segundo é a origem: Porto
Belo, sede da colônia. O bisavô de Narciso veio da Ericeira e dele herdou o dom
da construção naval. Já seus filhos homens, por sua vez, demonstraram aptidão
para a pesca.
Narciso lembrava em muito seus
antepassados lusos: homem de estatura mediana, pele clara, de grandes e sérios
olhos claros, no caso dele azuis. As primeiras rugas já começavam aparecer no
seu rosto – sempre calmo – e não era por menos. Ele já estava com 49 anos. A
falta de cabelo foi outro resultado do tempo. A família se hospedou na casa
cedida pela empresa, que anos mais tarde foi comprada pelo próprio Narciso. A
firma se chamava Fluvial e também era responsável pela construção da ferrovia
entre Blumenau e Itajaí. Ele era
encarregado de um estaleiro, que atuava na construção e reparos de embarcações.
Além de carpinteiro naval, Narciso tinha conhecimentos nas áreas de construção,
marcenaria e ferraria, era um “superdotado da natureza”, como diziam muitos dos
que trabalhavam com ele.
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| Depósitos de madeira no bairro São João/Centro de Documentação e Memória Histórica |
Narciso exercia um serviço
considerado importante, ao passo que o principal meio de transporte passava
pela via fluvial ou marítima. E havia rodovias, carros e transporte coletivo?
Sim, mas a frota de automóveis praticamente não existia e o ônibus foi
considerado por muitos anos, um transporte caro, lento e bastante incômodo.
Além disso, as rodovias que atualmente já não são uma das melhores, há 60 anos,
dava dó só de ver. Não havia sinalização, iluminação e em dias de chuva, em vez
de estrada, o motorista tinha que enfrentar a lama. O trajeto de Itajaí a Porto
Belo que é feito em menos de duas horas, na década de 40 levava quase um dia
inteiro. Os veículos precisavam dar uma volta pelo Estado até chegar a Porto
Belo, isso quando chegavam, pois parte deles quebrava pelo caminho. Se não
fosse por problemas mecânicos, provavelmente, paravam atolados na lama. Fora o
perigo de naufrágios, o transporte marítimo era bem mais rápido. Havia tantas
embarcações que sempre uma parava no estaleiro.
A casa da família Barreto foi
erguida com madeira de lei. Ao todo tinha oito cômodos e ficava localizada bem
perto do porto. De casa, Narciso levava apenas três minutos a pé para chegar ao
trabalho. Na Fluvial, em virtude da sua experiência, o carpinteiro naval entrou
como chefe. Ele era responsável pela contratação do pessoal e da manutenção dos
inúmeros barcos, lanchas e vapores que apareciam em Itajaí. Para ajudar
no serviço, Narciso trouxe vários outros descendentes da Ericeira para
trabalhar na empresa. Algumas dessas pessoas não retornaram mais a Porto Belo e
junto com outras famílias que haviam chegado em 1820, transformaram a cidade em
um pólo da pesca e construção naval. Em 1979, o país chegou a ser considerado o
maior fabricante de embarcações do mundo. Itajaí, Navegantes e a cidade do Rio
de Janeiro eram os três grandes pólos da construção naval no Brasil.
Enquanto o auge do setor não
chegava, os pequenos estaleiros de Itajaí não paravam. No dia 19 de janeiro de
1948 houve muito movimento no estaleiro Fluvial. Entre as ferramentas, poeira e
homens que carregavam troncos de árvores, tudo feito no braço, Narciso dava
ordens e controlava o trabalho. O motivo de todo aquele alvoroço foi o pedido
de uma grande embarcação para a capital da República, a cidade do Rio de
Janeiro. Havia também mais três pequenos barcos para manutenção. Como na época
existiam mais embarcações do que carros, os estaleiros permaneciam sempre
cheios e o Fluvial não fugia à regra. Faltavam funcionários e Narciso já tinha
alertado por mais de uma vez, da necessidade de contratar homens para o
serviço. Com uma mão-de-obra sem qualificação, não restara alternativa ao
carpinteiro naval senão ensinar outros homens. Alguns deles se tornaram exímios
artífices, mas sem chegar a superar o mestre. No galpão aberto, bem próximo ao
rio Itajaí, eles trabalhavam sob o comando do velho Narciso.
– Não deixem essa madeira aqui. Cipriano,
cuidado com a serra. Bruno onde está o martelo? – gritava.
– Seu Narciso, aonde vai essa tábua?
– Aqui na lateral. Não esqueçam de
lixar bem essa madeira.
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| Porto pesqueiro década de 1970/Centro de Documentação e Memória Histórica |
E assim seguia a rotina no
estaleiro, que era de poucas palavras, porém, de muito trabalho. A vida do
carpinteiro naval na empresa poderia ser considerada muito penosa, mas era
necessário trabalhar. Viver em 1948 era complicado, não existiam alimentos em
abundância, já que o mundo tentava se reconstruir da Segunda Guerra Mundial.
Além disso, os suprimentos eram caros e para poder obtê-los tinha-se que
trabalhar muito. Doenças simples de hoje poderiam matar uma pessoa em poucas
horas. No estaleiro, o serviço não parava e apenas representava o que passava
no mundo pós-guerra. O horário de serviço começava às sete horas da manhã e
seguia até as sete da noite. Acontecia às vezes, quando havia muito pedidos ou
consertos, de ficar até perto da meia-noite. O ritmo que se seguia era de
reconstrução. Aquele dia de verão de 1948 foi um bom exemplo desse movimento
mundial. Dentro da oficina, o “faz isso” ou “faz aquilo” dominava o ambiente. O
almoço durava uma hora e os lanches da manhã e da tarde 15 minutos. Isso quer
dizer que um operário no estaleiro trabalhava dez horas por dia. A semana tinha
seis dias e somente o domingo era respeitado para o descanso. A rotina do
estaleiro representava a realidade de outras empresas de Itajaí, embora existam
casos onde a jornada de trabalho superava às dez horas diárias.
No entanto, havia um dia em que os
espíritos dos trabalhadores estavam mais livres e os diálogos soltos. O dia mais esperado por todos, sem dúvida,
era a tarde de sábado. Nesse dia, acontecia apenas a manutenção dos
equipamentos, limpeza e organização do local de trabalho. Cada trabalhador
pensava no que faria para descansar ou aproveitar o fim de semana. No verão, os
passeios levavam uma multidão para o rio Itajaí-Açu, bem como os piqueniques
nas praias. Os moradores dedicavam o sábado à noite ao cinema. Já nos domingos,
às matinês, tanto no Cine Itajaí como no Rex eram paradas obrigatórias para a
juventude. Os chefes de família normalmente ficavam em suas casas.
Em Itajaí, no fim da década de 1940,
tudo estava concentrado no centro da cidade. O comércio, o hospital Santa
Beatriz, o banco, a agência dos Correios e até boa parte da população morava na
parte central. Sem calçamento e com poucas ruas de acesso, caminhar em Itajaí
não era uma tarefa tão simples. Na época, o caminho do porto até a rua Sete de
Setembro seguia por trilhas na mata. As
crianças para chegar até a escola Victor Meireles tinham que andar um bom
trecho de terra todo dia. O trânsito na cidade era formado na sua maioria por
veículos de tração animal. Alguns carros eram vistos, mas poucos circulavam
pelo perímetro urbano. O fim da tarde, no sábado de 22 de janeiro de 1948, foi,
como de costume, de limpeza. O ambiente se encontrava bem mais leve e o
encarregado Narciso dividiu fumo de corda para os funcionários. Nesse dia, o
carpinteiro naval deixava um pouco o profissionalismo e chegava a brincar com
os trabalhadores. Conversava-se de tudo e as novidades da medicina que
apareciam na farmácia Brasil, de propriedade de Heitor Liberato, estavam neste
contexto. Liberato era médico e, muitos dos funcionários, assim como Narciso,
passaram pelas mãos precisas daquele cirurgião, tão famoso em Itajaí.
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| Vila Operária década de 1940/Centro de Documentação e Memória Histórica |
– Então Tonho, a tua barriga tá
melhor? – perguntou um trabalhador, enquanto segurava com uma mão a vassoura de
palha e na outra um cigarro.
– Tá um pouco melhor, tomei óleo de
rícino e soltou tudo - disse o trabalhador com chapéu de palha.
– Foi uma ideia de jerico. Um
conhecido meu quase morreu depois de tomar óleo de rícino. Devia procurar o
doutor Liberato e pedir pílulas purgativas. Hoje só se usa isso. Eu estive ontem
lá. Sabe que um tal de elixir de Nogueira que é um santo remédio para muitas
doenças?
– É mesmo, mas eu não tenho um
tostão no bolso para comprar essas pílulas.
– Se o problema era o tutu eu te
emprestava.
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| Helicóptero na década de 1940/Divulgação |
A conversa parou por causa do o
Vapor Nacional. Pelo seu tamanho acima do normal, sempre chamava atenção. O
vapor chegava de Santos saturada de mercadoria e o destino eram os mercados de
Itajaí e cidades da região, por exemplo, Porto Belo. Entre os produtos que os
comerciantes e clientes esperavam com ansiedade estavam o açúcar, a banha, o
querosene (muito utilizado na iluminação das casas), a goma, o fumo de corda,
polvilho, mel, fósforo, vinho virgem, azeite e o charque. Parte desses produtos
ia para Domingos Marquezi, responsável por um comércio de Secos e Molhados na
rua Pedro Ferreira. A família de Narciso, bem como boa parte da população fazia
as compras nesse comércio. O Secos e
Molhados Marquezi seria hoje um grande supermercado. Bruno, jovem aprendiz de
carpinteiro naval, recomeçou a conversa interrompida com um assunto que ficou
na berlinda durante todo o mês de janeiro de 1948 e chegou mesmo a ser notícia
nos jornais da cidade portuária.
– Disseram que viram lá pelo lado da
Itaipava um avião muito esquisito.
– Avião Esquisito? – questionou
Cipriano.
Nesse ponto Narciso, que não tinha o
hábito de se meter na conversa dos outros funcionários, também ficou atento. Já
passava das seis horas da tarde, mas como era verão o dia permanecia bem claro.
A limpeza se encontrava no fim e todos se encontravam agitados para ir
embora.
– A coisa tinha uma hélice de barco
bem grande em cima – completou o aprendiz de carpinteiro naval.
– Então era um navio – comentou
Juarez, um senhor de cabelos e barbas rasas e brancas.
– Se voava não era navio – dizia uma
voz entre os funcionários do estaleiro.
Na semana que foi publicada a
notícia, Narciso chegou a ler os jornais e logo matou a charada para espanto de
todos. O fato tinha acontecido há duas semanas. O registro no jornal “A Nação”
do dia 7 de janeiro de 1948 dizia que um proprietário rural havia de fato visto
a tal aeronave. A manchete do jornal era a seguinte: “Uma estranha aeronave em
Itajaí”
– Era um helicóptero – disse
resoluto o carpinteiro naval.
– O que é isso?
– Uma aeronave nova feita nos
Estados Unidos.
Os funcionários ficaram boquiabertos
com a explicação. Ninguém teve coragem de duvidar do chefe. Muitos não
entenderam o significado do nome e pediram que o carpinteiro naval repetisse.
– Como é mesmo?
– Um Helicóptero.
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| Itajaí na década de 1950/Centro de Documentação e Memória Histórica |
Ele precisou dizer mais duas vezes
para que os funcionários do estaleiro compreendessem. Assim que a limpeza
terminou, os trabalhadores seguiram cada um para sua casa e alguns deles ainda
pronunciavam bem baixinho a palavra. Eles
não queriam esquecer o que ouviram para poder contar em casa a novidade.
Em tempos sem televisão, uma boa história tinha tudo para ser um ótimo
passatempo. Narciso sem uma para contar, também seguiu para casa. Encontrou a
esposa, sentada no sofá. Tricotava um suéter azul. No tapete branco, duas
meninas brincavam, cada uma com sua boneca. Eram as filhas do carpinteiro
naval. Eugênia tinha 11 anos e Herondina era doze meses mais nova. Assim que
perceberam a chegada do pai, elas largaram as bonecas e correram na sua
direção.
– Papai, papai! Hoje andamos de
carro! – disse Eugênia ao mesmo tempo em que o abraçava. O mesmo fez a irmã que
continuou o relato da aventura do dia.
– Era um carro tão bonito. Chegamos
tão rápido em casa!
O automóvel em questão era um modelo
Sedan, fabricado em 1940. Ele era abastecido com gasogênio, um combustível que
surgia da reação do oxigênio e carvão. A gasolina já existia na época, mas com
a Segunda Guerra Mundial, o combustível derivado do petróleo ficou sem ser
encontrado no Brasil.
– Levei as meninas hoje de manhã
para comprar roupas. Seus vestidos estão todos velhos e não tem mais o que
remendar. Na loja encontrei o senhor Antônio Ramos. Como estava a caminho do
estaleiro, ele ofereceu carona.
– Papai foi tão bom. Não é mesmo,
Eugênia?
– O senhor deveria comprar um carro
também papai.
– Onde estão os garotos? – perguntou
Narciso à mulher ao mesmo tempo que
olhava ao redor.
– Eles foram até o mercado do senhor
Marquezi.
O carpinteiro naval depois de beijar
as filhas e a esposa seguiu para o seu quarto. O jantar foi servido às oito
horas em ponto, já com a presença dos filhos Henrique e Firmino. Como de
costume, a refeição noturna foi feita sem muitas palavras. O sábado também
modificava os hábitos da família. Durante toda a semana grupo ia para cama logo
após o jantar, mas como no domingo ninguém tinha compromisso, os filhos e os
pais ficavam cada um com seu
divertimento favorito.
Os meninos visitavam os colegas próximos, todavia tinham
que respeitar o horário de voltar para casa, no caso deles, às dez da noite. As
garotas brincavam até quase o mesmo horário. A mãe que se chamava Sebastiana
pegava as agulhas e os novelos de lãs e continuava o trabalho de tricô. E o que
fazia Narciso? Se tivesse um aparelho de televisão, provavelmente se entreteria
com ele. Embora a primeira transmissão – uma partida de futebol – de televisão
no Brasil acontecesse no dia 28 de setembro de 1948, um aparelho estaria ainda
muito longe da realidade das famílias brasileiras. Os primeiros itajaienses só
tiveram o primeiro contato com o aparelho no dia 17 de julho de 1960. O
eletrodoméstico que veio de Curitiba foi ligado a uma torre de energia
elétrica. Após horas de tentativas conseguiu-se captar apenas o som de uma
emissora paulista. Isso chegou a ser motivo de comemoração na cidade.
Sem imagens, Narciso teve que se
contentar apenas com os sons emitidos por seu rádio, um modelo valvulado da
Phillips, feito em
madeira. Todos os dias após o jantar e aos domingos à tarde,
o aparelho radiofônico, que ficava instalado em seu quarto, lhe fazia
companhia. As radio-novelas, as transmissões dos jogos de futebol e as notícias
estavam entre seus programas favoritos. Na noite daquele sábado, como era de
costume, ele relaxou o corpo na sua “inseparável”, nome dado pela esposa a
cadeira de balanço feita por ele na juventude. Para cada cidade que ia ele
levava a “inseparável” junto. Ligou o rádio, sintonizou na única estação da
cidade, a Rádio Difusora Itajaí, fundada em 1942. Naquele mesmo ano, um
alto-falante instalado na praça Vidal Ramos anunciou a novidade para população,
superada 18 anos depois pela televisão e quase 60, com a internet. Se
perguntassem para o carpinteiro naval o que era internet, ele teria a mesma
reação dos funcionários do estaleiro em relação ao helicóptero.
– Que diabos é isso? – diria o carpinteiro naval.
Com a estação sintonizada, Narciso
esperou passar os comerciais. Já estava quase na hora de começar o jornal, o
Repórter Esso.
Locutor
masculino – Amigo ouvinte, boa noite! Você está sintonizado na ZYK9, 1530. A menor com o maior
alcance. Daqui a pouco, mais uma edição do seu jornal Repórter Esso, "o
primeiro a dar as últimas".
Locutora
feminina – Fracos e anêmicos tomem o vinho Creosato Silveira, um grande tônico.
Locutor
masculino – Papéis de todos os tipos, carbono, diplomata, brístol, em diversas
cores, tintas, penas e lápis. Você encontra na Casa Macedo, localizada na Rua
Lauro Muller, nº 480.
Locutora
feminina – Milhões têm usado com bom resultado o popular depurativo Elixir 914.
Um santo remédio para queda de cabelo, fígado, baço, coração, estômago, pulmão
e pele. Inofensivo ao organismo, agradável como licor. O Elixir 914 pode ser
encontrado na Farmácia Brasil, de Heitor Liberato & Cia.
Locutor
masculino – Em nome da Casa Almeida & Voigt começa em dois minutos o
Repórter Esso.
Narciso aproveitou esse tempo para
pegar um cigarro de corda e se ajeitar na cadeira. A janela do quarto
permanecia aberta. Era oito e meia e começava anoitecer. Uma brisa fria vinda
do rio Itajaí-Açu, de vez quando, entrava no quarto escuro.
Gontijo
Teodoro – Amigo ouvinte, aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da
história.
Heron
Domingues – Morreu assassinado na manhã de hoje, na Índia, Mohandas Karamchand
Gandhi. O líder pacifista que era conhecido pela sábia política da boa
vizinhança...
* *
*
O
primeiro ano em Itajaí foi de poucas preocupações para Narciso. No trabalho, o
estaleiro crescia a cada mês. Dono e funcionários estavam satisfeitos com o
resultado do trabalho. Sempre tinha um pedido para construção de um barco. O
profissionalismo do carpinteiro naval havia se espalhado pela cidade e ele era
sempre requisitado para um serviço. Elogios não faltavam para o velho Narciso e
aos poucos ele ganhava o reconhecimento das pessoas. O sucesso profissional se
refletia também em casa. O
ambiente era um dos melhores. Móveis começavam a ocupar o espaço vazio da casa,
que vivia lotada. Toda semana, Narciso
abrigava, mesmo por alguns dias, um parente ou conhecido vindo de Porto
Belo. A casa da família Barreto parecia mais um hotel do que um lar. Essas
pessoas saíam de Porto Belo, mais precisamente de Bombinhas, para se livrar de
uma vida difícil, cheia de privações. Lá não havia emprego, o dinheiro que se
ganhava com a pesca era usado todo na alimentação, isso quando dava para
comprar alguma coisa para comer. Existia apenas uma escolha a fazer: abandonar
Bombinhas. Uma das poucas opções se chamava Itajaí.
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| Regata náutica em 1948/Centro de Documentação e Memória Histórica |
Dezembro enfim chegou e em poucos
dias 1948 iria embora, levando com ele muitas lembranças, algumas ruins e
outras boas da vida do construtor naval. Entre essas agradáveis recordações
estão as famosas regatas, realizadas no rio Itajaí-Açu. Elas aconteciam uma vez
por ano e reuniam centenas de pessoas. Era um acontecimento tão esperado pela
população que hoje pode ser comparado a uma partida de futebol ou até mesmo com
o Carnaval. Não se comentava outra coisa na cidade, se não fosse às regatas.
Quem ia competir? Quais eram os favoritos? Qual o melhor dos yolés? –
embarcações pequenas usadas na prática de remo, conhecidas popularmente como
caiaques. Essas e outras perguntas eram feitas e respondidas em bares, no
trabalho, no porto, hospital, no comércio ou até mesmo na área rural. A semana
que antecipava a data das regatas era cheias de expectativas. No estaleiro onde
trabalhava Narciso a rotina também havia mudado. E não era para menos, dois
yolés estavam sendo preparados para a competição ali. Na sexta-feira, dois dias
antes das competições, os barcos foram entregues para seus proprietários. Mesmo
não sendo sábado, os funcionários arriscaram seus palpites.
– O Alvorada vai ganhar – comentou Bruno.
– O Alvorada é bom, mas a equipe é
fraca. Eu acho que quem ganha a regata é o time do Marcílio Dias. Eu vi no
sábado passado o Yara e Yarê no rio – disse Cipriano.
A conversa seguiu com cada
funcionário dando seu palpite ou discordando do colega. A discussão de quem
ganharia a regata seguiu no sábado de limpeza e só terminou com o fim das
provas. No domingo, antes das oito horas da manhã, a família de Narciso já
estava pronta. Cada integrante mostrava com orgulho seu traje domingueiro. As
mulheres com longos vestidos sem manga e os homens com terno, calça de linho e
chapéu. No caminho, o carpinteiro naval encontrou outras tantas pessoas, que
seguiam à praça Vidal Ramos. O trajeto a pé levava quase meia hora, mas ninguém
reclamou do cansaço. Chegando ao local, um alto-falante dava as boas vindas
para quem chegava e pedia para que os competidores se alinhassem, cada um na
sua raia. As regatas no rio Itajaí-Açu eram realizadas sempre nas manhãs do
segundo domingo do mês de dezembro. A corrida de barcos durava, em média, uma
hora e meia. O percurso tinha 800 metros e era limitado por cordas. Ganhava a
corrida quem completasse 20 voltas nesse trajeto. Narciso que tentava se
proteger do sol escaldante daquela manhã de verão, observava por entre os seus
grandes óculos, os oito yoles que permaneciam posicionados. Cada caiaque levava
cinco atletas. Todos esperavam com aflição que o juiz da prova desse o tiro de
largada. Centenas de pessoas se espremiam tanto na margem direita – Navegantes
– , como na esquerda – Itajaí. O tiro para o alto foi dado e o locutor começou
a narrativa de mais uma regata náutica.
– Começa mais uma grande Regata
Náutica de Itajaí O yole número cinco saiu na frente, mas a vantagem para o
número dois é...
Remando com toda a força que seus
braços podiam aguentar, os atletas largaram, mas a distância de um caiaque para
outro era muito pequena. Somente na metade da prova em diante é que se podia
ver quem havia entrado para vencer e quem estava na regata apenas para
competir. Parte do público que se encontrava nas margens do rio Itajaí-Açu
animava os atletas com gritos de incentivo. “Vai José”, “Não desista João” e
“Você é o melhor Pedro” eram algumas das frases ditas entre a multidão.
– Faltam apenas oito voltas e o yole
número três lidera. Agora... – continuava o locutor.
A última volta foi cheia de emoção.
Os caiaques Yara – número cinco – e Yarê – número dois – do Clube Náutico
Marcílio Dias se encontravam um do lado do outro. Favorito, o Yara chegou a se distanciar, mas
faltou fôlego para os atletas. Nos últimos cem metros, para a surpresa do
público, a equipe do Yarê conseguiu superar seus colegas de clube e venceu a
prova. A regata náutica de 1948 apenas comprovou a hegemonia dos remadores do
Marcílio Dias. Nas dez últimas edições, antes daquele ano, pelo menos em sete,
um yole do clube terminou em primeiro lugar. No pódio, que tinha direito até a
champanhe, o prefeito Arno Bauer entregou o troféu para o quinteto. Uma pequena
banda formada por alunos do colégio Victor Meireles tocou o hino da vitória.
Com o fim da regata e das premiações, a praça Vidal Ramos ficou vazia. A
população que havia lotado o local foi embora do mesmo jeito que veio. Narciso seguiu com a família o caminho de
casa. Embora na torcida por um dos dois caiaques que ajudou a consertar, o
carpinteiro estava satisfeito com o resultado. Os yoles que passaram pelo
estaleiro Fluvial ficaram em terceiro e em quinto lugar, respectivamente.
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| Yole na década de 1940/Divulgação |
A regata não foi o único motivo que
fez Narciso sair de casa naquele domingo de 1948. Uma outra distração fazia
parte dos seus planos e era aguardada com ansiedade pela família. Pela primeira
vez, Sebastiana conheceria o cinema. Narciso e os filhos já haviam ido aos dois
cinemas da cidade: o Cine Itajahy e o Rex. Durante todo aquele ano, o
carpinteiro naval tentou levar a mulher ao cinema, mas o serviço no estaleiro o
impediu. Os filhos não ficavam de fora, aliás, da casa eram eles que mais visitavam
as salas de projeção. Todos os domingos, cada um com sua revista, seguia para o
Cine Itajahy. Os filmes de faroeste, do Tarzan e as séries como “O Segredo da
Ilha do Tesouro” e “Zorro” faziam a alegria de crianças e adolescentes e por
que não dizer dos adultos também. A juventude tinha uma sessão especial às
cinco horas. O cinema era tão popular na época, que essa diversão era acessível
para todas as classes sociais. Durante o almoço de domingo não se falava em
outra coisa na mesa. Até mesmo a regata havia sido esquecida.
–
Henrique, descobristes que filme vai passar na sessão das oito no Cine Itajahy?
– perguntou Narciso.
–
Não sei o nome do filme, mas é sobre o Natal. Eu passei ontem pelo Cine Rex e
vi o cartaz – respondeu sem desgrudar os olhos da revista que trazia
informações sobre a programação.
– O senhor vai ao cinema papa?
– Sim Manoel, eu vou, mas não me
chame mais de papa. Vou levar a mãe de vocês, que não sabe o que é um filme.
– Não tem esse filme na revista pai.
– Não faz mal Henrique. Não faz mal
- respondeu Narciso batendo de leve nas costas do filho, que tentava encontrar
o título na sua revista.
– Podemos ir também? - perguntou
Herondina.
– Não, vocês vão à matinê. Nós vamos
à noite. Eu e sua mãe.
– Mas não é perigoso pai? Vir para
casa tarde da noite e a pé? Perguntou a
esposa apreensiva.
– Quem disse que vamos a pé? O
senhor Leonardo Antunes, sócio do estaleiro, vai levar. Ele ofereceu carona
para hoje à noite. Tentei recusar, mas ele disse que seria uma ofensa muito grande
se eu dissesse não.
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| James Stewart em "A Felicidade não se compra"/Divulgação |
A noite daquele dia, 14 de dezembro
de 1948, foi inesquecível para o casal. O tempo estava bom e não fazia calor.
Meia hora antes do horário combinado para o cinema eles já se encontravam
arrumados. Narciso de terno, gravata, sapato lustroso e chapéu. Sebastiana com
um longo vestido, modelo tirado da última edição da revista “Cruzeiro”. O
carro, um modelo Ford 1945, levou o casal ao cinema. Inaugurado no dia 3 de
agosto de 1938, o Cine Itajahy funcionava em um prédio da rua Hercílio Luz. O
primeiro filme apresentado foi “Anna Karenina”, produção americana de 1935,
baseada no livro de mesmo nome, do escritor russo Leon Tolstoi e quem tinha no
elenco a sueca Greta Garbo. As 60 poltronas do Cine Itajahy eram estofadas e
com assento reclinável. O maquinário para a projeção era o melhor do Estado de
Santa Catarina na época. Grande parte
dos filmes, a exemplo da produção de hoje, tinha origem americana. Na entrada
do prédio, Narciso e a esposa foram
recepcionados pelo senhor Opuski, que reconheceu o carpinteiro naval. Opuski
era uma pessoa muito popular na cidade.
– Boa Noite senhor Narciso! Boa
noite senhora! - cumprimentou sorridente, assim que entregava as entradas.
– Que filme temos hoje, Opuski?
– O melhor filme que passou pelo
Cine Itajahy até agora. Chama-se “A Felicidade Não se Compra”, com James
Stewart, o mesmo que fez “Núpcias de Escândalo” e “A Mulher Faz o Homem”. Para
cada filme que era rodado, Opuski dizia que era o melhor filme que passou no
Cine Itajahy.
O casal entrou na sala de projeção e
procurou um bom lugar para sentar. Como tinha problema de visão, Narciso ficou
na segunda fila. O cinema estava lotado. Na cabine de projeção o operador
Arnoldo Polhein e seu ajudante, Osmar Corrêa de Mello, o Marzinho, revisavam o
filme para ver se as emendas estavam firmes. A principal preocupação do
operador era da fita arrebentar durante a sessão. Quando as luzes se apagaram,
todos nos cinema se encontravam apreensivos. A esposa de Narciso que nunca
tinha ido a uma sala de projeção não se aguentava na poltrona. Uma luz
percorreu toda a sala e chegou até parede em frente do público. Dirigido por
Frank Capra em 1946, “A Felicidade Não se Compra” conta a história de um anjo
que desce a terra para salvar um homem (Stewart) do suicídio. Na meia hora
final do filme, o anjo, que precisa merecer suas asas, mostra como seria a
cidadezinha do herói caso ele nunca tivesse existido.
* *
*
O sol outonal começava a
se estender no horizonte por trás dos morros que cercam Bombinhas. Faltava
ainda meia hora para anoitecer. Depois
que terminou a narrativa, Paulo Aguiar, ainda sentado na areia da praia, olhava
para o mar. Como a história dos descendentes da Ericeira não havia terminado
resolvi ficar até a noite em Bombinhas, mas esse lugar não seria a praia da
Sepultura. Antes que eu mesmo falasse na tal possibilidade, Aguiar se adiantou.
– Você vai voltar para Balneário?
– Agora não, mas se precisar posso
ficar em Bombinhas mais duas ou três horas.
– Se quiseres você pode dormir aqui.
Você tem compromisso amanhã?
– Não, mas não posso ficar minha
esposa está a minha espera. Ficarei de bom grado até a história acabar –
respondi.
– Eu acho que da para terminar mais
uma história antes de anoitecer de vez.
Paulo Aguiar contou o que aconteceu
com o Narciso e sua família. As filhas cresceram e se formaram professoras.
Eugênia casou e foi morar em Guarujá na década de 1960. Herondina nunca casou
ou teve filhos. Ela mora hoje em
Itajaí. Já os filhos homens seguiram o caminho da pesca.
Henrique morreu em naufrágio na cidade do Belém do Pará, em 1975. No mesmo ano,
Narciso que não aceitou a morte do filho, morreu em casa, perto da Capitania
dos Portos, em Itajaí. Ele
se aposentou pela Estrada de Ferro Santa Catarina, que era dona do estaleiro
Fluvial. Sebastiana faleceu em 1984 e Firmino no ano passado.
– Então sobraram apenas às meninas –
conclui.
– Sim, você se lembra que Narciso
ajudou muitos moradores de Porto Belo a arrumar trabalho? A próxima narrativa
conta a história de uma dessas pessoas.










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