sábado, 28 de janeiro de 2017

As rascas da Ericeira nos mares do Sul do Brasil

 
       
        Quando chegaram à Enseada das Garoupas em 1817, os pescadores pediram a construção das rascas, embarcações a vela e que mediam até 20 metros de comprimento. Os barcos eram necessários para a pesca em alto mar. Com as malhas de redes trazidas da Ericeira, faltavam apenas as rascas para começar a pesca.


No entanto, o pedido levou três anos para ser atendido. A demora na construção das rascas gerou insatisfação entre os ericeirenses, como consta na carta do Intendente da Marinha na Província de Santa Catarina, Miguel de Sousa Melo e Alvim, considerado um dos fundadores da Colônia Nova Ericeira.


  A carta é de 14 de março de 1820 e foi encaminhada ao Ministro de Dom João VI, Tomás António de Vilanova Portugal. Melo e Alvim diz ao ministro que voltava da Enseada das Garoupas, onde deixara os colonos descontentes e pede urgência na compra das embarcações.


            “Logo que Manoel Dias de Lima empreste uma lancha da armação, que na conformidade das recomendações de vossa excelência lhe pedi e me prometeu, a farei preparar de coberta à moda das rascas da Ericeira para começarem com as suas pescarias de alto mar, ou com uma boa rede que trouxeram. Também estou preparando uma embarcação mais maneira para as pescarias perto de terra...”.



Cinco dias depois de Melo e Alvim, foi à vez de Antônio Meneses Vasconcelos Drumond, fundador de uma colônia próxima a Enseada das Garoupas, enviar uma carta ao ministro de Dom João VI com o mesmo pedido.

“Pedi a Manoel Dias de Lima uma lancha para os ericeiros principiarem a pesca; respondeu-me que tinha todas as lanchas em concerto; o que concluído daria uma ou duas, conforme lhe restasse da sua pesca; e com tanta vontade que as mandaria cobrir por seus oficiais à moda dos ericeiros, visto que elas têm suas parecenças com as que eles lá usam em Portugal e que lhes daria também velas a seu modo; para cuja obra pediria um ericeiro mais experto para as presidir”.

O pedido foi aceito e as rascas começaram a ser erguidas entre 1820 e 1821. Com a Independência do Brasil em 1822 e o fim da Colônia Nova Ericeira em 1824, as rascas não foram mais construídas.

Não se sabe quantas embarcações foram erguidas no período, mas há registro no litoral de Santa Catarina de barcos com as mesmas características das rascas da Ericeira.

Na cidade de Governador Celso Ramos, conhecida como Ganchos, barcos semelhantes eram usados pelos pescadores na segunda metade do século XIX. Ganchos também fazia parte da Colônia Nova Ericeira.
A rasca
 


A rasca era uma embarcação a velas e que media 20 metros de comprimento. O barco começou a ser usado para o comércio ainda no século XVII e transportava uma tripulação de até 20 homens.

As rascas tinham três mastros, quatro velas e segundo conta a tradição, uma delas chegou até o Brasil. Resistentes a tempestades, as embarcações deixaram de ser usadas em 1866.

Das antigas rascas sobraram apenas memórias, que são guardadas hoje nas páginas de jornais antigos e nos livros, como “O Estado Actual das Pescas em Portugal, publicado em 1891, por Baldaque da Silva.

“A Rasca era uma embarcação de borda alta, poupa redonda e proa arrufada; com convés corrido de vante a ré; cingida em volta do costado por um espesso cinto, com pregos de cabeça prismática, saliente; casco maior do que o dos modernos Caíques, e aparelhada com quatro velas latinas triangulares: traquete, vela grande, vela de proa e catita, exigindo uma tripulação para a manobra destas velas”

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