Quando chegaram à Enseada das Garoupas em 1817, os pescadores pediram a construção das rascas, embarcações a vela e que mediam até 20 metros de comprimento. Os barcos eram necessários para a pesca em alto mar. Com as malhas de redes trazidas da Ericeira, faltavam apenas as rascas para começar a pesca.
No entanto, o pedido levou três anos para ser atendido. A
demora na construção das rascas gerou insatisfação entre os ericeirenses, como
consta na carta do Intendente da Marinha na Província de Santa Catarina, Miguel
de Sousa Melo e Alvim, considerado um dos fundadores da Colônia Nova Ericeira.
A carta é de 14 de março de 1820 e foi encaminhada ao
Ministro de Dom João VI, Tomás António de Vilanova Portugal. Melo e Alvim diz
ao ministro que voltava da Enseada das Garoupas, onde deixara os colonos
descontentes e pede urgência na compra das embarcações.
“Logo
que Manoel Dias de Lima empreste uma lancha da armação, que na conformidade das
recomendações de vossa excelência lhe pedi e me prometeu, a farei preparar de
coberta à moda das rascas da Ericeira para começarem com as suas pescarias de
alto mar, ou com uma boa rede que trouxeram. Também estou preparando uma
embarcação mais maneira para as pescarias perto de terra...”.
Cinco dias depois de Melo e Alvim, foi à vez de Antônio
Meneses Vasconcelos Drumond, fundador de uma colônia próxima a Enseada das
Garoupas, enviar uma carta ao ministro de Dom João VI com o mesmo pedido.
“Pedi a Manoel Dias de Lima uma lancha para os ericeiros
principiarem a pesca; respondeu-me que tinha todas as lanchas em concerto; o
que concluído daria uma ou duas, conforme lhe restasse da sua pesca; e com
tanta vontade que as mandaria cobrir por seus oficiais à moda dos ericeiros,
visto que elas têm suas parecenças com as que eles lá usam em Portugal e que
lhes daria também velas a seu modo; para cuja obra pediria um ericeiro mais
experto para as presidir”.
O pedido foi aceito e as rascas começaram a ser erguidas
entre 1820 e 1821. Com a Independência do Brasil em 1822 e o fim da Colônia
Nova Ericeira em 1824, as rascas não foram mais construídas.
Não se sabe quantas embarcações foram erguidas no período,
mas há registro no litoral de Santa Catarina de barcos com as mesmas
características das rascas da Ericeira.
Na cidade de Governador Celso Ramos, conhecida como
Ganchos, barcos semelhantes eram usados pelos pescadores na segunda metade do
século XIX. Ganchos também fazia parte da Colônia Nova Ericeira.
A rasca
A rasca era uma embarcação a velas e que media 20 metros de comprimento. O barco começou a ser usado para o comércio ainda no século XVII e transportava uma tripulação de até 20 homens.
As rascas tinham três mastros, quatro velas e segundo
conta a tradição, uma delas chegou até o Brasil. Resistentes a tempestades, as
embarcações deixaram de ser usadas em 1866.
Das antigas rascas sobraram apenas memórias, que são
guardadas hoje nas páginas de jornais antigos e nos livros, como “O Estado
Actual das Pescas em Portugal, publicado em 1891, por Baldaque da Silva.
“A Rasca era uma embarcação de borda alta, poupa redonda
e proa arrufada; com convés corrido de vante a ré; cingida em volta do costado
por um espesso cinto, com pregos de cabeça prismática, saliente; casco maior do
que o dos modernos Caíques, e aparelhada com quatro velas latinas triangulares:
traquete, vela grande, vela de proa e catita, exigindo uma tripulação para a
manobra destas velas”


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