domingo, 15 de janeiro de 2017

A Nova Ericeira: Santos


         
                A partir de 1940, os descendentes dos colonos da Nova Ericeira tinham apenas uma opção para ganhar dinheiro: abandonar seus lugares de origem. Não existiam empresas na região e a pesca em Santa Catarina era ainda muito artesanal. A captura do pescado, além de ser pouca, servia apenas para que as famílias dos pescadores não morressem de fome. A viagem que o povo da Ericeira fez de Portugal ao Brasil no começo do século XIX não fora à única. No Novo Mundo, seus descendentes continuaram errantes e ainda o são. As cidades de Santos, Rio de Janeiro e Rio Grande faziam parte do destino desses homens. O emprego era certo, pois os armadores da pesca dessas cidades optavam pela mão-de-obra catarinense, considerada qualificada. Os pescadores conheciam tudo sobre o mar e grande parte dessa sabedoria eles haviam herdado dos seus antepassados ericeirenses. Segundo registram os relatos de navegantes e historiadores, desde 1229 a atividade pesqueira é praticada na Ericeira. Na mesma época em que Cabral comandava as três caravelas rumo ao Brasil, isso em 1500, os ericeirenses já se aventuravam pela costa da África, em busca de sardinhas no litoral marroquino.

            Assim que arrumavam empregos, os casados chamavam suas esposas e filhos e começavam uma vida nova na cidade escolhida. Já os solteiros não deixavam de visitar as famílias ou acabavam por constituir outras nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Hoje existem muitos descendentes do povo da Ericeira nessas três cidades, principalmente em Santos. Na cidade vizinha, Guarujá, o bairro do Santa Rosa é reduto dos “catarinas”, apelido dado às pessoas naturais de Santa Catarina, que para  lá migraram em busca de melhores condições de vida.

            Em junho de 1955, Arlindo Pinheiro, então com 18 anos, resolveu também mudar a sua. Cansado de ganhar pouco nos barcos de pesca de Porto Belo, o jovem resolveu partir para Santos. Anos antes, parentes e colegas haviam seguido o mesmo caminho.  Encravado entre morros, Porto Belo não era nem de perto a vila escolhida para sediar uma colônia pesqueira. Sem acesso por terra, contava apenas com trilhas por onde passavam carros pequenos. A cidade permanecia isolada e os costumes eram os mesmos do século XIX. Enquanto isso, cidades como Itajaí, Balneário Camboriú e Tijucas se desenvolviam. Na cidade paulista, Arlindo iria ao encontro do irmão mais velho, Francisco. Com a carteira de pescador na mão e uma mochila nas costas, o jovem pegou uma carona junto com a tripulação do barco Nacional.

            Depois de um dia inteiro de viagem, a embarcação entrou no canal de Bertioga.  Foi numa manhã do dia 10 de junho. O Nacional atracou na Ponte dos Pescadores, localizada no bairro da Ponta da Praia, em Santos. O local era destinado ao desembarque do pescado que entrava na cidade. Estavam ali lanchas, rebocadores, iates e barcos de pesca de todos os lugares do Brasil. O ambiente de tão diferente, ganhou a fama de ser um dos lugares mais curiosos e pitorescos da cidade. A fama vinha da aparência dos pescadores que rodeavam o lugar. Ao invés dos prédios e dos armazéns do Porto de Santos de hoje, barracões de pesca tomavam conta do cenário.

            Perto das 11 horas daquele dia, Arlindo terminou de descarregar o barco. Era o preço da passagem que dava direito também ao almoço. Na parte da tarde o Nacional seguiu viagem ao litoral fluminense. O jovem perambulou pela Ponta da Praia, em busca de um emprego e do irmão mais velho. Pelo caminho encontrou muitos conhecidos de Porto Belo. Sentados no trapiche de atracação da embarcação Elisa, dois pescadores observavam a movimentação no estuário. Foram despertados pelos passos pesados de Arlindo e um deles o reconheceu.

– Olha quem chegou?

– Arlindo! – disse o outro.

– Estou procurando o meu irmão. Vocês o viram?

– Quem?

– O Chico.

– Perdeste o teu tempo. O Chico foi para o Rio. O barco dele saiu há três dias.

– O que você veio fazer aqui mano?

– Arrumar um emprego. Tem vaga no teu barco?

– Não vai dar não Arlindo, a tripulação tá completa. Onde você vai dormir hoje?

– Não sei – respondeu o jovem cabisbaixo.

– Fica aqui mano. O barco só vai para o mar amanhã.
 
Ponta da Praia em 1954
 
   Não restou outra opção para Arlindo a não ser aceitar a oferta dos pescadores. Além disso, o que ele tinha no bolso não daria para pagar uma pernoite num quarto de pensão. Daquelas em que o hóspede tem que disputar espaço com as baratas e ratos. Oferecer abrigo para uma ou mais noites era uma prática comum entre os pescadores de Santa Catarina. Arlindo não foi o primeiro e nem o último que chegou sem nada no bolso e precisou dormir numa embarcação. No dia seguinte, o pescador saiu bem cedo à procura de emprego. Como não encontrou, precisou mais uma vez da ajuda de seus conterrâneos. O terceiro dia em Santos foi diferente. Bem cedinho, um pescador lhe disse que o barco Cármem precisava de um homem para completar a tripulação. Essa embarcação e outra chamada Irene, eram de propriedade do piloto do então ex-governador do Estado de São Paulo, Ademar de Barros. Um ano antes, em 1954, o político perdeu as eleições ao governo paulista para o candidato Jânio Quadros. Em 1955, veio uma nova derrota, desta vez para Juscelino Kubitschek. Os nomes das embarcações homenageavam as filhas do piloto.


Barcos de pesca na década de 1940
             
           Franzino e sem experiência na pesca, mas com conhecimentos culinários, Arlindo entrou no Cármem como cozinheiro e assim permaneceu pelos cinco anos em que ficou embarcado. A vaga veio na hora certa. O dinheiro já havia acabado e ele não queria pedir mais uma vez para dormir no barco dos outros.  Outra vantagem da embarcação em que iria trabalhar dizia respeito ao tempo que ficaria no mar. Na metade da década de 1950, grande parte dos barcos pesqueiros não possuía suporte para uma viagem longa. Eles eram pequenos e a capacidade de armazenar gelo para guardar os peixes também, assim como o suprimento dos trabalhadores. Cármem e Irene foram barcos de arrasto e saíam sempre juntos. As embarcações eram conhecidas pelos pescadores como barcos de “sol a sol”. Normalmente elas partiam de manhã e atracavam no porto pesqueiro ao final do dia, com ou sem peixes. Estando na Ponte dos Pescadores, em Santos, Arlindo teria a chance de encontrar o irmão mais velho.
 
            Na manhã nublada e fria do dia 13 de junho de 1955, o barco Cármem levantou âncora. O destino, segundo informou o mestre, era Litoral Norte de São Paulo. Arlindo começou a preparar o almoço num improvisado fogão a carvão, na casa de máquinas. Nesse lugar, ele e mais um pescador, responsável pela manutenção dos motores, dormiam. Na outra parte do barco ficava o restante do dormitório, que era destinada para mais quatro tripulantes. O cardápio daquele dia foi peixe seco, feijão e arroz. Quando não tinha peixe, entrava carne seca e o cardápio não variava muito. O mar se encontrava calmo, apenas um pouco de neblina atrapalhava a visão. No caminho, tendo o Irene sempre ao lado, o jovem descobriu que os pescadores não retornariam mais para Santos.

– Pelo cheiro, deve tá danado de bom – disse o pescador responsável pela casa das máquinas.

– Você deve ser o novato. Vamos ser companheiros de quarto –  continuou  sem esperar a resposta de Arlindo.

            O homem que entrara na cozinha improvisada se chamava Januário. Eles se cumprimentaram com um forte aperto de mão. Januário nasceu em Sergipe e morava em Santos há dez anos. Vivia no outro lado do canal Bertioga, que separava Santos de Guarujá. Casado, ele já tinha uma prole respeitável de cinco filhos. Entrara para a pesca recentemente e mais por necessidade do que por gosto. Diferente dos pescadores catarinenses que viviam da pesca, Januário e outros migrantes nordestinos que se aventuravam no mar vinham de famílias de agricultores.

– Que horas vamos voltar para Santos?

– Não vamos voltar - disse o pescador ao mesmo tempo em que colocava óleo nos motores.

– Não. Por quê?

            Por momento algum Arlindo esperava ouvir uma resposta daquelas. Ele, que durante a viagem já planejava encontrar o irmão, ficou desnorteado. O cozinheiro arrumou as duas panelas de barro na chapa do fogão e refez a pergunta, uma vez que Januário não se deu ao trabalho de responder. Talvez por não ter entendido ou por não ter ouvido a pergunta devido ao barulho do motor da embarcação.

– Por quê?

– O mestre disse que os dois barcos estão irregulares e a polícia marítima pode confiscar as embarcações. Alguém avisou o patrão lá em São Paulo.  Isso não me deixa admirado, o patrão trabalha para o Ademar de Barros, aquele “que rouba, mas faz”.

– Vamos para onde então?

– Vamos ficar uns tempos em Itanhaém até a poeira abaixar. Se o doutor Barros fosse governador, isso nunca iria acontecer. Deve ser perseguição do Vassourinha.

– Vassourinha?

– Oxente! De que mundo você veio? O Vassourinha é o Jânio Quadros. Quer saber, é tudo gente da mesma laia! Tudo ladrão.

– E esse tal ex-governador, o tal de Barros, é ladrão de verdade?

– Ele não rouba a mãe porque não tem uma. No ano passado ele disse no meio do comício que no bolso da calça dele nunca havia entrado dinheiro do povo. Um cabra no meio da multidão gritou assim: “o doutor tá de calça nova”.

– Sério?

– Claro que é sério. Quem me contou foi um comerciante que mora lá em São Paulo. Ele é parente de uma pessoa que mora em Bauru e foi no comício. Acredita que o “doutô” saiu do palanque e depois de fumar junto com o cabra, ainda deu boas risadas.

            Depois da conversa os dois homens se entregaram às suas tarefas. Januário foi pescar e cuidar do motor do barco e Arlindo continuou a preparar a comida para a tripulação. No final daquele dia, os dois barcos atracaram em Itanhaém, cidade muito antiga, fundada depois de uma acirrada pendência entre os herdeiros de Martim Afonso de Souza e seu irmão Pêro Lopes de Souza, em 6 de fevereiro de 1624. Na manhã seguinte, o jovem se lembrou que a cidade onde estava tinha o nome da embarcação em que um tio trabalhava. Fazia 15 anos que o irmão da sua mãe, Américo, havia saído de Porto Belo e desde então jamais tinha dado notícias. O barco em que o tio trabalhava chamava-se Conceição de Itanhaém. Antes de ir para Santos, a mãe havia pedido para que ele tentasse encontrar o tio. Na Praia dos Pescadores, em Itanhaém, o Cármem e o Irene permaneceram por seis meses. Só retornaram a Santos, em dezembro, cinco dias antes do Natal. Sem ter mais chance de ver o irmão, Arlindo aproveitou o tempo livre que tinha para descobrir o paradeiro do tio. Todas as manhãs meninos de rua da cidade vinham até os barcos pedir comida. Alguns deles também faziam serviços como levar um recado, uma carta aos Correios ou comprar alguma coisa na vendinha da esquina. Um desses meninos era conhecido como “Vinte e Um”. Ninguém sabia o seu nome e muito menos a idade. Sempre foi criado nas ruas. Era um menino negro que andava descalço e sem camisa. Dizia ter 12 anos, mas a aparência era de bem menos. “Vinte e Um” sempre pedia alguma coisa, normalmente para o cozinheiro. Arlindo lavava as louças na proa do barco, quando pelo trapiche surgiu o menino.

– Oi seu moço. Hoje não tem nada pro “Vinte e Um”? Preciso levar comida pra minha mãe e meus irmãos.

– Mas você disse que não tem família...

– Arrumaram uma família pro “Vinte e Um”. Agora tenho uma mãe, um pai e oito irmãos.

– Oito Irmãos. É muita gente.

            Arlindo já estava acostumado com as mentiras do garoto. Cada dia ele contava uma história nova para arrumar comida ou dinheiro. Na última, dissera que os alemães haviam invadido Itanhaém e precisava de dinheiro para fugir da cidade com o pobre avô doente. O mesmo avô que ele havia matado tantas outras vezes para conseguir dinheiro para o velório. Muitas das histórias que contava, ele apenas repetia dos marinheiros e pescadores que frequentavam o principal bar da cidade chamado Cassino. O cozinheiro sempre ajudava, mas em troca pedia que o menino lhe fizesse um favor. Desta vez ele havia pedido para o jovem descobrir se na cidade havia um homem chamado Américo.

– Descobristes onde meu tio mora?

– “Vinte e Um” não sabe e não conhece esse América.

– Não é América, é Américo. Ele é um senhor de cabelo loiro, olhos verdes e baixinho.

– Existe um homem russo parecido. Ele vai à igreja todos os domingos com a família.

– Você me leva até lá? Eu pago e se o homem for meu tio, eu pago em dobro.

– O dobro? - perguntou o menino admirado.

– Quer dizer mais do que está acostumado a ganhar.

            Sem dizer nada o menino saiu correndo. Nisso Arlindo o chamou. Ele foi até o barco e pegou uma laranja. “Vinte e Um” com a fruta na pequena mão direita saiu pela praia afora, em direção à praça da cidade, onde passava a manhã brincando e pedindo esmolas. Para o domingo faltavam três dias. Arlindo esperou com certa expectativa o dia chegar. Apesar da fama de mentiroso do menino, o cozinheiro do Cármem estava quase convicto de que o homem que ia às missas da Igreja Matriz de Itanhaém era o seu tio desaparecido. No domingo, bem antes do sol aparecer, Arlindo já estava pronto. Calça e terno de linho branco e chapéu tipo Panamá bege, uma imitação muito usada na época. Com traje domingueiro, o pescador esperou apenas “Vinte e Um” chegar. Perto das oito horas, o menino apareceu do mesmo jeito de sempre, descalço, sem camisa e de bermuda. Usava sempre uma até rasgar. Quando começavam a surgir entre os buracos do tecido as partes íntimas do rapaz, sempre aparecia uma alma caridosa e lhe doava uma outra bermuda.

– Tem certeza de que é o mesmo homem que falei? - perguntava Arlindo no  meio do caminho.

– Tu vai ver então se “Vinte e Um” é mentiroso.

            Por ruas estreitas de barro, os dois chegaram até o centro da cidade. Da Praia dos Pescadores até a igreja levava 20 minutos a pé. O garoto não caminhava, corria. O percurso foi realizado na metade do tempo costumeiro. No caminho, o Amarelinho parou no ponto para pegar os passageiros. O ônibus fazia a linha Santos-Itanhaém desde 1940. De dentro do Amarelinho, um homem gritou pelo nome de Arlindo. Era Januário.

– Hei Arlindo! Aqui cabra! Aonde você vai com esse trombadinha?

– Vou até a igreja. O “Vinte Um sabe” onde meu tio está.

– Rapaz, deixe de teimosia! O teu tio não tá aqui. Esse abusado só tá querendo tirar dinheiro de ti.

– Eu vou lá ver, não custa nada.

– A cabeça e a gaita são tuas mesmo. Eu vou ver a patroa e os filhos lá no Guarujá.


Linha Santos/São Paulo
            
             O ônibus partiu lotado, repleto de pescadores. Atrás dele se formou uma densa nuvem de poeira, que logo se dissipou no ar. Quando Arlindo e “Vinte e Um” chegaram à igreja, a missa já havia começado. O templo cristão era uma construção pequena e bastante antiga, da metade do século XVIII. A igreja não estava nem lotada e muito menos vazia. Entre olhares curiosos, os dois chegaram até a primeira fila. “Vinte e Um” apontou para o homem com as mesmas características do tio de Arlindo. Aos sussurros, o pescador pediu que o menino esperasse por ele no lado de fora da igreja. Ficou sentado ao lado do homem que era acompanhado por uma senhora, provavelmente a esposa. Durante a missa não se atreveu a interromper os pensamentos do desconhecido. Esperou então a cerimônia religiosa, que era realizada toda em latim, terminar. Depois de bocejar, se levantar e sentar mais de dez vezes, a missa acabou. Antes que o rebanho saísse da igreja, Arlindo aproveitou para interrogar o homem.

– Bom dia! Por acaso do senhor é de Bombinhas?

            O homem se virou e olhou seriamente para o jovem, que se encontrava visivelmente nervoso. Olhou para Arlindo como quisesse se lembrar de alguém. O jovem fez uma nova pergunta, uma vez que o homem demorou a responder à primeira.

– O senhor trabalha no Conceição de Itanhaém?

– Sim, eu sou de Bombinhas e trabalho nesse rebocador sim. Por acaso eu conheço o senhor? Eu estava olhando pra ti e parece que já vi você em algum lugar. 

– Acho que sim. Eu também sou de Bombinhas, sou filho da Gertrudes. O senhor se chama Américo?

– Então você é filho da minha mana Gertrudes? Vem aqui, me dá um abraço!

            Sobrinho e tio se abraçaram e continuaram a conversa. Dentro da igreja as pessoas formaram fila para receber a hóstia.

– Qual deles você é?

– Sou o Arlindo.

– Arlindo! Menino faz tanto tempo que eu não vou para Bombinhas. Quando eu saí de lá você era tão pequenino.

– Antes de vir para Santos a mãe pediu para eu ver onde o senhor estava.

– E como vai a minha a minha mana e o pessoal lá de Bombinhas?

– Vão bem. O senhor mora aqui perto?

– Sim, mas deixe o teu tio pegar uma hóstia. Converse com a sua tia. O nome dela é Vitalina.

            Arlindo apertou a mão da senhora que era natural de Itanhaém. Américo fora a última pessoa a receber das mãos do padre a hóstia consagrada. O sacerdote era um homem de estrutura baixa que vestia uma batina maior do que o corpo. Quando eles saíram, encontraram o garoto “Vinte e Um” sentado na escadaria de acesso à igreja. O jovem cochilava encostado a um pilar. Acordou sobressaltado e viu Arlindo o sacudindo pelo ombro esquerdo. Este deu o deu o dinheiro prometido. O menino saiu correndo pelas ruas da cidade. Virou uma rua e não foi mais visto. 

– Arlindo, meu filho, você tá trabalhando onde?

–No barco de Santos chamado Cármem.

– Eles te pagam direito?

– Não tio, às vezes eles atrasam o meu salário.

– Já recebeste este mês?

– Não.

– Eu sou uma pessoa conhecida aqui em Itanhaém. Conheço o comandante da Marinha e toda embarcação que entrar aqui tem que ter permissão dele. A amanhã vou falar com teu chefe e pedir que te pague tudo que deve.

– Obrigado tio, não precisa. 

– Precisa sim. Primeiro vou te levar para conhecer a minha casa e teus primos. Depois você vai até o barco pegar as tuas coisas. Enquanto estiver trabalhando aqui vai ficar na minha casa.

            No dia seguinte, conforme o combinado, Américo, utilizando da sua função de prático do canal de aceso ao Porto de Itanhaém e da amizade do comandante, conseguiu que o chefe de Arlindo lhe pagasse tudo o que devia. Era isso ou então as embarcações que estavam irregulares seriam apreendidas. O jovem pescador ficou durante seis meses em Itanhaém. Em dezembro de 1955, Arlindo retornou para Santos. Ele havia tinha saído do Carmem e arrumado emprego num outro barco.
 
Santos em 1955
 
                                                                   *    *    *
           
                Em Santos, Arlindo não tinha onde ficar. Como passava maior parte do seu tempo no mar, ele nem sentiu falta de uma casa. As viagens, desta vez, eram mais longas – ficava até duas semanas em alto mar – parando de vez em quando em algum porto. Sua função continuava a mesma: cozinheiro. Quando o barco entrava na Ponta da Praia, em Santos, ele tinha, normalmente, dois dias de folga.  Se a pescaria fosse boa, ele viajava para Porto Belo. Do contrário, ficava ali mesmo. A viagem realizada de ônibus para Santa Catarina era rara e acontecia quatro vezes ao ano. Durante quatro anos, Arlindo manteve essa rotina, mas ele queria mudar.  O jovem não queria ser pescador para sempre, a intenção era trabalhar num navio da Marinha Mercante. Esse sonho veio com ele de Bombinhas. Só não conseguiu realizar porque não tinha um curso específico e muito menos estudo suficiente para isso. Como no atual emprego ficava mais no mar do que em terra, a Marinha Mercante estava muito distante da sua realidade. Pela minúscula janela da cozinha do barco em que trabalhava, o pescador via todos os dias o seu sonho representado num grande navio, que a cada dia se afastava e ficava cada vez mais longe. Na manhã do dia 15 de março de 1956, o apito de uma grande embarcação de bandeira italiana tirou a atenção do cozinheiro.

– Arlindo! Parece que nunca vistes um navio na vida - disse um pescador que estava na popa do barco.

– Desse tamanho nunca – retrucou o cozinheiro.

– Se aparecer mais um navio vamos ficar sem almoço – gritou o mestre da embarcação.

            Arlindo voltou para a pequena cozinha com dois metros de largura e por três de comprimento. Por incrível que pareça, nesse cubículo, além do fogão e a despensa, ficava a cama do jovem. Enquanto preparava a comida, pensava como seria bom trabalhar num navio da Marinha Mercante. Naquele dia, uma terça-feira ensolarada e de muito vento, por muito pouco, ele quase viu o seu sonho naufragar literalmente. O jovem não tinha apenas a função de cozinheiro . Assim que terminava o serviço na cozinha, ajudava a lançar ou recolher as redes. Foi justamente na primeira opção que o pescador foi parar no mar. Arlindo e mais seis pescadores se encontravam na lateral da embarcação, quando tudo aconteceu.

– Vamos homens. Quando terminar de contar, vocês jogam – disse o mestre do barco.

– Um, dois, três. Agora...

            Cada um como pode lançou sua parte da rede ao mar. O esforço foi grande, já que a rede pesava muito. Nela havia ainda pedaços de chumbo, usados para o náilon afundar mais rápido e chegar a pelo menos 50 metros de profundidade. Cabos de aço seguravam o equipamento junto à embarcação. Entretanto não fora apenas a rede que fora lançada na água. Arlindo, que não tinha muita experiência e força, foi junto. Vestido com a grossa capa feita de lona, o jovem logo submergiu. Fez um esforço tremendo para voltar, mas o peso da roupa o impediu de subir de novo. Arlindo chegou a ver a claridade do céu e ouvir os gritos dos outros pescadores.

            – É melhor puxar a rede – sugeriu um homem.

            – Não temos tempo para isso. Até puxar a rede, o Arlindo já morreu afogado – disse o motorista do barco.

            – Eu vou pular.

            – Não adianta, o mar está muito revolto. Onde ele caiu? – perguntou o mestre.

            – Aqui! Nesse lugar – apontou um pescador.
 
            Como última tentativa, o mestre lançou uma corda amarrada junto a um peso na mesma direção indicada. Por sorte, Arlindo que se batia para não afundar mais ainda, sentiu algo passar por ele: era a corda. Segurou firme e do barco os outros pescadores o puxaram. Toda essa cena durou menos de dois minutos, mas para o cozinheiro o tempo foi maior. O jovem chegou ao barco mais morto do que vivo. Não engolira muita água, entretanto o susto fizera com que ele ficasse de cama durante o resto daquele dia e na manhã do dia seguinte. Depois de recuperado, Arlindo tomou mais cuidado e o assunto não deixou de ser alvo da brincadeira dos pescadores. A embarcação chegou em Santos no mês de abril, após ficar quase um mês no mar.

Depois de fazer as tarefas do barco, os homens receberam seus pagamentos e foram liberados. O armador, dono da embarcação, tinha dado dois dias de folga à tripulação. Eles somente deveriam voltar para trabalhar na manhã de segunda-feira. Os que tinham parentes ou família por perto foram para casa. Arlindo tinha dinheiro para viajar para Porto Belo, mas depois do susto, resolveu fazer uma poupança para garantir os estudos. Ele estava decidido a abandonar a pesca e entrar para a Marinha Mercante. Na tarde daquela sexta-feira, o cozinheiro foi até o Centro de Santos e depositou parte do dinheiro numa conta bancária. Chegou a visitar um curso de Supletivo e só não se matriculou porque ele precisava comparecer pelo menos três vezes por semana no local. Arlindo permaneceu no Centro até a noite. Foi ao Monte Serrat, um morro, de onde se tem uma visão de toda a Baixada Santista. Nesse morro há um restaurante e uma igreja construída em homenagem a Nossa Senhora de Monte Serrat. Foi para essa santa que, em 1645, os moradores da então Vila de Santos pediram para se livrar dos piratas franceses. Parte da pequena população da época subiu o morro e rezou para que os invasores fossem embora. Diz à história que os franceses foram embora.
 
Noite santista na década de 1950

Depois do Monte Serrat, o jovem fez hora no cinema. Não prestou atenção no filme que passava, apenas olhava de vez em quando para o relógio. Às nove horas da noite, seguiu em direção à Rua Conselheiro Nébias, local no Centro de Santos que abrigava clubes frequentados por marinheiros e pescadores. A diversão favorita do jovem Arlindo era dançar e o Clube XV era o melhor lugar para isso. Naquela sexta-feira, a noite foi tranquila, não houve brigas entre o pessoal da Marinha e da Guarda Marítima, rixa comum na cidade. Ao som de Francisco Alves, Marlene e Emilinha Borba, o pescador dançou e por duas horas esqueceu da vida. Bebeu a misturada, uma bebida que levava gasosa e vodca. No Clube XV encontrou colegas de pesca que ofereceram carona até o Macuco.

     Aceitou, já que o bairro ficava ao lado da Ponta da Praia. De lá ele levaria uns 15 minutos a pé para chegar até o barco. O bairro era formado por casas populares e alguns estabelecimentos comerciais e depósitos do Porto de Santos. O carro deixou Arlindo na Avenida Portuária. Não havia ninguém na via. Também, não era por menos, já passava da meia noite. Arlindo seguiu caminho sem se preocupar com o perigo que corria. Na década de 1950, o Macuco era um dos bairros mais perigosos de Santos. Assaltos a pedestres, homicídios aconteciam com certa frequência e ninguém ficava assombrado com isso. Nem Arlindo e os pescadores sabiam da fama do bairro. Caminhando lentamente pela avenida calçada por blocos de pedra, o jovem parou de repente para ouvir um barulho que vinha de longe. Parecia trote de cavalo. Olhou por toda a extensão da rua, mas a escuridão o impediu de ver mais alguma coisa. O jovem levou um susto quando o som aumentou e apareceram na sua frente dois cavalos mangas-largas da cor bege. Em cima deles, dois homens vestidos com casacão militar observam o rapaz. O mesmo casacão militar, que ia do peito até os pés e eram guardados por botas da mesma cor. Sobre suas cabeças um capacete com penacho formava o restante do figurino. Arlindo ficou mais calmo ao reconhecer os cavaleiros como sendo da Polícia Montada.   

            – O que você faz a essa hora na rua?  – perguntou um dos policiais.

            – Eu fui até o Centro e logo meu amigos...

            – E você veio a pé até aqui? – continuou o interrogatório.

            – Não, alguns colegas me deram carona de carro.

            – Mora aqui no Macuco? Onde?

            – Não moro em Santos. Trabalho num barco de pesca que está atracado na Ponta da Praia e estou indo para lá.

            – Você não sabe que o Macuco é um lugar perigoso? 

            – Não sabia não senhor.

            – Vamos acompanhá-lo até lá.
 
Avenida Conselheiro Nébias em 1955
               
            No caminho, Arlindo conversou com os policiais. Contou um pouco sobre sua vida, do sonho de se tornar um marinheiro e também da pesca. Assim que o jovem entrou no trapiche, os dois homens desapareceram na madrugada. Na segunda-feira, Arlindo embarcou novamente. Passou de barco a barco até 1960, quando resolveu pegar um trabalho em terra firme, porém numa empresa de pesca. Com as economias terminou o Ginásio e fez diversos cursos até conseguir à tão sonhada vaga na Marinha Mercante. Isso aconteceu em 1966, dois anos depois do golpe de 64. No dia 1º de abril de 1964 o Regime Militar foi instaurado no Brasil e seguiu até a Redemocratização, em 1985. Este período recente da história nacional foi marcado pelo autoritarismo, suspensão dos direitos constitucionais, perseguição policial, militar, política, prisão, tortura e assassinato dos opositores ao Regime. Arlindo resistiu a tudo isso e conseguiu realizar o seu sonho.
                                                                    *    *    *
            O vento começou a soprar mais forte e fez balançar as copas das árvores em torno da Praia da Sepultura. Uma canoa guiada por dois homens, um ainda jovem e outro de cabelos brancos, atracou na areia. Os dois homens logo puxaram o pequeno barco movido à força de remos para um rancho, que ficava bem junto da água. Em seguida eles desapareceram por uma trilha na mata.

            – O que aconteceu com Arlindo em Santos? – perguntei.

            – Ele conseguiu de fato realizar seu sonho. Em 1968, foi morar na cidade vizinha, no Guarujá. Lá permaneceu até 1995. Hoje ele mora em Navegantes. Arlindo está com 71 anos e é casado. Nunca teve filhos. Parece que a mulher tinha dificuldade em engravidar. O tempo passou e eles não se preocuparam com isso. Hoje, o casal tem nos sobrinhos os verdadeiros filhos.  Arlindo, desde que esteve em Santos deu abrigo para vários parentes e colegas pescadores de Bombinhas.

            – Da mesma maneira que o tio o havia ajudado.

            – Era uma forma de retribuir, como ele disse para mim. Está vendo aquele ponto de terra lá no fundo? – o meu xará apontou para um lugar no horizonte.

            – Não consigo, deve estar muito longe. O que há lá?

            – Não dá para ver muito bem. Tem muita névoa. Em dias bem claros dá para ver a Foz do rio Itajaí-Açu. Quando sair ou entrar um navio eu mostro o local certo.

            – Será que dá mesmo para ver? – questionei incrédulo.

            – Antes eu também não acreditava, mas se olhar no mapa, você percebe que Bombinhas está bem ao Leste de outras cidades do litoral catarinense e por isso, conseguimos enxergar algumas cidades daqui.

            – Interessante, muito interessante.

            – É lá naquele ponto, precisamente na cidade de Itajaí, que a história continua.

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