domingo, 8 de janeiro de 2017

A Ilha da Pólvora

    Foto: Gilberto Simon/Porto Imagem                                                                      
          
             A partir da década de 1970, a pesca industrial brasileira alcançou seu ponto mais alto, com o recorde na captura de pescados, principalmente a sardinha. Indústrias de beneficiamentos e conservas foram abertas em muitos municípios do litoral das regiões Sul e Sudeste. Porto Belo, sede da primeira colônia pesqueira no Brasil, não se encontrava entre essas cidades. Na contramão do desenvolvimento pesqueiro nacional, a antiga Colônia Nova Ericeira definhava. Por esse motivo, os pescadores abandonavam a cidade em busca de um emprego. A procura começava em Itajaí. De ônibus, o morador de Porto Belo tentava encontrar trabalho em uma das dezenas de empresas de pesca do município. Como o setor se encontrava em alta em Itajaí, o emprego estava garantido. A viagem entre Porto Belo a Itajaí fora facilitada com a construção da BR-101, que encurtou o trajeto em muitos quilômetros.

            Em 1974, o pescador tinha mais chances de um trabalho registrado do que nos primeiros anos da década de 1950, quando surgiram as primeiras empresas de pesca.  Antes de Itajaí e Navegantes se tornarem pólos pesqueiros no Brasil, os homens do mar de Santa Catarina precisavam viajar para bem mais longe. Para o Norte, as cidades Rio de Janeiro e Santos e para o Sul, a cidade de Rio Grande, também recebeu os descendentes da Ericeira.

            Em abril de 1974, o jovem pescador Pedro Franco Ferreiro decidiu ir embora de Bombinhas, então bairro de Porto Belo. Ao contrário de seus conterrâneos, o destino não foi Itajaí. Embora já conhecesse o litoral de São Paulo e Rio de Janeiro, o pescador, com 23 anos de idade, se apaixonou pela cidade de Rio Grande e decidiu se mudar. Franco, como era conhecido, procedia de uma família de trabalhadores do mar. O pai, o avô e o bisavô tinham sido exímios pescadores. O primeiro Ferreiro, tataravô de Franco, chegou a Porto Belo, vindo da Ericeira, em 1818. Durante gerações, a profissão de pescador foi passada de pai para filho e aprimorada nesse tempo. A tecnologia ajudou, mas a técnica ensinada pelos antepassados portugueses contava e muito para o resultado de uma boa pescaria. Em 1974, sem o auxílio de sondas, o instinto do pescador era fundamental para a localização do cardume. Franco pertencia a esses pescadores que conseguiam localizar o peixe por intuição. Eles se baseavam na direção do vento, pela posição da lua, pela direção das correntes e coloração do mar. A presença de baleias e golfinhos eram outros indicativos da presença de cardumes. Por ter esse dom, Franco conseguiu ganhar dinheiro na pesca. Como os barcos em que trabalhava costumavam capturar muitos peixes, o salário superava em muito o de outros colegas de profissão.

            Depois de comprar uma casa no bairro da Barra, em Rio Grande, o pescador se mudou definitivamente para cidade gaúcha no mês de novembro de 1974. Morava em uma residência de madeira, com quarto, sala e cozinha. Ainda trabalhava em uma empresa de Itajaí, mas o barco que pescava atum no litoral uruguaio ficava mais no Rio Grande do Sul, do que em Santa Catarina. Os poucos dias em que tinha folga, Franco não permanecia em casa. Passeava pela praia do Cassino que, com seus 245 quilômetros de extensão, é considerada a maior do mundo. Essa praia começa em Rio Grande e vai até o Chuí, na fronteira com o Uruguai. Franco ainda visitava museus e frequentava a Catedral de São Pedro, uma igreja erguida pelos padres jesuítas em 1775.

Franco distinguia e muito de outros pescadores. Apesar de não ter concluído o Ensino Médio, lia com assiduidade jornais e livros sobre o mar. Consumia também com a mesma gula os pequenos livros de faroeste e não perdia um filme do gênero na televisão. Franco possuía um aparelho preto e branco em casa. Quando viajava, a televisão se mudava para a casa do vizinho, que não tinha o aparelho. A esposa e os filhos pequenos do vizinho recebiam o eletrodoméstico com festa. O sonho de consumo dos brasileiros era ter um aparelho de TV, mesmo que este transmitisse as imagens em preto e branco. O pescador de Bombinhas gostava muito de televisão e sempre que podia acompanhava os programas de auditório, filmes, seriados americanos, telejornais e novelas.

            No fim de tarde, nublado e frio, do dia 25 de julho de 1975, Franco resolveu parar num bar próximo de casa. O estabelecimento ficava em uma avenida larga e não pavimentada. O bar também servia de venda, comércio muito comum na cidade gaúcha. Encontrou alguns colegas que bebiam para espantar o frio. O vento Sul tão comum na cidade durante todo o ano, soprava mais forte nos meses de inverno. Naquele dia com o vento, a temperatura se encontrava bem próxima de zero grau. Agasalhado com casaco de lã, touca, luvas e cachecol, o pescador abriu a porta do bar e tomou assento em frente ao balcão. 

            – O que vai querer hoje guri?  – perguntou o dono do bar, um homem gordo e loiro chamado Mendonça. Um tabique de madeira separava a mercearia que ficava aos cuidados da esposa do comerciante. 

            – Pode me ver um copo de conhaque.

            – Com esse frio de quebrar os queixos é uma boa pedida guri!. – dizia ele, ao mesmo tempo em que enchia o copo de Franco até a borda.

            Nesse ponto da conversa, um homem que já estava no bar se aproximou do pescador. Assim que o reconheceu, Franco o cumprimentou com um aperto de mão. Era um colega de pesca que morava em Porto Belo. Atendia pelo nome de André.

            – Quando você chegou? – perguntou Franco ao colega.

            – Cheguei ontem e só por que o barco quebrou. A sorte nossa é que capturamos uma tonelada de atum. Vai dá para a gente se manter até o barco sair do estaleiro.

            – E a avaria foi grande?

            – Parece que apareceu uma rachadura a estibordo – lado direito de uma embarcação vista da popa à proa – e começou a entrar água na casa de máquinas.

            – E quando o barco fica pronto?

            – No mínimo vai ficar duas semanas no estaleiro. Vou aproveitar para viajar para Porto Belo. Já comprei as passagens – explicava ao mesmo tempo em que retirava os bilhetes do bolso – Saio no domingo e volto só na sexta-feira.

            No meio da conversa, um novo cliente entrou no bar. Vestia o tradicional poncho, um tipo de capa feita de lã e de forma arredondada. Com uma abertura no centro, por onde se enfiava a cabeça, as vestes do homem seguiam até as canelas. Franco não conhecia o cliente, um autêntico gaúcho.

            – Mas bah! Como minha vó dizia, é frio de renguear o cusco – disse assim que entrou no bar.

            Franco e André, sentados um ao lado do outro, olhavam com espanto para o homem que acabara de entrar. O sujeito aparentava ter mais de 50 anos. A sua cara era enrugada e cheia de bexigas. Seus longos cabelos começavam a ficar grisalhos.

            – Mendonça, passa-me a água benta! – pediu ele se referindo à cachaça.

            – O que tu tens guri? Parece que viste o negrinho do pastoreio? – questionou o dono bar ao reparar na cara de susto do cliente.

            – Vi coisa pior, homem. Acabou de encalhar um navio da praia do Cassino. Os marinheiros só não bateram as botas porque o patrão-velho não quis.

            O navio em questão era o Altair. Durante uma tempestade em alto mar a embarcação fora jogada à praia do Cassino e ficara encalhada próximo à faixa de areia. Apesar do susto, nenhum dos tripulantes sofreu ferimentos. O casco do navio ainda permanece na mesma posição e, com o passar das décadas, virou atração turística em Rio Grande.

            – Amanhã vou dar uma olhada no navio, guri – disse o dono bar ao cliente que curava o susto com a cachaça.

            André e Franco continuaram a conversa. Mendonça lavava copos na pia. Em uma mesa redonda, dois clientes jogavam cartas em silêncio. O único som vinha do vento, que soprava forte na rua.

            – Amanhã vou com uns amigos para a Ilha da Pólvora. Você quer ir? - convidou André.

            – Ilha da Pólvora?

            – Vai me dizer que você não conhece?

            – Não, eu não conheço.

            – Lá têm as ruínas de quartel do exército do tempo de Getúlio Vargas, mas a gente não vai para a ilha por causa disso. Vamos pescar e pegar caranguejos. Você quer ir ou não?

            – Amanhã é sábado – balbuciou Franco. 

            Ele tomou o último gole de conhaque, limpou a boca com a mão e depois de pensar um pouco respondeu.

            – Eu vou.

            – Amanhã de manhã eu passo lá na tua casa. O Zé Pedro, mestre do barco em que trabalho, é quem vai levar a gente. Ele mora em Pelotas, mas vai me pegar bem cedo no trapiche. Escreve o teu endereço.

            – Eu não tenho nada comigo, nem lápis.

            – Ô Mendonça! Me empresta a tua caneta e um pedaço de papel!

            O dono bar que tinha o hábito de ouvir a conversa dos clientes saiu por uma porta interna, que ficava ao lado do balcão. Dois minutos depois voltou com um pedaço de papel e uma caneta.

            – Aqui tá a caneta guri, mas o papel é de embrulhar o pão.

            – Não faz mal Mendonça, não faz mal.

            André passou o papel e a caneta para Franco que escreveu o endereço. Os dois pagaram a conta e se despediram. Franco voltou a pé para casa. O frio era de rachar e as ruas estavam quase desertas.  Ele chegou em casa e não teve vontade de fazer mais nada. Jantou sopa com pão. Deitou no sofá, pegou um cobertor e ligou a aparelho de televisão da marca telefunken. Passou pelos três únicos canais que eram sintonizados em Rio Grande: as emissoras Piratini, Gaúcha e Record. Como passava das oito da noite, o catarinense deixou o aparelho sintonizado na TV Piratini, afiliada da antiga Rede Tupi de Televisão. Uma novela chamada “O Sheik de Ipanema”, de Sérgio Jockman e direção de Luís Calmon, chamou-lhe a atenção. O folhetim televisivo tinha o ator Luiz Gustavo no papel de um trambiqueiro que passava por sheik na cidade do Rio de Janeiro. A novela que ia ao ar de segunda a sábado, a partir das oito e meia da noite, naquela sexta-feira estava no final. Depois dela começou uma sessão de filme. Ele se ajeitou no sofá para assistir, mas não viu até o fim. Dormiu com a televisão ligada.

*    *    *

            Quando o pescador André disse que na Ilha da Pólvora havia um Quartel do Exército ele quase acertou. O local tinha armas, munição e era guardada por soldados, porém ficava muito longe de ser um alojamento militar. Na época, a ilha abrigava um antigo prédio que fora construído em estilo neocolonial, em 1854, e que servia de paiol do exército. Foi a partir desse ano, que a ilha passou a ser conhecida como Ilha da Pólvora. O depósito não durou muito tempo. O motivo do fechamento do paiol pode ser encontrado nos versos do cantor nativista, Mano Lima: “De que me adianta eu socar pólvora nos cartuchos, se a umidade me molha a espoleta?" Sendo uma ilha e com um grande volume pluviométrico anual, principalmente no verão, a umidade do lugar sempre foi um problema para a munição.

            A lha da Pólvora é uma das dezenas de ilhas situadas na Lagoa dos Patos. Ela está localizada entre o Canal do Rio Grande, que liga a lagoa ao Oceano Atlântico. O diferencial para as outras ilhas é que os seus cerca de 300 mil metros quadrados de área ficam, de vez em quando, inundados. A vegetação reúne mais de 50 espécies nativas, todas aptas a suportar longos períodos de alagamento, tanto de água salgada, quanto de água doce. O ponto mais alto da ilha encontra-se a 70 centímetros do nível da Lagoa dos Patos. É nesse ponto que se encontra o edifício do paiol. A ilha era visitada por muitas pessoas e o mesmo fizeram Franco, André e Zé Pedro na manhã daquele sábado gélido.

            Um corcel azul parou e buzinou na frente da casa de Franco às oito horas da manhã. O sol, embora tímido, não foi o suficiente para esquentar as pessoas em que nele procuravam abrigo. A temperatura estava perto de zero grau. O frio considerado normal para época do ano em Rio Grande não surpreendeu os moradores do lugar, mas deixou Franco e André assustados, principalmente, esse último que estava apenas de passagem pela cidade. “Faz frio sim, mas não desse jeito”, respondeu André para Zé Pedro, que perguntou se em Porto Belo não fazia frio. André mesmo bem agasalhado tiritava. O carro partiu em direção à marina, onde uma canoa a motor levaria o trio à Ilha da Pólvora. Por ruas de areia, empoeiradas e cercadas por casas de madeira, Franco observou pela janela do veículo um Rio Grande do Sul diferente daquele que parecia na televisão durante a metade da década de 1970 e que o Governo Militar gostava de mostrar. O Rio Grande industrializado e em fase de desenvolvimento, com um padrão de vida melhor até existia, mas pertencia à metade Norte do Estado. Já a metade Sul poderia ser comparada, sem exagero algum, com o sertão do Nordeste.

            Nas ruas encontrou pessoas que se protegiam do frio enroladas em trapos. Uma cena o marcou e mesmo depois de mais de 30 anos, não conseguia lembrar sem chorar. Pela janela do carro viu uma mulher idosa e toda esfarrapada saindo de uma venda. Cabisbaixa, segurava uma caderneta com as duas mãos, sem se preocupar o vento. Ela provavelmente caminhava em direção de casa. Franco deduziu que o dono da venda havia negado o fiado e a aparência dela comprovava isso. Tentou ver o seu rosto, mas o vento agitava tanto seus longos cabelos brancos, que era difícil fazer um reconhecimento.  Pensou no destino da mulher e no que iria comer naquele dia. Quase pediu para parar, mas o carro passou rápido e quando olhou para trás ela já havia entrado em uma outra rua e desaparecido. “Por quê não ajudei aquela pobre mulher?”. Durante todo aquele sábado fez essa pergunta a si mesmo. E a noite quando escreveu uma carta para a família pensou de novo. 

            Enquanto o corcel seguia o caminho Franco não prestou atenção nos seus colegas, que conversavam sobre futebol. O carro passou em frente da Catedral de São Pedro. Franco pensou na história da cidade de Rio Grande. Um dia quando visitava um museu descobriu que a cidade fora descoberta em 1531 por Martin Afonso de Souza, aquele mesmo das Capitanias Hereditárias que estudamos nos livros de história, o fundador de São Vicente, a primeira vila brasileira.

            Além de fundar Rio Grande, Souza fora enviado ao Sul para expulsar piratas franceses da Costa Brasileira. O povoado que se chamava Rio de São Pedro permaneceu por quase 150 anos esquecido por Portugal. Com a fundação da Colônia do Sacramento, hoje o Uruguai, na margem esquerda do estuário do rio da Prata, bem em frente a Buenos Aires, o povoado ajudou a consolidar a posse da terra. Foi nesse tempo que aconteceu a primeira atividade comercial, com a criação de estabelecimentos de criação de gado.

            No dia 19 de fevereiro de 1737 o Brigadeiro José da Silva Paes, com homens de mar e de guerra, desembarcou na margem Sul do Rio Grande de São Pedro para estabelecer as fortificações na região. Com o estabelecimento militar deu o início oficial da colonização.  Daí em diante o Povoado de Rio de São Pedro mudou para Vila do Rio Grande de São Pedro.

            Com o crescimento da Vila, a partir de 1760, o Rio Grande, que até então recebia ordens da Capitania de Santa Catarina, passou a ser a capital da nova Organização Administrativa, a Capitania do Rio Grande de São Pedro, que mais tarde se transformaria em Província do Rio Grande do Sul e, com a revolução dos republicanos, Estado de mesmo nome. Rio Grande de São Pedro deixou de ser vila em 1835, quando ganhou o status de cidade de Rio Grande. O auge da sua história  aconteceu quando Rio Grande retornou à condição de Capital da Província, devido à transferência da sede do Governo Imperial de Porto Alegre.

            Antes de chegar à marina o carro entrou em uma rua. Nela existiam empresas de pesca. Franco sabia quem salvava Rio Grande era a pesca. O setor começou a se desenvolver na década de 1950. Junto com Santos e Rio de Janeiro o município foi considerado um dos portos pesqueiros mais importantes do Brasil. Essas três cidades acolheram centenas de descentes dos pescadores da Ericeira e por uma forma ou de outra contribuíram com o desenvolvimento da pesca. Franco e André eram dois bons exemplos desse resultado. 

            A pesca hoje ainda é muito forte e contribui com a economia da cidade. Fica à frente da construção naval e só perde espaço para o terminal portuário. As indústrias pesqueiras processam aproximadamente 70.000 toneladas de pescados por ano. O peixe é vendido congelado, salgado, vira farinha ou óleo. O setor emprega cerca de duas mil pessoas diretamente e umas cinco mil nas atividades de pesca artesanal. Uma das curiosidades do setor no Rio Grande do Sul é que metade da produção pesqueira de Santa Catarina é descarregada em Rio Grande. Com barcos modernos e trabalhadores bem preparados, os catarinenses aproveitam mais o litoral gaúcho do que os próprios donos. O interesse das empresas pesqueiras de Santa Catarina no litoral do Estado vizinho não é à toa. O mar rio-grandino possui uma grande diversidade de pescados como o camarão, corvina, pescada, agulha, pescadinha real, castanha, tainha, linguado, cação, peixe anjo, côngrio rosa, rosado, savelha, miragaia, anchova, merluza e o atum, esses últimos três de grande valor comercial.

            Depois de meia hora de viagem o carro estacionou em frente à marina. A canoa emprestada tinha três metros de comprimento e um motor com uma boa potência. Equipamento de pesca, comida para um dia e um rádio foram os objetos levados para a ilha. Pelas águas escuras e turbulentas da Lagoa dos Patos, Franco olhava admirado à beleza natural do lugar. As ilhas e ilhotas que encontrou pelo caminho eram formadas por uma vegetação parecida com capim. Viam-se poucas árvores, porém uma quantidade grande de pássaros, gaivotas na sua maioria. Um bando delas levantou vôo assim que a canoa passou perto de uma ilhota. Os primeiros raios de sol na superfície da água salobra da lagoa levantaram uma densa neblina. Nesses pontos a visão diminuía e para o desespero de André o frio aumentava. A canoa atracou num cais improvisado. Por entre tábuas podres por causa da umidade, o grupo tocou o solo firme. Aquela parte da Ilha da Pólvora era a mais seca e arborizada. Porém, havia pequenos lagos associados, as “piscinas de maré”, como essas formações são conhecidas, e que sempre pegam um visitante desatento. Eles se posicionaram perto de uma das ruínas do antigo paiol, perto da lagoa.  Molinetes e varas nas mãos, a pescaria começou. O rádio portátil foi ligado em uma estação local. Na hora tocava uma música de Clara Nunes chamada “Conto de Areia”. A música tocou até o fim, depois vieram mais três e na metade da quinta canção, o grupo resolveu conversar e o tema na moda era falar mal do Governo Militar.

            – Parece que querem acabar o AI-5 – comentou André.

            – Tá na hora desses milicos deixarem a gente em paz – acrescentou Zé Pedro com raiva.

            Ele colocou isca no anzol e em seguida jogou a linha em direção da lagoa. Franco mudou de assunto.

            – Você disse que vai hoje para Porto Belo?

            – Eu pego o ônibus amanhã à tarde. Você quer alguma coisa de lá?

            – Só quero que leve uma carta para minha família.

            – Começa escrever que eu levo. Olha só, eu acho que peguei alguma coisa.

            A pescaria na Ilha da Pólvora durou até o fim da tarde. O dia não foi muito bom para pesca, mas mesmo assim ninguém reclamou do passeio. Na noite de sábado, em casa, Franco começou a escrever a carta. Nela, dizia para a família que havia resolvido retornar para Bombinhas. Não aguentava mais morar numa cidade onde a população passava fome, só não morria dela por que a pesca ajudava. Na mesa da cozinha, ele às vezes parava para observar o vento Sul que balançava a janela. Na rua, o Minuano assoviava alto.
 
*    *    *

            Assim que terminamos de almoçar conheci a família de Valéria. O restaurante fica quase na frente da casa dela. Encontramos dona Alcione sozinha. Dos filhos, apenas Amarildo permanecia solteiro. A mãe de Valéria nos recebeu, não como dois estranhos e sim como parentes afastados. Era uma mulher idosa, franzina, com seus 76 anos de idade. O que me surpreendeu foi a sua simpatia e atenção com as visitas. Ela contou que Arildo estava “para fora” e Verônica trabalhava em Bombinhas. Já Amarildo pescava na Praia da Sepultura. Conversamos um pouco sobre Valéria, o que fez a pobre mãe chorar. Mesmo passados mais de 20 anos, a saudade que Alcione sente da filha ainda é grande. Assim que nos despedimos, fomos sem demora para a Praia da Sepultura. No caminho Paulo Aguiar apontou para a casa de Franco, que hoje está com 57 anos. A esposa, uma senhora gorda e morena, se encontrava na frente do portão. Ela apenas disse: “O Franco tá pra fora”. O pescador tinha filhos e netos, quase todos ligados à pesca. A decisão de voltar para Bombinhas veio depois daquele passeio pela Ilha da Pólvora, precisamente com a imagem da senhora que saiu do armazém com as mãos vazias. Um detalhe muito importante que o meu xará esqueceu de contar, é que a tal mulher era muito parecida com a mãe dele. Depois de dez minutos de caminhada, chegamos à praia da Sepultura e nem sinal de Amarildo. Paulo Aguiar alegou cansaço e pediu para descansar um pouco na areia. Resolvi então aproveitar a oportunidade para ouvir mais pouco da narrativa.

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