No ano de 1793, quando Napoleão Bonaparte recebeu a patente de general do exército francês, com apenas 24 anos, nascia na freguesia da Ericeira, em Portugal, Francisco Antônio Aguiar. O que o luso não sabia, era que o destino dele e de centenas de famílias da Ericeira estariam ligados, mesmo que indiretamente, com o desejo expansionista do general corso. A família do português passou o fim do século XVIII e o início do XIX, sempre com a ameaça de seu país ser invadido pelas tropas francesas. Em
Dom João fez de tudo para não
abandonar Portugal. Chegou a oferecer o casamento de seu filho, Dom Pedro, de
apenas nove anos, a uma sobrinha de Napoleão. Por seis anos ele ganhou tempo
até que, em agosto de 1807, Bonaparte perdeu a paciência e lhe enviou o último
recado: “Ou fecha imediatamente os portos à Inglaterra ou o exército francês
invade Portugal”. Intimidada, não houve outro jeito a corte portuguesa se não
partir. No entanto, uma pergunta havia ficado no ar: para onde? No dia 22 do de
outubro do mesmo ano, um encontro entre representantes dos reinos de Portugal e
Grã-Bretanha instaurou, mesmo que secretamente, um acordo e a resposta para
questão. Nele encontrava-se a transferência da monarquia portuguesa para o
Brasil.
– Como será feito o transporte da
corte? – perguntou o representante inglês.
– Tem que ser de uma maneira que não
provoque aborrecimentos para família real – sugeriu um oficial português
durante a convenção secreta.
– A frota de Sir Sidney Smith fará a
segurança da família real. O prazo é de menos de um mês para fazer a retirada
para o Novo Mundo – continuou o inglês com dificuldade para pronunciar cada
palavra.
– E para que tanta pressa? –
questionou um alto funcionário da corte portuguesa.
– Temos informações que o general
Junot entrou em
Espanha. Bonaparte já o autorizou a invadir Portugal. O 1º
Corpo de Observação da Gironda encontra-se agora a caminho de Salamanca.
De Salamanca, o general francês
Jean-Andoche Junot, comandante das tropas de Napoleão, chegou a Valência e de
lá ultrapassou a fronteira entre Espanha e Portugal no dia 17 de novembro de
1807. Cinco dias depois, o lorde Strangford, embaixador britânico em Portugal,
entregou um exemplar do jornal Le Moniteur de Paris ao príncipe regente.
– Como a Casa de Bragança deixou de reinar
em Portugal? Quem declarou essa blasfêmia?
O tom das perguntas de Dom João
retratava o grau de revolta que provocou na família real portuguesa aquelas
poucas, todavia significativas linhas do jornal parisiense.
– Bonaparte – respondeu secamente
Strangford.
– Aquele maldito! Celerado! O que ele quer
de nós? – gritou o príncipe regente
jogando ao mesmo tempo o jornal longe.
– Vossas cabeças.
– Isso são modos de falar com um monarca
sir Strangford – continuou Dom João ainda muito nervoso e se ajeitando no
trono.
– Pelo que sei, alteza, vossa mãe ainda é
rainha de Portugal, como ela não está em condições de tomar uma decisão
razoável.
Na sala de audiência do palácio reinou por
dois minutos um silêncio de morte. Dom
João pensava na audácia do general corso que a cada dia perdia todo o limite.
Como o príncipe regente ainda pensava, sir Strangford decidiu falar.
– Peço-lhe que embarque imediatamente ao
Brasil.
– E o senhor considera essa sua proposta
uma decisão razoável. Minha mãe dentro da sua demência tomaria uma mais digna.
– A corte precisa partir sem demora. A
vanguarda do exército francês já se encontra em Portugal. No máximo
em uma semana ela entrará em Lisboa com ordem de capturar toda a família real.
Não espere complacência de Bonaparte porque não a terá – alertou sir Strangford
num tom ríspido.
– Quem está à frente do exército?
– Junot.
– Aquele traidor! Eu já desconfiava. Era
muito simpático e cortês demais. Os bem educados são os mais perigosos. Quando
poderemos partir então sir Strangford?
O ultimato de lorde Strangford dera
resultado e o destino do jovem ericeirense Francisco começava a ser traçado
pelas aquelas poucas, mas proféticas linhas do Le Moniteur de Paris. No dia 29
de novembro de 1807, com medo de ser aprisionado, o príncipe regente Dom João
decidiu transferir à corte para o Brasil. Levou consigo metade de Lisboa. A
outra metade observou sem reação, a vanguarda do exército francês acompanhada
por Junot entrar na capital. A partir de 30 de novembro, todas as instituições
da administração central passaram para o domínio francês. Quem era esse tal de
Junot, no qual Bonaparte havia confiado Portugal?
A história do general francês tem
dois períodos bem distintos. Ele foi considerado herói e vilão num curto espaço
de tempo. Como soldado, Junot sempre se distinguiu pela bravura. As campanhas
na Itália e Egito ajudaram-no a conquistar a patente de general e o
reconhecimento de Napoleão. Em 1804, foi escolhido representante diplomático em
Lisboa, onde permaneceu durante um ano. Dois anos depois, em 1807, retornou à
Península Ibérica para expulsar os ingleses de terras lusas. Nomeado governador
geral de Portugal, Junot não conseguiu cumprir a missão que fora dada por Bonaparte.
Para não ser massacrado pelas tropas inglesas e, principalmente, pela população
portuguesa, o general francês foi obrigado a assinar uma trégua para que ele e
seus soldados abandonassem Portugal. Trégua essa que Bonaparte não autorizou.
A partir daí, a história de Junot
começou a mudar e a Campanha da Rússia apenas comprovou que o mocinho era, na
verdade, um bandido. Uma dessas mostras do verdadeiro caráter do francês
aconteceu na batalha de Smolensk, aldeia localizada a 80 quilômetros de Moscou,
no dia 17 de agosto de 1812. Ele fora acusado de facilitar a retirada do
exército russo, por meio de suborno. A mesma acusação fora feita também em Portugal. Sem provas
para afastá-lo, Napoleão lhe deu mais uma chance. Essa oportunidade se chamava
Borondino. A batalha na pequena aldeia Russa foi a mais sangrenta das guerras
napoleônicas. Ela aconteceu no dia 7 de setembro de 1812. Comandando o 8ª Batalhão do Exército Francês,
Junot não demonstrou competência para vencer a disputa com os russos. Precisou
de um pouco de sorte e de Bonaparte. De Borondino, com seus quase cem mil
mortos – 36 mil franceses e 58 mil soldados russos – o exército de Napoleão
seguiu para Moscou. Encontrou a cidade em chamas e desabitada. Bonaparte sem
alternativa retornou à França. No auge do inverno russo – onde naquele ano as
temperaturas chegaram a 45 graus negativos – o exército francês, sem
suprimentos, foi massacrado. Primeiro pelo frio, em seguida pelos soldados do
Czar Nicolau II, que vieram com tudo na retaguarda. Napoleão tirou duas lições
na Campanha da Rússia. A primeira delas era para nunca subestimar seu inimigo.
A segunda dizia respeito à escolha dos seus generais.
O que os russos sofreram por causa
de Napoleão, os portugueses sentiram na pele cinco anos antes. A diferença
entre um caso e outro é que em Portugal as tropas francesas não encontraram resistência,
ao menos no começo da ocupação. O príncipe regente assim que abandonou o país,
deixou instruções para que não se oferecesse oposição aos franceses. “Seria
mais nociva que proveitosa, servindo apenas para derramar sangue", dizia o
documento assinado por Dom João.
No começo de 1808, o jovem
Francisco, então com 15 anos, viu as tropas francesas, comandadas pelo general
Luison, o Maneta, entrar tranquilamente pelas ruas estreitas da pequena
Ericeira. A invasão também aconteceu pelo mar. Navios franceses tomaram o porto
da [1]cidade,
um dos principais de Portugal naquela época. O mesmo garoto viu também os
soldados saquearem as casas. Nem mesmo a igreja foi poupada. Quase tudo foi
entregue por ocasião do imposto de 1808, que Napoleão estabeleceu ao
reino.
Antes de invadir Portugal, Junot
recebeu três ordens de Napoleão: aprisionar o príncipe regente, dissolver o
exército e eliminar as milícias portuguesas. Até dezembro de 1807, haviam 816
organizações militares que recrutavam todos os homens entre 18 e 60 anos.
Somente uma das determinações de Bonaparte foi cumprida: a de dissolver o
exército. Em terras lusas, a primeira medida do general francês foi enviar um
aviso a todos os portugueses. A ordem de 12 de Maio de 1808, documento escrito
em português e francês dizia o seguinte:
"Continuem a viver tranquilos e a
ter confiança no general em
chefe Napoleão , porque os dias da sua organização definitiva
e da sua felicidade estão próximos”.
Entretanto, as palavras de Junot
eram incoerentes quando comparadas com seus atos. Napoleão precisava de muito
dinheiro para custear a guerra e para conseguir esses recursos não restava
outra opção se não impor altas cargas fiscais ao povo. Aliado a isso, o
confisco do ouro e da prata que se encontravam nas igrejas, capelas e
confrarias do país foi muito usado pelos franceses. O resultado da ousadia do
general corso foi à declaração oficial de guerra, assinada por Dom João, no Brasil.
Assim que souberam da novidade, os portugueses partiram para o ataque. A
primeira revolta eclodiu na cidade do Porto, no dia 9 de maio de 1808. Com a
ajuda do general espanhol Bellesta, o príncipe regente de Portugal foi
imediatamente reposto ao trono e a bandeira nacional hasteada em praça pública.
Mesmo com a retomada do controle por parte do exército francês, a notícia se
espalhou e o movimento de revolta contra o domínio estrangeiro atingiu todo o
país.
Na Ericeira, a população armada se
posicionou estrategicamente e expulsou os soldados franceses. A mesma luta se
repetiu em dezenas de vilas. No dia 18 de julho, o general francês ao perceber que
não conseguiria acabar com as revoltas populares convocou todo o exército para
se dirigir a Lisboa. Com as tropas inglesas já em solo luso, não restou outra
opção para Junot, se não assinar uma trégua com o exército e as milícias para
deixar Portugal. Dois meses depois, exatamente no dia 2 de setembro, as tropas
de Junot e Luison foram expulsas para a alegria da família do jovem Francisco e
da população portuguesa. Depois de 1808,
os franceses retornaram mais duas vezes para Portugal e por mais duas vezes
foram expulsos, sempre com a ajuda inglesa.
Bem longe dali e de todas as
agitações das invasões francesas, Dom João e a corte aportavam em Salvador. Era 22 de
Janeiro de 1808. Seis dias depois, o príncipe regente decretou a abertura dos
portos brasileiros às nações amigas. É claro que a Inglaterra foi a maior
beneficiada com a medida. Em março, Dom João transferiu toda à corte para o Rio
de Janeiro, transformando a cidade em sede da Monarquia. Ali formou o seu
ministério, liberou a criação de indústrias, atacou e ocupou a Guiana Francesa,
com a ajuda de um filho de um ericeirense, o então alferes do exército José da
Silva Mafra. Entre seus feitos, Dom João fundou escolas, bibliotecas e bancos.
Os anos passaram, na Europa o
exército francês, cada vez mais fraco, perdia diversos combates. O maior deles
foi o de 1812, na Rússia. A queda de
Napoleão não demorou muito; aconteceu em 16 de dezembro de 1815 na celebre
batalha de Waterloo, hoje território Belga. No ano seguinte, no Brasil, morreu
Dona Maria I, mãe de Dom João, conhecida também como Maria, a louca. Primeira
mulher a governar Portugal, Dona Maria, ficou pouco tempo no poder. O seu
reinado durou apenas 15 anos, de 1777
a 1792. Com a morte do primogênito Dom José, aos 26
anos, a rainha que já apresentava sinais de demência, piorou de vez. Sem
capacidade para dirigir os assuntos de Estado, o filho e herdeiro Dom João
assumiu o controle do reino. Nesta situação ela permaneceu durante 24
anos. A coroação de Dom João ocorreu em
fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro, dois anos após a morte da mãe. O novo
soberano foi coroado como Dom João VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves.
A vinda da corte portuguesa
transformou o Brasil e seus hábitos. Os portos foram abertos às nações amigas,
o novo país viu o nascimento da imprensa – embora sem muita liberdade –, o
crescimento da indústria, o início das atividades nas faculdades e a instalação
do Banco do Brasil. No entanto, uma medida em especial influenciou diretamente
o destino do jovem Francisco e de centenas de moradores da Ericeira. A
freguesia portuguesa com tradição pesqueira milenar foi escolhida por Dom João
para inaugurar a primeira companhia pesqueira do Brasil, denominada Colônia
Nova Ericeira. Se ainda existisse, o antigo empreendimento luso abrangeria atualmente
os territórios de nove cidades do Estado de Santa Catarina.
Além de explorar o grande potencial
pesqueiro, que era o mar do Brasil em 1818, o rei queria afastar o perigo de
uma possível invasão espanhola. A pedido do soberano, uma expedição percorreu
todo o litoral da Região Sul para a escolha do local da futura povoação. O plano
era fundar uma colônia de pescadores nos mesmos modelos das vilas pesqueiras
existentes em Portugal. O
local indicado para sediar o empreendimento foi a Enseada das Garoupas, hoje
cidade de Porto Belo. A expedição designada por Dom João VI não escolheu a
Enseada das Garoupas por acaso. O local indicado era considerado de fácil
ancoradouro para embarcações.
* * *
Na Ericeira, seus moradores se
encontravam em alvoroço com a notícia do embarque para o Brasil. O jovem
Francisco com 24 anos recebeu a novidade quando arrumava a embarcação da
família chamada Galés. A Praia dos Pescadores se encontrava deserta no começo
do inverno de 1817. Pedro Rodrigues, amigo de Francisco, foi o primeiro dar a
boa nova.
– Ó Francisco, hoje temos finalmente
uma novidade.
– Que novidade? – perguntou sem dar
muita atenção à conversa do amigo.
– Um oficial de Lisboa esteve a
conversar com alguns pescadores na Praia de Sebastião. Ele disse que está a
contratar mão-de-obra para trabalhar nas terras do Brasil.
– O que tem no Brasil?
* *
*
Antes que Pedro responda ao amigo o
que tem no Brasil, preciso resumir o que foi o novo empreendimento para o
litoral de Santa Catarina. Sobre esse diálogo retornarei mais tarde. Em maio de
1818, depois de três meses de viagem, a Nau Conde de Peniche aportou na cidade
do Rio de Janeiro. Trazia 101 pessoas da Ericeira. Eram homens e mulheres que
fugiam da guerra e da fome na Europa. No mesmo mês, os lusos chegaram à Enseada
das Garoupas. Além de pescadores, haviam também barbeiros, alfaiates,
sapateiros, um médico, um boticário e um
padre. Distribuídos os terrenos, os ericeirenses começaram a construir
casas e embarcações.
A igrejinha foi construída e recebeu o nome de
Capela de Bom Jesus dos Aflitos. A responsabilidade pela administração da nova
povoação ficou com o Intendente da
Marinha, Miguel Souza Mello e Alvim. Já o governador da Província de Santa
Catarina, João Vieira Tovar de Albuquerque, ficou responsável por oferecer equipamentos,
sementes e um soldo inicial para os recém-chegados. Como os novos colonos
estavam mais inclinados à pesca, logo ele providenciou a construção de
embarcações e os ericeirenses iniciaram à atividade pesqueira.
Apesar
de todas as dificuldades, os ericeirenses conseguiram dar continuidade a
colônia. Quatro anos após a chegada da primeira leva de imigrantes, outras duas
aportaram no litoral de Santa Catarina.
Com a Independência do Brasil, em 1822, a Colônia Nova
Ericeira ficou conhecida por Porto Belo. Os anos passaram e Porto Belo deixou
de ser grande. A cada ano seu território diminuía. Ainda no século XIX, a
cidade sede da Colônia Nova Ericeira ficou subordinada a cidade de Tijucas. No
entanto, a mudança definitiva aconteceria no século seguinte. As emancipações
traçaram novas linhas no mapa da cidade. Do antigo empreendimento pesqueiro
surgiram nove municípios: Porto Belo, Tijucas, Camboriú, Balneário Camboriú,
Itapema, Bombinhas, Navegantes, Itajaí e Governador Celso Ramos (Ganchos).
Oficialmente a Colônia Nova Ericeira deixou de existir, em 1824, mas passados
mais de 180 anos, ela continua viva na tradição pesqueira e nos seus
descendentes.
* *
*
Um bando de gaivotas atravessou o
cemitério em direção à praia. Tentei seguir os pássaros com os olhos, mas logo
o meu xará se levantou. Fiquei a observá-lo para ver se a história havia
terminado. Uma frase dele no começo da conversa havia me intrigado. Resolvi
então perguntar.
– Você falou no começo que a culpa
era toda de Napoleão, por quê?
– Se não fosse por ele, nada disso
teria acontecido. Dom João não teria ido para o Brasil, não existiria Colônia
Nova Ericeira e muito menos teríamos essa conversa hoje. Então entendo que “a
culpa” foi de Napoleão, que direta e indiretamente modificou o destino de
milhares de pessoas no mundo inteiro.
Como a nossa posição no cemitério
não era muito cômoda, resolvemos sair dali. Conheci então o restante da família
de Paulo Aguiar. Esposa, filhas e sobrinhos do doador me receberam como um
filho que regressa para casa depois de anos afastado. Confesso que achei
estranha a recepção, mas no fundo gostei. De Navegantes, a convite do jovem,
fui conhecer a antiga Colônia Nova Ericeira, não Porto Belo e sim a cidade
vizinha Bombinhas. Na praia de Quatro Ilhas, o rapaz continuou a narrativa dos
descendentes dos colonos que vieram da Ericeira. E ela estava apenas no começo.
[1] Por questões políticas, Ericeira
deixou de ser município e passou a ser freguesia (bairro) a partir de 1855.
Hoje está subordinada a cidade de Mafra.

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