domingo, 18 de dezembro de 2016

Capítulo II - A culpa foi de Napoleão

                                                                              
           
              
              No ano de 1793, quando Napoleão Bonaparte recebeu a patente de general do exército francês, com apenas 24 anos, nascia na freguesia da Ericeira, em Portugal, Francisco Antônio Aguiar. O que o luso não sabia, era que o destino dele e de centenas de famílias da Ericeira estariam ligados, mesmo que indiretamente, com o desejo expansionista do general corso. A família do português passou o fim do século XVIII e o início do XIX, sempre com a ameaça de seu país ser invadido pelas tropas francesas. Em 1801, a ameaça deixou de ser apenas especulação para tornar-se oficial. A Espanha aliou-se à França e atacou Portugal, que se recusava fechar os portos à Inglaterra. Em Portugal, o príncipe regente Dom João, que a partir de 1818 viria a ser conhecido como Dom João VI, até tentou enganar Bonaparte com a promessa de que não tinha mais nenhum negócio com os ingleses. Promessa essa que o príncipe regente jamais conseguiu cumprir, uma vez que a economia portuguesa estava ligada estreitamente à Inglaterra.

            Dom João fez de tudo para não abandonar Portugal. Chegou a oferecer o casamento de seu filho, Dom Pedro, de apenas nove anos, a uma sobrinha de Napoleão. Por seis anos ele ganhou tempo até que, em agosto de 1807, Bonaparte perdeu a paciência e lhe enviou o último recado: “Ou fecha imediatamente os portos à Inglaterra ou o exército francês invade Portugal”. Intimidada, não houve outro jeito a corte portuguesa se não partir. No entanto, uma pergunta havia ficado no ar: para onde? No dia 22 do de outubro do mesmo ano, um encontro entre representantes dos reinos de Portugal e Grã-Bretanha instaurou, mesmo que secretamente, um acordo e a resposta para questão. Nele encontrava-se a transferência da monarquia portuguesa para o Brasil.

            – Como será feito o transporte da corte? – perguntou o representante inglês.

            – Tem que ser de uma maneira que não provoque aborrecimentos para família real – sugeriu um oficial português durante a convenção secreta.

            – A frota de Sir Sidney Smith fará a segurança da família real. O prazo é de menos de um mês para fazer a retirada para o Novo Mundo – continuou o inglês com dificuldade para pronunciar cada palavra.

            – E para que tanta pressa? – questionou um alto funcionário da corte portuguesa.

            – Temos informações que o general Junot entrou em Espanha. Bonaparte já o autorizou a invadir Portugal. O 1º Corpo de Observação da Gironda encontra-se agora a caminho de Salamanca.

            De Salamanca, o general francês Jean-Andoche Junot, comandante das tropas de Napoleão, chegou a Valência e de lá ultrapassou a fronteira entre Espanha e Portugal no dia 17 de novembro de 1807. Cinco dias depois, o lorde Strangford, embaixador britânico em Portugal, entregou um exemplar do jornal Le Moniteur de Paris ao príncipe regente.

      – Como a Casa de Bragança deixou de reinar em Portugal? Quem declarou essa blasfêmia?

            O tom das perguntas de Dom João retratava o grau de revolta que provocou na família real portuguesa aquelas poucas, todavia significativas linhas do jornal parisiense. 

      – Bonaparte – respondeu secamente Strangford.

      – Aquele maldito! Celerado! O que ele quer de nós? – gritou o príncipe regente  jogando ao mesmo tempo o jornal longe.

      – Vossas cabeças.

      – Isso são modos de falar com um monarca sir Strangford – continuou Dom João ainda muito nervoso e se ajeitando no trono.

      – Pelo que sei, alteza, vossa mãe ainda é rainha de Portugal, como ela não está em condições de tomar uma decisão razoável.

      Na sala de audiência do palácio reinou por dois minutos um silêncio de morte.  Dom João pensava na audácia do general corso que a cada dia perdia todo o limite. Como o príncipe regente ainda pensava, sir Strangford decidiu falar.

      – Peço-lhe que embarque imediatamente ao Brasil.

      – E o senhor considera essa sua proposta uma decisão razoável. Minha mãe dentro da sua demência tomaria uma mais digna.

      – A corte precisa partir sem demora. A vanguarda do exército francês já se encontra em Portugal. No máximo em uma semana ela entrará em Lisboa com ordem de capturar toda a família real. Não espere complacência de Bonaparte porque não a terá – alertou sir Strangford num tom ríspido.

      – Quem está à frente do exército?

      – Junot.

      – Aquele traidor! Eu já desconfiava. Era muito simpático e cortês demais. Os bem educados são os mais perigosos. Quando poderemos partir então sir Strangford?

            O ultimato de lorde Strangford dera resultado e o destino do jovem ericeirense Francisco começava a ser traçado pelas aquelas poucas, mas proféticas linhas do Le Moniteur de Paris. No dia 29 de novembro de 1807, com medo de ser aprisionado, o príncipe regente Dom João decidiu transferir à corte para o Brasil. Levou consigo metade de Lisboa. A outra metade observou sem reação, a vanguarda do exército francês acompanhada por Junot entrar na capital. A partir de 30 de novembro, todas as instituições da administração central passaram para o domínio francês. Quem era esse tal de Junot, no qual Bonaparte havia confiado Portugal?

            A história do general francês tem dois períodos bem distintos. Ele foi considerado herói e vilão num curto espaço de tempo. Como soldado, Junot sempre se distinguiu pela bravura. As campanhas na Itália e Egito ajudaram-no a conquistar a patente de general e o reconhecimento de Napoleão. Em 1804, foi escolhido representante diplomático em Lisboa, onde permaneceu durante um ano. Dois anos depois, em 1807, retornou à Península Ibérica para expulsar os ingleses de terras lusas. Nomeado governador geral de Portugal, Junot não conseguiu cumprir a missão que fora dada por Bonaparte. Para não ser massacrado pelas tropas inglesas e, principalmente, pela população portuguesa, o general francês foi obrigado a assinar uma trégua para que ele e seus soldados abandonassem Portugal. Trégua essa que Bonaparte não autorizou.    

            A partir daí, a história de Junot começou a mudar e a Campanha da Rússia apenas comprovou que o mocinho era, na verdade, um bandido. Uma dessas mostras do verdadeiro caráter do francês aconteceu na batalha de Smolensk, aldeia localizada a 80 quilômetros de Moscou, no dia 17 de agosto de 1812. Ele fora acusado de facilitar a retirada do exército russo, por meio de suborno. A mesma acusação fora feita também em Portugal. Sem provas para afastá-lo, Napoleão lhe deu mais uma chance. Essa oportunidade se chamava Borondino. A batalha na pequena aldeia Russa foi a mais sangrenta das guerras napoleônicas. Ela aconteceu no dia 7 de setembro de 1812.  Comandando o 8ª Batalhão do Exército Francês, Junot não demonstrou competência para vencer a disputa com os russos. Precisou de um pouco de sorte e de Bonaparte. De Borondino, com seus quase cem mil mortos – 36 mil franceses e 58 mil soldados russos – o exército de Napoleão seguiu para Moscou. Encontrou a cidade em chamas e desabitada. Bonaparte sem alternativa retornou à França. No auge do inverno russo – onde naquele ano as temperaturas chegaram a 45 graus negativos – o exército francês, sem suprimentos, foi massacrado. Primeiro pelo frio, em seguida pelos soldados do Czar Nicolau II, que vieram com tudo na retaguarda. Napoleão tirou duas lições na Campanha da Rússia. A primeira delas era para nunca subestimar seu inimigo. A segunda dizia respeito à escolha dos seus generais.

            O que os russos sofreram por causa de Napoleão, os portugueses sentiram na pele cinco anos antes. A diferença entre um caso e outro é que em Portugal as tropas francesas não encontraram resistência, ao menos no começo da ocupação. O príncipe regente assim que abandonou o país, deixou instruções para que não se oferecesse oposição aos franceses. “Seria mais nociva que proveitosa, servindo apenas para derramar sangue", dizia o documento assinado por Dom João.

            No começo de 1808, o jovem Francisco, então com 15 anos, viu as tropas francesas, comandadas pelo general Luison, o Maneta, entrar tranquilamente pelas ruas estreitas da pequena Ericeira. A invasão também aconteceu pelo mar. Navios franceses tomaram o porto da [1]cidade, um dos principais de Portugal naquela época. O mesmo garoto viu também os soldados saquearem as casas. Nem mesmo a igreja foi poupada. Quase tudo foi entregue por ocasião do imposto de 1808, que Napoleão estabeleceu ao reino. 

            Antes de invadir Portugal, Junot recebeu três ordens de Napoleão: aprisionar o príncipe regente, dissolver o exército e eliminar as milícias portuguesas. Até dezembro de 1807, haviam 816 organizações militares que recrutavam todos os homens entre 18 e 60 anos. Somente uma das determinações de Bonaparte foi cumprida: a de dissolver o exército. Em terras lusas, a primeira medida do general francês foi enviar um aviso a todos os portugueses. A ordem de 12 de Maio de 1808, documento escrito em português e francês dizia o seguinte:

"Continuem a viver tranquilos e a ter confiança no general em chefe Napoleão, porque os dias da sua organização definitiva e da sua felicidade estão próximos”.

            Entretanto, as palavras de Junot eram incoerentes quando comparadas com seus atos. Napoleão precisava de muito dinheiro para custear a guerra e para conseguir esses recursos não restava outra opção se não impor altas cargas fiscais ao povo. Aliado a isso, o confisco do ouro e da prata que se encontravam nas igrejas, capelas e confrarias do país foi muito usado pelos franceses. O resultado da ousadia do general corso foi à declaração oficial de guerra, assinada por Dom João, no Brasil. Assim que souberam da novidade, os portugueses partiram para o ataque. A primeira revolta eclodiu na cidade do Porto, no dia 9 de maio de 1808. Com a ajuda do general espanhol Bellesta, o príncipe regente de Portugal foi imediatamente reposto ao trono e a bandeira nacional hasteada em praça pública. Mesmo com a retomada do controle por parte do exército francês, a notícia se espalhou e o movimento de revolta contra o domínio estrangeiro atingiu todo o país.

            Na Ericeira, a população armada se posicionou estrategicamente e expulsou os soldados franceses. A mesma luta se repetiu em dezenas de vilas. No dia 18 de julho, o general francês ao perceber que não conseguiria acabar com as revoltas populares convocou todo o exército para se dirigir a Lisboa. Com as tropas inglesas já em solo luso, não restou outra opção para Junot, se não assinar uma trégua com o exército e as milícias para deixar Portugal. Dois meses depois, exatamente no dia 2 de setembro, as tropas de Junot e Luison foram expulsas para a alegria da família do jovem Francisco e da população portuguesa.  Depois de 1808, os franceses retornaram mais duas vezes para Portugal e por mais duas vezes foram expulsos, sempre com a ajuda inglesa.

            Bem longe dali e de todas as agitações das invasões francesas, Dom João e a corte aportavam em Salvador. Era 22 de Janeiro de 1808. Seis dias depois, o príncipe regente decretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas. É claro que a Inglaterra foi a maior beneficiada com a medida. Em março, Dom João transferiu toda à corte para o Rio de Janeiro, transformando a cidade em sede da Monarquia. Ali formou o seu ministério, liberou a criação de indústrias, atacou e ocupou a Guiana Francesa, com a ajuda de um filho de um ericeirense, o então alferes do exército José da Silva Mafra. Entre seus feitos, Dom João fundou escolas, bibliotecas e bancos.

            Os anos passaram, na Europa o exército francês, cada vez mais fraco, perdia diversos combates. O maior deles foi o de 1812, na Rússia.  A queda de Napoleão não demorou muito; aconteceu em 16 de dezembro de 1815 na celebre batalha de Waterloo, hoje território Belga. No ano seguinte, no Brasil, morreu Dona Maria I, mãe de Dom João, conhecida também como Maria, a louca. Primeira mulher a governar Portugal, Dona Maria, ficou pouco tempo no poder. O seu reinado durou apenas 15 anos, de 1777 a 1792. Com a morte do primogênito Dom José, aos 26 anos, a rainha que já apresentava sinais de demência, piorou de vez. Sem capacidade para dirigir os assuntos de Estado, o filho e herdeiro Dom João assumiu o controle do reino. Nesta situação ela permaneceu durante 24 anos.  A coroação de Dom João ocorreu em fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro, dois anos após a morte da mãe. O novo soberano foi coroado como Dom João VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

            A vinda da corte portuguesa transformou o Brasil e seus hábitos. Os portos foram abertos às nações amigas, o novo país viu o nascimento da imprensa – embora sem muita liberdade –, o crescimento da indústria, o início das atividades nas faculdades e a instalação do Banco do Brasil. No entanto, uma medida em especial influenciou diretamente o destino do jovem Francisco e de centenas de moradores da Ericeira. A freguesia portuguesa com tradição pesqueira milenar foi escolhida por Dom João para inaugurar a primeira companhia pesqueira do Brasil, denominada Colônia Nova Ericeira. Se ainda existisse, o antigo empreendimento luso abrangeria atualmente os territórios de nove cidades do Estado de Santa Catarina.

            Além de explorar o grande potencial pesqueiro, que era o mar do Brasil em 1818, o rei queria afastar o perigo de uma possível invasão espanhola. A pedido do soberano, uma expedição percorreu todo o litoral da Região Sul para a escolha do local da futura povoação. O plano era fundar uma colônia de pescadores nos mesmos modelos das vilas pesqueiras existentes em Portugal. O local indicado para sediar o empreendimento foi a Enseada das Garoupas, hoje cidade de Porto Belo. A expedição designada por Dom João VI não escolheu a Enseada das Garoupas por acaso. O local indicado era considerado de fácil ancoradouro para embarcações.


*   *    *

            Na Ericeira, seus moradores se encontravam em alvoroço com a notícia do embarque para o Brasil. O jovem Francisco com 24 anos recebeu a novidade quando arrumava a embarcação da família chamada Galés. A Praia dos Pescadores se encontrava deserta no começo do inverno de 1817. Pedro Rodrigues, amigo de Francisco, foi o primeiro dar a boa nova.

            – Ó Francisco, hoje temos finalmente uma novidade.

            – Que novidade? – perguntou sem dar muita atenção à conversa do amigo.

            – Um oficial de Lisboa esteve a conversar com alguns pescadores na Praia de Sebastião. Ele disse que está a contratar mão-de-obra para trabalhar nas terras do Brasil.

            – O que tem no Brasil?


*    *    *

            Antes que Pedro responda ao amigo o que tem no Brasil, preciso resumir o que foi o novo empreendimento para o litoral de Santa Catarina. Sobre esse diálogo retornarei mais tarde. Em maio de 1818, depois de três meses de viagem, a Nau Conde de Peniche aportou na cidade do Rio de Janeiro. Trazia 101 pessoas da Ericeira. Eram homens e mulheres que fugiam da guerra e da fome na Europa. No mesmo mês, os lusos chegaram à Enseada das Garoupas. Além de pescadores, haviam também barbeiros, alfaiates, sapateiros, um médico, um boticário e um  padre. Distribuídos os terrenos, os ericeirenses começaram a construir casas e embarcações. 

             A igrejinha foi construída e recebeu o nome de Capela de Bom Jesus dos Aflitos. A responsabilidade pela administração da nova povoação ficou com o  Intendente da Marinha, Miguel Souza Mello e Alvim. Já o governador da Província de Santa Catarina, João Vieira Tovar de Albuquerque, ficou responsável por oferecer equipamentos, sementes e um soldo inicial para os recém-chegados. Como os novos colonos estavam mais inclinados à pesca, logo ele providenciou a construção de embarcações e os ericeirenses iniciaram à atividade pesqueira.            

Apesar de todas as dificuldades, os ericeirenses conseguiram dar continuidade a colônia. Quatro anos após a chegada da primeira leva de imigrantes, outras duas aportaram no litoral de Santa Catarina.  Com a Independência do Brasil, em 1822, a Colônia Nova Ericeira ficou conhecida por Porto Belo. Os anos passaram e Porto Belo deixou de ser grande. A cada ano seu território diminuía. Ainda no século XIX, a cidade sede da Colônia Nova Ericeira ficou subordinada a cidade de Tijucas. No entanto, a mudança definitiva aconteceria no século seguinte. As emancipações traçaram novas linhas no mapa da cidade. Do antigo empreendimento pesqueiro surgiram nove municípios: Porto Belo, Tijucas, Camboriú, Balneário Camboriú, Itapema, Bombinhas, Navegantes, Itajaí e Governador Celso Ramos (Ganchos). Oficialmente a Colônia Nova Ericeira deixou de existir, em 1824, mas passados mais de 180 anos, ela continua viva na tradição pesqueira e nos seus descendentes.
 

*    *    *

            Um bando de gaivotas atravessou o cemitério em direção à praia. Tentei seguir os pássaros com os olhos, mas logo o meu xará se levantou. Fiquei a observá-lo para ver se a história havia terminado. Uma frase dele no começo da conversa havia me intrigado. Resolvi então perguntar.

            – Você falou no começo que a culpa era toda de Napoleão, por quê?

            – Se não fosse por ele, nada disso teria acontecido. Dom João não teria ido para o Brasil, não existiria Colônia Nova Ericeira e muito menos teríamos essa conversa hoje. Então entendo que “a culpa” foi de Napoleão, que direta e indiretamente modificou o destino de milhares de pessoas no mundo inteiro. 

            Como a nossa posição no cemitério não era muito cômoda, resolvemos sair dali. Conheci então o restante da família de Paulo Aguiar. Esposa, filhas e sobrinhos do doador me receberam como um filho que regressa para casa depois de anos afastado. Confesso que achei estranha a recepção, mas no fundo gostei. De Navegantes, a convite do jovem, fui conhecer a antiga Colônia Nova Ericeira, não Porto Belo e sim a cidade vizinha Bombinhas. Na praia de Quatro Ilhas, o rapaz continuou a narrativa dos descendentes dos colonos que vieram da Ericeira. E ela estava apenas no começo.


[1]          Por questões políticas, Ericeira deixou de ser município e passou a ser freguesia (bairro) a partir de 1855. Hoje está subordinada a cidade de Mafra.

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