A partir de hoje, 11 de dezembro de 2016, começo a publicar, por capítulos,
o livro “A Nova Ericeira". A ideia de escrever o livro surgiu no dia 19 de setembro de 2005. Antes de enterrar meu pai pensei na vida que ele teve e também nos seus antepassados. Considerei injusto que uma vida pudesse ser esquecida assim que o caixão baixasse à sepultura. Tão fria e solitária quanto uma cova é a vala comum do esquecimento, onde algumas pessoas são jogadas. Maurice Maeterlinck, dramaturgo Belga, na sua otimista peça teatral “O Pássaro Azul”, escreveu que as pessoas mortas vivem de novo quando pensamos nelas. Além de pensar, minha intenção foi fazer algo mais: escrever. A pesca surgiu como um ponto de partida. Por meio de entrevistas e pesquisas históricas descobri que ascendia de imigrantes portugueses. Eles vieram da freguesia da Ericeira, em 1818, fundar a 1ª primeira companhia pesqueira do Brasil.
Um mês após a morte do meu pai soube por meio de uma carta do Banco de Olhos de Joinville (SC), que ele tinha doado a córnea direita para uma pessoa. Passaram então dois anos e quatro meses e comecei a escrever o livro. Entrei em contato com o receptor da córnea direita, que por coincidência também tinha o meu mesmo nome. A partir daí o trabalho ganhou força e o livro um formato bem definido. Minha intenção não foi escrever um livro histórico sobre a vida dos descendentes da Ericeira, mas sim oferecer uma visão humana. Não tinha a pretensão de produzir um livro didático. O objetivo foi contar a trajetória desses descendentes, pescadores na sua maioria, levando em conta seus sentimentos, maneira de ver o mundo, ideais, sonhos e frustrações. Os números, os dados estatísticos estão representados nas pessoas que de uma certa maneira contribuíram para o desenvolvimento da pesca no país.
Durante as minhas pesquisas descobri que a influência da Colônia Nova Ericeira foi muito grande na indústria pesqueira e também na construção naval. Os pescadores que conversei tanto formal como informalmente tinham uma ligação com os imigrantes portugueses. Dois indícios foram levantados: o sobrenome igual das pessoas que vieram da Ericeira em 1818 e a origem dessas pessoas, Porto Belo. Recolhi material não para escrever um livro e sim para mais três. O campo de pesquisa sobre a história da Colônia Nova Ericeira é amplo e ainda inexplorado. A vida de seus descendentes merece ser registrada e uma pequena mostra está disponível nesse livro.
A Nova Ericeira será publicada no blog por capítulos. Todos os domingos serão publicados um dos 11 capítulos. Esse é o primeiro. Boa leitura.
Capítulo
I - A casa dos mortos
Demorei muito tempo para compreender o significado da
doação de órgãos. Já faz quase três anos que recebi a córnea direita e somente
agora começo a perceber o significado desse ato. Desde que passei pela
operação, isso aconteceu no dia 23 de setembro de 2005, muita coisa mudou na
minha vida, e graças a Deus, para melhor. Pode parecer estranho, mas a minha
falta de compreensão surgiu do gesto doador e também da família que concordou
com tudo. Sempre demonstrei interesse em conhecer a vida da pessoa que
possibilitou tal mudança, mas o tempo passou e, dia após dia, adiei a
possibilidade de um encontro com a família do doador. Não sei por que evitei
tanto tempo? Às vezes me perguntava e para minha frustração não conseguia uma
resposta razoável. Confesso que no começo, fora a curiosidade, não havia nenhum
interesse. Depois de dois anos, por fim tomei coragem.
Liguei para o Banco de Olhos de Joinville, a maior cidade
do Estado de Santa Catarina, e expliquei o que queria. Do outro lado da linha,
a moça que atendeu ficou surpresa pelo meu repentino interesse, já que havia
passado quase três anos. Não me justifiquei, mas essa demora, segundo a
responsável pelo Banco de Olhos, seria decisiva para que a família do doador
não aprovasse o encontro. Poderia naquele momento desistir e confesso para
minha vergonha, que cheguei a pensar nisso. Seria muito fácil deixar o assunto
por ali e tocar a minha nova vida, mas alguma coisa – não sei como explicar –
me atirava para a família do doador. Talvez a ânsia de agradecer pessoalmente a
atitude que mudou minha vida fosse à explicação mais lógica. Insisti e liguei
mais duas vezes. Justamente na terceira vez, a moça ficou sensibilizada com a
minha situação e disse apenas: “Vou tentar”. Estava satisfeito com a resposta,
pelo menos era uma oportunidade.
Os dias que antecederam a resposta foram cercados por uma
expectativa angustiante. Para uma pessoa que no começo não tinha tanto
entusiasmo com o encontro, estava bem interessado. Enfim veio a resposta e para
minha surpresa foi positiva. O filho do doador queria falar comigo e isso já
era um bom começo. A segunda surpresa foi ele ter me ligado, esperava o
contrário. Esses dois fatos não foram os únicos que me causaram admiração.
Primeiro foi o lugar em que o rapaz queria conversar comigo. Sinceramente
esperava que ele me convidasse para conhecer a família num ambiente apropriado,
por exemplo, uma residência. O lugar proposto era de fato uma residência, como
ele disse mais tarde: “A Casa dos Mortos”. Um cemitério, isso mesmo, exatamente
um cemitério foi o lugar marcado para o nosso encontro. Ele queria que eu
conhecesse onde o seu pai fora sepultado.
Apesar de achar muito estranho não relutei e o dia escolhido para a
nossa conversa foi 18 de abril de 2008.
Antes de tudo, preciso contar um pouco da minha história.
Meu nome é Paulo Bachmann. Tenho 43 anos, sou casado, não tenho filhos. Aos 17
anos, assim que entrei para a Faculdade de Engenharia da Universidade Federal
de Santa Catarina descobri que a minha visão não era perfeita. Essa imperfeição
se chamava Ceratocone, uma deformidade que alonga a córnea, deixando-a no
formato de um cone. A doença é uma das principais causas de indicação de
transplante, em geral não ocorre rejeição.
No início da década de 1980, época
em que foi diagnosticada a doença, um transplante de córneas estava fora de
cogitação. Por recomendação médica comecei a usar lentes nos dois olhos. Foi
assim que terminei a faculdade e durante mais de 20 anos enxerguei o mundo, por
meio de grossas lentes de contato. Durante esse tempo sempre visitei o
oftalmologista e foi ele quem recomendou o transplante, já que existia o risco
de ficar completamente cego. Isso poderia acontecer, se a córnea alongasse
demais. Caso ela de fato se rompesse não haveria como reverter, mesmo com o
transplante. “O teu olho direito é que mais me preocupa”, dizia o
oftalmologista.
Em 2005, fazia parte da lista dos 89 nomes que aguardavam
um transplante de córneas em Santa Catarina. Há quatro anos esperava uma
oportunidade e ela apareceu no final do mês de setembro daquele ano. Estava no
grupo das 64 pessoas que conseguiram fazer a operação. Ela aconteceu no dia 23
de setembro e desde então tenho uma vida quase normal. Do meu olho direito
enxergo bem, contudo ainda preciso usar lentes no esquerdo, pois tenho apenas
5% da visão nesse olho. Minha vida antes do transplante foi muito difícil. Às
vezes me sentia revoltado e por isso fiquei um bom tempo sem entender o gesto
da família do doador. Enfim, tudo passou, sou hoje uma pessoa diferente e muito
agradecida àqueles que me ajudaram.
De Balneário Camboriú, onde moro, segui para Navegantes –
cidade distante 20 quilômetros – no dia combinado. Era um dia de sol e fazia um
pouco de calor. Esperava cinzento e frio. O local não tinha nada de diferente
dos outros cemitérios que havia visitado. A maioria das sepulturas era simples,
não se via muitos mausoléus. Antes mesmo de entrar no cemitério eu já podia
sentir o forte cheiro de vela derretida, de rosas e cravos. O odor foi bem
acentuado pelo clima. Além do calor, o ar era muito úmido, o que provocava uma
sensação desagradável de abafamento. Encontrei o rapaz em frente à “Casa dos
Mortos”, impaciente. Consultava as horas no celular. Assim deduzi, já que me
encontrava 20 minutos atrasado.
Por telefone havíamos combinado nosso encontro
às 7 horas. Cumprimentamo-nos friamente. Cheguei a pensar mais de uma vez
sobre aquele momento, mas nunca imaginei que seria tão impassível. Ele parecia
angustiado. Era um rapaz magro, moreno e toda a família era assim também, como
descobri mais tarde. Sem perda de tempo entramos no cemitério. Por entre as
sepulturas e o forte cheiro de velas derretidas e flores murchas tão
características do local, chegamos onde descansava seu velho pai, a pessoa
responsável pela visão do meu olho direito.
Ficamos parados em frente ao túmulo
por mais ou menos cinco minutos. Na lápide acinzentada e fria, uma vela pela
metade travava uma batalha com o vento para permanecer acesa. Não questionei
quem havia colocado a vela na sepultura. O rapaz olhava fixamente o nome e as
datas que assim estavam escritos: Alexandre Aguiar, nascimento 08/03/1947 e
morte 21/09/2005. Ele olhou para o alto. Não notei emoção alguma no seu
rosto.
– Você deve estar pensando que sou um louco em escolher
um cemitério para conversar – disse ele sem tirar os olhos do epitáfio.
Quem visita um cemitério sente que o tempo parou. Essa
foi à sensação que tive quando estava lá. Sem saber o que dizer aguardei o
garoto continuar.
– Eu te trouxe aqui para provar que a morte não é o fim e
pode ser o começo de muitas coisas – acrescentou.
“Meu olho direito é uma prova material”, pensei. Resolvi
não interrompê-lo e ele continuou num tom de voz bastante sombrio, pelo menos
isso combinava com a “Casa dos Mortos”.
– Há mais de dois anos – continuou o rapaz – me
encontrava na capela mortuária velando o corpo do meu pai. Quando caminhávamos
para este lugar, tive a ideia de fazer algo que pudesse homenagear o esforço
dele. Comecei então uma pesquisa e descobri quem eram seus antepassados.
Pescadores, todos trabalhadores do mar.
– Se dissesse que não estou surpreso com o lugar estaria
mentindo, mas por nenhum momento pensei que você é louco, até pensei em outra
coisa bem diferente – respondi já a espera da pergunta: “Que outra coisa?”
A coisa diferente que pensei dizia respeito se ele era
supersticioso ou não. Entretanto, como não houve curiosidade, ele sentou numa
lápide ao lado e continuamos a conversa. Não tive coragem de fazer o mesmo e
escutei tudo em pé. No começo disse que o nosso primeiro contato foi cheio de
surpresas e posso dizer que isso continuou durante a nossa conversa. Primeiro
pelo nome dele. Também se chamava Paulo.
– Por meio da pesquisa descobri que os meus ascendentes
vieram da freguesia da Ericeira, em Portugal. Meu pai era trineto de um
imigrante luso e...
Sentado na lápide de um casal, o meu xará começou a
narrativa sobre seu tataravô e uma tal Colônia Nova Ericeira. Antes que eu me
esqueça, essa história é contada por ele.


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