domingo, 25 de dezembro de 2016

Capítulo III - Quatro Ilhas


          De cima de um costão, na Praia de Quatro Ilhas, em Bombinhas, um homem observa o mar. Seu olhar se perde no horizonte e seu pensamento segue um caminho mais longe ainda. Na faixa de areia púrpura e rodeada por morros não há ninguém. O mar está calmo e o dia amanhece nublado e frio. O vento Sul sopra mais forte, o que faz ele puxar a gola do seu espesso casaco de linho preto. Aparenta ter mais de 40 anos, rugas no seu rosto queimado pelo sol confirmam isso. Por entre a touca do pescador, observam-se os primeiros fios de cabelos grisalhos. Estava na mesma posição há mais de oito horas. Quem o visse sentado nas pedras, poderia supor que fosse um homem solitário. Entretanto, naquele dia era apenas um pescador, um vigia da pesca da tainha. Pequenos barcos voltavam do mar, enquanto outros seguiam na direção contrária. Apesar de estar ali, seus pensamentos flutuavam além do horizonte. Talvez pensasse na família, na pesca que naquele ano estava fraca, no time de futebol, numa antiga namorada, nas contas para pagar, na comida que teria que colocar em casa ou tudo isso de uma só vez. Deixemos por enquanto – sozinho – com seus pensamentos.
            Perto dali, numa casinha de madeira de cinco cômodos, uma mulher prepara o café. Em cima da mesa simples, um pacote de pão, um pote de margarina e algumas bananas estão estrategicamente posicionados. A mulher caminha várias vezes até a janela da cozinha. De lá, ela ver toda a extensão da rua. Espera pelo homem que se encontra na praia vigiando o mar. De repente, o relógio de um dos quartos desperta e tira a mulher daquele curto devaneio. A preocupação dela tinha um motivo: a demora do marido. Para uma esposa de pescador isso era até normal, já que os perigos para quem desafia o mar são inúmeros. A inquietação se justificava, pois, durante os anos, ela já acompanhara diversas histórias de pescadores que morreram nessa profissão. O relógio ainda soava estridente, quando entrou no quarto. Duas crianças – dois meninos para ser preciso – dormiam tranquilamente sem se incomodar com o despertador. Com apenas um empurrão, a porta foi escancarada. A mesma mão que abriu passagem desligou o despertador para alívio dos meninos, mas a tempestade apenas começava a se formar. 


            – Acordem seus malandros. Já passa das sete horas. Vamos, tá na hora – trovejou a mulher.
            O máximo que conseguiu de reação foi um gemido de descontentamento. A circunstância pedia uma medida mais rígida e assim fez. A mesma mão que havia escancarado à porta e desligado o despertador, arrancou os cobertores das camas e aplicou alguns tapas nos garotos. Como fazia um dia muito frio, a tática dera certo. Os meninos ainda de pijamas tentaram se encolher do frio, mas não houve jeito. A mão da mulher foi mais rápida e em pouco tempo a dupla já se encontrava desperta.
            – Vamos, em pé! Rápido. Vocês vão se atrasar pra escola.
            – Tá bom, não precisar bater – reclamou um dos meninos.
            – Tenho que bater sim. Vocês dois só entendem as coisas na base dos tapas.
            – Eu não gosto da escola, prefiro ir pescar – respondeu o garoto chamado Pedro.
            – Não diga tolices. Se teu pai ouvir isso, não sei o que ele faria contigo.
            – O Pedrinho tá certo, na escola é muito chato – retrucou o irmão Augusto.
            – Vamos! Andem logo! O café vai esfriar!
            – O pai já chegou?
            – Ainda não.
            O “ainda não” tinha tanta agonia, que provocou até um comentário de Augusto, assim que a mãe saiu do quarto.
            – Pedro, a mãe tá preocupada com o pai. Será que aconteceu alguma coisa com ele?
            – Não sei, mas não ligue para isso! As mulheres se preocupam à toa mesmo.
            O homem que ainda permanecia na praia se chamava Norberto e a mulher que o aguardava Ofélia. Ele e a esposa também ascendiam dos portugueses da Ericeira. Norberto olhava com atenção para o mar, sempre à procura de alguma coisa diferente. Era o mês de maio de 2007, apesar disso nada de aparecer os primeiros cardumes de tainha. Até aquela data, nenhum lanço havia sido dado. Embora a pesca da tainha não fosse a principal fonte de renda das famílias de pescadores de Bombinhas, ela servia para manutenção das redes, canoas e como uma renda extra para quem estava empregado. Esse era o caso de Norberto. O morador de Bombinhas fazia parte dos cerca de 200 mil pescadores profissionais no Brasil, 50 mil somente em Santa Catarina. Na espera que o barco onde trabalhava ficasse pronto, Norberto fazia um serviço extra como vigia da pesca da tainha. Assim que o cardume aparecesse, ele, por meio de um telefone celular, faria o contato com o patrão e mais seis funcionários que permaneciam em um rancho, na outra ponta da praia de Quatro Ilhas. Depois de avisados, os homens colocariam as canoas na água e, em questão de minutos, fariam o cerco ao cardume. Às vezes eles traziam para a areia milhares de tainhas. No entanto, naquele ano nenhum peixinho havia aparecido para contar história.
            Josevaldo, o pescador que faria a vigília da tainha durante o dia, se aproximou de Norberto. Estava atrasado, já passava das oito horas. O combinado era que chegasse às sete. Sem dizer uma palavra, os dois homens se despediram.  Norberto se encontrava tão cansado que não tinha forças para discutir com o colega de trabalho. Saiu do costão e entrou por um caminho na mata. A mesma trilha que os primeiros ericeirenses abriram assim chegaram ao litoral Sul do Brasil servia agora de atalho. Caminhou na direção de casa que ficava a um quilômetro de distância. Ao parecer no portão, a mulher já o esperava. Com alívio, ela o beijou e os dois entraram abraçados.
            – O que aconteceu? – perguntou Ofélia bem próxima do marido.
            – Aquele dorminhoco do Josevaldo chegou atrasado de novo. Não perguntei nada para aquele sujeito à-toa.  Se eu fizesse, ele certamente contaria mais uma desculpa esfarrapada e para não meter a mão na cara dele resolvi não puxar conversa. O mar ajudou a colocar a cabeça do lugar. Onde estão os meninos?
            – Na escola. Você precisa conversar com os dois. Eles estão cada dia mais desobedientes – dizia Ofélia, ao mesmo tempo em que o enchia de carícias.
– Eu vou falar com eles. O que há com você? – perguntou o marido friamente.
– Nada, uma mulher não pode ser carinhosa com seu homem?  Vamos para o quarto, preciso falar mais uma coisa.
            Norberto se desvencilhou das garras apaixonadas de Ofélia e saiu da mesa, depois de tomar dois goles de café.
            – Hoje eu não posso, preciso ir para os Ganchos.
            Embora tivesse com muita vontade de ficar em casa, Norberto precisava aparecer na empresa de pesca, onde trabalhava. Ela ficava em Governador Celso Ramos, município vizinho a Bombinhas, conhecido também como Ganchos. Existem apenas duas maneiras para chegar até Governador Celso Ramos: uma por terra e outra por mar. Norberto escolheu a primeira. No ônibus de uma empresa de transporte coletivo de Balneário Camboriú, o pescador faria a viagem pelas rodovias BR-101 e SC-410. O trajeto, em média, levava meia hora para ser percorrido de ônibus. Ainda que a informação não conste nos livros de história, é certo que a região de Ganchos – pela proximidade geográfica – recebeu muitos colonos da Ericeira. A cidade tem na pesca e no turismo as duas principais fontes de renda. Norberto ficaria até o meio dia arrumando as redes e outros equipamentos do barco. Como naquele dia de outono ele estava atrasado, chegou em casa depois das 14 horas.
 
                                                             *    *    *
            No rancho de pesca da praia de Quatro Ilhas o movimento foi grande. A notícia de que em Florianópolis havia sido dado um lanço de dez mil tainhas deixou os pescadores em alerta. Josevaldo – o vigia de plantão – também foi avisado e a recomendação era para dobrar a atenção, no caso dele redobrar. Tudo indicava que ainda naquela quarta-feira, o primeiro cardume chegaria. A média da produção da tainha na costa Sul-Sudeste do Brasil chega a atingir 20 mil toneladas por ano. O pescado faz a desova na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, a partir do mês de abril. De lá a tainha se espalha pelo litoral brasileiro, uruguaio e argentino. Mas, é no litoral de Santa Catarina que ela é mais abundante. Grande parte do cardume nada em direção ao Norte, foge das águas mais frias da bacia do Prata. Como o litoral catarinense é rota de grande parte das tainhas, muitos peixes ficam aqui. O Estado é líder nacional na captura do pescado. Das redes lançadas ao mar, saem o correspondente a 70% da produção nacional. A pesca da tainha termina em julho e dá lugar à pesca da anchova. Enquanto julho não chegava, os pescadores do rancho da praia de Quatro Ilhas tinham o pensamento voltado apenas para a tainha.
            – Tão falando que o pessoal da Lagoa da Conceição pegou vinte mil tainhas – dizia um pescador.
            – Isso é uma besteira. Ainda tá muito cedo para aparecer tanto peixe assim – respondeu o patrão.
            – Acho que não – opinava outro.
            – Avisasse o Josevaldo? – perguntou o chefe preocupado.
            – Sim, eu precisei acordar o infeliz, estava cochilando.
            – Aquele malandro! Eu não o deixo fazer a vigia de noite porque sei que vai dormir no trabalho. O que faz a noite então? Será que o animal não dorme?
            – Parece que a mulher gorda dele não o deixa uma noite livre. Não é à toa que ele está com uma penca de filhos. 
            Todos começam a rir e a fazer comentários sobre a vida de alcova de Josevaldo. Depois, com clima mais sério, o patrão continuou a conversa.
            – É por causa dos filhos que não tenho coragem de colocá-lo na rua. O Landinho olhasse as redes, na última vez peguei uma cheia de...
            A conversa foi interrompida pelo anúncio de um radialista. No rancho, entre as montanhas de redes de pesca, caixas para colocar peixes e outros objetos, havia um aparelho de rádio sintonizado numa emissora de Florianópolis. O radialista trazia a notícia de uma pescaria da tainha na Ilha – Ilha de Santa Catarina, onde está localizada a capital catarinense.  Os seis homens que estavam no rancho se aproximaram do rádio, um deles fez questão de aumentar o volume do aparelho.
“Pescadores do Sul da ilha acabaram de pescar mais de 15 mil tainhas. O lanço, como é conhecido à pescaria, começou por volta das 6 horas desta quarta-feira, dia 23 de maio de 2007. Populares ajudam neste momento no arrastão do peixe. Segundo as primeiras informações, o lanço é um dos maiores dos últimos cinco anos, em Santa Catarina. Além de Florianópolis, cardumes de tainhas foram vistos em Tijucas e Governador Celso Ramos. Mais notícias sobre a pesca da tainha no jornal do meio-dia”.
            A tainha encontrava-se próxima e os pescadores esperavam o primeiro cardume para o fim da manhã. A pesca não trazia apenas um salário extra para suas famílias e sim um acontecimento fantástico na cidade. Mulheres, idosos e crianças saíam de casa e seguiam para a praia mais próxima, onde era realizado o lanço. As pessoas se aglomeravam para o arrastão. Mãos de todos os tipos e de todas as idades puxavam a rede. No final da pescaria cada um podia levar a sua tainha gorda e suculenta para a casa.
            – Manoel! Corra lá no costão e ajude aquele preguiçoso do Josevaldo a vigiar o mar. Se der tudo certo vamos ter tainha no almoço – ordenou o patrão.
            Manoel, um garoto franzino que mal saíra da puberdade, não teve tempo de colocar o casaco. Do jeito que se encontrava, com uma camiseta branca e calça de moletom, saiu correndo em direção ao costão direito da praia de Quatro Ilhas. Pela areia fofa e branca, o garoto desafiava o frio e o vento daquela manhã de outono.
                                                                  *    *    *
            Quando Norberto desceu do ônibus, em Bombinhas, faltavam dez minutos para as duas horas da tarde.  O bar estava aberto e lá foi a sua primeira parada. Ele não era de beber, mas mantinha o costume de tomar um copinho de aguardente para abrir o apetite e também colocar a conversa em dia com os colegas de pesca. Soube da pescaria da tainha em Florianópolis. Contrariando a previsão do seu chefe, o cardume ainda não havia aparecido até àquela hora. Ficou pouco tempo no bar e logo se colocou a caminho de casa. Almoçou e foi conversar com os filhos Pedro e Augusto. Encontrou os meninos no quarto assistindo televisão. Antes que Norberto fale com os filhos, contarei um pouco da vida dos garotos.
            Pedro era mais o velho e tinha 11 anos. Estudava numa escola municipal de Bombinhas. Cursava a quarta série do ensino fundamental, na mesma sala do irmão caçula Augusto, um ano mais novo. Estudavam de manhã e à tarde acompanhavam a pescaria na praia de Quatro Ilhas.  Os meninos tinham uma infância normal. Estudavam, brincavam, sonhavam, afinal eram crianças. No entanto, Pedro e Augusto seguiam o caminho do pai, mesmo que ele não desejasse para os filhos aquele destino. O pai, o avô e bisavô de Norberto sempre foram pescadores e ele não queria o mesmo futuro para os filhos. Se fosse estudar a genealogia dele, seu tataravô que veio da Ericeira já era pescador. A vida do homem do mar não é fácil. Pela lei trabalhista brasileira, o profissional da pesca tem que trabalhar igual ao homem da terra, ou seja, 35 anos. Como no setor pesqueiro existem os defesos – períodos em que a captura de uma determinada espécie é suspensa para proteger a reprodução – os pescadores profissionais se aposentam com mais de 40 anos de atividade. Além de ganhar pouco, muitos trabalhadores nem chegam a se aposentar. No máximo, recebem uma pensão por invalidez. Isso quando não perdem a vida no mar. Por lei, o pescador que trabalha embarcado tem o direito de receber um salário mínimo, caso o barco em que ele trabalhe não capture nada. As partes – como é chamada a divisão do pescado capturado – variam de acordo com a produção. Pescador profissional, Norberto trabalhava para uma empresa do ramo. Tinha mês que ele ganhava mil reais e períodos no qual sustentava a família com menos de R$ 400,00. O pescador não queria este futuro para os filhos e por isso resolveu conversar com eles naquele dia. 
            – Desliguem a televisão – ordenou ao entrar no quarto.
            Os garotos correram na direção de um homem magro, de cabelos grisalhos e com uma tatuagem de tubarão desenhada no braço direito.
            – Já estou pronto. O Augusto também.
            – Pra quê? – perguntou o pai espantado.
            – Ora, pra cercar a tainha. O pessoal da escola não falou outra coisa na manhã toda. O pai do Gustavo comprou uma rede e do Oscar um...
            – Não quero saber do pai do Gustavo – gritou Norberto.
            Cabisbaixos os meninos ouviram decepcionados o pai continuar o sermão.
            – Eu não vim convidar pra ir até a praia. A mãe de vocês disse que os dois estão muitos desobedientes e não querem ir pra escola.
            Os dois meninos sabiam que o pai não gostava que eles faltassem às aulas. Sentados à beira de uma das camas, os garotos permaneceram calados, pois não queriam repetir a opinião deles sobre a chatice da escola na presença do pai.
            – Então, perderam a língua? Pedro, você é mais velho, deveria dar o exemplo para o teu irmão? O que você faz? O incentiva a faltar às aulas! Eu já conversei com os dois mais de cem vezes sobre os estudos.
            – Mas pai, a escola é...
            – Não pedi a tua opinião Augusto. Vocês precisam estudar, querem ser igual ao seu pai? Ter que se matar de trabalhar para colocar dinheiro em casa. Não vêem como a mãe de vocês fica preocupada quando eu vou pro mar? Querem que ela fique preocupada com os filhos também?
            – Hoje fomos pra escola.
            – Eu sei que vocês foram, mas quero que não faltem e estudem bastante. Eu não posso ajudar na lição de casa, não sou inteligente, mas quando precisar peçam ajuda dos professores.
            – Eu sempre peço ajuda, a professora Margarete...
            – Espere, eu não terminei Augusto. Quero que prometam uma coisa. Não importa o que aconteça comigo, os dois vão continuar os estudos até o final.
            – O que vai acontecer contigo pai? – perguntou Pedro arregalando os grandes olhos castanhos claros.
            – Nada, mas o mar é traiçoeiro e pode acontecer de tudo.
            – O mesmo que aconteceu com o tio do Rafael?  – perguntou Augusto.
            Em junho faria dois anos que um barco de uma empresa pesqueira de Itajaí naufragou no litoral do Rio Grande do Sul. O tio do colega de escola dos garotos  chamado Fernando e mais um tripulante da região de Ganchos morreram. Embora a Marinha tenha realizado as buscas de praxe, o corpo de Fernando jamais fora encontrado.
            – O mesmo que aconteceu com o Fernando. Vocês se lembram que a mãe dele pedia para não embarcar? Eu quero que vocês prometam que vão estudar bastante pra ser alguém na vida e dar mais conforto à mãe de vocês.
            – Prometemos – disseram os garotos ao mesmo tempo.
            – Então tá combinado. Abracem bem forte no seu velho pai.
            A mãe entrou no quarto para dar um recado e encontrou o marido já preparado para sair.
            – O Manoel tá aí na frente, quer falar contigo.
            – Certamente é para me avisar sobre a vigia de hoje.
            Ainda com camiseta e calça moletom, o franzino Manoel deu a notícia tão esperada para os moradores de Bombinhas. O primeiro cardume fora avistado e o pessoal se preparava para fazer o cerco.
            – Pedro! Augusto! – gritou Norberto.
            – O que foi? – perguntou Pedro.
            – Vocês não disseram que estão prontos, vamos?
            – Eu também vou – disse Ofélia, tirando o avental e jogando-o bem longe.
            Pela rua de terra batida a família de Norberto não foi à única que caminhou em direção a Quatro Ilhas. Com 800 metros de extensão, a praia possui o mar mais calmo no costão esquerdo e mais agitado no direito. É nesse último costão que se faz a vigia da tainha. Próximo a areia da praia há o monumento Cruz de Quatro Ilhas, onde todos os anos, no dia 3 de maio, flores são ofertadas para agradecer a pesca. Naquele dia ninguém foi à praia para agradecer, mas sim para garantir o peixe do jantar. A faixa de areia estava lotada, muitos se espremiam para ver o cerco, que era feito por três canoas. Uma mancha avermelhada no mar era vista na areia. As tainhas saltavam fora da água como se quisessem agradecer pela recepção dos moradores de Bombinhas. Elas bailavam no ar e algumas pulavam nas canoas. Com as redes cheias de peixes, foi à vez de quem se encontrava na praia ajudar. Sem se importar com a água gelada e o vento Sul, as pessoas entravam no mar. Puxavam, puxavam e nas redes apareciam mais e mais tainhas. Enquanto faziam esse serviço, elas tagarelavam.
            – E o Zé disse que hoje não chegaria nenhuma tainha – dizia um morador de Bombinhas.
            – Talvez ele pense que isso seja galinha – respondia uma senhora idosa com uma sonora gargalhada.
            – Tomara que tenha mais de cinco mil. Eu apostei com pessoal do bar que hoje o lanço seria mais de cinco mil – falava um rapaz ruivo com boné alaranjado.
            – E o que você apostou? - perguntou um turista.
            – Uma caixa de cerveja – respondeu o jovem olhando o forasteiro com o canto do olho.
            A conversa seguiu até o fim da tarde. As pessoas estavam felizes. À noite, cada um que ajudou na pesca e até mesmo quem foi até a praia somente para olhar, levou sua tainha para a casa. O rapaz além de ter acertado na aposta não acreditou assim que totalizaram a contagem dos peixes. Haviam sido pescadas 16.500 tainhas, número superior ao que foi capturado durante a manhã, em Florianópolis: 15.415.
                                                               *    *    *
            Uma onda com quase um metro de altura bateu no costão direito da praia de Quatro Ilhas.
            – Então, onde estamos é um ponto de vigia da tainha? – perguntei já me protegendo de uma segunda onda ainda maior.
            – Sim, foi nesse mesmo ponto, onde você está sentado, que ficou Norberto, Josevaldo e o garoto Manoel, durante a vigia da pesca da tainha. Este ano, Norberto não vai ser vigia.
            – Por quê?
            – Ele foi trabalhar em Santos.
            – O que aconteceu com os garotos?
            – Passaram de ano e para orgulho do pai disseram que pretendem ser engenheiros navais.
            – Você disse que essa praia se chama Quatro Ilhas. Até agora ainda não descobri nada que explicasse o tal nome. Bombinhas não é uma ilha e daqui só consegui ver uma ilha apenas. Existem outras?
            – Os mais antigos ainda a conhecem por praia de Fora. O nome atual é por causa de quatro ilhas que podem ser observadas daqui em dias claros: Arvoredo, Deserta, Calhau de São Pedro e Galés. É nessa última ilha que a nossa história continua, precisamente no dia 11 de outubro de 1980.

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